Mercado alimentar ibérico cresce para 139 mil milhões. Veja o que o retalho já faz com IA e o que a banca portuguesa pode copiar para ganhar eficiência e margens.

Mercado ibérico alimentar em alta — mas com margens apertadas
O mercado ibérico da distribuição alimentar atingiu cerca de 139 mil milhões de euros em 2024, com um crescimento de 3,7% face a 2023. Espanha representa 84% deste valor, Portugal cerca de 16%, num setor onde os supermercados e lojas de proximidade já valem 81% das receitas.
Isto parece excelente, mas há um detalhe que preocupa qualquer gestor: o volume cresce, a margem encolhe. Consumidores altamente sensíveis ao preço, concorrência feroz, formatos discount em expansão e uma pressão constante para melhorar serviço e conveniência. Quem não automatizar e decidir melhor… perde tração.
É aqui que a inteligência artificial entra, e não só para o retalho. O que está a acontecer na distribuição alimentar ibérica é um espelho perfeito dos desafios que os bancos portugueses enfrentam no dia a dia: pressão nas margens, cliente infiel, procura de conveniência e rapidez, e necessidade de decisões com base em dados em tempo real.
Neste artigo da série “IA no Setor Bancário Português: Inovação Financeira”, uso o caso da distribuição alimentar ibérica para mostrar:
- Como a IA está a responder aos desafios de um mercado grande, mas extremamente competitivo
- O que o setor bancário português pode aprender com o retalho alimentar
- Aplicações concretas de IA para logística, risco, pricing e experiência de cliente, tanto em retalho como em banca
1. O retrato do mercado ibérico alimentar e o paralelo com a banca
O estudo mais recente sobre distribuição alimentar ibérica mostra um setor resiliente, mas sob pressão:
- 139 mil milhões de euros em 2024 (+3,7%)
- Supermercados e autosserviço: 112,6 mil milhões (+4,4%)
- Discount em Espanha: +6,5%, a puxar o crescimento
- Hipermercados: quase estagnados (+0,2%), com 19,4 mil milhões
- Cash & carry: 6,99 mil milhões (+3,2%), impulsionado pela restauração
Os consumidores estão a privilegiar:
- Proximidade (lojas perto de casa ou trabalho)
- Compras mais frequentes e de menor volume
- Preços competitivos e MDD (marca própria)
Na banca portuguesa, o padrão é parecidíssimo:
- Clientes a fugir de comissões e spreads altos
- Uso crescente de banca digital para operações do dia a dia
- Menos paciência para burocracia, mais apetência por soluções rápidas e personalizadas
- Pressão regulatória e concorrência de fintechs a encolher margens
O que o retalho alimentar está a viver hoje em Espanha e Portugal é muito semelhante ao que a banca vive com o digital: o cliente quer preço, conveniência e experiência fluida, em simultâneo.
A diferença é que o retalho alimentar ibérico já está a usar IA de forma muito agressiva na cadeia de valor logística. A banca portuguesa, com algumas exceções, ainda está a meio caminho.
2. IA na logística alimentar: o que já está a funcionar
O estudo indica tendências claras para os próximos anos na distribuição alimentar:
- Expansão de frescos e refeições preparadas
- Melhoria contínua de entrega ao domicílio e click & collect
- Parcerias com empresas de entrega rápida
- Otimização de processos logísticos para ganhar eficiência
Nada disto é viável à escala ibérica, com milhares de lojas, sem IA por trás. O que muitos retalhistas já fazem hoje:
Previsão de procura com modelos de IA
Supermercados usam modelos de machine learning que:
- Analisam histórico de vendas, sazonalidade, promoções, feriados, meteo, eventos locais
- Preveem procura por loja, por dia, por SKU
- Ajustam automaticamente encomendas aos fornecedores e reposição de armazém e loja
Resultado:
- Menos ruturas de stock (especialmente em frescos)
- Menos desperdício alimentar
- Menos capital empatado em inventário inútil
Otimização de rotas e last mile com IA
Com IA aplicada à logística:
- Rotas de distribuição para lojas e clientes finais são otimizadas em tempo real
- Algoritmos de otimização consideram trânsito, janelas horárias, capacidade de veículos, custos de combustível
- Atribuição automática do pedido ao melhor operador logístico ou parceiro de entrega rápida
Personalização de preços e promoções
No retalho, pricing dinâmico está a crescer:
- IA identifica sensibilidade ao preço por categoria, região e perfil de cliente
- Define promoções mais inteligentes: menos descontos “cegos”, mais campanhas dirigidas
- MDD ganha espaço porque a IA mostra onde o consumidor está disponível para trocar marca por preço
Tudo isto está a acontecer num setor em que 1 ponto percentual de margem pode fazer a diferença entre lucro e prejuízo.
3. O que os bancos portugueses podem copiar do retalho alimentar
Aqui está a parte interessante para quem está na banca em Portugal: quase todas as ferramentas que funcionam bem na logística alimentar têm um paralelo direto no mundo financeiro.
a) Previsão de “procura” na banca: risco e liquidez
Se o retalho prevê quantos iogurtes vai vender, um banco pode prever:
- Probabilidade de incumprimento de crédito por cliente em 3, 6 ou 12 meses
- Fluxos de depósitos e levantamentos por canal e região
- Necessidade de liquidez em determinados períodos
Modelos de scoring de crédito de nova geração, baseados em IA, já ultrapassam o modelo tradicional de score estático. Conseguem:
- Atualizar o risco de um cliente quase em tempo real
- Considerar muito mais variáveis (padrões de transação, comportamento digital, sinais precoces de stress financeiro)
- Ajudar o banco a ajustar limites, pricing e ofertas antes do problema explodir
b) Otimização de “rotas”: rede física e canais digitais
Assim como um retalhista otimiza rotas de camiões, um banco pode usar IA para otimizar a rota do cliente:
- Decidir onde faz sentido manter ou fechar balcões, com base em dados de utilização, perfil demográfico e potenciais receitas
- Ajustar horários, número de colaboradores, ATM e postos de atendimento por zona
- Orquestrar transições entre canais: começar no mobile, continuar num assistente virtual e terminar, se necessário, com gestor humano
Na prática, é reduzir custo operacional sem destruir experiência de cliente.
c) Pricing inteligente: comissões, spreads e cross-selling
O retalho alimentar está a usar IA para:
- Escolher preços ótimos por segmento e região
- Decidir se faz sentido promover MDD ou marca de fabricante em cada categoria
Na banca, a mesma lógica aplica-se a:
- Spreads de crédito à habitação ajustados ao risco real, e não só ao perfil genérico
- Comissões mais justas e transparentes, alinhadas com o uso de serviços
- Bundles personalizados (conta + cartão + seguro) com probabilidade real de adesão
Quando um banco combina modelos de IA com regras de compliance, consegue:
- Evitar discriminação ou “redlining”
- Melhorar margens com base em dados, e não apenas em “tabelas padrão”
4. IA, fraude e compliance: lições da cadeia de valor alimentar
O estudo sobre o mercado ibérico sublinha o aumento de parcerias para entregas rápidas e a necessidade de otimizar processos logísticos. Quanto mais parceiros, mais complexa fica a rede.
No retalho alimentar, isso levanta riscos de:
- Fraude em devoluções e cupões
- Esquemas de faturação falsa entre fornecedores e operadores
- Desvios de mercadoria na cadeia logística
A resposta tem sido clara: sistemas de IA que monitorizam fluxos e comportamentos em tempo real.
Na banca, o paralelismo é direto e ainda mais crítico.
Deteção de fraude em tempo real
O mesmo tipo de algoritmo que identifica uma anomalia num armazém pode:
- Reconhecer padrões suspeitos de transações (origem, destino, frequência, montantes)
- Bloquear ou sinalizar operações de phishing, SIM swap, roubo de identidade
- Atuar sobre contas que, subitamente, mudam de comportamento
Modelos de IA treinados com históricos de fraude conseguem taxas de deteção muito superiores às regras manuais, reduzindo o número de falsos positivos que irritam clientes.
Compliance e prevenção de branqueamento de capitais
O compliance bancário sofre do mesmo problema que o retalho sofre com auditorias de fornecedores: dados dispersos, volume gigante, regras complexas.
Aplicando IA:
- Monitorização contínua de transações com modelos de risco dinâmicos
- Priorização de alertas com mais probabilidade de violar normas
- Geração de relatórios automáticos para auditorias internas e externas
Os bancos portugueses que já cruzam IA com equipas de compliance conseguem reduzir custos operacionais e, ao mesmo tempo, responder mais rápido ao regulador.
5. Experiência de cliente: o cliente do supermercado é o mesmo do banco
O crescimento de compras de reposição, próximas da residência ou do emprego, é um sinal de que o consumidor ibérico quer rapidez, controlo e previsibilidade. A mesma pessoa que encomenda online no supermercado às 22h espera:
- Abrir conta online sem papelada
- Falar com um assistente virtual eficaz, 24/7
- Ter propostas de crédito contextualizadas com a sua vida real
No retalho alimentar, a IA já está visível para o cliente em coisas como:
- Recomendações personalizadas de produtos
- Sugestões baseadas no carrinho anterior
- Alertas de reposição ("costuma comprar leite de 7 em 7 dias… está a faltar")
Na banca portuguesa, as oportunidades mais óbvias são:
Assistentes virtuais e aconselhamento automatizado
- Chatbots com IA capazes de responder a perguntas complexas sobre produtos
- Guias passo-a-passo para simulação de crédito, renegociação ou investimentos
- Aconselhamento básico de educação financeira personalizada (sem substituir o gestor, mas preparando o cliente)
Personalização real da relação bancária
A partir dos dados transacionais (com todos os cuidados de privacidade):
- Alertas inteligentes de risco de descoberto ou acumulação de dívidas
- Sugestões de poupança automática com base em padrões de despesa
- Ofertas de crédito, seguros ou investimentos alinhadas com eventos de vida (nascimento de um filho, mudança de casa, etc.)
Quando a IA é bem usada, o banco deixa de ser apenas o lugar onde está o dinheiro e passa a ser uma espécie de “gestor de vida financeira”. Tal como o supermercado passa a ser a infraestrutura que garante que a casa nunca fica sem o essencial.
6. Próximos passos: onde investir em IA em 2026
O estudo sobre o mercado ibérico da distribuição alimentar aponta para crescimento moderado nos próximos anos, com margens pressionadas. Na banca portuguesa o cenário é o mesmo: crescer muito sem IA vai ser quase impossível.
Se estivesse a priorizar investimentos para 2026, tanto num grande retalhista alimentar como num banco português, começaria por aqui:
- Modelos de previsão (procura no retalho, risco e liquidez na banca)
- Otimização operacional (logística e rotas no retalho, rede e canais na banca)
- Deteção de fraude e compliance com IA
- Plataformas de personalização de ofertas e comunicação
E faria uma coisa que quase ninguém faz bem: ligar estas iniciativas à estratégia de negócio, com métricas claras de margem, NPS, custo de risco e custo operacional.
A realidade é simples: o cliente ibérico — seja no supermercado ou no banco — já está a viver num mundo em que espera decisões rápidas, preços justos e uma experiência fluida. A IA não é um luxo tecnológico. É o motor silencioso que vai separar quem cresce com saúde de quem apenas sobrevive.
Se trabalha numa instituição financeira em Portugal e quer aprender com o que o retalho alimentar ibérico já está a fazer, este é o momento certo para agir. Quem souber traduzir IA + dados + proximidade em decisões diárias vai liderar o próximo ciclo — na banca, no retalho e em toda a cadeia de valor.