Bancos portugueses não precisam de copiar o Harvey AI. Precisam de IA jurídica segura, auditável e integrada com compliance, risco e contencioso.
IA jurídica para bancos: alternativas ao modelo Harvey
A maior parte dos bancos em Portugal já usa alguma forma de IA para scoring de crédito ou deteção de fraude. Mas quando entramos em IA aplicada a jurídico, compliance e contencioso bancário, o cenário muda: muitas equipas ainda trabalham com pesquisas manuais, pastas partilhadas e e-mails intermináveis.
Aqui está o ponto: enquanto o mundo jurídico fala de Harvey AI e de ferramentas pensadas para grandes sociedades internacionais, os departamentos jurídicos e de compliance dos bancos portugueses precisam de algo diferente. Precisam de IA que compreenda o contexto regulatório, que seja auditável, que se integre com os sistemas internos e que respeite, à risca, o RGPD e as normas do Banco de Portugal e da CMVM.
Neste artigo, pego nas ideias centrais em torno do Harvey AI e das alternativas apresentadas no mercado internacional e adapto-as à realidade dos bancos em Portugal. O foco não é a tecnologia pela tecnologia, mas sim como escolher e implementar IA jurídica que realmente funcione num banco.
1. Porque é que o modelo Harvey AI não chega para um banco português
O essencial sobre Harvey AI é simples: é uma ferramenta de IA generativa focada em grandes firmas, com forte integração corporativa e capacidade de escala. Para um banco, isso é apenas metade da equação.
Para departamentos jurídicos e de compliance em instituições financeiras, o problema não é só “ter IA”, é garantir:
- Total rastreabilidade das respostas (quem pediu o quê, quando, com base em que fontes)
- Conformidade com requisitos internos de risco operacional e de modelo
- Integração com sistemas de gestão de processos, KYC, AML e arquivo eletrónico
- Controlo rigoroso sobre onde os dados são armazenados e como são tratados
Ferramentas como Harvey AI foram desenhadas sobretudo para grandes sociedades de advogados com forte apoio de IT interno. Nos bancos portugueses, a realidade é mais regulada e, muitas vezes, mais restritiva.
Três limitações típicas deste modelo, vistas da perspetiva de um banco:
- Foco excessivo na produção de texto (petições, contratos, pareceres) e pouco na gestão integrada de risco, prazos e evidências para auditoria.
- Transparência limitada sobre o treino do modelo, algo sensível quando falamos de processos de supervisão e inspeções.
- Custos e complexidade de implementação difíceis de justificar se a IA não falar diretamente com os sistemas core do banco.
Para um banco em Portugal, a pergunta não é “como é que copiamos o Harvey AI?”, mas sim: “Que tipo de IA jurídica faz sentido num contexto regulado, auditável e pressionado por margens?”
2. O que um banco deve exigir a uma IA jurídica
Uma IA jurídica para o setor bancário português precisa de cumprir critérios bem mais exigentes do que um simples chatbot genérico. Aqui, não basta “responder bem”: tem de ser defensável perante o regulador.
2.1. Transparência e fontes verificáveis
A IA tem de devolver respostas com citações claras: artigos de lei, regulamentos, avisos do Banco de Portugal, orientações da EBA, acórdãos relevantes. Não serve uma resposta “plausível” sem prova.
Se a IA não mostra de onde vem a informação, não é uma ferramenta, é um risco.
Ferramentas de pesquisa jurídica avançada, como o conceito ilustrado pelo Vincent AI, assentam num princípio importante para os bancos: cada resposta é acompanhada pelas fontes exatas e atualizadas. É este tipo de lógica que deve orientar a escolha.
2.2. Dados de treino e atualização regulatória
No setor bancário, a legislação muda rápido: CRR, CRD, guidelines da EBA, ESMA, alterações ao RGPD, regimes de branqueamento de capitais. Por isso, a IA tem de:
- Ser treinada em fontes jurídicas e regulatórias credíveis e atualizadas
- Ter mecanismos diários de atualização (novas circulares, avisos, regulamentos)
- Minimizar o risco de “alucinações” ao trabalhar só com “good law” (normas em vigor)
2.3. Integração com workflows e sistemas internos
A IA só ganha escala se estiver colada ao dia a dia do departamento jurídico e de compliance:
- Ligada ao sistema de gestão de processos e contencioso
- Integrada com o repositório de contratos e documentos
- Capaz de trabalhar em conjunto com ferramentas de e-mail, Word, CRM interno
Este é o grande mérito do conceito de plataformas como Clio Work: não é só IA, é IA inserida num ecossistema de gestão de casos. Num banco, o equivalente seria a IA ligada ao caso, ao cliente, ao dossiê regulatório.
2.4. Segurança, RGPD e governação de modelos
Para qualquer instituição financeira, a política de dados é não negociável:
- Certificações de segurança (equivalentes a SOC 2, ISO 27001)
- Garantia de que dados do banco não alimentam modelos externos
- Controlo sobre logs, acessos e versões de respostas
- Política clara de retenção de dados e anonimização
Sem isto, qualquer projeto de IA será bloqueado pelo risco, pelo jurídico ou pelo compliance – e com razão.
3. Do “Harvey” à prática bancária: três blocos de IA que fazem sentido
A melhor forma de pensar IA jurídica num banco não é escolher “a ferramenta da moda”, mas estruturar três blocos de uso que se reforçam entre si.
3.1. Pesquisa jurídica e regulatória inteligente
Este é o terreno onde ferramentas do tipo Vincent AI mostram o caminho: uma IA treinada em enorme volume de casos, normas e fontes secundárias, capaz de responder com:
- Pareceres preliminares citados
- Comparação de regimes jurídicos (por exemplo, entre Portugal e outro Estado-Membro)
- Análise rápida de impacto regulatório
Aplicado a um banco, isto traduz-se em:
- Apoiar equipas em projetos regulatórios complexos (Basileia III, ESG, DORA)
- Acelerar respostas a pedidos de informação do supervisor
- Padronizar a qualidade da análise jurídica entre equipas centrais e locais
Bancos que adotam este tipo de IA conseguem reduzir de forma realista 30–40% do tempo gasto em pesquisa e primeira versão de análises, mantendo qualidade e ganhando consistência.
3.2. Gestão integrada de casos, contencioso e compliance
O segundo bloco é a aproximação ao conceito de "Clio Work": um ambiente onde os dossiês, prazos, documentos e interações vivem no mesmo sítio, e a IA não é um extra, é uma camada por cima de tudo.
Num banco, isto pode significar:
- Sistemas de gestão de contencioso com IA que entende cada processo (tipo de ação, valor, risco probatório)
- IA que sugere estratégias com base em casos anteriores e estatísticas internas
- Automatização de tarefas como:
- extração de prazos de decisões judiciais
- geração de cronologias de facto
- identificação de documentos críticos num volume grande de prova
O resultado não é só produtividade; é governação: saber o que foi feito, por quem, com que base, e conseguir mostrar isso ao regulador ou ao auditor interno.
3.3. Produtividade diária no departamento jurídico
Por fim, há um campo onde muitos bancos podem começar rapidamente: IA para produtividade, ao estilo do que o artigo de origem descreve como Manage AI.
Aplicando ao contexto bancário:
- Extração automática de prazos contratuais e covenants de contratos de crédito
- Criação de minutas padrão para respostas a clientes, contraordenações ou reclamações
- Resumos automáticos de atas de comités, pareceres extensos ou relatórios de auditoria
- Organização de e-mails e anexos na pasta certa, associados ao processo certo
É este tipo de IA que “liberta” o departamento jurídico das tarefas administrativas e permite focar no que tem impacto: estruturar argumentos, definir posições de risco, negociar com o regulador.
4. Como escolher IA jurídica para um banco português
A escolha da tecnologia não deve começar com a pergunta “que fornecedor escolhemos?”, mas com um guia de decisão claro, alinhado com risco, jurídico, IT e compliance.
4.1. Perguntas práticas a fazer a qualquer fornecedor
- De onde vêm as fontes jurídicas e regulatórias? São claramente identificadas? Há atualização diária?
- Como são registadas as interações? É possível auditar quem perguntou o quê e que resposta foi dada?
- Onde estão alojados os dados? Há separação entre os dados do banco e o modelo base? Há zero data retention por terceiros?
- Que integrações existem com sistemas bancários? Gestão documental, e-mail, case management, CRM interno.
- Que garantias existem de que os dados do banco não treinam modelos externos? Está contratualizado? Como é verificado?
4.2. Um roteiro realista de implementação
Para um banco em Portugal, uma abordagem prática pode seguir três fases:
- Piloto controlado num use case de baixo risco (por exemplo, pesquisa interna de normas públicas, sem dados de clientes), com forte monitorização.
- Expansão gradual para casos com dados sensíveis mas alta mais-valia (contencioso de massa, contratos de crédito, processos de contraordenação), sempre com revisão humana obrigatória.
- Integração profunda com sistemas core e redefinição de processos internos, quando a maturidade e a confiança nos modelos forem suficientemente altas.
A lição dos projetos internacionais é clara: quem tenta fazer tudo de uma vez, normalmente falha. Quem começa pequeno, com métricas bem definidas (tempo médio por tarefa, número de erros, velocidade de resposta a regulador), consegue ganhar tração.
5. IA jurídica como peça da inovação financeira em Portugal
Na nossa série sobre IA no setor bancário português e inovação financeira, este tema é central: não há inovação séria no banco sem inovação no jurídico e no compliance.
Enquanto scoring de crédito, deteção de fraude ou chatbots de apoio ao cliente ganham visibilidade, a transformação silenciosa acontece nos bastidores: equipas jurídicas a trabalhar com IA que:
- Reduz semanas de pesquisa para horas
- Dá previsibilidade ao risco jurídico e regulatório
- Cria histórico organizado e auditável para inspeções futuras
O futuro dos bancos portugueses não passa por copiar Harvey AI ou qualquer outra ferramenta de moda, mas por desenhar uma arquitetura de IA jurídica adequada à realidade regulatória nacional e europeia.
Quem começar agora, em 2025, com pilotos bem pensados e critérios claros de escolha de ferramentas, chega a 2027 com um departamento jurídico que:
- Trabalha mais depressa
- Erra menos
- Está melhor preparado para supervisão intensiva
E isso, em banca, traduz-se diretamente em menos provisões, menos multas e mais capacidade para inovar no lado comercial.
Próximo passo
Se está a liderar jurídico, compliance ou risco num banco, o próximo passo não é comprar tecnologia às cegas. É mapear três casos de uso concretos, definir critérios de segurança e transparência, e só depois avaliar que tipo de IA – de pesquisa, de gestão de casos ou de produtividade – faz mais sentido para a sua realidade.
A verdade é simples: a IA jurídica não substitui advogados. Transforma o tempo que têm disponível. E, num banco sob pressão regulatória e de margens, esse tempo é provavelmente o ativo mais escasso que existe.