REDWine em Palmela mostra como resíduos vinícolas, IA e economia circular podem criar novas receitas, reduzir emissões e dar vantagem competitiva às adegas.
REDWine, IA e o futuro dos resíduos vinícolas em Portugal
32,9 milhões de litros de vinho certificados na Península de Setúbal só no 3.º trimestre de 2025. Por trás destes números há um problema silencioso: toneladas de CO₂ e efluentes de fermentação que tradicionalmente eram vistos como “lixo” das adegas.
O projeto europeu REDWine, com o novo “laboratório vivo” instalado na Adega Cooperativa de Palmela, mostra que estes resíduos podem transformar‑se em biomassa de microalgas para alimentação, cosmética, agricultura e até enologia. E, quando juntamos economia circular com Inteligência Artificial (IA), abrimos uma frente totalmente nova para a indústria vinícola portuguesa.
Neste artigo da série “IA na Indústria Vinícola Portuguesa”, uso o caso REDWine como fio condutor para explicar:
- Como este “laboratório vivo” funciona e o que muda na adega
- Que papel a IA já pode ter neste tipo de biorrefinarias e no dia a dia das adegas
- O impacto económico real para produtores de média dimensão
- Como preparar a exploração vitivinícola para integrar IA e projetos semelhantes
O que é, na prática, o “laboratório vivo” REDWine em Palmela?
O “laboratório vivo” do REDWine é uma unidade piloto de biorrefinaria instalada em contexto real de adega, na Adega Cooperativa de Palmela. Não é um projeto teórico de universidade: está ligado à produção de vinho do dia a dia.
Em termos simples, o sistema faz três coisas centrais:
- Capta o CO₂ da fermentação
- Aproveita efluentes líquidos da adega
- Transforma tudo em biomassa de microalgas com valor comercial
A equipa do Politécnico de Setúbal (ESTBarreiro/IPS), liderada por Carla Amarelo Santos, foi decisiva na conceção e implementação desta unidade de demonstração. O objetivo é claro:
Reduzir em pelo menos 31% as emissões de gases com efeito de estufa associadas à produção vinícola, gerando, ao mesmo tempo, produtos com valor de mercado.
Porque é que isto interessa a um produtor de vinho?
Porque deixa de ter apenas vinho como saída comercial. Passa a poder gerar, a partir do que antes era resíduo:
- Ingredientes para alimentação humana (suplementos, corantes naturais, antioxidantes)
- Compostos para cosmética (pigmentos, princípios ativos)
- Bioestimulantes agrícolas baseados em microalgas
- Produtos enológicos (por exemplo, auxiliares de clarificação)
Ou seja, a adega passa de unidade de transformação de uva em vinho para plataforma bioindustrial integrada numa lógica de economia circular.
Onde entra a Inteligência Artificial neste modelo?
A unidade REDWine, tal como foi apresentada, já é inovadora do ponto de vista biotecnológico. Mas o verdadeiro salto de competitividade vem quando se acrescenta IA para monitorizar, prever e otimizar.
1. IA para controlar a fermentação e o CO₂ em tempo real
O primeiro ponto crítico é a fase de fermentação, onde o CO₂ é libertado. Com sensores e IA é possível:
- Monitorizar em tempo real a libertação de CO₂ por cuba
- Ajustar parâmetros (temperatura, arejamento, velocidade de bombagem) para otimizar a fermentação e, ao mesmo tempo, garantir um fluxo estável de CO₂ para as microalgas
- Detetar padrões anómalos que indiciem fermentações desviadas ou riscos de paragem
Um modelo de aprendizagem automática pode ser treinado com dados históricos da adega (densidade, temperatura, pH, taxa de CO₂, tipo de casta, data de vindima) para:
- Prever a duração ideal da fermentação
- Sugerir ajustes finos para maximizar tanto a qualidade do vinho como a produção de CO₂ útil para o fotobiorreator
2. IA para otimizar o cultivo de microalgas
O cultivo de microalgas é extremamente sensível a:
- Intensidade luminosa
- Temperatura
- Concentração de nutrientes
- Caudal de CO₂
Aqui, a IA funciona quase como um “maestro” de estufa:
- Ajusta a iluminação e o caudal de CO₂ de forma dinâmica
- Aprende quais são as combinações de parâmetros que geram maior produtividade e melhor composição da biomassa (por exemplo, mais proteínas, mais pigmentos, mais lípidos)
- Reduz desperdícios de energia e nutrientes
Na prática, um sistema de controlo preditivo baseado em IA pode aumentar em dois dígitos a produtividade por litro de fotobiorreator, o que é decisivo para a viabilidade económica em adegas de média dimensão.
3. IA para previsão de colheitas e planeamento de resíduos
Ligando esta unidade a modelos de previsão de colheitas por IA (tema que temos abordado na série), o produtor pode saber com antecedência:
- Quantas toneladas de uva vai ter em cada parcela
- Que perfil provável de açúcar, acidez e fenol será trabalhado
- Que volumes de CO₂ e efluentes de fermentação serão gerados por campanha
Com essa informação, ajusta‑se:
- A capacidade do sistema de microalgas
- A compra de nutrientes adicionais
- A equipa necessária
Resultado: menos surpresas, menos paragens e melhor uso do investimento feito na biorrefinaria.
4. IA na rastreabilidade e certificação de sustentabilidade
Consumidores e distribuidores estão a exigir provas reais de sustentabilidade. Um sistema de IA, integrado com sensores e registos da adega, pode:
- Calcular a pegada de carbono por garrafa
- Documentar automaticamente a redução de emissões graças ao REDWine
- Gerar dossiês técnicos para certificações ambientais e para comunicação com retalho e exportação
É aqui que a IA deixa de ser um “extra tecnológico” e passa a ser ferramenta comercial. Quem conseguir provar, com dados, que reduziu 30% ou mais das emissões associadas ao vinho, ganha vantagem clara no mercado europeu.
Impacto económico real: muito além da sustentabilidade “de imagem”
O REDWine é financiado pelo Horizon 2020 com um investimento global de 7,5 milhões de euros e um consórcio de 12 parceiros internacionais. À primeira vista, pode parecer um projeto distante da realidade de uma pequena ou média exploração vitivinícola. Não é.
Como isto se traduz em euros para a adega
A médio prazo, um modelo deste tipo pode gerar:
- Nova linha de receita com a venda de biomassa de microalgas ou extratos para terceiros (alimentar, cosmético, agrícola)
- Produtos próprios de valor acrescentado, como bioestimulantes com a marca da casa ou auxiliares enológicos “circulares”
- Redução de custos em tratamento de efluentes e cumprimento de normas ambientais
- Acesso facilitado a apoios públicos e financiamento verde, por demonstrar ganhos ambientais quantificáveis
A própria nota do projeto indica o potencial de dezenas de novos postos de trabalho em unidades vinícolas de média dimensão. Isso significa uma nova fileira agroindustrial a nascer dentro das regiões vitivinícolas.
Porque é que a Península de Setúbal é um bom teste
A região já mostrou a sua força:
- 32,9 milhões de litros de vinho com denominação de origem ou indicação geográfica certificados num só trimestre
- Novas medidas de apoio ao investimento em adegas, com 980 mil euros aprovados apenas para esta região
Ou seja, há massa crítica de vinho, investimento e conhecimento técnico. Se o modelo for bem‑sucedido em Palmela, há condições para replicá‑lo noutras regiões, com adaptações locais.
Como um produtor pode preparar‑se para integrar IA e biorrefinarias
Não é preciso instalar amanhã um fotobiorreator de microalgas para entrar nesta lógica. Mas quem quiser estar na linha da frente em 3 a 5 anos tem de começar a preparar a casa agora.
1. Organizar dados – a base de qualquer IA agrícola
Sem dados, não há IA útil. Alguns passos práticos:
- Registar de forma consistente: datas de vindima, produção por parcela, parâmetros de mostos e vinhos (pH, acidez, açúcares, temperatura de fermentação)
- Digitalizar os registos que ainda estão em papel
- Começar a usar sensores básicos de monitorização em cubas e na vinha
Quanto mais limpa e estruturada for a informação, mais fácil será, depois, treinar modelos de IA para previsão de colheitas, detecção de doenças ou otimização de fermentações.
2. Mapear fluxos de resíduos na adega
Antes de sonhar com microalgas, é útil saber onde e quanto resíduo é gerado:
- Quantidade de CO₂ por tipo de fermentação e por casta
- Volume de efluentes e sua sazonalidade
- Subprodutos sólidos (borras, películas, grainhas)
Este mapeamento permite avaliar se uma biorrefinaria faz sentido em escala própria, em parceria com outra adega ou numa solução cooperativa regional.
3. Testar pequenas aplicações de IA de alto impacto
Em vez de atacar tudo ao mesmo tempo, vale a pena começar por 1 ou 2 usos de IA que gerem retorno rápido, por exemplo:
- Modelos de previsão de colheita baseados em dados históricos de produção, clima e vigor da vinha
- Monitorização inteligente de doenças com imagens de drone ou sensores de terreno
- Modelos de previsão de qualidade (grau provável, acidez, perfil aromático) a partir de dados da parcela e da vindima
Quando a equipa de campo e de adega ganham confiança nestas ferramentas, torna‑se muito mais simples dar o salto para integrações mais complexas, como biorrefinarias tipo REDWine.
4. Procurar parcerias com centros de investigação e startups
O REDWine mostra bem como politécnicos, associações de viticultores e empresas podem trabalhar juntos. Para uma exploração média, o caminho mais inteligente é quase sempre através de parcerias:
- Protocolos com institutos politécnicos e universidades para testes piloto
- Participação em projetos europeus ou nacionais de inovação
- Colaboração com startups de IA agrícola focadas em viticultura
Quem se isola tende a ficar para trás. Quem entra em redes de inovação consegue experimentar tecnologias com risco partilhado e apoio técnico próximo.
O que o REDWine nos diz sobre o futuro da IA na vinha portuguesa
O laboratório vivo de Palmela é mais do que um projeto bonito para apresentar em conferências. É um sinal claro de para onde a vitivinicultura portuguesa está a caminhar:
- Adegas como hubs tecnológicos, onde o vinho é o produto principal, mas não o único
- Resíduos tratados como matéria-prima de valor, não como problema
- IA integrada em toda a cadeia, da previsão de colheitas à gestão de CO₂ e à rastreabilidade da sustentabilidade
Na série “IA na Indústria Vinícola Portuguesa”, o REDWine ocupa um lugar estratégico: mostra que IA, biotecnologia e economia circular não são temas separados. São peças do mesmo puzzle competitivo.
Para quem produz vinho em Portugal, a pergunta já não é se estas tecnologias vão chegar ao setor. Já chegaram. A questão é:
Em 2028, quer ser o produtor que ainda paga para tratar resíduos, ou aquele que vende biomassa de microalgas com marca própria, com provas de redução de emissões e dados de IA a sustentar a história?
O trabalho em Palmela mostra que o segundo caminho é perfeitamente realista. Desde que se comece a preparar agora.