Infinity Technology: vinho sem oxigénio, dados sem ruído

IA na Indústria Vinícola PortuguesaBy 3L3C

Como a Infinity technology cria condições ideais para IA na adega portuguesa: vinhos sem SO₂, menos variabilidade e dados limpos para decisões melhores.

Inteligência Artificialindústria vinícola portuguesavinificação anaeróbiacontrolo de qualidaderastreabilidade de vinhostecnologia de adega
Share:

Featured image for Infinity Technology: vinho sem oxigénio, dados sem ruído

IA, vinho e um dado curioso: 0 mg/L de SO₂

Há produtores europeus que já estão a colocar no mercado vinhos estáveis, prontos a beber e sem qualquer adição de sulfitos. Não é marketing verde: é tecnologia, engenharia de precisão e uma forma muito diferente de pensar a adega. E, sim, isto encaixa diretamente no que a Inteligência Artificial pode fazer pela indústria vinícola portuguesa.

A chamada Infinity technology – desenvolvida por Vitalie Popa e Bruno Alexander Gantenbrink – é um bom exemplo de como a automação, o controlo fino de processos e os dados abrem espaço a IA realmente útil: menos ruído, menos variáveis desnecessárias, mais informação limpa para decisão.

Neste artigo, pego na descrição técnica da Infinity technology e levo-a para o contexto da vitivinicultura portuguesa orientada por dados e IA: o que é que esta abordagem anaeróbia muda na adega, como se liga a algoritmos de previsão e controlo, e onde é que um produtor em Portugal pode ganhar tempo, dinheiro e qualidade.


O que é a Infinity technology e porque interessa a Portugal

A Infinity technology é um sistema integrado de vinificação anaeróbia, composto por três peças principais:

  • Infinity Barrel – barrica de madeira pressurizada e estanque, com controlo de temperatura e extração de amostras sem entrada de oxigénio.
  • Infinity HYBRID – fermentador que combina barrica de madeira com depósito de inox pressurizado, ligado por filtros perfurados.
  • ABC – Anaerobic Bottling Closure – fecho reutilizável que permite engarrafamento em ambiente totalmente anaeróbio, com uso de gases inertes.

O objetivo é simples e radical:

Produzir vinhos tranquilos e espumantes apenas com uvas, leveduras e bactérias – sem aditivos, sem conservantes, sem SO₂ – mantendo controlo total sobre oxidação, contaminação e evaporação.

Para Portugal, isto bate em cheio em três frentes que muitos produtores já sentem diariamente:

  1. Pressão de mercado por vinhos “clean label” e mais naturais.
  2. Escassez de mão de obra qualificada na adega, especialmente em vindimas.
  3. Necessidade de dados fiáveis para alimentar modelos de IA de previsão de colheita, gestão de fermentações e controlo de qualidade.

A Infinity technology não é IA, mas é infraestrutura ideal para IA funcionar bem: reduz variáveis aleatórias (como entradas de oxigénio acidentais, perdas por evaporação ou contaminações imprevisíveis) e gera um ambiente mais controlado, com dados mais consistentes.


Como funciona cada peça – explicado para enólogo ocupado

Infinity Barrel: barrica que parece simples, mas é um “sensor” perfeito

O Infinity Barrel é uma barrica de ~225 L que resolve vários problemas clássicos:

  • Estrutura reforçada com varões de silicone alimentar entre aduelas e oito arcos ajustáveis, que garantem estanqueidade verdadeira.
  • Substituição do rolhão de silicone por um V-Bung em aço inox com:
    • válvula de sobrepressão,
    • entrada/saída de gás,
    • manómetro,
    • lança ajustável para amostras,
    • serpentina de arrefecimento/aquecimento.

Resultado prático:

  • Pode fazer maceração, fermentação alcoólica, FML e estágio sempre sob pressão e praticamente sem oxigénio.
  • Retira amostras sob pressão, sem abrir a barrica e sem arejar o vinho.
  • Controla temperatura na própria barrica, incluindo estabilização a frio.

Para um projeto de IA na adega, isto abre a porta a:

  • Séries temporais limpas de pressão, temperatura e densidade (se ligar sensores), perfeitas para treinar modelos que preveem o fim de fermentação ou o risco de paragens.
  • Redução drástica de variáveis “invisíveis” (p. ex., micro-oxidação não controlada, variações de volume por evaporação), facilitando a correlação entre dados de vinha e resultados sensoriais.

Infinity HYBRID: madeira + inox + modos aeróbio/anaeróbio

O Infinity HYBRID junta um depósito de inox pressurizado (cerca de 1 000 L) montado sobre a barrica de madeira, com um filtro perfurado que permite lidar com mosto líquido e partes sólidas.

O sistema pode trabalhar:

  • Aerobiamente ou anaerobiamente.
  • Com ou sem pressão, em cada vaso de forma independente.
  • Em fermentações paralelas (madeira e inox) que se podem juntar em qualquer momento abrindo duas válvulas.

Implica isto:

  • Consegue desenhar perfis de fermentação diferentes (mais redutor, mais oxidativo, mais extração, menos extração) sem mudar de equipamento.
  • Pode ligar vários HYBRID em série, criando uma espécie de linha contínua de fermentação.

Agora liga isto à IA:

  • Com sensores de temperatura, pressão, densidade, pH, redox, tens um conjunto de dados por batelada extremamente rico.
  • Modelos de IA conseguem aprender perfis ideais por casta, parcela, tipo de vinho com precisão bem maior do que numa adega tradicional, onde cada depósito sofre pequenas variações não registadas.

ABC – Anaerobic Bottling Closure: engarrafar sem estragar o filme de dados

O ABC é um fecho reutilizável para engarrafamento anaeróbio:

  • A garrafa é purgada com gás inerte (azoto, árgon, CO₂) através do próprio fecho.
  • O vinho entra também através do fecho, sem que a boca da garrafa seja exposta ao ar.
  • O fecho pode servir de dispensador de amostras sem ser removido.

Benefícios evidentes:

  • Menor oxidação no ato de engarrafar.
  • Menos necessidade de SO₂.
  • Menos variação entre garrafas do mesmo lote.

Para modelos de IA de previsão de evolução em garrafa e controlo de qualidade, cada redução de ruído (oxidação aleatória, diferenças entre garrafas) torna os dados de prova muito mais coerentes. E isso faz toda a diferença quando queres ligar perfil químico + dados de processo + avaliações sensoriais.


Onde a Infinity technology se cruza com a IA na adega portuguesa

A relação é direta: sem dados estáveis, a IA não tem hipótese. Equipamentos como Infinity Barrel, HYBRID e ABC oferecem um contexto ideal para:

1. Modelos de previsão de fermentação mais precisos

Com pressão e temperatura controladas de forma consistente, torna‑se mais fácil:

  • Usar IA para prever a duração da fermentação por casta, levedura e estilo de vinho.
  • Detetar anomalias em tempo real (fermentações a descarrilar, risco de volátil, etc.) com alertas automáticos.

Se hoje já usas sondas de temperatura e densidade, o passo seguinte é integrar estes dados com um sistema pressurizado e estável. A IA agradece.

2. Controlo de qualidade e rastreabilidade granular

A série "IA na Indústria Vinícola Portuguesa" tem batido muito na tecla da rastreabilidade. Aqui, a Infinity technology encaixa bem:

  • Cada barrica ou HYBRID pode ser tratado como unidade de dado: lote, curva de T, curva de pressão, intervenções mínimas.
  • Ao engarrafar com ABC, consegues associar lote + parâmetros de engarrafamento + perfil de gás inerte a cada número de garrafa.

Com IA por cima disto:

  • Podes responder com muito mais confiança a clientes, certificadoras ou entidades reguladoras.
  • Consegues identificar padrões de defeitos (ex.: um desvio sensorial recorrente ligado a uma combinação específica de T/pressão/tempo).

3. Vinhos “naturais” com previsibilidade – não à sorte

Muitos consumidores portugueses procuram vinhos com menos intervenção, mas ninguém quer comprar uma “roleta russa” microbiológica.

A Infinity technology permite reduzir ou eliminar SO₂, mas com um nível de controlo compatível com IA:

  • Menos entrada de oxigénio = menos variabilidade aleatória.
  • Menos correções químicas = menos variáveis artificiais nos dados.

Isto cria as condições ideais para treinar modelos de IA que ligam maneio de vinha + perfil de mosto + parâmetros de fermentação ao resultado final na garrafa. Em vez de “feeling”, ficas com equações aprendidas a partir da tua realidade.


Benefícios concretos para produtores portugueses

Trazendo isto para a prática da viticultura e enologia em Portugal:

Menos trabalho de cave, mais foco na decisão

A tecnologia Infinity foi desenhada para reduzir tarefas manuais como:

  • trasfegas frequentes;
  • correções de SO₂;
  • enchimentos para compensar evaporação;
  • operações de arejamento não planeadas.

Numa altura em que a mão de obra é cara e escassa, isto liberta equipa para o que mais importa:

  • monitorização de dados;
  • prova crítica;
  • calibração de modelos de IA e ajustes de estratégia.

Adegas pequenas com músculo tecnológico

Um ponto que gosto particularmente é a promessa de permitir que pequenos produtores ou até hobby‑winemakers façam vinho com pouco equipamento de cave.

Em Portugal, onde muitos projetos de autor nascem em volumes reduzidos, isto pode significar:

  • acesso mais fácil a tecnologia de alto controlo desde o primeiro momento;
  • dados estruturados desde as primeiras vindimas, o que torna muito mais simples introduzir IA ao fim de 2‑3 anos.

Alinhamento com sustentabilidade e regulamentação futura

Com exigências crescentes de rotulagem (incluindo via QR code) e de redução de aditivos, ter um processo onde a uva é o único ingrediente é um argumento fortíssimo.

A Infinity technology ajuda a:

  • reduzir químicos,
  • simplificar rótulos,
  • preparar o produtor para requisitos de transparência que, honestamente, só vão apertar.

Com IA a gerir dados de água, energia, químicos e CO₂, a adega ganha o que eu chamaria de “duplo benefício”: menos input, melhor história para contar ao consumidor.


Como começar: roteiro prático para integrar tecnologia + IA

Se geres uma adega em Portugal e te revês nesta visão, eu abordaria o tema em quatro passos:

1. Diagnóstico de dados atuais

Antes de comprar qualquer equipamento diferente, responde com brutal honestidade:

  • Que dados recolho hoje na vinha e na adega?
  • Em que formato? (caderno, Excel, software de adega…)
  • O que está a impedir a IA de ser útil? (dados inconsistentes, sem timestamps, sem sensores…)

2. Escolher um piloto pequeno, mas bem medido

Por exemplo:

  • 1–2 Infinity Barrel ou um Infinity HYBRID em uma só casta e uma só parcela.
  • Instalar sensores básicos (T, densidade, pressão, pH) integráveis com software.
  • Definir à partida:
    • perguntas a que a IA deve responder (ex.: “quando termina a fermentação?”, “qual o perfil ideal de T para esta casta?”),
    • quem é responsável por validar dados e provas.

3. Ligar IA a perguntas simples, não a milagres

Na série “IA na Indústria Vinícola Portuguesa” tenho insistido nisto: começa pequeno e mensurável.

Com Infinity + dados, podes treinar modelos para:

  • prever curva de densidade de fermentações futuras;
  • gerar alertas de risco de fermentação parada;
  • correlacionar perfis de temperatura/pressão com avaliações de prova interna.

Nada de promessas vagas tipo “IA que faz o vinho por si”. A IA ajuda-te a decidir melhor, mais cedo; o resto continua a depender de ti e das tuas uvas.

4. Escalar só depois de aprender com os erros

Se o piloto funcionar – e se a equipa aderir – então sim, faz sentido:

  • aumentar o número de barricas ou HYBRID;
  • integrar o ABC na linha de engarrafamento;
  • ligar isto ao resto das iniciativas de IA (previsão de colheita, detecção de doenças na vinha, rastreabilidade completa).

A pior abordagem é comprar tecnologia cara sem plano de dados e de IA. A melhor é usar projetos como a Infinity technology como laboratório vivo para aprender a trabalhar com dados.


Para onde vamos: um ecossistema vitivinícola de dados, não de modas

Se olharmos 5–10 anos à frente, o cenário mais provável para a indústria vinícola portuguesa é um triângulo muito claro:

  • Vinha inteligente – sensores, imagens de satélite/drones, IA a prever produção e sanidade.
  • Adega controlada – fermentações e estágios em sistemas estáveis como Infinity Barrel/HYBRID, monitorizados digitalmente.
  • Mercado transparente – rotulagem rigorosa, histórico de lote acessível, provas e reviews a alimentar modelos de recomendação.

Tecnologias como a Infinity não são moda; são peças de infraestrutura que tornam esta visão viável. Menos oxigénio, menos intervenção, menos ruído. E, acima de tudo, mais dados úteis para qualquer projeto sério de IA.

Se estás a desenhar a estratégia digital da tua adega para 2026 e seguintes, eu colocaria três perguntas em cima da mesa:

  1. Onde é que a minha adega perde hoje mais tempo em operações repetitivas?
  2. Onde é que tenho mais variabilidade que estraga a qualidade ou a previsibilidade do vinho?
  3. Que tipo de infraestrutura – física e digital – preciso para que a IA deixe de ser um slide e passe a ser uma ferramenta diária?

A Infinity technology responde a várias destas perguntas ao nível físico. A IA responde ao nível digital. Juntas, podem ser a diferença entre “fazer vinho” e gerir um sistema vitivinícola realmente inteligente.