Automação aberta e IA na vinha: competitividade real

IA na Indústria Vinícola PortuguesaBy 3L3C

Estudo da Schneider mostra como sistemas fechados destroem competitividade. Veja como automação aberta e IA podem transformar a indústria vinícola portuguesa.

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Por que os sistemas fechados estão a custar milhões (também ao vinho português)

7,5% da faturação anual. Este é o valor médio que as empresas industriais perdem por continuarem presas a sistemas de automação fechados, segundo o novo estudo global da Schneider Electric conduzido pela Omdia. Nas grandes empresas, o impacto chega aos 45,18 milhões de dólares por ano.

Na prática, isto significa margens mais apertadas, menos investimento em inovação e uma competitividade cada vez mais frágil. E o setor vitivinícola português não foge a esta regra. Adegas com linhas de engarrafamento antigas, sistemas SCADA proprietários, ILUs e PLCs isolados e dados espalhados por folhas Excel estão exatamente no grupo de risco descrito no estudo.

Neste artigo da série “IA na Indústria Vinícola Portuguesa”, pego nas conclusões do estudo da Schneider Electric e traduzo-as para a realidade de produtores, adegas cooperativas e grupos vinícolas em Portugal. O objetivo é simples: mostrar, com números e exemplos concretos, como automação aberta, definida por software e suportada por IA pode aumentar a competitividade em toda a cadeia de valor — da vinha à garrafa.


O que o estudo revela e porque interessa à indústria do vinho

O estudo “Open vs. Closed: The $11.28M Question for Industrial Leaders” mostra algo que muitos gestores já sentem no dia a dia: os sistemas de automação legados, fechados e centrados no hardware estão a drenar competitividade em silêncio.

As principais conclusões que interessam a quem trabalha no setor vitivinícola são:

  • Empresas de média dimensão perdem, em média, 7,5% da faturação anual devido a sistemas fechados.
  • Pequenos fabricantes podem perder até 25% da receita anual.
  • Só em perdas de agilidade e resiliência operacional, o impacto médio é de 6,1 milhões de dólares por ano.

Aplicando isto ao contexto português:

  • Uma adega que fatura 10 milhões de euros/ano pode estar a deixar 750 mil euros em cima da mesa, todos os anos.
  • Uma cooperativa com 4–5 linhas de engarrafamento e vários armazéns climatizados pode ter dados críticos dispersos por equipamentos de fornecedores diferentes que não “falam” entre si.

O ponto-chave do estudo é claro: quem continuar preso a arquiteturas fechadas vai ficar mais lento, mais caro e menos flexível. E num mercado onde o consumidor pede rastreabilidade, qualidade consistente e vinhos diferenciados, isso é receita para perder espaço na prateleira.


O problema dos sistemas fechados na adega e na vinha

A dor de cabeça não é só técnica. É diretamente económica.

1. Fragmentação de hardware e dependência de fornecedores

O estudo mostra que a maioria das empresas opera entre 2 e mais de 10 plataformas de hardware diferentes. No vinho, isto traduz-se em cenários como:

  • PLC de um fornecedor a controlar bombas e transferências;
  • outro sistema dedicado ao enchimento e rotulagem;
  • sensores de temperatura e humidade de marcas distintas nas caves;
  • sistemas isolados para câmaras de frio e logística de expedição.

Cada sistema tem software próprio, contratos de manutenção específicos e equipas diferentes a “desenrascar” integrações. Resultado:

  • 30% dos problemas exigem suporte especializado do fornecedor;
  • a equipa interna perde tempo a aprender 4 ou 5 interfaces diferentes;
  • qualquer alteração simples num processo torna‑se um mini-projeto de engenharia.

2. Dados em silos: IA sem dados é só uma buzzword

O estudo revela que apenas 28% das empresas têm acesso a insights em tempo real e que em metade das organizações 20% a 39% dos dados críticos não estão disponíveis em tempo real.

Numa adega, isto significa:

  • Dados de produção (caixas/hora, perdas, paragens) num sistema;
  • dados de qualidade (condutividade, SO₂, pH, oxigénio dissolvido) noutro;
  • dados da vinha (NDVI, stress hídrico, previsões de colheita via IA) guardados numa plataforma separada.

Sem uma camada de automação aberta, definida por software, é impossível fazer o que realmente interessa:

  • correlacionar condições de fermentação com qualidade final do lote;
  • ajustar planos de colheita em função da capacidade real da linha de receção e prensagem;
  • antecipar manutenção de bombas, prensas e filtros com base em dados históricos e modelos de IA.

3. Atualizações lentas num mercado rápido

Segundo o estudo, 77,4% das empresas precisam de modificações físicas de hardware para fazer atualizações funcionais. Isto choca diretamente com a realidade atual do vinho:

  • novos requisitos de rotulagem e legislação;
  • pedidos específicos de grandes retalhistas (formato, caixas mistas, códigos adicionais);
  • exigências crescentes de rastreabilidade detalhada (talhão, data de colheita, análises, etc.).

Quando cada pequena alteração implica mexer em hardware, chamar fornecedor, parar a linha, o custo dispara. O estudo fala em 25 000 a 50 000 dólares por hora de modificação, chegando a 250 000 dólares/hora em grandes empresas. A escala é diferente no setor vitivinícola português, mas a lógica é a mesma:

cada hora de imobilização da linha de engarrafamento em setembro/outubro custa muito mais do que parece na folha de Excel.


Automação aberta e definida por software: o que muda na prática

A mensagem central do estudo é direta: migrar de sistemas fechados para automação aberta, definida por software, é uma alavanca real de competitividade.

No contexto da indústria vinícola portuguesa, isto traduz‑se em cinco mudanças concretas.

1. Separar software de hardware para ganhar flexibilidade

Quando o software deixa de estar preso a um único fornecedor de PLCs ou SCADA, a adega ganha:

  • liberdade para integrar equipamentos de múltiplas marcas;
  • capacidade de padronizar a lógica de processo, mesmo com hardware heterogéneo;
  • possibilidade de evoluir processos por software, sem refazer tudo em campo.

Na prática, pode manter a prensa atual, o enchimento existente e a linha de rotulagem de outro fornecedor, mas gerir tudo numa camada comum de automação e supervisão, pronta para receber dados e modelos de IA.

2. Dados em tempo real como base da IA na vinha e na adega

A automação aberta facilita algo que, para mim, é o verdadeiro salto qualitativo: dados fiáveis, estruturados e em tempo real em toda a cadeia de valor.

Alguns exemplos aplicados ao vinho:

  • Integrar sensores de campo e imagens de satélite/drones (para IA de previsão de colheitas) com o planeamento de receção de uva.
  • Ligar modelos de IA de deteção precoce de doenças (míldio, oídio, podridões) à gestão de tratamentos e ao controlo de resíduos no laboratório da adega.
  • Usar IA para otimizar fermentações em função da curva de temperatura, densidade e perfil aromático desejado.
  • Alimentar modelos de manutenção preditiva com dados de vibração e consumo energético de bombas, prensas, compressores e sistemas de frio.

Nada disto funciona bem se os dados estiverem bloqueados em sistemas fechados. A automação aberta torna os dados acionáveis, como refere o estudo, e isso é pré-condição para qualquer estratégia séria de IA na indústria vitivinícola.

3. Produção de pequenos lotes de forma eficiente

O estudo destaca que a automação aberta ajuda a produzir pequenos lotes com eficiência. No vinho, isto é ouro:

  • edições limitadas;
  • vinhos de talhão;
  • experiências com novas castas ou blends;
  • linhas premium com requisitos de rotulagem específicos.

Com uma camada de software flexível, a adega consegue:

  • mudar rapidamente de referência na linha de engarrafamento;
  • ajustar automaticamente parâmetros de rotulagem e impressão de lotes;
  • registar toda a informação de rastreabilidade por lote sem reinventar processos.

4. Menos dependência de mão de obra altamente especializada

O estudo sublinha a escassez de competências e o aumento da dependência de fornecedores. No contexto português, onde muitas adegas fora dos grandes grupos têm equipas técnicas muito enxutas, isto é crítico.

Uma arquitetura aberta, bem concebida, permite:

  • interfaces mais simples e normalizadas para operadores;
  • bibliotecas de funções reutilizáveis (bombagem, lavagem CIP, enchimento, etc.);
  • diagnósticos mais claros para manutenção, apoiados por IA.

Na prática, a adega deixa de depender “do técnico X que conhece aquele PLC antigo” e passa a operar com conhecimento institucionalizado em software.

5. Resiliência regulatória e sustentabilidade

Segundo o estudo, as empresas gastam em média 1,7 milhões de dólares/ano em custos de sustentabilidade e conformidade, muito porque qualquer atualização implica mexer em hardware.

No vinho, onde:

  • a regulamentação sobre emissões, consumos de água e energia está a apertar;
  • a rastreabilidade e a prova de sustentabilidade contam para certificações e exportação;

ter uma arquitetura aberta facilita:

  • introduzir rapidamente novos indicadores ambientais;
  • gerar relatórios automáticos por campanha, linha ou produto;
  • responder a auditorias com dados sólidos, em vez de recolha manual dispersa.

Como dar os primeiros passos numa adega portuguesa

O estudo da Schneider Electric mostra que muitos clientes começam com projetos-piloto em ativos específicos e depois escalam. Para a indústria vinícola portuguesa, esta abordagem faz todo o sentido.

Passo 1 – Escolher um piloto com impacto e baixo risco

Boas candidatas a piloto numa adega:

  • Uma linha de engarrafamento com histórico de paragens e retrabalho.
  • O sistema de frio e climatização de armazéns (grande consumidor de energia).
  • A receção e prensagem de uvas em época de vindima (ponto crítico de capacidade).

O objetivo é simples: modernizar a camada de automação de forma aberta, integrar dados em tempo real e testar um primeiro caso de uso de IA (por exemplo, manutenção preditiva ou previsão de paragens).

Passo 2 – Criar uma camada de dados comum

Mais do que trocar todos os equipamentos de uma vez, o que funciona melhor é:

  • definir um modelo de dados comum (tags, estruturas, nomenclaturas);
  • instalar gateways ou conversores que permitam tirar dados de PLCs antigos;
  • centralizar tudo numa plataforma aberta, pronta para integrações futuras.

É esta camada que vai permitir ligar, pouco a pouco, soluções de IA para:

  • previsão de colheita;
  • otimização de fermentações;
  • deteção precoce de desvios de qualidade.

Passo 3 – Medir impacto económico, não só técnico

O estudo fala em mais de 1 milhão de dólares de valor perdido por trimestre para quem adia a modernização. Na adega, vale a pena medir:

  • redução de paragens imprevistas;
  • diminuição de retrabalho (re-rotulagem, correções de embalagem, etc.);
  • ganhos energéticos por controlo mais inteligente do frio;
  • impacto em qualidade (menos desvios, menos reclamações).

Quando estes números estão claros, fica muito mais simples justificar o alargamento da automação aberta ao resto da operação.


IA na indústria vinícola portuguesa: sem automação moderna não há milagre

Muita gente fala de IA na vinha, previsão de colheitas, drones e sensores de campo. Tudo isso é relevante, mas sem uma base sólida de automação aberta na adega, o potencial fica pela metade.

O estudo da Schneider Electric e da Omdia é um aviso direto:

sistemas fechados estão a corroer silenciosamente a competitividade industrial, ano após ano.

No contexto da indústria vitivinícola portuguesa, isto traduz‑se em:

  • menor capacidade de resposta a novos mercados e exigências de retalho;
  • dificuldade em garantir rastreabilidade completa, do talhão à garrafa;
  • barreiras práticas à adoção séria de IA em produção, qualidade e logística.

A boa notícia é que há um caminho claro:

  • começar pequeno, com pilotos bem escolhidos;
  • apostar em automação aberta e definida por software;
  • construir uma camada de dados que sirva tanto a operação diária como os projetos de IA.

Se a sua empresa está a investir em IA para vinha, previsão de colheitas ou deteção de doenças, a pergunta honesta é: a automação da adega está preparada para acompanhar?

O próximo passo pode ser tão simples como fazer um diagnóstico rápido aos sistemas atuais de automação, identificar pontos de bloqueio e desenhar um roteiro de modernização faseado. Quem começar agora vai ter uma vantagem clara nas próximas vindimas.