IA segura: a aposta que pode pôr a Europa na frente

Inteligência Artificial para Empresas PortuguesasBy 3L3C

Segurança na IA não é travão: pode ser a arma secreta das empresas portuguesas, em especial seguradoras, numa Europa guiada pelo AI Act e pela confiança.

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A maior parte das empresas olha para a inteligência artificial como uma corrida à velocidade. Quem automatiza primeiro, ganha. Quem lança mais modelos, ganha. Só há um problema: na vida real, o que decide quem fica no topo é a confiança. E aqui a Europa tem uma carta que quase ninguém está a jogar bem — a segurança na IA.

Foi isso que Paulo Dimas, diretor do Centro para a IA Responsável, sublinhou recentemente: a segurança e a responsabilidade não são um travão, podem ser a vantagem competitiva da Europa. Para as empresas portuguesas — e em particular para seguradoras, bancos e outros negócios regulados — este é um ponto crítico: ou constroem IA confiável, auditável e alinhada com o regulador, ou vão gastar anos a apagar fogos jurídicos, reputacionais e operacionais.

Este artigo da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas” pega nessa visão e leva-a para o terreno: o que significa, na prática, fazer da segurança da IA um diferencial? Como é que isto se traduz em negócios reais em Portugal, hoje, em dezembro de 2025, com o AI Act europeu a bater à porta e o setor segurador sob forte pressão para digitalizar?


1. Segurança na IA como vantagem competitiva: o que está realmente em jogo

A ideia central é simples: quem conseguir combinar inovação em IA com segurança e conformidade regulatória ganha acesso a clientes, mercados e dados que os concorrentes não vão conseguir tocar.

Para a Europa, isto cruza-se com três realidades muito concretas:

  • Regulamentação exigente (AI Act, RGPD, DORA, NIS2)
  • Setores altamente regulados (seguros, banca, saúde, energia)
  • Consumidores cada vez mais atentos a privacidade, ética e transparência

Em vez de ver estas regras como um peso, faz mais sentido encará-las como barreiras de entrada. Quem aprende a jogar bem com estas regras consegue:

  • Vender soluções de IA a seguradoras, bancos e hospitais em toda a UE
  • Entrar em parcerias estratégicas com grandes grupos europeus
  • Reduzir o risco de multas, litígios e crises de reputação

“A segurança na IA não é só um requisito regulatório. É um critério de escolha para o cliente e um argumento de venda para o fornecedor.”

Para uma seguradora portuguesa, isto pode ser a diferença entre ter um chatbot básico que responde a perguntas simples e ter um assistente virtual de sinistros ou de subscrição que a direção de risco, o regulador e os clientes confiam.


2. O que significa, na prática, “segurança na IA” para empresas portuguesas

Segurança na IA não é apenas pôr uma firewall e encriptar dados. É gerir o ciclo de vida inteiro dos modelos de IA com critérios de risco, ética e conformidade. Para ficar tangível, vamos partir isto em cinco blocos.

2.1. Segurança técnica e cibersegurança

Aqui falamos da base:

  • Proteção de dados usados para treinar e operar modelos
  • Controlo de acessos (quem pode ver prompts, outputs, logs, datasets)
  • Proteção contra ataques específicos de IA (prompt injection, data poisoning, model stealing)

Nas seguradoras, por exemplo, um modelo que lê relatórios médicos para apoiar a gestão de sinistros é um alvo óbvio. Se esse modelo for comprometido, o dano não é apenas técnico — é jurídico e reputacional.

2.2. Robustez e fiabilidade dos modelos

Um modelo “seguro” não é só aquele que não é hackeado. É também o que não se descontrola em produção:

  • Alucina menos e é treinado para detectar quando não sabe
  • Tem limites claros (guardrails) para certos tipos de respostas
  • É monitorizado em contínuo (drift de dados, performance, taxas de erro)

No setor segurador, um modelo de scoring de risco que começa, sem ninguém se aperceber, a discriminar sistematicamente um certo grupo de clientes não é apenas um problema ético — é um risco direto de sanção do supervisor.

2.3. Privacidade, RGPD e dados sensíveis

A boa notícia: quem já levou a sério o RGPD está mais perto de fazer IA responsável. A má: muitos projetos de IA continuam a ignorar princípios básicos:

  • Minimização de dados: usar só o estritamente necessário
  • Anonimização/pseudonimização antes de treinar modelos
  • Gestão de consentimentos e bases de licitude bem documentadas

Para uma seguradora portuguesa, isto é vital em três frentes:

  1. Subscrever risco com modelos que usam dados pessoais e, muitas vezes, dados de saúde
  2. Prevenir fraude com modelos que analisam comportamentos, históricos e padrões transacionais
  3. Personalizar ofertas sem cair em perfis abusivos ou discriminação indireta

2.4. Ética, enviesamentos e não discriminação

Aqui está outra área onde a Europa pode ganhar terreno. Os reguladores europeus e a opinião pública são muito sensíveis a temas como:

  • Discriminação por género, idade, origem, código postal
  • Perpetuação de desigualdades históricas em decisões automatizadas
  • Falta de transparência em algoritmos que afetam a vida das pessoas

Nas seguradoras, a fronteira entre “segmentação de risco legítima” e “discriminação” é fina. Um modelo de pricing que penaliza sistematicamente moradores de certas zonas pode ser tecnicamente eficiente… e juridicamente inaceitável.

2.5. Transparência, explicabilidade e governança

O AI Act vai bater forte aqui: decisões de alto impacto têm de ser explicáveis em linguagem acessível. Para as empresas, isto traduz-se em:

  • Documentar modelos: objetivos, dados usados, versões, responsáveis
  • Ter relatórios de explicabilidade (por exemplo, porque foi recusada uma apólice)
  • Definir um processo formal de aprovação, auditoria e revisão de modelos

Na prática, é sair do “temos um modelo que funciona” para “temos um sistema de decisão que conseguimos explicar, auditar e corrigir”.


3. Oportunidade para a Europa — e para Portugal — no contexto do AI Act

O AI Act não é apenas legislação; é um “manual de instruções” para construir IA confiável à escala europeia. Quem o dominar cedo ganha uma vantagem clara.

3.1. AI Act: um resumo pragmático para gestores

Para empresas portuguesas, o AI Act implica:

  • Classificação de sistemas de IA por nível de risco (mínimo, limitado, elevado, proibido)
  • Regras mais duras para sistemas de “alto risco” (muitos nos seguros, banca, saúde)
  • Obrigações de gestão de risco, qualidade dos dados, documentação, supervisão humana

Em setores regulados, a maioria dos projetos relevantes (scoring, pricing, triagem de clientes, detecção de fraude) será quase sempre classificada como alto risco. Ou seja:

Quem tratar IA como “projeto de TI” vai falhar. IA de alto risco é um tema de governança, risco e compliance, não apenas de tecnologia.

3.2. Como isto pode tornar-se uma vantagem competitiva

Se a maior parte das empresas atrasar projetos por medo do AI Act, acontece algo interessante: as poucas que se organizam e criam desde já um framework de IA responsável vão ocupar o mercado.

Exemplos de vantagem competitiva:

  • Seguradora portuguesa que consegue lançar um sistema de subscrição com IA explicável e alinhado com o regulador, enquanto concorrentes adiam projetos
  • Fintech nacional que desenha desde o início modelos com documentação completa, conseguindo aprovar parcerias com bancos europeus mais rapidamente
  • Insurtech B2B que vende soluções de IA responsável para grupos seguradores que não querem lidar com o detalhe técnico e regulatório

Portugal tem ainda um trunfo adicional: uma comunidade técnica forte e custos operacionais mais baixos do que os grandes centros europeus. Se juntarmos talento técnico + sensibilidade regulatória + proximidade cultural aos mercados da UE, temos uma proposta de valor muito interessante.


4. IA responsável nas seguradoras portuguesas: da teoria ao terreno

No contexto da campanha “IA para Seguradoras Portuguesas: Transformação Digital”, vale a pena descer ao nível operacional. Onde é que a segurança e a responsabilidade em IA fazem realmente diferença no dia a dia de uma seguradora em Portugal?

4.1. Casos de uso de IA em seguros onde a segurança é crítica

Alguns exemplos concretos:

  • Chatbots e assistentes virtuais para clientes

    • Devem evitar dar conselhos jurídicos errados
    • Não podem expor dados de outros segurados em respostas
    • Têm de gerir bem limites: quando chamar um humano
  • Automação de sinistros

    • Modelos que validam documentos, avaliam danos, sinalizam fraude
    • Alto risco de viés (por exemplo, tratar reclamações de certas zonas de forma diferente)
    • Necessidade de trilhos de auditoria: quem decidiu o quê, com base em que dados
  • Pricing e subscrição

    • Modelos de scoring de risco, tarifários dinâmicos, produtos personalizados
    • Exigência de não discriminação e explicabilidade perante clientes e regulador
  • Deteção de fraude

    • IA que analisa padrões em milhares de apólices e sinistros
    • Risco de “marcar” incorretamente perfis legítimos, com impacto direto na relação com o cliente

Em todos estes casos, “fazer rápido” sem pensar em segurança pode resultar em retrabalho massivo, bloqueios pelo jurídico ou até intervenção do supervisor.

4.2. 7 passos práticos para uma seguradora criar IA segura

Uma abordagem pragmática para equipas de transformação digital e inovação:

  1. Mapear sistemas de IA existentes e planeados
    Identificar onde já há algoritmos a tomar decisões automáticas (mesmo que sejam “modelos antigos” de scoring) e o que está na pipeline.

  2. Classificar risco de cada sistema
    Usar critérios inspirados no AI Act: impacto no cliente, no negócio, no regulador. Alta, média ou baixa criticidade.

  3. Criar um comité de IA responsável
    Juntar tecnologia, risco, jurídico, negócio e, idealmente, alguém com perfil de ética de dados. Decisões-chave de IA passam por aqui.

  4. Definir standards mínimos para dados e modelos

    • Qualidade e origem dos dados
    • Requisitos de anonimização
    • Métricas de performance e fairness
  5. Implementar monitorização contínua
    Não basta validar o modelo no lançamento. É preciso acompanhar resultados ao longo do tempo e ter gatilhos para intervenção humana.

  6. Formar equipas internas
    Gestores, underwriters, equipas de sinistros, compliance — todos precisam do básico de IA responsável para perceberem limites, riscos e potencial.

  7. Documentar tudo de forma simples
    Não é burocracia pelo papel. É criar uma “memória institucional” de como os modelos foram desenhados, testados e aprovados. O dia em que o regulador bater à porta, isto vale ouro.


5. Como transformar segurança em IA em motor de negócio — e não em custo

A maior objeção que ouço é sempre a mesma: “Isso é tudo muito bonito, mas demora tempo e encarece projetos.” A resposta honesta? Sim, custa mais no início. Mas custa muito menos do que remendar depois.

Há três formas claras de transformar segurança em IA em valor de negócio:

5.1. Reduzir risco regulatório e jurídico

Cada falha grave de IA pode significar:

  • Multas GDPR pesadas
  • Intervenção do supervisor setorial
  • Acordos extrajudiciais com clientes prejudicados
  • Meses em que o projeto fica parado, à espera de pareceres

Quem constrói com segurança desde o início reduz drasticamente esta probabilidade. É como investimento em cibersegurança: ninguém nota até haver problema — e, quando há, quem investiu dorme melhor.

5.2. Ganhar confiança de clientes e parceiros

Numa altura em que a opinião pública anda sensível a abusos de dados, uma mensagem clara de “IA com regras, auditável e justa” é um argumento comercial forte, especialmente em seguros de saúde, vida e poupança.

Empresas que comunicam de forma transparente:

  • Porque usam IA
  • Que decisões estão automatizadas
  • Como garantem justiça e privacidade

acabam por atrair clientes mais informados e fidelizá-los a longo prazo.

5.3. Acelerar inovação em vez de a bloquear

Paradoxalmente, quando não há um quadro de IA responsável, cada novo projeto vira uma negociação interminável entre tecnologia, jurídico, risco e negócio. Tudo é discutido do zero.

Quando a organização define princípios claros, processos e templates, acontece o efeito inverso:

  • As equipas já sabem qual a lista de requisitos
  • O jurídico sabe o que validar
  • O risco sabe que controlos pedir

Resultado: o tempo entre ideia e piloto reduz-se. A empresa deixa de andar à base de “projetos especiais” e passa a operar com fábrica de IA.


6. Próximo passo para empresas portuguesas: começar pequeno, mas começar já

A segurança na IA pode mesmo ser a vantagem competitiva da Europa — e Portugal tem tudo para estar na linha da frente. Sobretudo no setor segurador, onde a confiança é o negócio.

Para integrar isto na sua estratégia de Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas, faz sentido:

  • Escolher 1 ou 2 casos de uso prioritários (por exemplo, chatbot de clientes e triagem inicial de sinistros)
  • Desenhar esses casos já com princípios de IA responsável e alinhamento com o AI Act
  • Documentar o processo e transformá-lo no modelo interno para os restantes projetos

Hoje, estamos a pouco tempo de ver o AI Act plenamente aplicado e 2026 não vai ser um ano “tranquilo” para quem trabalha com dados, risco e tecnologia em seguros. As empresas que em 2026 ainda estiverem a discutir “se vale a pena ter governança de IA” vão passar o ano em modo reação.

As que começarem agora — mesmo com pilotos modestos — vão estar, daqui a 12 a 18 meses, numa posição confortável: com experiência prática, modelos produtivos, equipas treinadas e uma narrativa forte de confiança tecnológica junto de clientes e reguladores.

A pergunta que fica é direta: quer que a segurança na IA seja um travão ou o argumento que põe a sua empresa portuguesa na frente da corrida?