Empresas líderes já não perguntam se devem usar IA, mas quanto rende. Veja como uma Empresa Agêntica pode gerar 25–30% de eficiência e +18% em vendas.
A maior parte das empresas portuguesas ainda discute se deve ou não investir em Inteligência Artificial. Enquanto isso, os líderes de setor já estão noutro campeonato: não discutem o “se”, discutem o ROI dos agentes de IA que já têm a trabalhar todos os dias.
Na série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, este artigo foca um ponto crítico: quanto rende, na prática, transformar o seu negócio numa “Empresa Agêntica” – isto é, uma organização onde agentes de IA autónomos assumem uma parte relevante do trabalho operativo.
Os números não são tímidos: casos reais falam em 25% a 30% de ganhos de eficiência e projeções de +18% de receita em vendas adicionais. A questão deixa de ser tecnológica e passa a ser puramente económica: como é que a IA entra no seu P&L?
O que é, na prática, uma Empresa Agêntica (e porque é que isso interessa ao ROI)
Uma Empresa Agêntica é uma organização em que agentes de IA autónomos não estão só a “responder a perguntas”, mas a agir dentro dos processos de negócio: executam tarefas, decidem dentro de limites definidos, aprendem com os dados da empresa e colaboram com pessoas.
A diferença entre “usar IA” e ser uma Empresa Agêntica é simples: num caso, a IA é uma ferramenta; no outro, é uma camada estrutural do negócio.
Numa seguradora portuguesa isto pode significar:
- Agentes de IA a triagem automática de sinistros assim que entram;
- Bots especializados a responder a 50%–60% dos pedidos simples de clientes, sem intervenção humana;
- Assistentes internos a preparar simulações de pricing e risco para os underwriters em segundos;
- Agentes comerciais virtuais a sugerir upsell em tempo real durante uma chamada ou chat.
Quando esta lógica é aplicada de forma sistemática, o impacto no ROI é direto:
- Menos tempo operacional por processo → redução de custos
- Mais velocidade e qualidade na resposta ao cliente → maior retenção e NPS
- Mais capacidade de vendas com a mesma equipa → aumento de receita
É aqui que os 25%–30% de ganhos de eficiência e os tais 18% de crescimento potencial de vendas começam a fazer sentido.
Dados que contam: que ROI estão as empresas a ver com agentes de IA
Os exemplos internacionais começam a servir de referência também para Portugal.
Eficiência operacional: 25%–30% de ganhos
A Diretora Global de Estratégia e Transformação da PepsiCo, Athina Kanioura, fala em 25% a 30% de eficiência obtida com agentes de IA (no caso, com Agentforce da Salesforce) em operações de campo. Não é um “pilotinho de laboratório”, são processos core.
Transposto para o contexto português, numa empresa de seguros com 200 pessoas na área de operações e serviço ao cliente, um ganho de 25% de eficiência pode traduzir-se em:
- Menos 25% de tempo por pedido de cliente
- Capacidade de absorver picos sazonais (renovações, campanhas) sem contratar mais pessoas
- Libertar equipas para tarefas de maior valor, como retenção de clientes de alto valor ou deteção de fraude
Atendimento ao cliente: metade dos casos tratados por IA até 2027
As projeções apontam para que, até 2027, cerca de 50% de todos os casos de atendimento ao cliente sejam tratados por IA, face a cerca de 30% atualmente. Em Portugal, isto encaixa diretamente na realidade das centrais de atendimento de bancos, telecoms e seguradoras.
Numa seguradora média com 500 mil contactos/ano:
- Hoje: 30% tratados por IA → 150 mil contactos
- 2027: 50% tratados por IA → 250 mil contactos
Se cada contacto humano custar, em média, 3€ (salário, sistemas, gestão), deslocar 100 mil contactos adicionais para IA significa poupanças anuais na ordem dos 300 mil euros, sem contar com o impacto positivo na experiência de cliente por ter respostas instantâneas, 24/7.
Receita: +18% em vendas adicionais
Profissionais que já trabalham em modelos agênticos apontam para até 18% de aumento em receita de vendas adicionais (cross-sell e upsell). Isto acontece porque:
- A IA consegue detetar padrões de oportunidade em tempo real (por exemplo, um cliente de automóvel com perfil para seguro de saúde);
- Os agentes de IA podem sugerir ofertas personalizadas no momento certo, no canal certo;
- As equipas comerciais deixam de perder tempo em leads frios e concentram-se nas oportunidades com maior probabilidade de fecho.
Para uma seguradora com 50M€ de prémios emitidos, 18% de incremento potencial em vendas adicionais significaria até 9M€ de receita extra – mesmo que só metade disso seja capturado, o ROI de qualquer projeto sério de IA fica rapidamente justificado.
Como medir o ROI da IA numa empresa portuguesa
Medir o ROI da IA não é apenas comparar custo do projeto com poupança imediata. As empresas que o fazem bem seguem uma lógica mais disciplinada.
1. Começar pelos processos certos
O ROI dispara quando escolhe processos de alto volume, bem definidos e com dados disponíveis. Em seguradoras portuguesas, estes são clássicos:
- Atendimento ao cliente (telefone, email, chat, WhatsApp)
- Abertura e triagem de sinistros
- Emissão e gestão de apólices
- Cobrança e gestão de inadimplência
Para cada processo, responda de forma dura:
- Quantos casos/ano? (volume)
- Quanto custa, em média, tratar cada caso? (custo unitário)
- Quanto tempo demora? (SLA)
- Quantos erros/incidentes existem? (qualidade)
Sem estes números, falar de ROI é feeling. Com estes números, torna-se matemática simples.
2. Definir métricas de impacto claras
Antes de pôr o primeiro agente de IA em produção, defina KPIs antes e depois. Os mais usados:
- Custo por contacto/processo
- Tempo médio de atendimento ou resolução (TMA/TMR)
- Taxa de automação (% de casos tratados 100% por IA)
- NPS ou CSAT no atendimento
- Taxa de conversão em campanhas e upsell
O ROI vem da combinação destes fatores, não de um só.
3. Calcular o ROI em 3 dimensões
Um modelo simples, que funciona bem para empresas portuguesas, é olhar para 3 blocos:
- Poupança: menos horas humanas, menos erros, menos retrabalho.
- Crescimento: mais oportunidades convertidas, maior retenção, maior ticket médio.
- Risco reduzido: melhor compliance, menos falhas operacionais, menos multas ou litígios.
ROI anual aproximado:
ROI (%) = (Ganhos anuais totais – Custo anual da IA) ÷ Custo anual da IA × 100
Onde “Ganhos anuais totais” incluem poupança + crescimento de receita + redução de risco (quando quantificado).
Valorizar o trabalho humano: o verdadeiro ganho escondido no ROI
Há um mito persistente: “IA tira empregos”. Na prática, as empresas que estão a conseguir resultados sólidos com IA estão a fazer outra coisa: estão a redesenhar o trabalho humano.
Os agentes de IA assumem:
- Tarefas rotineiras e repetitivas
- Processos muito baseados em regras
- Pedidos de baixa complexidade e baixo risco
As pessoas passam a focar-se em:
- Casos complexos ou sensíveis (grandes sinistros, clientes estratégicos)
- Decisões que exigem julgamento e contexto político, ético ou relacional
- Relacionamento de confiança com o cliente
- Inovação e melhoria contínua de processos
Uma Empresa Agêntica não substitui pessoas por máquinas; substitui trabalho repetitivo por trabalho com impacto.
Do ponto de vista de ROI, isto traduz-se em:
- Menos rotatividade de equipas (menos custos de recrutamento e formação)
- Maiores índices de satisfação interna
- Melhores resultados comerciais, porque os profissionais estão a usar o seu tempo onde realmente fazem a diferença
Numa seguradora, por exemplo, libertar 20% do tempo dos gestores de conta para trabalharem oportunidades de retenção em carteiras de alto valor pode gerar muito mais retorno do que a poupança pura em atendimento básico.
Como dar os primeiros passos rumo a uma Empresa Agêntica
Transformar-se numa Empresa Agêntica não acontece em seis semanas. Mas começar bem faz toda a diferença no ROI, sobretudo em setores regulados como o segurador.
1. Mudar a pergunta de partida
A cada novo problema ou necessidade de negócio, a pergunta deixou de ser “que sistema compramos?” e passou a ser:
“Como é que a IA pode resolver isto e que agente podemos criar para o fazer?”
Isto obriga a ver a IA como camada arquitetónica, não como add-on. No contexto português, isto significa envolver desde o início:
- Negócio (quem sente o problema)
- IT e dados (quem garante integração e segurança)
- Risco/compliance (quem assegura alinhamento regulatório, nomeadamente com a ASF e RGPD)
2. Escolher uma plataforma estável de agentes de IA
Ferramentas como o Agentforce (referido no artigo original) são exemplos de plataformas de agentes de IA que já trazem:
- Integração com CRM e sistemas de atendimento
- Gestão de contextos, regras e limites de decisão
- Monitorização e auditoria das ações dos agentes
Para seguradoras portuguesas, é crítico exigir:
- Armazenamento e tratamento de dados em conformidade com RGPD
- Capacidade de explicar decisões (explicabilidade da IA)
- Mecanismos de hand-off transparente do agente de IA para o humano
3. Começar pequeno, medir depressa, escalar o que funciona
A abordagem mais saudável que tenho visto em empresas portuguesas é:
- Escolher 1–2 casos de uso foco (por exemplo, FAQs de clientes e triagem de sinistros);
- Implementar com um grupo piloto e medir 90 dias de resultados;
- Ajustar fluxos, regras e limites do agente;
- Escalar para mais equipas, mais produtos, mais canais.
O objetivo não é ter “IA em todo o lado” no primeiro ano. O objetivo é ter 2–3 casos de uso com ROI claramente positivo, que financiem os seguintes.
O próximo passo para as empresas portuguesas: tratar a IA como investimento estratégico
A mensagem que começa a ficar clara, em Portugal e lá fora, é simples: as empresas líderes já estão a medir o ROI da IA, não a discutir se vale a pena experimentar.
Numa economia onde a pressão sobre margens é real, sobretudo em setores como o segurador, bancário, retalho ou utilities, uma Empresa Agêntica tem vantagens competitivas muito concretas:
- Operações mais baratas e rápidas
- Clientes mais satisfeitos e leais
- Equipas focadas em trabalho de alto valor
- Capacidade de crescer receita sem crescer estrutura
Se a sua organização faz parte do tecido empresarial português e está a acompanhar esta série sobre Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas, o desafio agora é pragmático:
- Identificar 1–2 processos onde agentes de IA possam gerar impacto em menos de 6 meses;
- Medir o antes e o depois com rigor;
- Tratar a IA como uma linha estratégica do plano de negócios, não como projeto experimental de TI.
O ROI da IA já não é teoria. Depende apenas de quão rápido a sua empresa decide agir – e de quão bem escolhe os primeiros passos rumo a uma verdadeira Empresa Agêntica.