Para seguradoras portuguesas, reputação é hoje um risco técnico. Veja como a IA pode medir, proteger e reforçar o “benefício da dúvida” em crises.

A maioria das seguradoras em Portugal ainda olha para a reputação como algo “macio”, difícil de medir, quase um luxo de tempos calmos. Entretanto, 2025 está a fechar com mais uma lista de crises de marca nas redes sociais, denúncias públicas em horas e escrutínio permanente dos reguladores. Tudo isto em paralelo com a pressão brutal para digitalizar processos e adotar inteligência artificial.
Aqui está o ponto central: num mercado de risco como o segurador, a reputação é hoje tão crítica como a solvência. E, bem trabalhada, funciona exatamente como um produto da própria casa: um seguro de vida que compra o benefício da dúvida quando algo corre mal.
Neste artigo da série Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas, olhamos para as ideias de Salvador da Cunha sobre reputação e comunicação e ligamo-las ao que está a mudar com a IA nas seguradoras portuguesas: da gestão de crises à forma como os algoritmos já avaliam — e vão continuar a avaliar — a credibilidade das marcas.
1. O benefício da dúvida é um ativo financeiro
Reputação não é simpatia, nem “estar bem visto”. Para uma seguradora, reputação é risco financeiro reduzido.
Quando uma seguradora tem boa reputação:
- Crises pequenas morrem em 24-48h se houver explicação rápida e transparente;
- Clientes, media e reguladores concedem o benefício da dúvida;
- Bancos e investidores aceitam condições melhores, porque o risco percebido é menor.
Nas palavras de Salvador da Cunha, a boa reputação funciona como seguro de vida em contexto de crise. Para uma companhia que vende seguros, esta metáfora é particularmente dura: se não protege a sua própria marca, está a expor o seu maior ativo.
O que isto significa para seguradoras portuguesas
Numa seguradora, a reputação pesa diretamente em três frentes:
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Subscrição e pricing
Uma crise de confiança pode obrigar a:- Rever prémios em alta para compensar risco reputacional;
- Perder negócio corporate e parcerias bancárias;
- Suportar mais sinistralidade fraudulenta porque “a seguradora merece”.
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Custo de capital
Investidores institucionais e bancos olham cada vez mais para reputação, ESG e governance. Uma seguradora bem percecionada:- Negocia spreads mais baixos;
- Tem mais facilidade em captar capital para crescer ou consolidar;
- Entra em mais consórcios e parcerias internacionais.
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Regulador e supervisão
Quando a reputação é sólida, o regulador tende a acreditar na boa fé da empresa nos primeiros momentos de um incidente. Não é carta branca, mas reduz a agressividade inicial do escrutínio.
Em 2025, numa altura em que a IA já entra em pricing, deteção de fraude e scoring de risco, ignorar o risco reputacional é deixar um buraco gigante no modelo de risco integrado da companhia.
2. O que é, afinal, reputação de uma seguradora?
Reputação não é só propósito, campanhas institucionais ou ter um bom “claim” publicitário. É o conjunto de perceções mensuráveis de todos os stakeholders: clientes, mediadores, colaboradores, regulador, media, investidores, parceiros tecnológicos.
Para empresas seguradoras, faz sentido olhar para a reputação em pelo menos sete dimensões:
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Produtos e serviços
- Clareza das coberturas
- Facilidade de sinistro e tempo de resposta
- Relação qualidade-preço
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Inovação
- Uso responsável de IA em pricing e fraude
- Lançamento ágil de novos produtos (ciber, clima, on-demand)
- Parcerias com insurtechs nacionais
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Ambiente de trabalho (workplace)
- Capacidade de atrair atuários, cientistas de dados, peritos de risco
- Clima interno em momentos de reestruturação e automação
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Governance
- Claridade das políticas de IA ética
- Gestão de conflitos de interesse com mediadores e parceiros
- Cumprimento robusto de RGPD, IDD e Solvência II
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Sustentabilidade e responsabilidade social (ESG)
- Papel da seguradora na transição climática (subscrição de riscos verdes vs. castigos a setores marrons)
- Inclusão financeira e proteção de populações vulneráveis
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Liderança
- Perfil público do CEO e do C‑suite: low profile estratégico ou silêncio total?
- Capacidade de comunicar em crises sem alimentar o fogo
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Performance financeira e solidez
- Menos foco em lucro trimestral, mais em solidez de longo prazo
- Perceção de estabilidade junto de clientes que fazem contratos de 10, 20 anos
O erro típico? Confundir comunicação com reputação. A newsletter interna, o post no LinkedIn ou a campanha de employer branding são ferramentas. A reputação é o resultado das perceções construídas ao longo do tempo.
3. IA, SEO e o novo campo de batalha da reputação
Há uma frase da entrevista que devia estar colada na parede de qualquer diretor de marketing de uma seguradora portuguesa:
“As empresas vão ter de começar a falar para pessoas e para máquinas, para algoritmos.”
Com a IA generativa, já não é só o Google que interessa. Em 2025, os portugueses mais novos pesquisam sobre seguros e sinistros em:
- TikTok
- ChatGPT
- Perplexity
- Ferramentas de comparação com IA embutida
Os resultados que estes sistemas mostram não são os mesmos do Google. E vão buscar muitas respostas a conteúdo de autoridades: media, regulador, estudos, relatórios, documentos públicos da seguradora.
O que muda para a reputação digital das seguradoras
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SEO clássico deixou de chegar
O investimento em SEO on-page e blog corporativo continua útil, mas não chega. Os modelos de IA precisam de:- Conteúdos claros, consistentes e públicos sobre produtos, política de sinistros, IA e ética;
- Backlinks e citações em meios credíveis (earned media);
- Dados estruturados e documentos técnicos bem escritos.
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GEO: otimização para motores de busca com IA
Na prática, uma seguradora que quer controlar a sua reputação em motores de IA tem de:- Publicar FAQs extensas, em português, sobre temas sensíveis (exclusões, IA no pricing, proteção de dados);
- Explicar com detalhe, mas em linguagem clara, como usa modelos preditivos, que dados recolhe e como evita discriminação;
- Alinhar o que diz no site, nas condições contratuais, nos comunicados e nas redes sociais. Incoerência é o maior erro.
- Crises em ambiente de IA
Uma crise de reputação hoje não vive só na imprensa e no X. Vive, sobretudo, no histórico que os modelos vão continuar a ler. Se a seguradora não reage:- Fica cristalizada uma versão negativa;
- O modelo continua a citá-la durante meses ou anos;
- O “benefício da dúvida” desaparece também nas respostas geradas por IA.
Aqui, a IA não é só ameaça. Pode ser usada ativa e preventivamente pela seguradora:
- Para monitorizar em tempo real o que motores de IA estão a dizer da marca;
- Para testar cenários de crise e respostas de comunicação;
- Para priorizar temas críticos de reputação com base em padrões de pesquisa dos clientes.
4. CEOs portugueses: entre o silêncio e o exagero
No setor segurador, o perfil do CEO em Portugal segue o padrão descrito por Salvador da Cunha: muito low profile ou perigosamente high profile.
- O ultra low profile não protege ninguém. Quando a crise chega, o mercado não conhece o rosto, não há relação criada, não há “benefício da dúvida” pessoal.
- O ultra high profile transforma a marca num monólogo: tudo passa por uma pessoa. Se algo corre mal, a empresa inteira leva com o impacto do erro individual.
A inveja social, a cultura de evitar mostrar sucesso e o medo de expor a família são reais. Mas a função de CEO de uma seguradora, sobretudo quando há IA, dados sensíveis e decisões automáticas envolvidas, exige outra postura:
- Exposição equilibrada, focada em temas relevantes (governance, inovação responsável, proteção do cliente);
- Separação clara entre vida pessoal e papel institucional;
- Capacidade de assumir erros e liderar a resposta em crise.
Para seguradoras portuguesas que querem crescer com IA, faz sentido profissionalizar a presença pública do CEO:
- Plano anual de temas: IA e ética, ciber-risco, envelhecimento da população, resiliência climática;
- Treino de media training orientado a crises digitais e perguntas sobre algoritmos;
- Conteúdo pensado tanto para pessoas como para máquinas (entrevistas, artigos de opinião, relatórios).
5. Como trabalhar reputação de forma estratégica com IA
A maior crítica de Salvador da Cunha é clara: os gestores sabem que a reputação é relevante, mas fazem pouco de forma estratégica e organizada. No contexto da IA para seguradoras, trabalhar reputação tem três etapas muito práticas.
5.1 Medir perceções com rigor
Não dá para gerir o que não se mede. Uma seguradora pode (e deve) combinar:
- Inquéritos de reputação a clientes, mediadores, colaboradores, parceiros e regulador (quando possível, via perceções indiretas);
- Análise de sentimento em redes sociais e media com ferramentas de IA;
- Mapas de calor de temas: o que mais aparece associado à marca? Preço? Sinistros lentos? Tecnologia? Confiança?
O objetivo é simples: mapear o desfasamento entre o que a empresa é, o que quer ser e o que os stakeholders percecionam.
5.2 Definir uma ambição clara de reputação
Se a seguradora quer ser percecionada como:
- Inovadora com IA → terá de mostrar casos concretos de automação responsável, explicabilidade de modelos, auditorias éticas, pilotos com universidades ou centros de competência em Portugal.
- Excelente local para trabalhar → terá de investir em formação em dados, planos de requalificação para quem é impactado pela automação, políticas claras de “IA como apoio, não substituto cego”.
- Comprometida com sustentabilidade → terá de rever política de subscrição, reforçar produtos para riscos climáticos, mostrar números de impacto, não apenas campanhas.
Querer comunicar o que ainda não é, sem fazer o trabalho de casa, é a receita perfeita para crises. A famosa necessidade de walk the talk não é frase feita: é requisito de sobrevivência num mundo hiperconectado.
5.3 Usar IA para fazer a ponte entre realidade e perceção
Aqui entra a parte prática da inteligência artificial para seguradoras portuguesas.
Alguns exemplos concretos de aplicação:
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Mapeamento inteligente de stakeholders
IA para identificar quem realmente influencia a reputação da seguradora em Portugal:- associações de consumidores;
- comunidades de mediadores em grupos privados;
- criadores de conteúdo de finanças pessoais;
- líderes de opinião em cibersegurança ou saúde.
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Conteúdo orientado a pessoas e algoritmos
Utilizar IA generativa para:- Estruturar respostas claras a perguntas complexas sobre coberturas, exclusões, dados pessoais;
- Garantir consistência entre documentos legais, FAQs públicas e comunicação comercial;
- Produzir versões otimizadas para motores de IA, com linguagem direta, factual, fácil de citar.
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Simulação de crises
Antes de lançar um novo modelo de pricing com IA, testar cenários:- “Se amanhã sair uma notícia sobre discriminação algorítmica, que perguntas vão aparecer no ChatGPT e nos media?”
- “Que respostas teríamos? Onde estão as incoerências?”
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Alertas de incoerência
Integrar IA para comparar automaticamente:- o que a seguradora promete em campanhas;
- o que está nas condições gerais;
- o que os clientes relatam no atendimento e nas redes.
Sempre que a diferença é grande, há ali uma bomba-relógio reputacional.
6. Próximo passo: tratar reputação como tratam sinistros
A realidade é simples: a reputação de uma seguradora portuguesa em 2025 é um risco técnico que pode e deve ser gerido com a mesma disciplina que um ramo automóvel ou saúde.
Quem integrar IA neste processo, em vez de a ver apenas como ferramenta de eficiência, vai ganhar vantagem em várias frentes:
- Atrai talento que quer trabalhar com dados e propósito claro;
- Convence reguladores e parceiros de que sabe o que está a fazer com algoritmos;
- Constrói o tal “seguro de vida reputacional” que oferece benefício da dúvida quando, inevitavelmente, algo falhar.
Se o seu objetivo para 2026 é acelerar a transformação digital da seguradora sem explodir o risco reputacional, o caminho é este: medir perceções, definir ambição, alinhar ações — e usar IA como motor de inteligência, não como desculpa para automatizar mais do mesmo.
A pergunta que fica é direta: se amanhã uma crise estourar no TikTok e nos motores de IA sobre a sua seguradora, que versão da história é que os algoritmos vão contar?