XTB aposta em cashback, opções e cripto. O que isto ensina às seguradoras portuguesas sobre IA, automação, personalização e o futuro dos seguros.
Quando o cashback encontra os seguros e a IA
Em 2026, a XTB quer pôr os seus clientes a negociar criptomoedas em direto, a usar cashback e a operar opções com a mesma facilidade com que hoje compram uma ação americana. Isto não é só mais uma lista de produtos financeiros. É um sinal claro: quem fica parado, perde o cliente.
Este movimento no setor financeiro interessa — e muito — às seguradoras portuguesas. Porque mostra qual é o novo patamar de exigência: experiência simples, personalização em tempo real e automação quase total. Exatamente o tipo de transformação que a inteligência artificial (IA) torna possível no setor dos seguros.
Neste artigo, pego no exemplo da XTB e mostro como a mesma lógica de inovação pode (e deve) ser aplicada às seguradoras em Portugal, desde a subscrição automática ao gestão de sinistros em minutos, passando por produtos tão claros e atrativos quanto um programa de cashback.
O que a XTB está a fazer – e porque é um sinal para seguradoras
A partir da notícia do Jornal de Negócios, a XTB traça para 2026 três prioridades:
- Negociação direta de criptomoedas
- Programas de cashback
- Operações de opções (produtos derivados mais sofisticados)
Mais do que a lista em si, o que importa é o padrão:
- Diversificação de produto – responde a perfis de risco e interesses diferentes.
- Foco na experiência do cliente – cashback é puro “valor tangível” para o utilizador.
- Uso intensivo de tecnologia – gerir cripto, opções e cashback sem tecnologia avançada é impossível.
As seguradoras portuguesas enfrentam hoje exatamente o mesmo tipo de desafios:
- Clientes mais informados, a comparar preços e coberturas no telemóvel.
- Pressão para reduzir custos operacionais e tempos de resposta.
- Exigência regulamentar elevada (supervisão, Solvência II, proteção de dados).
A diferença é que, no setor segurador, a IA já permite dar o salto que a XTB está a preparar nos mercados: automatizar, personalizar e tornar a experiência do cliente muito mais próxima do que ele já tem na banca digital, nos fintechs e nas plataformas de investimento.
Do cashback às apólices dinâmicas: o que a IA já consegue fazer
Quem usa uma app de trading com cashback percebe a lógica: quanto mais usa, mais benefícios diretos recebe. Nas seguradoras, a lógica pode ser ainda mais poderosa – porque está ligada a comportamento e risco real.
Exemplos práticos para seguradoras portuguesas
Com IA aplicada a seguros, é possível criar produtos que se inspiram diretamente nesta inovação financeira:
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“Cashback” de sinistralidade: clientes com boa condução (medida por telemática) recebem no fim do ano:
- desconto automático na renovação do seguro automóvel; ou
- crédito para outros produtos (casa, saúde, proteção pessoal).
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Apólices dinâmicas: prémios ajustados quase em tempo real com base em dados:
- quilómetros efetivamente percorridos;
- hábitos de condução (travagens bruscas, velocidades, horários);
- utilização da casa (sensores, IoT, alarmes conectados).
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Programas de fidelização inteligentes: a IA identifica padrões de utilização e cria ofertas altamente segmentadas, por exemplo:
- famílias jovens com filhos pequenos → seguros de saúde com pediatria reforçada e descontos em parceiros;
- nómadas digitais → seguros viagem + saúde internacional + proteção cibernética.
A diferença entre isto e as campanhas clássicas? A IA permite ajustar a oferta cliente a cliente, em vez de usar apenas grandes segmentos genéricos.
Automação: do clique na XTB ao sinistro pago em minutos
A XTB quer que o cliente possa:
- abrir posições em cripto diretamente;
- receber cashback sem burocracia;
- operar opções sem telefonemas nem papel.
O equivalente nas seguradoras é simples de descrever, mas desafiante de executar: submeter um sinistro e ter uma decisão em minutos, não em semanas.
Onde a IA entra na automação de seguros
A IA consegue automatizar, com segurança e controlo, grande parte do ciclo de vida de uma apólice:
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Subscrição automática (underwriting)
- Algoritmos analisam dados do cliente (histórico, questionário, dados públicos relevantes) e classificam o risco.
- Proposta de preço gerada em segundos, com regras definidas pelos atuários e regulada pela seguradora.
- Casos fora do padrão são escalados para um perito humano.
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Gestão de sinistros com IA
- O cliente reporta um acidente via app, envia fotos ou vídeo.
- Modelos de visão computacional avaliam danos, estimam custo e cruzam com dados de oficinas e históricos.
- Se o caso estiver dentro de determinados parâmetros, o sistema aprova automaticamente o pagamento ou o encaminhamento para a oficina.
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Atendimento com assistentes virtuais especializados
- Chatbots com IA generativa, treinados em linguagem jurídica e termos técnicos de seguros, ajudam o cliente 24/7:
- a perceber coberturas;
- a acompanhar o estado de um sinistro;
- a obter simulações personalizadas.
- Chatbots com IA generativa, treinados em linguagem jurídica e termos técnicos de seguros, ajudam o cliente 24/7:
O impacto?
- Redução brutal de tempo médio de resposta.
- Menos erros manuais.
- Equipas humanas focadas nos casos complexos, onde a empatia e julgamento humano são críticos.
No fundo, é a mesma lógica do trading automatizado aplicada aos seguros: a IA trata do repetitivo, as pessoas tratam do excecional.
Personalização: se a XTB conhece o investidor, a seguradora tem de conhecer o segurado
A XTB olha para o comportamento dos seus clientes: quais os mercados mais usados (Lisboa vs EUA), que instrumentos preferem (ações, CFD, cripto), quanto risco suportam. A partir daí, ajusta oferta, conteúdos e funcionalidades.
Nas seguradoras, a personalização com IA é ainda mais crítica porque tem impacto direto na perceção de justiça do preço e da cobertura.
O que a IA permite personalizar hoje
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Preços mais justos e transparentes
- Modelos de scoring consideram dezenas (ou centenas) de variáveis de risco, desde histórico de sinistros a dados comportamentais.
- Em vez de “um preço médio para todos”, cada cliente recebe um prémio alinhado com o seu perfil real.
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Coberturas à medida de contextos portugueses
- Zonas urbanas vs rurais, regiões com maior risco de incêndio, cheias ou roubo.
- IA cruza dados geoespaciais, meteorológicos e históricos para sugerir coberturas mais relevantes:
- na margem sul do Tejo, reforço contra cheias;
- em zonas florestais, cobertura mais robusta para fogo.
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Momento certo, mensagem certa
- IA identifica “eventos de vida” e comportamentos que indicam novas necessidades:
- compra de casa → oportunidade para multirriscos + vida;
- nascimento de filhos → saúde familiar + poupança de longo prazo;
- mudança de emprego → seguros de rendimento e proteção financeira.
- IA identifica “eventos de vida” e comportamentos que indicam novas necessidades:
O objetivo não é “empurrar produtos”, mas estar no momento certo com a proteção certa, tal como uma boa app financeira sugere investimentos coerentes com o perfil e o ciclo de vida do utilizador.
Criptomoedas, risco e o papel da IA na gestão de fraudes
A aposta da XTB na negociação direta de criptomoedas mostra outra realidade:
- os ativos são mais voláteis,
- os riscos operacionais e de fraude aumentam,
- e o escrutínio regulatório aperta.
No mundo dos seguros, o paralelo é direto: quanto maior a digitalização (subscrição online, sinistros via app, pagamentos instantâneos), maior a exposição a fraude e abuso de sistemas.
A boa notícia é que a IA não é só o motor da automação; é também a principal ferramenta de defesa.
IA para deteção de fraude em seguros
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Análise em tempo real de padrões de sinistros:
- repetição de reclamações com características suspeitas;
- redes de pessoas, oficinas, prestadores e mediadores com comportamentos atípicos;
- geolocalização incongruente com o evento descrito.
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Modelos de anomalia:
- avaliam cada novo sinistro contra milhões de casos passados;
- atribuem uma probabilidade de fraude;
- encaminham automaticamente para equipas de investigação quando o risco é elevado.
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Integração com dados externos (sempre com respeito pelo RGPD):
- registos públicos;
- bases de dados de fraudes conhecidas;
- informação de parceiros (bancos, oficinas, clínicas).
Tal como nas criptomoedas, onde o risco de lavagem de dinheiro e esquemas fraudulentos obriga a monitorização sofisticada, as seguradoras portuguesas precisam de IA para proteger margens e garantir sustentabilidade.
Como uma seguradora portuguesa pode começar esta transformação
Muitas seguradoras olham para projetos de IA como algo “grande demais”. A realidade? As iniciativas que funcionam começam pequeno, são bem delimitadas e ligam tecnologia diretamente a objetivos de negócio.
Passos práticos
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Escolher um caso de uso com impacto visível
- Subscrição automática de seguros auto simples.
- Triagem de sinistros de baixo valor (por exemplo, pequenos danos em habitação).
- Assistente virtual para dúvidas frequentes sobre coberturas.
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Criar uma equipa mista (negócio + dados + TI)
- Alguém de negócio que define objetivos e métricas (tempo de resposta, custo por sinistro, NPS).
- Especialistas de dados/IA que constroem modelos.
- TI para garantir integração com sistemas core.
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Garantir governação e conformidade
- Rever modelos à luz do RGPD e da futura regulação europeia de IA.
- Implementar explicabilidade mínima: conseguir justificar preços, decisões de aceitação/recusa, alertas de fraude.
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Pilotar, medir, escalar
- Lançar primeiro para um segmento reduzido (por exemplo, novos clientes de uma região).
- Medir resultados com rigor.
- Ajustar modelos antes de escalar para todo o portefólio.
É este tipo de abordagem pragmática que está a diferenciar empresas em vários setores no contexto da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”. As seguradoras não fogem à regra.
Porque é que isto tudo é urgente para as seguradoras portuguesas
Enquanto a XTB planeia 2026 com novos produtos, apenas cerca de 11,5% das empresas portuguesas usam IA de forma significativa (dados recentes do contexto europeu). Isto significa duas coisas:
- há muito espaço para ganhar vantagem competitiva;
- quem adiar a decisão vai correr atrás do prejuízo.
No setor segurador, a pressão vem de vários lados ao mesmo tempo:
- clientes a comparar seguros em segundos em comparadores online;
- bancos e fintechs a oferecer seguros integrados nas suas apps;
- reguladores a exigir processos mais robustos e transparentes.
A boa notícia é que a tecnologia já está madura. O que falta, na maior parte dos casos, é clareza de visão e coragem para começar.
Há um paralelo evidente com o que está a acontecer na XTB:
Quem conseguir unir inovação em produto, experiência fluida e automação inteligente, fica no topo da lista de escolhas dos clientes.
Para uma seguradora portuguesa em 2026, isso significa:
- sinistros simples resolvidos em minutos;
- preços e coberturas que fazem sentido para cada pessoa;
- programas de fidelização tão claros quanto um bom cashback;
- equipas internas libertas de tarefas repetitivas para se focarem no cliente.
A IA não é um luxo tecnológico. É a ferramenta prática que torna tudo isto possível.
Se a XTB já está a redesenhar a forma como os portugueses investem, quem redesenhar a forma como os portugueses se protegem com seguros vai liderar a próxima década. A pergunta já não é “se” a IA vai transformar o setor, mas que seguradoras querem estar na frente quando isso acontecer.