As startups de IA da UPTEC no Web Summit 2025 mostram como empresas portuguesas já estão a cortar custos e aumentar receita com soluções prontas a usar.
IA portuguesa em destaque no Web Summit 2025
Em 2025, mais de uma dezena de startups ligadas à UPTEC levou Inteligência Artificial portuguesa ao palco global do Web Summit, em Lisboa. Não foi só “visibilidade internacional”: foi um catálogo vivo de como a IA já está a gerar receita, eficiência e novos modelos de negócio para empresas portuguesas — de restaurantes a hotéis, indústrias, educação, energia ou setor público.
Para quem gere um negócio em Portugal, isto interessa por uma razão simples: a IA deixou de ser tema teórico. As soluções que estavam no pavilhão da UPTEC já estão em produção, a poupar custos, a aumentar vendas e a abrir mercados lá fora. Ou seja, são sinais muito concretos do que PMEs e grandes empresas portuguesas podem fazer hoje, não daqui a cinco anos.
Neste artigo da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, vou pegar nos casos das startups da UPTEC presentes no Web Summit 2025 e transformá-los em algo prático para si: o que cada solução faz, que problemas resolve e que lições pode tirar para a sua própria empresa — mesmo que ainda esteja a dar os primeiros passos na IA.
1. O que mostram as startups da UPTEC sobre a IA em Portugal
A principal mensagem do stand da UPTEC no Web Summit 2025 é clara: a IA em Portugal já é profundamente vertical e orientada a resultados. Não estamos a falar de “IA genérica”, mas de soluções muito focadas em setores específicos:
- restauração e hotelaria
- energia e edifícios
- agroalimentar e cereais
- imobiliário
- retalho e pricing dinâmico
- saúde (gastroenterologia)
- educação
- sustentabilidade e clima
Isto é importante porque:
As empresas portuguesas não precisam de inventar algoritmos. Precisam de pegar em IA aplicada ao seu setor e integrá-la nos processos do dia a dia.
O ecossistema da UPTEC mostra exatamente isso: tecnologia pesada de IA por baixo, envolvida em produtos simples à superfície, que resolvem problemas muito concretos: previsões de vendas, redução de desperdício, aumento de conversão, cumprimento do RGPD, melhor experiência do cliente.
2. IA aplicada a setores tradicionais: da cozinha ao campo
A forma mais rápida de perceber o potencial da IA para empresas portuguesas é olhar para setores que todos conhecemos — restauração, hotelaria, agricultura, edifícios — e ver como estas startups já estão a atuar.
Restauração: prever vendas com 92% de precisão
A ADECI coloca IA ao serviço dos restaurantes, através de uma plataforma de previsão de vendas que combina histórico, sazonalidade, eventos, meteorologia e outros fatores externos. O resultado? previsões de vendas com pelo menos 92% de precisão.
O que isto significa na prática para um restaurante ou grupo de restauração:
- menos desperdício alimentar, ao ajustar compras ao que realmente se vai vender
- escalas de staff mais ajustadas, com menos horas extra e menos falta de pessoal em picos
- melhor planeamento de campanhas (ex.: saber quando reforçar take-away ou esplanada)
Se gere qualquer negócio com forte componente de procura diária (cafés, padarias, supermercados de bairro), este tipo de IA de previsão de vendas é das aplicações com retorno mais rápido.
Hotelaria: poupar água nos duches sem estragar a experiência
A Savearth ataca um tema que começa a pesar seriamente nos custos dos hotéis: desperdício de água nos duches. Com uma solução plug-and-play suportada em IoT, machine learning e gamificação, os hotéis conseguem reduzir consumo de água e custos, envolvendo o hóspede numa experiência positiva.
Porque é que isto interessa ao setor hoteleiro em Portugal:
- água e energia são custos fixos relevantes numa unidade hoteleira
- a pressão regulatória e de ESG está a aumentar
- clientes — em especial estrangeiros — valorizam práticas sustentáveis
Aqui temos IA ao serviço de sustentabilidade com impacto direto na conta de exploração, e não apenas como “greenwashing”.
Agricultura e agroalimentar: cereais mais eficientes e sustentáveis
A Seedsight atua na cadeia de valor dos cereais, combinando IA, analítica avançada, fotónica e IoT para fornecer insights em tempo real: qualidade do grão, rendimento esperado, perdas, oportunidades de melhoria.
Para cooperativas, indústrias de moagem, produtores e transformadores, isto traduz-se em:
- menos desperdício na produção e transformação
- melhores decisões de compra e venda
- maior previsibilidade da qualidade final do produto
Num país com forte tradição agrícola, soluções deste tipo mostram como a IA para empresas portuguesas do setor primário já é uma realidade e não apenas tema académico.
Edifícios e energia: gastar menos, sem perder conforto
A Bandora usa IA para melhorar a eficiência energética e a gestão de recursos em edifícios. Monitoriza consumos, ajusta parâmetros e ajuda a reduzir custos mantendo (ou melhorando) o conforto dos ocupantes.
Numa altura em que os custos de energia são uma preocupação constante para empresas com escritórios, fábricas, hotéis ou hospitais, este tipo de solução é particularmente atraente porque:
- mexe num dos maiores centros de custo operacionais
- não exige mudar de fornecedor de energia
- gera dados valiosos para decisões de investimento (por exemplo, isolamento, AVAC, painéis solares)
3. IA para aumentar receita: vendas, marketing e pricing inteligente
Nem toda a IA serve para cortar custos. Algumas das soluções da UPTEC focam-se claramente em aumentar receita e margem, algo crítico para PMEs num contexto económico exigente.
Influencer marketing com accountability
A Nixar usa IA para ajudar empresas a gerir campanhas de influencer marketing, do início ao fim, e cobra apenas uma percentagem das vendas geradas. A plataforma encontra os melhores criadores para cada marca, com base em:
- público-alvo e mercado
- estética e estilo de conteúdo
- performance esperada
O ponto forte aqui é transformar um canal muitas vezes visto como “difícil de medir” em algo com retorno claramente atribuível, o que interessa tanto a PMEs como a grandes marcas portuguesas que trabalham com influencers.
Pricing dinâmico: encontrar mais 1% a 5% de margem
A Tilect oferece uma plataforma de pricing suportada em IA capaz de encontrar margens adicionais entre 1% e 5%, com configuração em poucas horas. A solução prevê procura, simula preços e encontra o ponto ótimo entre volume e margem.
Para retalho, e-commerce, distribuição ou indústria, isto tem um impacto enorme porque:
- preços são uma das alavancas mais poderosas de lucro
- pequenas melhorias percentuais em margem podem representar centenas de milhares de euros por ano
- fazer pricing “a olho” já não chega, sobretudo em mercados competitivos
PropTech: relacionar melhor compradores e profissionais
A PropWise posiciona-se como plataforma PropTech que aproxima profissionais do imobiliário e compradores, com ferramentas avançadas de pesquisa, gestão de transações e colaboração.
Aqui, a IA entra na forma como recomenda imóveis, cruza preferências, histórico, localização, preço e outros fatores para aumentar a taxa de acerto entre o que o comprador quer e o que o mercado tem. Resultado: ciclos de venda mais curtos e melhor experiência para ambas as partes.
4. IA para eficiência operacional, compliance e tomada de decisão
Outra linha forte das startups da UPTEC é o uso de IA para reduzir risco, ganhar visibilidade e automatizar tarefas complexas dentro das empresas.
Metaverso industrial e gémeos digitais em 3D
A Infinite Foundry desenvolveu uma plataforma de metaverso industrial baseada em gémeos digitais 3D. Combina dados em tempo real de múltiplas fontes com um modelo 3D preciso, replicando virtualmente o que está a acontecer na fábrica ou unidade industrial.
Benefícios típicos para uma indústria:
- monitorização em tempo real sem estar fisicamente no local
- simulação de cenários antes de alterar processos
- identificação de gargalos e falhas mais rapidamente
Para empresas industriais portuguesas, esta abordagem é uma forma concreta de Industria 4.0 com IA, focada em decisões mais rápidas e seguras.
Segurança, RGPD e privacidade como vantagem competitiva
A TekPrivacy trabalha a área de privacidade e proteção de dados, ajudando organizações a cumprir o RGPD e a usar dados de forma segura e ética. Com a crescente adoção de IA, isto é crítico: sem uma base sólida de proteção de dados, qualquer projeto de IA pode tornar-se um risco legal e reputacional.
O lado positivo? Empresas que tratam a privacidade como pilar estratégico podem usar isso como diferenciador comercial, sobretudo em setores sensíveis como saúde, banca, seguradoras e setor público.
Análise inteligente de software e prevenção de vulnerabilidades
A Interpretica desenvolve ferramentas de análise estática inteligente, independentes de linguagem, capazes de verificar soluções de software completas (com todas as dependências e subprojetos) num único contexto. A ferramenta deteta defeitos subtis e vulnerabilidades entre módulos, identificando violações de arquitetura antes de se tornarem problemas reais.
Se a sua empresa desenvolve software crítico — interno ou para clientes — a mensagem é direta: usar IA para encontrar bugs e falhas de segurança antes de entrarem em produção é hoje um fator de competitividade e confiança.
5. Pessoas, educação e comunicação: IA centrada no utilizador
A série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas” não é só sobre máquinas; é sobre pessoas. Algumas das startups da UPTEC presentes no Web Summit 2025 mostram bem como a IA pode apoiar equipas, estudantes e clientes.
Educação: avaliação digital que poupa tempo aos professores
A Intuitivo, vencedora da PITCH Competition do Web Summit 2024, oferece uma plataforma de avaliação digital que melhora a produtividade dos professores e a experiência dos alunos. Centenas de instituições já a usam para digitalizar testes e exames.
Os ganhos típicos:
- correções mais rápidas e consistentes
- redução de tarefas administrativas
- analytics sobre o desempenho dos alunos
Para escolas, universidades e entidades certificadoras portuguesas, isto é uma forma pragmática de usar IA para apoiar quem está na linha da frente da educação.
Comunicação sem barreiras linguísticas
A SentiVue torna chamadas, vídeos e eventos compreensíveis em múltiplas línguas através de agentes de IA, ajudando operadores, serviços públicos e empresas a atender clientes sem barreiras linguísticas.
Num país com turismo forte, emigração e empresas exportadoras, não depender apenas do inglês é uma vantagem real. A IA aqui funciona como tradutor e mediador em tempo real.
Soft skills e equipas de primeira linha
Duas soluções atacam diretamente a dimensão humana nas organizações:
- WiseWorld: um coach de soft skills suportado em IA. Os utilizadores interagem com personagens virtuais, recebem pontuações às competências comportamentais e sugestões personalizadas de melhoria.
- Verbo: uma plataforma de comunicação push-to-talk para equipas de linha da frente (construção, segurança, transporte, saúde rural), que combina 5G, cloud e IA de voz para permitir colaboração por voz, instantânea e inteligente.
Numa altura em que é cada vez mais difícil recrutar e reter talento, investir em competências humanas apoiadas pela IA é uma estratégia que começa a separar as empresas mais avançadas das restantes.
6. O que a sua empresa pode tirar daqui: próximos passos práticos
O Web Summit 2025 mostra que a IA para empresas portuguesas já cobre praticamente toda a cadeia de valor: previsão, operação, marketing, compliance, educação, sustentabilidade. A questão já não é “se” deve usar IA, mas por onde começar.
Algumas pistas práticas, inspiradas nestas startups da UPTEC:
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Escolha um problema muito concreto.
- excesso de desperdício (como na restauração ou hotelaria)
- falta de visibilidade operacional (como na indústria)
- baixa eficiência de campanhas (como no influencer marketing)
- margens apertadas (como o pricing dinâmico da Tilect)
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Procure soluções já feitas antes de tentar desenvolver do zero.
- muitas das startups que vimos estão prontas para integrar em PMEs
- desenvolvimento interno só faz sentido quando há escala e equipa técnica preparada
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Garanta base de dados e compliance.
- organize dados operacionais, de vendas, de clientes
- trate RGPD e privacidade como requisito de projeto, não como pós-nota
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Comece pequeno, mas com métricas claras.
- defina objetivos: reduzir custos em X%, aumentar vendas em Y%, poupar Z horas de trabalho
- faça pilotos de 3 a 6 meses, com avaliação objetiva
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Prepare as pessoas para trabalhar com IA, não contra ela.
- envolva equipas desde o início
- invista em formação prática, como exemplificado por Intuitivo ou WiseWorld
Este artigo encaixa na série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas” com uma função muito específica: mostrar que já existem soluções nacionais, testadas, a resolver problemas reais. Se a sua empresa atua em qualquer um destes setores, o passo seguinte lógico é avaliar onde a IA pode ter maior impacto nos próximos 6 a 12 meses.
A verdade é simples: quem começar agora vai aprender mais depressa, errar mais barato e chegar primeiro aos ganhos estruturais que estas startups da UPTEC já estão a provar que são possíveis.