Executivos priorizam cibersegurança e IA. Veja como um gabinete de contabilidade em Portugal pode usar IA com segurança, proteger dados e ganhar produtividade.
Cibersegurança e IA: o que mais assusta (e atrai) os decisores
69% dos executivos a nível global acreditam que vão crescer em receita nos próximos 2-3 anos. Em paralelo, 43% colocam cibersegurança como principal área de investimento e 31% têm a integração da inteligência artificial (IA) no topo da agenda.
Este dado, vindo de um estudo recente da Protiviti e da NC State University, resume bem o momento: as empresas querem crescer com tecnologia, mas estão seriamente preocupadas com os riscos digitais que vêm no mesmo pacote. Para um gabinete de contabilidade em Portugal, isto não é teoria — é o dia a dia: dados sensíveis de clientes, prazos fiscais apertados, equipas pequenas e uma pressão enorme para automatizar com IA.
Neste artigo da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, vou focar-me no contexto mais crítico para os gabinetes de contabilidade:
- por que razão cibersegurança e IA são hoje os dois lados da mesma moeda;
- quais são os principais riscos sentidos por executivos em todo o mundo;
- o que é que isto significa, na prática, para gabinetes de contabilidade portugueses;
- e como transformar o risco em oportunidade com uma estratégia de IA segura e controlada.
O que mais preocupa os executivos: risco digital em primeiro lugar
A mensagem do estudo é clara: as maiores preocupações para os próximos 2-3 anos são digitais.
Os executivos identificam como riscos principais:
- Ameaças de cibersegurança (ataques, ransomware, phishing, fugas de dados);
- Risco de terceiros (fornecedores, software, parceiros);
- Adoção de tecnologias emergentes, em especial IA generativa;
- Lacunas de competências na força de trabalho;
- Sistemas legados e falhas operacionais.
E onde vão investir mais?
- Cibersegurança vem em primeiro lugar;
- seguido de melhoria de processos de negócio;
- modernização de infraestruturas;
- privacidade e proteção de dados;
- e experiência do cliente.
Para um gabinete de contabilidade português, isto é um espelho bastante fiel:
- trabalha com dados fiscais, financeiros e pessoais altamente sensíveis;
- depende cada vez mais de software na cloud (contabilidade, faturação, folha de salários, IRS/IRC, comunicação à AT);
- começa a experimentar ferramentas de IA para automatizar tarefas repetitivas, relatórios ou apoio ao cliente.
Se estas áreas falham, o impacto não é apenas técnico. É reputacional, legal e financeiro.
Por que a cibersegurança já não é “coisa de informáticos”
A realidade é simples: cibersegurança já não é um tema técnico — é um tema de gestão.
O estudo mostra que conselhos de administração e C-level estão muito mais atentos porque:
- os administradores sentam-se em vários conselhos e veem de perto incidentes graves noutras empresas;
- ataques como ransomware e phishing avançado (agora com IA generativa) tornaram-se rotina;
- clientes começam a exigir garantias explícitas de proteção dos seus dados.
Num gabinete de contabilidade em Portugal, este salto de “coisa de IT” para “assunto do sócio-gerente” já devia ter acontecido. Porquê?
- Um ataque de ransomware em plena campanha de IRS, IVA ou fecho de contas pode parar a operação.
- Uma fuga de dados pode levar a coimas da CNPD, perda de clientes e danos de reputação difíceis de recuperar.
- O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) responsabiliza diretamente o responsável pelo tratamento — não apenas o fornecedor de tecnologia.
Exemplos concretos aplicados à realidade portuguesa
Cenários que tenho visto repetirem-se:
- Funcionário recebe um email a parecer vir da AT ou da Segurança Social a pedir credenciais — era phishing.
- Gabinete usa uma ferramenta de IA pública para “resumir” um dossiê de cliente e, sem querer, cola dados sensíveis num sistema fora da UE.
- Parceiro de TI subcontrata um serviço na cloud sem avaliar segurança; surge uma vulnerabilidade que expõe ficheiros de clientes.
Nada disto é ficção. E tudo isto é evitável com processos, formação e escolhas tecnológicas certas.
IA nos gabinetes de contabilidade: risco, sim — mas ainda mais oportunidade
Os executivos do estudo olham para IA com um misto de entusiasmo e cautela:
- cerca de 31% já está a integrar IA nas operações;
- outros 31% focam-se em risco de integridade de dados e exposição de cibersegurança ligada à IA.
Ou seja, a IA não é “se” nem “um dia destes”. É agora, e os riscos já são levados a sério.
Onde a IA traz mais valor para gabinetes de contabilidade
Na prática, há áreas onde a IA para gabinetes de contabilidade em Portugal faz diferença imediata:
- Classificação automática de documentos (faturas, recibos, extratos bancários);
- Reconciliação e validações automáticas com alertas inteligentes;
- Geração de rascunhos de relatórios e pareceres a partir de dados contabilísticos;
- Atendimento ao cliente assistido por IA para perguntas frequentes sobre prazos, obrigações fiscais e documentação em falta;
- Análise preditiva simples: risco de incumprimento, necessidades de tesouraria, simulações de cenários fiscais.
Os gabinetes que já estão a testar IA em 2025 relatam ganhos claros:
- menos tempo em tarefas mecânicas;
- menos erros humanos em introdução manual de dados;
- mais capacidade de responder rápido a clientes exigentes;
- libertação de tempo das equipas para consultoria e acompanhamento próximo.
Os riscos específicos da IA na contabilidade
Ao mesmo tempo, a IA introduz riscos adicionais:
- Exposição de dados sensíveis em plataformas de IA públicas (sem controlo de onde os dados são guardados);
- Alucinações de IA: respostas erradas ditas com grande confiança, perigosas em contexto fiscal ou contabilístico;
- Viés e degradação de modelos: decisões enviesadas em scoring de risco ou recomendações financeiras;
- Falta de trilha de auditoria clara para justificar decisões tomadas com apoio de IA;
- Conflitos com o RGPD e com deveres de sigilo profissional.
Por isso, a pergunta certa não é “devemos usar IA?”, mas sim: “como é que usamos IA de forma segura, controlada e alinhada com as nossas responsabilidades profissionais e legais?”
Um plano prático de IA segura para gabinetes de contabilidade portugueses
A boa notícia é que o caminho está a ficar claro. A partir das preocupações dos executivos do estudo e da realidade regulatória em Portugal, faz sentido seguir um plano em 5 pilares.
1. Governança de risco digital ao nível da gestão
A direção do gabinete precisa de assumir, por escrito:
- qual é a apetência de risco aceitável (o que se pode e não se pode fazer com dados de clientes);
- quem decide que ferramentas de IA e software são aprovadas;
- como é feita a avaliação de fornecedores (cibersegurança, RGPD, localização de dados, certificações);
- como se reportam e tratam incidentes de segurança.
Nada disto precisa de ser um manual de 200 páginas. Um documento simples de política interna já muda o jogo.
2. Escolher bem as ferramentas de IA
A escolha de tecnologia tem impacto direto em risco. Alguns critérios-chave:
- Dados alojados na UE ou em provedores que cumpram RGPD de forma transparente;
- Possibilidade de desativar uso dos dados de clientes para treinar modelos públicos;
- Controlo de acessos e permissões por utilizador/equipa;
- Registo de atividades (logs) para saber quem acedeu a quê e quando;
- Funcionalidades de anonimização ou pseudonimização de dados sensíveis.
Para muitos gabinetes, faz sentido optar por soluções de IA específicas para contabilidade e finanças, em vez de depender apenas de ferramentas genéricas abertas ao público.
3. Formação prática e contínua das equipas
A maioria dos incidentes de segurança tem origem humana, não técnica. A formação deve ser:
- curta, recorrente, prática;
- com exemplos reais: emails falsos da AT, logins suspeitos, clientes a enviar dados por canais inseguros;
- com simulações de phishing internas para treinar o olhar crítico;
- com regras simples sobre o que nunca pode ser introduzido em ferramentas de IA públicas.
Quanto à IA, a formação deve mostrar:
- o que a ferramenta faz bem e onde falha;
- que a IA não substitui juízo profissional nem validação técnica;
- como documentar decisões quando há apoio de IA no processo.
4. Processos com IA, não “IA em cima de processos velhos”
Os executivos do estudo colocam melhoria de processos e modernização de infraestruturas logo a seguir a cibersegurança. Faz sentido: se o processo base é frágil, pôr IA em cima só amplifica erros.
Num gabinete de contabilidade, isso significa rever, por exemplo:
- como entram os documentos (email, portal do cliente, upload seguro);
- quem valida o quê, em que etapas;
- que tarefas são candidatas a automatização com IA (extração de dados, classificações, reconciliação);
- como garantir dupla validação humana nos outputs críticos (declarações fiscais, fechos de contas, pareceres).
IA funciona melhor quando está inserida num workflow claro e bem desenhado.
5. Monitorização e melhoria contínua
Os executivos do estudo falam em modelos de IA que degradam ao longo do tempo e em riscos operacionais crescentes. A resposta é tratar IA como algo vivo, não como um projeto que se “implementa e esquece”.
No contexto de um gabinete de contabilidade em Portugal, isto passa por:
- rever periodicamente erros e incidentes ligados a ferramentas de IA;
- atualizar políticas internas com base no que a prática mostra;
- acompanhar mudanças regulatórias (AT, Ordem dos Contabilistas Certificados, CNPD);
- recolher feedback das equipas sobre o que está a funcionar e o que atrapalha.
Talento, imigração e o papel da IA no reforço das equipas
O estudo também aponta um tema sensível: dificuldade em atrair talento, agravada por políticas de imigração mais restritivas em alguns países. A lógica económica é direta: crescimento do PIB = crescimento da força de trabalho + produtividade. Se não há pessoas, é preciso aumentar a produtividade.
Em Portugal, o setor da contabilidade sente este problema há anos:
- escassez de técnicos qualificados;
- jovens menos atraídos por tarefas repetitivas e altamente reguladas;
- pressão salarial em Lisboa e Porto que pesa nas margens dos gabinetes pequenos.
Aqui, a IA não é só uma oportunidade — é quase uma necessidade.
- Automatizar tarefas rotineiras permite fazer mais com equipas mais pequenas.
- Ao tirar “trabalho de robot” das mãos dos técnicos, a IA ajuda a tornar a função mais interessante e estratégica.
- Ferramentas de IA podem apoiar a aceleração da formação de novos elementos, com assistentes que explicam normas, prazos e procedimentos.
Ou seja, para os gabinetes de contabilidade em Portugal, IA bem implementada é uma resposta direta ao problema de talento.
O próximo passo para gabinetes de contabilidade em Portugal
Os dados são claros: os executivos mais atentos não estão a fugir do risco digital, estão a assumi-lo e a usá-lo como alavanca de crescimento. A grande ameaça não é a IA, nem os hackers em abstrato — é a estagnação: continuar a trabalhar como em 2015, num mundo de 2025.
Para um gabinete de contabilidade português, o ponto de partida pode ser simples:
- Fazer um diagnóstico rápido: onde estão hoje os principais riscos digitais e onde a IA pode trazer ganhos rápidos.
- Definir uma política básica de cibersegurança e uso de IA aprovada pela gestão.
- Escolher uma ou duas áreas-piloto para aplicar IA (por exemplo, classificação de documentos e atendimento a clientes) com forte foco em segurança.
- Envolver a equipa desde o início, com formação e feedback contínuo.
Na série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, este artigo liga risco e oportunidade na prática. Nos próximos conteúdos, vamos aprofundar casos concretos de uso de IA em gabinetes de contabilidade portugueses e modelos de decisão para escolher tecnologias com retorno rápido.
A questão para os próximos meses não será “se” os gabinetes vão adotar IA, mas quem o fará com segurança, método e visão de negócio — e quem ficará a tentar recuperar terreno.