Georreferenciação automática: mais rentabilidade por hectare

Inteligência Artificial para Empresas PortuguesasBy 3L3C

Georreferenciação automática, mapas de prescrição e dados de produtividade já estão a aumentar a rentabilidade por hectare na agricultura portuguesa. Veja como aplicar na sua exploração.

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Georreferenciação automática: mais rentabilidade por hectare

A maioria das explorações portuguesas já tem GPS no trator, mas poucas tiram partido real dos dados que as máquinas geram. O resultado? Perdem-se dezenas de euros por hectare em adubo, semente e combustível, todos os anos.

A georreferenciação automática é o ponto de viragem: deixa de se trabalhar “a olho” e passa-se a decidir com base em mapas reais do solo, da produtividade e das necessidades da cultura. É exatamente isto que Arnaldo Caeiro, da Divisão de Máquinas Agrícolas da ACAP, sublinha quando fala dos ganhos enormes de eficiência ao integrar máquinas modernas com dados precisos.

Neste artigo vou mostrar, de forma prática, como a georreferenciação automática e os mapas de prescrição estão a transformar a agricultura de precisão em Portugal, quanto se pode ganhar na prática e por onde começar numa exploração média portuguesa.


O que é, na prática, a georreferenciação automática na agricultura?

Georreferenciação automática é o processo em que cada operação agrícola fica registada com coordenadas GPS, sem o agricultor ter de fazer nada manualmente: o sistema sabe onde está, o que está a aplicar e em que quantidade.

Na agricultura de precisão portuguesa, isto traduz-se em três blocos principais:

  • Localização: o trator, a ceifeira ou o espalhador “sabem” exatamente onde estão no campo.
  • Dados: sensores na máquina medem produtividade, doses de fertilizante, débito de semente, etc.
  • Mapa: o software transforma estes dados num mapa digital (produtividade, solo, adubação, tráfego, etc.).

“A partir de um mapa, de uma cartografia digital do solo, por exemplo num campo de milho, durante a colheita são recolhidos dados de produtividade através de sensores na ceifeira.” – Arnaldo Caeiro

A chave não é só recolher dados. É conseguir ligar esses dados à decisão da próxima campanha: onde corrigir o pH, onde reduzir a dose de adubo, onde vale a pena investir em rega localizada ou numa variedade mais produtiva.


Da ceifeira ao mapa de prescrição: o ciclo completo

A forma mais simples de perceber o valor da georreferenciação é seguir um ciclo cultural típico, por exemplo num campo de milho no Alentejo.

1. Durante a colheita: recolha de dados de produtividade

As ceifeiras modernas, equipadas com sensor de rendimento e recetor GPS, vão registando:

  • toneladas/ha em cada ponto do talhão
  • velocidade de avanço
  • perdas de colheita
  • humidade do grão

O operador não precisa de fazer quase nada. No fim, sai um mapa de produtividade: zonas que deram 15 t/ha, outras 11 t/ha, outras apenas 8 t/ha.

2. Interpretação dos dados: o passo que muitos saltam

Aqui entra o agricultor, o técnico ou empresas especializadas, como a TerraPro e outras consultoras que já trabalham com cartografia digital do solo em Portugal.

Boas perguntas nesta fase:

  • As zonas de baixa produtividade coincidem com solos mais pobres ou mais rasos?
  • Há relação com manchas de salinidade, encharcamento ou compactação?
  • O problema é de fertilidade, de água ou de variedade/gestão?

Frequentemente, cruza-se o mapa de produtividade com:

  • análises de solo georreferenciadas
  • mapa de condutividade elétrica do solo
  • histórico de rega
  • registos de pragas e doenças

3. Criação de mapas de prescrição

Depois de interpretar, chega o momento decisivo: traduzir o diagnóstico em ação na campanha seguinte.

É aqui que surgem os mapas de prescrição, que definem, por exemplo:

  • dose de adubo NPK por zona (ex.: 180 kg/ha numa zona, 120 noutra)
  • densidade de semente (mais plantas onde o potencial é maior)
  • profundidade de mobilização do solo

Estes mapas são carregados para o software do trator e dos equipamentos:

  • Espalhadores de adubo com corte por secções e taxa variável
  • Pulverizadores com corte automático para evitar sobreposições
  • Semeadores de precisão com controlo linha a linha

Quando a máquina entra no talhão, o sistema lê o mapa e ajusta a dose automaticamente conforme avança. Sem tabelas em papel, sem “estimar” a olho.


Onde se ganham, concretamente, os “enormes ganhos de eficiência”

A georreferenciação automática não é teoria de feira tecnológica. Quando bem aplicada, mexe diretamente em três linhas do resultado da exploração: custo/ha, produção/ha e risco.

1. Menos desperdício de adubo e fitofármacos

Nos espalhadores com corte por secções e taxa variável, a combinação de georreferenciação e mapas de prescrição permite:

  • reduzir sobreposições nas cabeceiras e nos contornos
  • baixar dose onde o potencial é mais baixo ou o solo já está bem nutrido
  • concentrar o investimento onde há retorno produtivo real

Num cenário típico de milho regadio:

  • dose uniforme tradicional: 400 kg/ha de adubo composto
  • dose média com taxa variável: 330–350 kg/ha

Poupança direta: 50–70 kg/ha, que a 0,45 €/kg representam 22–31 €/ha. Em 100 ha, são 2 200–3 100 € numa só campanha, só em fertilizante de fundo.

2. Mais produtividade por gestão diferenciada

Nas zonas de maior potencial, a taxa variável faz precisamente o contrário: aumenta a dose de adubo ou a densidade de semente, porque ali cada kg extra investido volta sob a forma de mais toneladas colhidas.

É comum ver, em explorações que já utilizam mapas de produtividade há vários anos:

  • +5 a +15% de produtividade média em culturas arvenses
  • maior uniformidade da cultura, o que facilita colheita e gestão de pragas

O mais interessante? Muitas vezes, a produtividade sobe enquanto a dose média de insumos baixa, porque se deixa de “despejar” produto onde não faz sentido.

3. Menos tempo e menos stress no campo

A georreferenciação automática também é gestão de tempo e de pessoas:

  • mapas de linhas de orientação e cabeceiras melhoram o aproveitamento do terreno
  • corte automático em pulverização reduz o número de manobras
  • o operador deixa de ter de “vigiar” marcadores ou fitas

Na prática, em muitas explorações portuguesas que adotaram guiamento automático e corte por secções, verifica-se:

  • redução de 5–10% no consumo de combustível/ha
  • menos horas de máquina para a mesma área trabalhada
  • menos fadiga do operador, logo menos erros

Georreferenciação na realidade portuguesa: desafios e soluções

Portugal tem particularidades que não aparecem nos folhetos das marcas: minifúndio no Norte e Centro, mosaicos de pequenas parcelas, declives, socalcos e arrendamentos curtos. Faz sentido falar de georreferenciação automática aqui?

Na minha opinião, sim – mas com estratégia.

Explorações grandes: impacto mais rápido

Explorações de centenas de hectares, comuns no Alentejo e Ribatejo, têm geralmente:

  • parque de máquinas mais recente
  • maior capacidade de investimento
  • técnicos residentes ou acompanhamento próximo

Para estas, faz todo o sentido apostar rapidamente em:

  • ceifeiras com monitorização de rendimento
  • semeadores e espalhadores de taxa variável
  • software de gestão de dados e apoio externo para interpretação

O retorno vem depressa porque o custo inicial dilui-se por muitos hectares.

Pequenas e médias explorações: começar pelo que dá mais retorno

Uma exploração familiar de 15–40 ha, típica de muitas regiões, não precisa de comprar tudo de uma vez. Faz sentido avançar por etapas:

  1. Guiamento assistido (barra de luz ou piloto automático) para reduzir sobreposições.
  2. Registo de operações e áreas trabalhadas com apps simples e recetor GNSS acessível.
  3. Análises de solo georreferenciadas para começar a ter mapas básicos de fertilidade.
  4. Em parceria com prestadores de serviços, adubação e sementeira em taxa variável nas culturas principais.

Outra via inteligente para estas explorações é recorrer a:

  • prestadores de serviços com máquinas equipadas com taxa variável
  • associações de produtores que partilham equipamentos
  • empresas de consultoria que tratam os dados e devolvem mapas simples de decisão

O investimento direto em hardware pode ser menor, mas os ganhos na eficiência de adubação e na gestão de solo continuam lá.


Como começar a usar georreferenciação automática na exploração

Para quem quer dar o passo seguinte rumo à agricultura de precisão e à IA na agricultura portuguesa, a sequência mais sensata é esta.

1. Fazer o diagnóstico tecnológico da exploração

Antes de comprar qualquer equipamento:

  • que máquinas já têm GPS ou estão preparadas para o receber?
  • que monitores de cabina existem e o que conseguem registar?
  • há sinal de correção (RTK, por exemplo) disponível na zona, se for necessário?

Um bom diagnóstico evita duplicar investimentos e mostra o que pode ser aproveitado e atualizado.

2. Escolher um talhão piloto

Não vale a pena começar pela cultura mais complicada. O ideal é um talhão:

  • com área razoável (ex.: >10 ha)
  • com histórico de variação de produtividade
  • onde a margem económica permita experimentar (milho, tomate, vinha, olival intensivo, por exemplo)

Nesse talhão piloto, o objetivo é completo:

  1. recolher dados (produtividade, solo, rega)
  2. produzir mapas
  3. criar e aplicar um mapa de prescrição
  4. comparar resultados económicos com a gestão tradicional

3. Garantir apoio técnico na leitura de dados

A tecnologia em si não resolve nada se os dados ficarem “encostados” numa pen.

Funciona melhor quando o agricultor trabalha em conjunto com:

  • um engenheiro agrónomo com experiência em agricultura de precisão
  • empresas especializadas em cartografia digital e interpretação de dados
  • associações de produtores ou cooperativas com serviços técnicos

A interpretação dos mapas é onde se transformam gigabytes em euros.

4. Ligar a georreferenciação à IA e à gestão da exploração

O passo seguinte, que já começa a ganhar força no setor, é ligar estes dados a sistemas de apoio à decisão com inteligência artificial:

  • modelos que sugerem a melhor data de sementeira com base em histórico de clima e solo
  • algoritmos que identificam padrões de stress hídrico ou nutricional a partir de imagens de satélite ou drone
  • recomendações automáticas de adubação ajustadas a objetivos de produtividade e a regras do PEPAC

Aqui, a georreferenciação automática é a base. Sem dados fiáveis, nenhum algoritmo faz milagres.


Porque é que agora é o momento certo para investir em georreferenciação

Entre 2025 e 2030, quem produz em Portugal vai estar cada vez mais pressionado por três fatores:

  • custos crescentes de fertilizantes, energia e mão de obra
  • exigência ambiental (nitratos, emissões, uso sustentável de fitofármacos)
  • competitividade de mercados cada vez mais abertos

A georreferenciação automática e os mapas de prescrição não são apenas uma moda tecnológica. São uma forma concreta de:

  • produzir mais com menos insumos
  • documentar o que se faz no campo, com dados que respondem a auditorias e certificações
  • preparar a exploração para beneficiar de apoios ligados à agricultura de precisão e práticas sustentáveis

Quem começar agora, mesmo em pequeno, entra numa curva de aprendizagem que vai fazer a diferença quando estas ferramentas forem critério obrigatório em apoios, contratos ou certificações.

Se gere uma exploração em Portugal e sente que já chegou ao limite do que consegue “a olho”, a próxima campanha é o momento ideal para escolher um talhão piloto, recolher dados e dar o primeiro passo sério na georreferenciação automática.

O campo está cada vez mais digital. A questão não é se vai lá chegar, é se quer estar entre os primeiros a tirar retorno real por hectare.