Fundo de 125M€ da Indico para IA, deeptech e Espaço muda o jogo para empresas e seguradoras portuguesas. Veja como transformar isto em vantagem competitiva.

Como um fundo de 125M€ pode acelerar a IA nas empresas portuguesas
53 empresas apoiadas, quatro unicórnios e mais de 2,5 mil milhões de euros já angariados pelas participadas. É este o rasto que a Indico Capital Partners deixa antes de anunciar o seu novo fundo de 125 milhões de euros focado em deeptech, inteligência artificial e Espaço.
Este movimento não interessa só a fundadores de startups. Muda o contexto para qualquer empresa portuguesa que queira aplicar IA, incluindo seguradoras, bancos, industriais ou retalho. Mais capital especializado significa mais soluções tecnológicas maduras, mais talento disponível… e mais pressão competitiva para quem continuar parado.
Neste artigo da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, vou explicar o que está em causa com o Indico VC Fund III e, sobretudo, como as empresas – em particular seguradoras e players financeiros – podem aproveitar esta nova vaga de investimento em IA e deeptech.
O que é o novo fundo Indico VC Fund III e porque é relevante
O Indico VC Fund III é um fundo de capital de risco com objetivo de 125 milhões de euros, já com 30 milhões comprometidos pelo Fundo Europeu de Investimento (FEI). O foco é claro:
- Startups tecnológicas em Portugal, Espanha e Itália
- Fases de seed até Série B
- Áreas: IA, deeptech, SaaS corporativo, tecnologia espacial e oceânica
A Indico posiciona-se como um dos principais investidores de tecnologia no sul da Europa. O histórico ajuda: gere mais de 240 milhões de euros em ativos e já apoiou 53 empresas, incluindo quatro unicórnios.
Porque é que isto interessa a quem está numa seguradora ou numa PME portuguesa?
Porque este tipo de fundo tende a financiar precisamente as soluções que, dentro de 2 a 5 anos, vão:
- Automatizar subscrição de risco com IA
- Tornar a deteção de fraude mais precisa
- Usar dados de satélite para modelar catástrofes naturais
- Criar plataformas SaaS que qualquer seguradora pode integrar sem reinventar a roda
Quem estiver atento agora terá acesso antecipado a parceiros tecnológicos que vão moldar o mercado.
Deeptech, Espaço e IA: o que isto significa para o negócio
A Indico não está a investir “em tecnologia” de forma vaga. Está a apostar em três blocos muito específicos que têm impacto direto no negócio das empresas portuguesas.
1. IA e SaaS corporativo: automatizar processos e criar novos produtos
O fundo vai procurar startups que desenvolvem soluções de IA e SaaS corporativo, especialmente B2B. Para uma seguradora ou empresa de serviços financeiros, isto traduz‑se em:
- Modelos de scoring de risco com IA mais precisos, que combinam dados internos (histórico de sinistros, perfil de cliente) com dados externos (mobilidade, clima, contexto económico)
- Automação de backoffice: triagem de emails, gestão documental, extração automática de dados de PDFs, validação de apólices
- Chatbots e assistentes inteligentes para atendimento 24/7, com integração no core de seguros
- Ferramentas de previsão (propensão a churn, probabilidade de sinistro, risco de fraude)
A vantagem de ter um fundo dedicado a isto é simples: as soluções tendem a nascer já com foco em mercados regulados, escaláveis e com integrações empresariais robustas. Não estamos a falar de ferramentas “gadget”, mas de plataformas que pretendem entrar em operações core.
2. Deeptech: resolver problemas duros, criar vantagens difíceis de copiar
Deeptech são tecnologias baseadas em avanços científicos ou de engenharia complexa: novos algoritmos, robótica, fotónica, materiais, cibersegurança avançada, etc.
Para o tecido empresarial português – e para seguradoras em particular – deeptech significa:
- Modelos de risco mais sofisticados: por exemplo, combinar simulações físicas com modelos de IA para prever danos em infraestruturas
- Cibersegurança reforçada: soluções avançadas de deteção de intrusões, proteção de dados sensíveis, monitorização de comportamentos anómalos
- Otimização operacional: algoritmos de routing, pricing dinâmico, previsão de capacidade de call centers
A realidade é que deeptech cria vantagens competitivas que não se copiam em seis meses. Para quem comprar estas soluções (em vez de tentar desenvolver tudo internamente), é uma forma inteligente de aceder a tecnologia de topo com menor risco.
3. Tecnologia espacial e oceânica: dados novos para decisões melhores
O fundo também aposta em tecnologia espacial e oceânica. À primeira vista, pode parecer distante do dia a dia de uma seguradora ou PME, mas não é.
A partir de dados de satélite e sensores no oceano é possível:
- Mapear risco de cheias, tempestades, incêndios florestais com resolução cada vez mais fina
- Monitorizar infraestruturas críticas (pontes, barragens, portos, parques industriais)
- Avaliar exposição climática de ativos segurados
- Apoiar o desenho de produtos paramétricos (seguros que disparam indemnizações com base em índices objetivos, como níveis de chuva ou velocidade do vento)
Se a Indico está a financiar empresas que fazem isto, é uma questão de tempo até estas soluções serem oferecidas ao mercado segurador português com modelos “as a service”. Quem se aproximar cedo destes players consegue influenciar roadmaps e cocriar produtos.
Oportunidades específicas para seguradoras portuguesas
No contexto da campanha “IA para Seguradoras Portuguesas: Transformação Digital”, este novo fundo abre janelas muito concretas.
Onde as seguradoras podem ganhar mais com IA e deeptech
Há quatro áreas onde, na prática, se vê retorno mais rápido:
-
Subscrição inteligente
- Uso de modelos de IA para ajustar prémios em tempo real com base em risco individual e contexto
- Integração de dados alternativos (mobilidade, IoT, histórico comportamental)
-
Gestão de sinistros
- Classificação automática de sinistros simples com decisão imediata
- Deteção de fraude com modelos de anomalias, analisando padrões que humanos não conseguem ver
- Processamento automático de imagens (por exemplo, danos em viaturas ou casas)
-
Experiência de cliente
- Assistentes virtuais para onboarding, esclarecimento de dúvidas e acompanhamento de sinistros
- Personalização de ofertas com base em comportamento real, não apenas em segmentos demográficos
-
Gestão de risco catastrófico e climático
- Integração de dados de satélite e modelos climáticos para pricing de carteiras
- Simulações de cenários com base em dados espaciais e oceânicos
Como ligar‑se ao ecossistema que o fundo vai alimentar
Não basta saber que o fundo existe. É preciso entrar no circuito:
- Mapear as startups da carteira da Indico relevantes para seguros, IA, dados espaciais, SaaS B2B
- Criar um processo interno de inovação aberta: como é que uma área de negócio pode testar soluções em piloto em 3 meses, em vez de projetos de 2 anos?
- Definir áreas‑prioridade de colaboração (por exemplo: fraude, sinistros automóvel, risco agrícola)
- Nomear sponsors internos (negócio + tecnologia + risco) para testar parcerias com startups
Tenho visto seguradoras portuguesas perderem o timing por tentarem encaixar startups em processos de procurement pensados para fornecedores tradicionais. Com fundos deste tipo a acelerar o mercado, quem continuar a tratar startups como se fossem integradores legados vai ficar para trás.
Passos práticos para empresas portuguesas aproveitarem esta vaga
Para qualquer empresa, não só seguradoras, há uma forma pragmática de tirar partido desta nova onda de investimento em IA.
1. Definir 2‑3 casos de uso prioritários de IA
Antes de olhar para startups ou ferramentas, é preciso responder a:
- Que processos internos são caros, lentos ou geram mais reclamações?
- Onde a previsão (de risco, de procura, de churn) teria mais impacto financeiro?
- Que dados já temos e não estamos a usar?
Boas apostas iniciais costumam ser:
- Atendimento ao cliente com assistentes de IA
- Automação de tarefas repetitivas (extração de dados, validações)
- Modelos de scoring ou de previsão de cancelamento
2. Avaliar soluções já financiadas por fundos especializados
Fundos como o da Indico filtram muito ruído: fazem o trabalho de triagem tecnológica por si. As empresas podem usar isto a seu favor:
- Identificar startups do portefólio alinhadas com os casos de uso definidos
- Pedir referências e resultados obtidos noutros países
- Negociar projetos‑piloto curtos (12–16 semanas) com objetivos de negócio claros
3. Estruturar pilotos com métricas de negócio
Um piloto de IA só faz sentido se tiver KPIs muito concretos. Exemplos:
- Reduzir tempo médio de análise de sinistros em 30%
- Aumentar deteção de fraude em 15% com o mesmo esforço humano
- Melhorar NPS em 10 pontos na jornada de contratação digital
A partir daqui, ou a solução passa a produção com um business case sólido, ou termina‑se o piloto sem traumas.
4. Cuidar da governação e do risco
Com o aumento da pressão para adotar IA, vejo muitas empresas a correr para PoCs sem olhar a:
- Conformidade com RGPD e regras de proteção de dados
- Explicabilidade dos modelos (sobretudo em decisões de crédito ou seguros)
- Gestão de risco operacional (dependência excessiva de um único fornecedor, continuidade de serviço)
Ao trabalhar com startups financiadas por fundos estruturados, a boa notícia é que muitas já vêm com esta preocupação na base. Mesmo assim, a empresa tem de ter uma estrutura mínima de governação de IA: políticas, responsáveis, processos de validação.
Porque este fundo é um sinal claro para o tecido empresarial português
Este novo fundo da Indico confirma uma tendência que já vínhamos a acompanhar nesta série sobre Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas:
o sul da Europa, e Portugal em particular, deixaram de ser apenas consumidores de tecnologia e passaram a ser também produtores relevantes.
Para as empresas portuguesas, e em especial para as seguradoras que estão a rever a sua estratégia de transformação digital para 2026–2028, a mensagem é direta:
- Haverá mais oferta qualificada de soluções de IA, deeptech e dados espaciais desenvolvidas perto de nós
- A concorrência que vai usar estas ferramentas vai mover‑se mais depressa
- Quem construir agora uma estratégia clara de IA – combinando talento interno com parcerias com startups – vai ter uma vantagem competitiva difícil de recuperar
Se está a liderar uma seguradora ou uma grande empresa em Portugal, a questão já não é “se” vai trabalhar com startups apoiadas por fundos como o Indico VC Fund III. A questão é quando e em que termos: como parceiro estratégico ativo ou como seguidor tardio a tentar recuperar terreno.
O momento certo para preparar essa resposta é agora.