Fundo de 125M€ da Indico para IA e deeptech vai acelerar a transformação digital em Portugal. Veja o impacto para seguradoras e como agir já em 2025.

As seguradoras portuguesas vão ter menos desculpas para adiar a transformação digital: só um fundo – o Indico VC Fund III – quer investir 125 milhões de euros em deeptech, IA e Espaço no sul da Europa. E já tem 30 milhões garantidos do Fundo Europeu de Investimento.
Isto interessa às empresas portuguesas, e em particular às seguradoras, por uma razão simples: quando o capital se orienta para inteligência artificial e tecnologia espacial, o risco muda, os produtos mudam e o cliente passa a esperar mais. Quem continuar com processos manuais e decisões por “feeling” vai ficar para trás.
Neste artigo, integrado na série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas” e alinhado com a campanha “IA para Seguradoras Portuguesas: Transformação Digital”, vou mostrar:
- O que é este novo fundo da Indico e porque é um sinal forte para o mercado
- Que tipo de startups podem nascer (ou crescer) com estes 125M€
- Que impacto isto pode ter no negócio das seguradoras em Portugal
- Passos concretos para seguradoras que querem preparar‑se e tirar partido desta onda de IA
1. O que é o Indico VC Fund III e porque interessa às empresas
O Indico VC Fund III é um fundo de capital de risco com objetivo de 125 milhões de euros para investir em startups de IA, deeptech, tecnologia espacial e oceânica, sobretudo em Portugal, Espanha e Itália, desde a fase seed até Série B.
Alguns factos chave:
- Objetivo de capital: 125M€
- Compromisso já garantido: 30M€ do Fundo Europeu de Investimento (FEI)
- Foco geográfico: Portugal, Espanha e Itália, mais a diáspora (EUA, Reino Unido, etc.)
- Fases de investimento: de seed até Série B
- Áreas de aposta: SaaS corporativo, inteligência artificial, deeptech, tecnologia espacial e oceânica
A Indico Capital Partners não está a começar do zero. Já:
- Gere +240M€ em ativos distribuídos por cinco fundos
- Investiu em 53 empresas, incluindo 4 unicórnios, que no total levantaram mais de 2,5 mil milhões de euros
Ou seja, não é capital especulativo disperso; é capital que procura tecnologia com impacto real em setores tradicionais – como seguro, banca, logística, saúde ou indústria.
“Estamos estrategicamente posicionados para identificar e escalar as melhores empresas da região e a sua diáspora e posicioná‑las no mercado global.” – Stephan Morais, Indico
Para quem gere uma seguradora, corretora ou unidade de negócio de risco, isto é um sinal claro: o pipeline de startups e soluções B2B de IA no sul da Europa vai acelerar. E muitas vão querer trabalhar com seguradoras como clientes‑âncora.
2. Onde vão surgir oportunidades: IA, deeptech, Espaço e oceano
O fundo da Indico está desenhado para apoiar tecnologias que alteram a forma como avaliamos risco, processamos dados e tomamos decisões. Esse é precisamente o coração do negócio segurador.
2.1. IA e SaaS corporativo: automação e decisão inteligente
Na prática, podemos esperar mais startups focadas em:
- Análise de risco em tempo real usando IA (por exemplo, scoring de risco para PME com base em milhares de variáveis)
- Automação inteligente de sinistros (extração de informação de documentos, fotos e relatórios médicos com modelos de visão computacional e NLP)
- Modelos preditivos para fraude combinando dados internos e externos
- Plataformas SaaS de pricing dinâmico para seguros auto, saúde ou multirriscos
Para seguradoras portuguesas que ainda dependem de mainframes antigos, tabelas estáticas e processos em papel, isto significa duas coisas:
- Vai surgir oferta especializada em IA para seguros, feita por equipas técnicas com capital para crescer
- Quem se mexer primeiro consegue co‑desenvolver soluções à medida e transformar essas startups em parceiros estratégicos – em vez de simples fornecedores
2.2. Tecnologia espacial: satélites ao serviço do risco
O fundo também aposta forte em tecnologia espacial – satélites, software associado e data centers para processamento de imagens.
Do ponto de vista segurador, isto abre vários cenários muito concretos:
- Seguro agrícola: imagens de satélite de alta resolução para avaliar stress hídrico, pragas ou danos por intempéries, com IA a classificar o impacto por parcela
- Seguro de catástrofes naturais: modelos preditivos de cheias, incêndios ou tempestades, com base em séries históricas combinadas com dados em tempo real
- Avaliação de ativos dispersos (linhas elétricas, parques solares, infraestruturas industriais) de forma automática, sem depender apenas de vistorias físicas
A Indico já tinha investido em empresas como a FOSSA Systems (nano‑satélites) e outras ligadas ao Espaço. Com este novo fundo, é provável que vejamos mais soluções “Space + IA” prontas a integrar nos sistemas das seguradoras.
2.3. Economia azul e tecnologia oceânica
Portugal tem uma vocação natural para o mar, e o fundo inclui também tecnologia oceânica e economia azul.
Aplicações para o setor segurador:
- Monitorização de rotas marítimas e condições de navegação em tempo real
- Avaliação dinâmica de risco para frotas de pesca e transporte marítimo
- Dados subaquáticos (sensores, comunicações subaquáticas) para apoiar seguros de infraestruturas offshore, energia eólica marinha, cabos submarinos
Não é ficção científica. É o tipo de projeto em que fundos de deeptech já estão a apostar. A diferença é que agora há capital dedicado a fazê‑lo a partir de Portugal e do sul da Europa.
3. O que isto muda para seguradoras portuguesas
O aumento de capital para IA e deeptech no sul da Europa aumenta a pressão competitiva sobre as seguradoras que continuam pouco digitais. Mas também abre uma janela rara de colaboração.
3.1. A pressão: o cliente vai comparar com o “melhor do mercado”
Quando startups bem financiadas oferecem experiências 100% digitais noutros setores, o cliente começa a esperar o mesmo das seguradoras:
- Subscrição rápida, em minutos
- Simulações personalizadas, com base no seu perfil real
- Sinistros tratados em horas, não em semanas
Quem continuar com:
- Formulários PDF
- Processos internos manuais
- Múltiplos reenvios de documentos
vai perder terreno para insurtechs e seguradoras internacionais que já usam IA de forma intensiva.
3.2. A oportunidade: tornar‑se parceiro de inovação
O lado positivo é óbvio: startups precisam de dados, contexto regulatório e casos reais de negócio; seguradoras têm tudo isso, mas falta‑lhes velocidade e tecnologia.
Um modelo que funciona bem é o de parceria estruturada:
- Pilotos controlados com 1‑2 carteiras específicas (por exemplo, auto ou PME)
- Partilha de dados anonimizados com governança forte
- Co‑desenvolvimento de modelos de IA com equipas mistas (equipa da startup + equipa de negócio da seguradora + equipa de IT)
Quem se posicionar como “cliente de referência” destas startups de deeptech e IA pode influenciar o roadmap de produto e garantir vantagens competitivas de médio prazo.
4. Como uma seguradora portuguesa pode preparar‑se hoje
Não é preciso esperar que as startups batam à porta. Há passos concretos que uma seguradora pode dar já em 2025 para estar pronta para captar o valor destes 125M€.
4.1. Arrumar a casa dos dados
Sem dados estruturados, não há IA que funcione de forma fiável.
Prioridades práticas:
- Mapear fontes de dados: apólices, sinistros, CRM, contact center, IoT, parceiros
- Normalizar identificadores (por exemplo, número de cliente, NIF) para cruzar informação
- Investir em data warehouse ou data lake bem governado
- Definir políticas claras de anonimização/pseudonimização para projetos com parceiros
Quando uma startup vier propor um modelo de previsão de cancelamento, por exemplo, a seguradora que já tem dados limpos e acessíveis consegue testar a solução em semanas, não em meses.
4.2. Criar um programa estruturado de inovação com IA
Em vez de projetos ad‑hoc, faz sentido criar um programa leve mas claro de Inovação em IA para Seguros com:
- 2‑3 casos de uso prioritários por ano (ex.: deteção de fraude, triagem de sinistros auto, assistente virtual para mediadores)
- Um budget de experimentação (por exemplo, 0,5%–1% dos prémios brutos) dedicado a pilotos com startups
- Um processo rápido de avaliação, prova de conceito e scale‑up para soluções que provem valor
Isto envia um sinal ao mercado – e a fundos como o da Indico – de que a seguradora é um parceiro sério para projetos de IA.
4.3. Reposicionar o talento interno
IA para seguros não é apenas contratar data scientists. É criar equipas híbridas que falem tanto a linguagem de negócio como a de dados.
Sugestões práticas:
- Criar o papel de “product owner de IA” por linha de negócio (auto, saúde, vida…)
- Reciclar atuários e analistas de risco para trabalho em modelos de machine learning
- Formar equipas de negócio em noções básicas de IA (o suficiente para fazer boas perguntas)
As startups financiadas pela Indico vão aparecer com equipas técnicas fortes. As seguradoras que tiverem equipas capazes de dialogar de igual para igual vão extrair muito mais valor destas parcerias.
5. IA para empresas portuguesas: porquê agir já em 2025
O lançamento deste fundo da Indico é mais um sinal de que a inteligência artificial deixou de ser “tendência” e passou a infraestrutura básica para competir – também em Portugal.
Na série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas” temos visto sempre o mesmo padrão:
- Empresas que começam com projetos pequenos e bem definidos de IA colhem ganhos rápidos
- Isso gera confiança interna e abre espaço para iniciativas maiores
- Quem espera por uma “grande estratégia perfeita” perde 2–3 anos – tempo suficiente para um novo concorrente ganhar quota de mercado
Para o setor segurador, acrescento uma convicção pessoal: o maior risco hoje não está na IA em si, mas em continuar a operar como se nada estivesse a mudar.
Os 125M€ da Indico vão alimentar um ecossistema de IA, deeptech, Espaço e oceano à porta das seguradoras portuguesas. A questão já não é se esta transformação vai acontecer, mas com quem – com a sua organização a liderar ou a reagir.
O próximo passo pode ser simples:
- Identificar um caso de uso de IA de alto impacto e baixa complexidade na sua seguradora
- Mapear os dados necessários
- Procurar ativamente parceiros tecnológicos ou startups alinhados com esse objetivo
Quem começar agora chega a 2026 com resultados concretos, equipas mais competentes e uma posição muito mais forte para aproveitar a próxima vaga de investimento em IA em Portugal.