Florestas e agricultura não competem: trabalham juntas para dar água, estabilidade climática e produtividade aos sistemas agroalimentares portugueses.

Florestas e agricultura: a aliança que decide o futuro alimentar
Em muitas explorações agrícolas portuguesas, o primeiro “equipamento” de resiliência não são sensores, drones ou software. São as árvores que fazem sombra ao gado, quebram o vento sobre o milho, estabilizam as linhas de água e mantêm a humidade do solo no pico do verão. Quando essas árvores desaparecem, os impactos chegam depressa: menos água, mais calor, menos produtividade.
É exatamente isto que o novo relatório apresentado na COP30 vem confirmar à escala global: sem sinergia entre florestas e agricultura, os sistemas agroalimentares ficam vulneráveis num contexto de aquecimento global. Para quem produz em Portugal – sobretudo em zonas de sequeiro, montado, olival, vinha ou sistemas mistos – esta não é uma discussão teórica. É uma questão de viabilidade económica nos próximos 10 a 20 anos.
Neste artigo, junto o que o estudo revela com a realidade portuguesa e com as ferramentas digitais que já hoje ajudam a gerir essa relação floresta–agricultura, da monitorização por IA à modelação de cenários climáticos. A ideia é simples: mostrar por que razão integrar árvores e florestas nas explorações não é um luxo ambiental, mas uma estratégia agronómica e de negócio.
Porque é que florestas e árvores são “infraestrutura agrícola”
A mensagem central do relatório é direta: florestas e árvores prestam serviços ambientais sem os quais a agricultura perde produtividade e estabilidade climática.
Serviços ambientais que sustentam a produção
Os autores destacam quatro grupos de serviços essenciais para os sistemas agroalimentares:
- Regulação do clima local: florestas reduzem temperaturas extremas e criam microclimas mais estáveis. Em contexto de ondas de calor mais frequentes em Portugal, esta função é ouro.
- Gestão do ciclo da água: árvores aumentam a infiltração, reduzem o escoamento superficial e mantêm a humidade do solo, favorecendo culturas de sequeiro como cereais, pastagens e olival tradicional.
- Polinização e controlo biológico: mosaicos agroflorestais oferecem habitat a polinizadores e auxiliares, reduzindo dependência de pesticidas e aumentando produção em fruteiras, hortícolas e vinha.
- Proteção do solo: raízes estabilizam taludes, reduzem a erosão hídrica e eólica, limitam perdas de matéria orgânica e nutrientes.
O relatório mostra ainda que a agricultura de 155 países depende de florestas que atravessam fronteiras para garantir até 40% da chuva anual. Traduzindo: o que se corta “lá longe” também mexe com a água que cai aqui.
Da teoria ao campo português
Quem trabalha no Alentejo, Trás-os-Montes ou Ribatejo reconhece este padrão:
- Parcelas com arvoredo disperso (montado, olival tradicional) aguentam melhor ondas de calor do que áreas completamente nuas.
- Talhões com faixas de vegetação ripícola bem conservada mantêm linhas de água ativas mais tempo no verão.
- Vinhas e pomares com sebes e corredores ecológicos mostram maior presença de auxiliares e melhor equilíbrio de pragas.
A ciência apenas confirma o que muitos agricultores já intuíam: árvores em contexto agrícola não são “sobra de terreno”, são parte da estratégia de produção.
O custo real da desflorestação para a agricultura
O relatório apresentado na COP30 é claro: desflorestação e perda de árvores têm efeitos imediatos na produtividade agrícola, na saúde pública e nos custos de trabalho.
Aquecimento, menos chuva e quebras produtivas
O estudo cita o exemplo do Brasil, onde a conversão de floresta tropical em área agrícola reduziu a evapotranspiração até 30%, elevando temperaturas e alterando padrões de chuva. O princípio é o mesmo no Mediterrâneo: menos cobertura arbórea, mais amplitude térmica, mais stress hídrico.
Aplicando esta lógica a Portugal, os efeitos práticos são evidentes:
- Maior risco de seca agrícola e necessidade de rega suplementar, com custos energéticos mais altos.
- Flutuações de produção maiores entre anos secos e anos húmidos.
- Impacto direto na qualidade em setores sensíveis ao stress térmico, como vinha e fruteiras.
Quando somamos isto a um clima já em aquecimento, fica claro que a perda de floresta e de árvores dispersas é, na prática, um “imposto climático” sobre a agricultura.
Impactos na saúde e no trabalho agrícola
O relatório destaca ainda um ponto que muitas vezes é esquecido: a desflorestação está associada a 28 mil mortes anuais por calor entre 2001 e 2020, à escala global. E, em zonas desflorestadas, as condições extremas já retiraram até 2,8 milhões de horas de trabalho seguras a trabalhadores ao ar livre.
Para o contexto português, isto traduz-se em:
- Mais dias de paragem de trabalhos de campo devido a calor extremo.
- Maior risco de doenças relacionadas com o calor em trabalhadores sazonais.
- Pressão crescente para investir em sombra, horários adaptados e equipamentos de proteção.
Florestas, bosquetes e árvores isoladas passam a ser também infraestrutura de saúde laboral, não apenas recursos paisagísticos.
Restauro florestal: ferramenta climática e agronómica
O estudo traz um dado forte: restaurar apenas metade das florestas tropicais perdidas poderia reduzir a temperatura da superfície terrestre em cerca de 1°C. Em termos globais, é enorme. Em termos locais, o princípio é idêntico: mais árvores, menos stress térmico e hídrico nos sistemas produtivos.
Benefícios diretos para a exploração agrícola
Integrar florestas e árvores na exploração traz ganhos concretos:
- Redução da erosão em encostas e cabeceiras de linhas de água.
- Melhor infiltração e armazenamento de água no solo.
- Proteção de culturas contra vento e radiação excessiva.
- Aumento da biodiversidade funcional, que apoia polinização e controlo natural de pragas.
Sistemas como agrossilvicultura, silvopastorícia, montado, olival tradicional, vinha com árvores de sombra dispersas são, na prática, formas de restauro e manutenção de estrutura arbórea com retorno económico.
O papel da IA e dos dados no restauro inteligente
No âmbito da campanha “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, há uma oportunidade clara: usar ferramentas digitais para planear, monitorizar e rentabilizar o restauro florestal em contexto agrícola.
Alguns exemplos práticos:
- Modelação de cenários climáticos à escala de parcela para definir onde faz mais sentido plantar árvores de sombra ou criar faixas de proteção.
- Imagens de satélite e drones com IA para monitorizar vigor da vegetação, humidade do solo e risco de erosão, identificando zonas prioritárias para restauro.
- Sistemas de apoio à decisão que cruzam dados de produtividade, solo, água e clima para recomendar espécies arbóreas e densidades adequadas por tipo de exploração.
A diferença entre “plantar árvores ao acaso” e construir um sistema agroflorestal eficiente está, cada vez mais, na qualidade dos dados usados.
Como integrar florestas e agricultura na prática em Portugal
Falar em sinergias é fácil; o desafio é transformar essa visão em decisões concretas na exploração. Há quatro frentes onde os produtores podem agir já.
1. Reconfigurar o desenho da exploração
Começa-se no mapa, não na plantação.
- Identificar linhas de água, encostas expostas, zonas mais suscetíveis à erosão ou ao calor extremo.
- Definir corredores ecológicos com sebes, bosquetes e galerias ripícolas.
- Manter ou reinstalar árvores dispersas em pastagens (sobreiros, azinheiras, freixos, etc.) como estrutura de sombreamento.
Ferramentas de cartografia digital, muitas já com camadas climáticas integradas, tornam este passo bem mais acessível.
2. Apostar em sistemas agroflorestais rentáveis
A integração floresta–agricultura não precisa de ser sinónimo de perda de área produtiva. Pelo contrário, pode diversificar rendimento e estabilizar a produção.
Alguns modelos com forte potencial em Portugal:
- Silvopastorícia em montado: combina produção pecuária com bolota, cortiça e serviços ambientais.
- Olival e amendoal com coberto permanente e árvores de sombra em pontos estratégicos.
- Vinha com bordaduras arborizadas e faixas de biodiversidade para proteção contra vento e apoio à fauna auxiliar.
A IA pode aqui ajudar a simular impactos produtivos e económicos de diferentes cenários (com mais ou menos árvores, diferentes espécies, diferentes densidades).
3. Articular com políticas públicas e apoios
O relatório insiste na necessidade de políticas integradas entre agricultura, floresta, água, biodiversidade e saúde pública. Em Portugal, isto toca diretamente:
- A forma como são desenhados e aplicados os eco-regimes da PAC.
- Os incentivos à floresta de alto valor ambiental e à prevenção de incêndios.
- As estratégias regionais de adaptação às alterações climáticas.
Produtores que estejam atentos a estas linhas de apoio e que consigam demonstrar, com dados, os benefícios ambientais e produtivos das suas opções agroflorestais vão estar em vantagem no acesso a financiamento.
4. Medir resultados e ajustar com base em dados
A integração floresta–agricultura não é um projeto de um ano; é um processo contínuo. A boa notícia é que hoje há ferramentas acessíveis para medir o que está a funcionar:
- Indicadores de produção e qualidade (kg/ha, grau alcoólico, teor de óleo, etc.).
- Dados de microclima na parcela (temperatura, humidade, velocidade do vento) recolhidos por estações meteorológicas locais e avaliados com apoio de IA.
- Monitorização de erosão, humidade do solo e vigor da vegetação por satélite.
Quanto mais o agricultor conseguir transformar estas medições em decisões (plantar mais aqui, abrir clareira ali, reforçar galeria ripícola acolá), mais forte se torna a resiliência do sistema agroalimentar da exploração.
Porque esta sinergia é estratégica para a agricultura portuguesa
O relatório apresentado na COP30 conclui que é urgente quebrar a separação entre conservação da biodiversidade, proteção ambiental, agricultura, gestão da água e saúde pública. Em Portugal, isto é particularmente evidente num ponto: não há agricultura competitiva a médio prazo sem sistemas produtivos que lidem bem com calor, seca e eventos extremos.
Florestas e árvores não são “cenário de fundo” da agricultura portuguesa. São:
- Reguladores do clima local em zonas agrícolas;
- Reservatórios de água e solo fértil;
- Aliadas na redução de risco de incêndio em paisagens mosaico bem geridas;
- Infraestrutura de suporte à saúde e segurança no trabalho agrícola.
Para quem está a modernizar a exploração – com regadio mais eficiente, sensores, maquinaria inteligente, soluções de IA – ignorar a dimensão florestal é deixar metade da equação de fora.
O passo seguinte é claro: olhar para cada herdade, quinta ou exploração e perguntar, de forma pragmática:
Onde é que mais árvores, melhor geridas e apoiadas por tecnologia, podem dar-me mais água, mais estabilidade produtiva e menos risco?
Responder a esta pergunta, com dados e visão de longo prazo, é provavelmente uma das decisões mais importantes que um produtor pode tomar nesta década.