Castas brancas portuguesas: que futuro em climas quentes?

Inteligência Artificial para Empresas PortuguesasBy 3L3C

Castas brancas minoritárias estão a mostrar um potencial surpreendente em climas quentes como o Alentejo. Veja como usar estes resultados para preparar a sua vinha para o futuro.

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Castas brancas portuguesas: que futuro em climas quentes?

A acidez dos vinhos brancos do Alentejo desceu, em média, cerca de 1 g/L na última década em muitas explorações. Menos frescura no copo, mais preocupação na adega e na vinha. Quem vive da viticultura sente isto na pele, não precisa de gráficos para perceber que as vindimas são cada vez mais cedo e as uvas chegam à adega com mais álcool potencial e menos equilíbrio.

Este cenário não é teórico. Em 2025, projetos como o WineClimAdapt estão a testar, em condições reais no Alentejo, quais as castas brancas que conseguem aguentar calor, secura e ondas de calor, sem perder qualidade aromática e sensorial. E os primeiros resultados começam a mostrar um caminho muito interessante para produtores que querem preparar já o futuro.

Neste artigo vou mostrar o que está em causa, o que este estudo fez na prática e, sobretudo, como um produtor português pode transformar estes resultados em decisões concretas de vinha e adega.


Porque é que as castas são a “primeira linha” de adaptação ao clima

A melhor tecnologia de adega não compensa uvas desequilibradas. A escolha da casta é, hoje, uma decisão técnica tão importante como o tipo de poda ou o sistema de rega.

As alterações climáticas na viticultura portuguesa traduzem‑se, na prática, em:

  • Vindimas cada vez mais precoces
  • Teores de açúcar mais altos (e potenciais alcoólicos elevados)
  • Perda de acidez e de frescura
  • Aromas menos definidos em climas muito quentes
  • Maior pressão de stress hídrico e ondas de calor

Algumas castas colapsam nestas condições; outras aguentam, produzem, mas com perda de tipicidade; umas poucas conseguem manter equilíbrio, frescura e perfil aromático estável, mesmo com verões extremos. É aqui que a variabilidade genética se torna uma ferramenta de gestão de risco.

A diversidade de castas não é folclore nem apenas património cultural. É uma apólice de seguro agronómica e económica para a exploração.

Portugal tem cerca de 230 castas autóctones autorizadas. Muitas são minoritárias, quase desaparecidas nas explorações comerciais, mas com características que podem ser decisivas num cenário de clima mais quente e seco.


O estudo WineClimAdapt: 18 castas brancas à prova de calor no Alentejo

O que foi feito na prática

O projeto WineClimAdapt (PDR2020-101-031010) avaliou a adaptabilidade de 18 castas brancas às condições quentes e áridas do Alentejo, usando um caso real: vinhas na Herdade do Esporão e vinificação experimental no Polo de Inovação de Dois Portos – INIAV.

Foram estudadas castas de origens diversas:

  • Espanha: ‘Parellada’, ‘Cayetana Blanca’ (‘Sarigo’), ‘Albillo Mayor’ (‘Pardina’), ‘Trajadura’, ‘Malvasia Rei’ (‘Palomino Fino’), ‘Pedro Ximenez’
  • França: ‘Uva Salsa’ (‘Chasselas Cioutat’)
  • Maioritariamente Portugal: ‘Fernão Pires’, ‘Galego Dourado’, ‘Cercial’, ‘Lameiro’, ‘Folha de Figueira’ (‘Dona Branca’), ‘Roupeiro Branco’, ‘Bastardo Branco’, ‘Alvadurão’, ‘Castelão Branco’, ‘Larião’, ‘Molinha Macia’

Muitas destas castas portuguesas existem na legislação mas quase não existem no mercado: não há material certificado, não se encontram facilmente em viveiros comerciais, e praticamente não entram em lotes conhecidos do consumidor. São, por isso, uma reserva estratégica de diversidade.

Metodologia em linguagem simples

O estudo fez aquilo que muitos produtores gostariam de fazer, mas em escala experimental e com rigor científico:

  1. Produção de uvas em condições reais de Alentejo, com monitorização agronómica
  2. Vinificação monovarietal de cada casta (duas réplicas), resultando em 36 vinhos brancos
  3. Análise físico‑química: acidez, álcool, parâmetros básicos
  4. Análise de aroma por cromatografia de gases (GC-FID e GC-MS) para identificar e quantificar compostos voláteis
  5. Prova sensorial por painel treinado (8 provadores) avaliando:
    • Aroma (frutado, floral, tropical, vegetal, etc.)
    • Boca (acidez, volume, equilíbrio)
    • Apreciação global (0–20)
  6. Análise estatística (ANOVA) para perceber diferenças reais entre castas, e não apenas impressões subjetivas

O objetivo central foi responder a uma pergunta muito prática: quais destas castas conseguem dar vinhos equilibrados, aromáticos e agradáveis, em condições de calor e secura típicas do Alentejo?


Primeiros resultados: que tipo de vinhos estas castas conseguem dar?

Os detalhes completos do trabalho são técnicos, mas há conclusões que interessam diretamente a qualquer produtor.

1. Perfis aromáticos distintos e bastante ricos

A análise por GC-MS confirmou aquilo que o painel sensorial sentiu no copo:

  • Algumas castas mostraram perfis mais frutados e florais, com ésteres e terpenos em concentrações associadas a vinhos brancos aromáticos
  • Outras destacaram‑se por perfis mais neutros ou discretos, potencialmente interessantes para lotes ou para perfis de vinho mais gastronómicos
  • Houve castas capazes de manter aromas limpos e definidos mesmo sob calor, o que é crítico quando se pensa em verões com ondas de calor mais frequentes

Para o produtor, isto traduz‑se em flexibilidade de portefólio: da casta mais expressiva para vinhos jovens e aromáticos, à casta mais neutra e estruturada para lotes de guarda.

2. Equilíbrio em boca e acidez em climas quentes

Um ponto-chave foi perceber quais as castas que conseguem manter frescura numa região como o Alentejo, onde o risco é termos vinhos pesados, alcoólicos e pouco tensos.

Os resultados mostraram diferenças claras entre castas em:

  • Acidez total e pH
  • Sensação de frescura em boca
  • Equilíbrio álcool/acidez

Alguns genótipos revelaram uma capacidade interessante de manter acidez e estrutura, mesmo sob temperaturas elevadas. Estes materiais tornam‑se candidatos evidentes para:

  • Zonas quentes do Alentejo interior
  • Vinhas com maior limitação hídrica
  • Projetos que queiram reduzir correções enológicas (acidificação) no futuro

3. Apreciação global: quais agradam mais ao painel?

A prova cega do painel treinado permite ir além dos números de laboratório. Ao atribuir notas globais (0–20), os provadores conseguiram distinguir vinhos:

  • De elevado potencial comercial (aroma agradável, boca equilibrada, boa persistência)
  • De perfil mais técnico, úteis para lotes, mas talvez menos interessantes sozinhos

É aqui que a combinação entre dados químicos e sensoriais ganha força: uma casta pode ser resistente ao calor, mas se não gerar vinhos agradáveis, dificilmente será opção para plantar em escala.


O que isto significa, na prática, para o produtor português

A ciência só faz sentido se ajudar a decidir melhor no campo e na adega. Este estudo dá pistas claras para quem quer adaptar a vinha às alterações climáticas, começando já em 2026.

1. Diversificar castas é uma estratégia de gestão de risco

Confiar o futuro da exploração a 2–3 castas dominantes é, hoje, um risco sério. A mensagem que este trabalho reforça é simples:

Ter um “portefólio de castas” é tão importante como ter um portefólio de clientes.

Algumas ações concretas que um produtor pode considerar:

  • Implantar talhões piloto (0,2–0,5 ha) com 2–3 destas castas promissoras, para testar em condições próprias
  • Rever planos de reestruturação da vinha, reservando já área para castas minoritárias com bom desempenho em calor
  • Apostar em lotes inteligentes: usar castas com boa acidez para compensar outras mais maduras e alcoólicas

2. Valorizar castas minoritárias como diferenciação no mercado

O consumidor português está mais curioso e mais atento à origem e autenticidade. Num mercado saturado de Arintos e Antão Vaz, um branco com “Bastardo Branco” ou “Galego Dourado” no rótulo pode ser uma história forte de marketing, desde que a qualidade no copo acompanhe.

Há oportunidades claras:

  • Enoturismo: provas temáticas de “castas esquecidas” ou “brancos do futuro”
  • Lançamento de edições limitadas monovarietais para testar aceitação
  • Construção de narrativas de sustentabilidade e adaptação climática associadas a estas castas

3. Menos correções na adega, mais decisões na vinha

Se a casta já entra na adega com:

  • Acidez mais equilibrada
  • Aromas estáveis em calor
  • Grau alcoólico controlado

…o enólogo tem mais margem para intervir de forma suave, com menos correções tecnológicas. Isso significa custos mais baixos, processos mais simples e vinhos mais alinhados com expectativas de naturalidade e autenticidade.


E onde entra a digitalização e a IA neste processo?

Estamos em dezembro de 2025. Falar de adaptação climática sem falar de dados e de inteligência artificial na agricultura portuguesa já não faz sentido.

A mesma lógica de rigor usada no WineClimAdapt — recolher dados, testar hipóteses, comparar resultados — pode e deve ser trazida para o dia a dia da exploração com ferramentas digitais.

Como a IA pode ajudar a escolher e gerir castas mais bem adaptadas

Há três usos muito práticos:

  1. Modelos de previsão de vindima e maturação
    Com base em históricos de clima, solo, casta e dados de maturação, modelos de IA conseguem prever:

    • Data provável de vindima por talhão e por casta
    • Risco de descontrolo de álcool/acidez
    • Necessidade de ajustes na rega ou gestão da copa
  2. Análise de dados de campo e sensoriais
    Tal como no estudo foram combinados dados químicos e provas de painel, um produtor pode:

    • Registar notas de prova internas, ano após ano
    • Associá‑las a dados de clima e maneio
    • Usar algoritmos simples para identificar que castas/talhões dão vinhos mais equilibrados em anos mais quentes
  3. Planeamento de plantação com cenários climáticos
    Integrar projeções de temperatura e precipitação até 2040/2050 com informação sobre desempenho das castas permite simular:

    • Que castas terão mais probabilidade de manter qualidade
    • Onde faz sentido concentrar investimento

A realidade é que a IA não substitui o enólogo nem o viticultor, mas ajuda a transformar intuições e experiência acumulada em decisões mais objetivas e sustentadas.


Próximos passos para quem quer agir já em 2026

Se gere uma exploração no Alentejo, Ribatejo, Tejo, Douro Superior ou outra região quente, este tipo de conhecimento não pode ficar na gaveta. Há decisões que podem ser tomadas já no curto prazo.

Algumas sugestões práticas:

  1. Mapear castas atuais por talhão
    Identificar quais são mais vulneráveis ao calor (perda rápida de acidez, escaldão, paragens de maturação).

  2. Definir 1–3 castas alternativas para testar
    Priorizar castas que, segundo estes resultados, mostram:

    • Boa acidez em climas quentes
    • Perfil aromático interessante
    • Apreciação global elevada em prova
  3. Criar um micro‑projeto de inovação na exploração

    • Reservar área piloto
    • Registar dados de campo e de prova anualmente
    • Envolver a equipa de enologia e, se possível, parceiros de investigação
  4. Explorar apoio técnico e projetos colaborativos
    Projetos como o WineClimAdapt mostram que a ligação entre produtores, institutos públicos e centros de investigação é a forma mais inteligente de reduzir risco e acelerar aprendizagem.


Porque este trabalho sobre castas brancas em climas quentes interessa a todo o setor

Este estudo não é apenas sobre química de vinhos ou cromatografia. É um sinal claro de que Portugal tem, dentro de casa, material genético capaz de responder às alterações climáticas, especialmente em regiões quentes como o Alentejo.

Os principais pontos a reter são simples:

  • castas brancas minoritárias com desempenho agronómico e sensorial muito promissor em condições de calor e secura
  • A diversidade genética é um ativo estratégico para a viticultura portuguesa
  • Projetos baseados em dados e prova sensorial estruturada ajudam a reduzir risco nas decisões de plantação
  • A combinação de investigação aplicada + digitalização + IA pode dar ao produtor português uma vantagem real num contexto climático cada vez mais exigente

Quem começar agora a testar, registar e ajustar, chegará a 2030 com vinhas mais resilientes, uma gama de vinhos mais diferenciada e uma exploração preparada para enfrentar verões mais extremos.

O desafio já não é perceber se o clima está a mudar. O desafio é decidir que castas queremos ter no campo daqui a 10, 20 ou 30 anos – e agir em conformidade.