Porque os auditores internos precisam de pensar como empreendedores

Inteligência Artificial para Empresas PortuguesasBy 3L3C

A IA não acaba com a auditoria interna. Transforma‑a numa função intraempreendedora que cria valor, inovação e novos serviços nos gabinetes portugueses.

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Porque os auditores internos precisam de pensar como empreendedores

52% dos trabalhadores vêem a inteligência artificial com preocupação. No entanto, nos gabinetes de contabilidade e nas empresas portuguesas que já estão a usar IA de forma estratégica, o padrão é outro: quem assume uma postura mais empreendedora dentro da organização não está com medo da IA – está a usá‑la para crescer, ganhar relevância e criar novas linhas de serviço.

É aqui que entra a ideia de intraempreendedor (intrapreneur): o colaborador que age como empreendedor, mas dentro da empresa. E poucas funções têm tanto potencial para isso num gabinete de contabilidade como a auditoria interna e as equipas de controlo/risk & compliance.

Neste artigo da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, vamos pegar na tese do Richard Chambers – “está na hora de os auditores internos se tornarem intrapreneurs” – e trazê‑la para a realidade dos gabinetes portugueses: o que muda com a IA, que competências humanas passam a valer mais e como é que um gabinete de contabilidade pode transformar a sua função de auditoria interna num verdadeiro motor de inovação.


O que é, na prática, um intraempreendedor na área financeira

Um intraempreendedor é, em termos simples, alguém que pensa e age como dono do negócio, mesmo tendo um contrato de trabalho tradicional.

Na contabilidade e auditoria interna, isso traduz‑se em três mudanças claras:

  1. De “verificador” para criador de valor
    Deixa de ser apenas quem aponta falhas e passa a ser quem encontra novas formas de reduzir risco, ganhar eficiência e melhorar margens – muitas vezes com apoio de IA.

  2. De reativo para proativo
    Em vez de esperar pelo erro, procura oportunidades: que processo podemos automatizar? Onde é que a equipa está a perder horas em tarefas que um modelo de IA pode acelerar?

  3. De silo técnico para parceiro de gestão
    O auditor interno intraempreendedor fala a linguagem do negócio, discute estratégia com a gestão e ajuda a tomar decisões informadas, usando dados, previsões e análise de risco em tempo real.

Num gabinete de contabilidade em Portugal, isto pode significar, por exemplo, o auditor interno que:

  • propõe um robot de reconciliação bancária alimentado por IA;
  • desenha um painel de monitorização de riscos fiscais para clientes mais complexos;
  • cria um “serviço de auditoria contínua com IA” como nova oferta comercial do gabinete.

IA não substitui auditores internos – substitui quem não se adapta

A realidade é direta: a IA já está a automatizar tarefas tipicamente associadas à auditoria interna e à contabilidade, desde testes de amostragem a análises de consistência e reconciliações.

Mas isto não significa “fim dos auditores internos”. Significa o fim do auditor que:

  • só executa checklists;
  • não entende o negócio do cliente;
  • não usa dados nem tecnologia para ganhar profundidade.

A oportunidade está precisamente no lado humano que a IA não cobre:

  • interpretar riscos complexos;
  • perceber o contexto regulatório português e europeu;
  • comunicar implicações ao cliente de forma clara e persuasiva;
  • tomar decisões em cenários ambíguos.

Quando um gabinete de contabilidade combina IA + intraempreendedores na auditoria interna, ganha quatro vantagens competitivas muito concretas:

  1. Mais velocidade – testes automáticos, alertas em tempo quase real, menos tempo em tarefas manuais.
  2. Mais profundidade – análise a 100% das transações, em vez de amostras pequenas.
  3. Mais relevância – relatos e recomendações alinhados com a estratégia do cliente, não apenas conformidade.
  4. Novas receitas – serviços de auditoria contínua, consultoria de risco, análise preditiva de fraudes, entre outros.

Esta é a lógica central da série Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas: quem usa IA para amplificar talento humano ganha; quem só substitui tarefas sem mudar mentalidades, perde.


As 9 competências‑chave do auditor interno intraempreendedor

Para um auditor interno se posicionar como intraempreendedor, precisa de desenvolver um conjunto de competências muito específicas. São humanas, complementam a IA e fazem toda a diferença na prática.

1. Criatividade e inovação

Auditoria interna criativa não é “inventar números”; é inventar melhores formas de controlar risco e gerar valor.

Num gabinete português, isto pode ser:

  • transformar um processo manual de revisão de faturas num fluxo apoiado por IA que sinaliza anomalias;
  • propor um “laboratório de automação interna” onde se testam pequenas melhorias mensais.

2. Resolução de problemas e pensamento crítico

O bom auditor não aceita a primeira explicação. Questiona, testa, cruza dados.
Na era da IA, isto inclui:

  • validar outputs dos modelos (por exemplo, porque razão a IA sinalizou certos lançamentos?);
  • desmontar falsas correlações e focar no risco real para o cliente.

3. Gestão de risco (não fobia ao risco)

Intraempreendedor não é aventureiro irresponsável. É alguém que assume riscos calculados, com plano B preparado.

Na prática:

  • desenhar um piloto com IA numa área não crítica antes de alargar ao gabinete inteiro;
  • documentar controlos adicionais quando se introduz automação em processos sensíveis (por exemplo, submissão automática de declarações fiscais).

4. Liderança e influência

Mesmo sem cargo de “diretor”, o auditor interno intraempreendedor puxa a organização para a frente:

  • apresenta business cases claros à direção do gabinete;
  • conduz reuniões com clientes para explicar novas abordagens de auditoria com IA;
  • cria pequenos grupos de trabalho para experimentar ferramentas.

5. Resiliência

Nem todas as ideias vão funcionar à primeira.
Num contexto português – com equipas pequenas, sazonalidade fiscal e muita pressão – quem tem perfil intraempreendedor sabe:

  • lidar com resistência interna (“sempre fizemos assim”);
  • aprender rapidamente com pilotos falhados e ajustar.

6. Visão estratégica

Auditoria interna que só olha para o passado está condenada. O intraempreendedor liga os pontos:

  • como é que a automação da contabilidade diária permite oferecer serviços de gestão e controlo de gestão aos clientes?;
  • que riscos emergentes (cibersegurança, proteção de dados, fraude digital) devem entrar no plano de auditoria de 2026?

7. Comunicação clara e assertiva

Pode ter a melhor análise do mundo; se não a conseguir explicar ao cliente e à gestão, não serve.
O auditor interno intraempreendedor domina:

  • relatórios curtos, focados em risco, impacto financeiro e ações concretas;
  • visualizações simples de dados (gráficos, dashboards) para suportar recomendações.

8. Capacidade de usar recursos existentes

Nem todos os gabinetes vão investir num “mega projeto de IA” em 2026. E não é preciso.

O intraempreendedor sabe usar o que já existe:

  • funcionalidades de IA em softwares de contabilidade e auditoria que o gabinete já paga;
  • modelos de IA generativa para preparar templates de working papers, planos de testes, checklists;
  • dados históricos dos clientes para criar análises de tendência simples, mas valiosas.

9. Proatividade e sentido de dono

Este é o traço que diferencia quem lidera a transformação de quem fica à espera:

  • não espera por “ordens” para propor uma melhoria;
  • mede o impacto das suas iniciativas (horas poupadas, erros reduzidos, honorários adicionais gerados);
  • comporta‑se como se o gabinete fosse seu.

Como um gabinete de contabilidade em Portugal pode cultivar intraempreendedores

Falar de competências é útil. Mas o que interessa ao sócio de um gabinete é: o que faço amanhã com a minha equipa de auditoria interna?

Eis um roteiro pragmático.

1. Redesenhar o papel da auditoria interna

Primeiro, é preciso clarificar expectativas:

  • A função existe apenas para “ver se está tudo certo”?
  • Ou para identificar riscos, oportunidades de melhoria e novas fontes de receita?

Definir isto por escrito, comunicar em reunião geral e alinhar com objetivos individuais.

2. Criar pequenos projetos de IA liderados por auditores internos

Em vez de um grande projeto, aposte em 3 mini‑pilotos de 90 dias, por exemplo:

  1. Análise automatizada de transações de um cliente de maior dimensão para detectar anomalias.
  2. Geração de rascunhos de relatórios de auditoria com IA generativa, revistos pelos auditores.
  3. Dashboard interno de acompanhamento de riscos de clientes TOP 20.

Cada piloto deve ter:

  • um responsável (intraempreendedor em formação);
  • um objetivo mensurável (reduzir 30% do tempo de testes, por exemplo);
  • uma retrospetiva formal no fim (o que funcionou, o que não funcionou, o que escalamos).

3. Ajustar métricas e reconhecimento

Não se cria uma cultura intraempreendedora medindo só horas faturadas e erros detetados.

Inclua métricas como:

  • número de melhorias de processo propostas e implementadas;
  • poupança de tempo gerada por essas melhorias;
  • novos serviços criados com envolvimento da auditoria interna;
  • satisfação de clientes com o apoio em temas de risco e controlo.

E depois faça o óbvio: reconheça publicamente quem lidera estas iniciativas.

4. Capacitar a equipa em IA aplicada à auditoria

Formação genérica em IA é um começo, mas o que realmente conta é IA no contexto da auditoria e contabilidade.

Sugestões práticas:

  • sessões internas mensais em que alguém mostra como usa a IA no dia a dia;
  • mini‑guias internos: “10 prompts úteis de IA para auditores internos”;
  • plano de formação contínua para líderes de auditoria em analytics, data literacy e ética na utilização de IA.

Perguntas que muitos gabinetes portugueses estão a fazer agora

“A minha equipa é pequena, isto não é só para big four?”
Não. Em equipas pequenas, um só intraempreendedor pode mudar a forma como o gabinete trabalha. Um piloto bem feito com IA num cliente relevante pode pagar o investimento inicial em semanas.

“A IA não é demasiado arriscada para auditoria interna?”
O risco existe se for usada sem controlo. O intrapreneur auditor sabe documentar limitações, criar duplo controlo humano e definir claramente o que é automatizado e o que é validado manualmente.

“E se a direção não quiser mexer no status quo?”
É precisamente aqui que o espírito intraempreendedor conta: começar pequeno, provar com dados, mostrar ganhos concretos. Resistência cultural combate‑se com resultados.


Próximo passo: transformar a auditoria interna no motor de IA do gabinete

A mensagem central é simples: a IA não elimina o papel do auditor interno, mas obriga a uma mudança de identidade. De fiscalizador burocrático para intraempreendedor orientado para risco, eficiência e crescimento.

Quem liderar esta mudança dentro dos gabinetes de contabilidade em Portugal vai:

  • prestar serviços de maior valor aos clientes;
  • diferenciar‑se num mercado cada vez mais comoditizado;
  • atrair talento que quer aprender, inovar e usar tecnologias modernas.

Se está a pensar na estratégia de Inteligência Artificial para a sua empresa ou gabinete, comece pela função que melhor conhece os riscos, controlos e processos: a auditoria interna. Com as pessoas certas, mentalidade intraempreendedora e projetos de IA bem desenhados, ela pode tornar‑se o laboratório onde o futuro do seu gabinete é testado, medido e escalado.