Agenda Nacional de IA: o que muda para as empresas

Inteligência Artificial para Empresas PortuguesasBy 3L3C

A nova Agenda Nacional de IA pode acrescentar 2,7 pontos ao PIB. Veja o que muda para as empresas portuguesas e como preparar já a sua estratégia de IA.

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Agenda Nacional de IA: o que muda realmente para as empresas portuguesas?

A aprovação da Agenda Nacional de Inteligência Artificial (IA) vem com uma promessa ambiciosa: acrescentar 2,7 pontos percentuais ao PIB português através do aumento da produtividade. Isto não é um detalhe técnico de Conselho de Ministros; é um sinal claro de que quem tiver uma estratégia de IA nos próximos anos vai ganhar terreno… e quem não tiver vai ficar para trás.

Neste artigo da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, vou focar a pergunta que interessa a quem gere um negócio em Portugal — seja uma seguradora, uma PME industrial ou um grupo de serviços: o que é que esta Agenda Nacional de IA muda, na prática, para a sua empresa?

A resposta é mais simples do que parece: o Estado está a criar condições (infraestruturas, competências e incentivos) para que as empresas adotem IA de forma massiva. Quem souber aproveitar esse contexto agora, nos próximos 2–3 anos, vai competir num campeonato diferente em 2030.


1. O que é a Agenda Nacional de IA e porque interessa às empresas

A Agenda Nacional de IA é o plano do Governo para acelerar a adoção de inteligência artificial em quatro eixos:

  1. Infraestrutura e Dados
  2. Inovação e Adoção
  3. Talento e Competências
  4. Responsabilidade e Ética

Para as empresas, a mensagem é direta: vai haver 32 iniciativas concretas a atuar nestas áreas, com foco especial em PME e na Administração Pública. Ou seja, o ambiente em que as empresas operam vai tornar‑se mais digital, mais automatizado e mais exigente.

O impacto económico: 2,7 pontos percentuais no PIB

O ministro da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, foi claro:

A melhoria da produtividade com a adoção de IA pode contribuir com 2,7 pontos percentuais para o crescimento da economia portuguesa.

Traduzindo isto para linguagem empresarial:

  • Haverá ganhos de eficiência transversais — menos trabalho manual repetitivo, mais automação administrativa, mais decisões baseadas em dados.
  • Setores como seguros, banca, saúde, logística, retalho e indústria transformadora vão ter margens de melhoria muito significativas.
  • Quem investir cedo em IA terá custos unitários mais baixos e tempo de resposta mais rápido do que os concorrentes.

Portugal está hoje, segundo o próprio Governo, “muito atrás da média europeia e dos EUA” em produtividade e digitalização. Isso é um problema, mas também uma oportunidade: há muito espaço para crescer mais depressa do que os outros, se as empresas aproveitarem esta fase.


2. Quatro eixos da Agenda de IA vistos do ponto de vista da empresa

A melhor forma de olhar para a Agenda Nacional de IA é perguntar: o que é que cada eixo pode trazer ao meu negócio?

2.1 Infraestrutura e Dados: o combustível da IA

IA sem dados de qualidade é só marketing. A Agenda vai acelerar:

  • Melhor acesso a infraestruturas de cloud e computação apropriadas para IA.
  • Iniciativas de partilha de dados entre entidades públicas e privadas, com enquadramento legal e ético.
  • Normalização e digitalização de processos públicos (como licenças, registos, certificados).

Para as empresas, isto significa:

  • Menos fricção em processos com o Estado (por exemplo, licenciamento mais rápido graças a IA na Administração Pública).
  • Mais dados fiáveis com que podem treinar modelos de IA (desde que respeitem a legislação de dados, claro).
  • Maior facilidade em integrar sistemas — sobretudo para setores regulados como seguros ou serviços financeiros, onde a interoperabilidade é crítica.

2.2 Inovação e Adoção: apoiar quem quer pôr IA a trabalhar

O Governo fala em “programas específicos de apoio às PME” para adoção de IA. Mesmo sem todos os detalhes públicos, há um padrão conhecido:

  • Linhas de financiamento e incentivos para projetos de transformação digital com IA.
  • Apoio a pilotos e provas de conceito em parceria com universidades e centros de I&D.
  • Criação de ecossistemas de inovação (laboratórios vivos, hubs digitais, etc.).

Se gere uma empresa portuguesa, o que pode esperar:

  • Menor custo de entrada para experimentar IA (por exemplo, um projeto piloto de detecção de fraude em seguros, ou um motor de recomendação de produtos financeiros).
  • Apoio técnico e de parceiros para não ter de construir tudo de raiz.
  • Menos desculpas para adiar a modernização tecnológica.

2.3 Talento e Competências: três milhões de pessoas até 2030

Aqui está uma das peças mais importantes para o tecido empresarial: o Pacto de Competências Digitais.

O objetivo do Governo é capacitar quase três milhões de pessoas até 2030, em três níveis:

  • 1,9 milhões com competências digitais básicas (passar de 56% para 80% da população).
  • 800 mil com competências digitais intermédias e avançadas (de 30% para 40%).
  • 100 mil com competências em tecnologias emergentes — incluindo IA — com pelo menos 30% de mulheres, subindo de 5,2% para 7% da população.

Para as empresas, isto toca em três dores clássicas:

  1. Escassez de talento técnico em IA – haverá mais profissionais com formação específica, desde data scientists até engenheiros de machine learning.
  2. Falta de literacia digital nas equipas atuais – colaboradores “não técnicos” vão ficar mais confortáveis a trabalhar com ferramentas de IA.
  3. Pressão para atualizar perfis internos – quem investir em formação interna agora vai tirar mais partido desta onda.

Se tem uma seguradora, um banco ou uma PME industrial, a oportunidade é clara:

  • Identificar já perfis internos com potencial e alinhá-los com cursos curtos de especialização.
  • Ligar‑se a programas públicos de formação acelerada para equipas de operações, risco, atendimento e gestão.

2.4 Responsabilidade e Ética: IA sim, mas com regras claras

O quarto eixo é frequentemente visto como burocrático, mas é aqui que se ganha confiança.

Em setores como seguros, saúde ou crédito, a utilização de IA sem transparência pode gerar polémicas sérias:

  • Modelos que discriminam certos perfis;
  • Decisões automatizadas sem explicação para o cliente;
  • Utilização de dados sensíveis de forma pouco clara.

Ao colocar Responsabilidade e Ética como pilar, a Agenda aponta para:

  • Regras mais claras sobre como usar IA de forma justa e auditável;
  • Diretrizes para explicar decisões de IA a clientes e reguladores;
  • Maiores exigências, mas também maior segurança jurídica para quem faz as coisas bem.

Para quem trabalha em seguros ou serviços financeiros, isto é positivo: quem se adiantar na governança de IA vai ter vantagem competitiva quando a regulação apertar.


3. Oportunidades específicas para seguradoras e serviços financeiros

No âmbito da campanha “IA para Seguradoras Portuguesas: Transformação Digital”, vale a pena olhar para alguns casos concretos onde esta Agenda Nacional de IA encaixa diretamente.

3.1 Automação inteligente de processos

Com a digitalização acelerada do Estado e maior adoção de IA nas empresas, o backoffice das seguradoras pode mudar radicalmente:

  • Liquidações de sinistros com triagem automática, análise de documentos e detecção de inconsistências.
  • Subscrição de risco com modelos preditivos que combinam dados internos e externos (sempre em conformidade com o regulador).
  • Atendimento ao cliente via chatbots avançados, capazes de aceder a dados em tempo real e executar ações — não apenas responder perguntas.

Num contexto em que a produtividade nacional ainda é baixa, quem automatizar 20–30% das tarefas repetitivas de backoffice pode ganhar uma vantagem brutal em custos e prazos.

3.2 Gestão de risco e fraude com IA

A Agenda abre caminho para mais partilha estruturada de dados e melhor infraestrutura digital. Isto beneficia diretamente:

  • Modelos de detecção de fraude mais precisos, cruzando padrões históricos com sinais em tempo real.
  • Ferramentas de modelação de risco catastrófico e climático, essenciais para seguros agrícolas, multirriscos e saúde.
  • Algoritmos de previsão de churn (cancelamento de apólices) com ações preventivas personalizadas.

A diferença entre uma seguradora “analógica” e uma seguradora com IA a sério não vai ser o número de produtos — vai ser a qualidade da decisão em cada segundo.

3.3 Experiência do cliente personalizada

Com mais literacia digital e mais contacto com IA desde a escola, os clientes em 2030 vão esperar outra coisa das seguradoras:

  • Simulações em tempo real, com IA, adaptadas ao perfil e contexto do cliente.
  • Comunicação segmentada, com conteúdos e ofertas que fazem sentido a cada momento de vida.
  • Processos 100% digitais – da subscrição ao sinistro – com intervenção humana onde acrescenta valor, não por obrigação.

A Agenda Nacional de IA não faz isto sozinha, claro. Mas cria o contexto macro que torna estas estratégias mais fáceis (e inevitáveis) para quem quer competir num mercado europeu.


4. O Pacto de Competências Digitais: como as empresas podem aproveitar

O Pacto de Competências Digitais não é só uma estatística bonita para 2030; é um mapa de recursos que as empresas podem (e devem) aproveitar.

4.1 Onde estão as oportunidades de talento

O Governo já apontou medidas como:

  • Suplemento para bolsas de doutoramento em IA;
  • Cursos de especialização de curta duração em tecnologias emergentes;
  • Formação acelerada em IA na Administração Pública.

Para uma empresa, isto abre várias portas:

  • Parcerias com universidades para estágios, projetos de dissertação e laboratórios conjuntos.
  • Recrutamento de perfis que saem de cursos curtos de especialização, focados em problemas concretos de negócio.
  • Programas internos de requalificação (reskilling) apoiados em iniciativas públicas.

4.2 O que fazer já em 2025–2026

Se a ideia é preparar a empresa para o cenário que a Agenda descreve, há passos imediatos que funcionam bem:

  1. Mapear processos candidatos a IA

    • Onde há maior volume de tarefas repetitivas?
    • Onde se tomam muitas decisões com base em regras fixas ou dados históricos?
  2. Criar um plano de competências internas

    • Quem, dentro da organização, pode tornar‑se “champion” de IA?
    • Que equipas precisam de formação básica vs. avançada?
  3. Escolher 1–2 casos de uso para piloto

    • Ex.: scoring de leads, triagem de e‑mails, classificação de documentos, previsão de churn.
    • No caso das seguradoras, um bom ponto de partida costuma ser sinistros ou contact center.
  4. Ligar‑se à Agenda e ao Pacto

    • Identificar programas públicos, incentivos ou parcerias disponíveis.
    • Estar atento às 32 iniciativas da Agenda à medida que forem detalhadas.

Quem fizer este trabalho de base agora, quando os incentivos e medidas concretas começarem a sair em força, vai estar pronto para escalar em vez de começar do zero.


5. IA nas escolas e literacia digital: o cliente e o colaborador de amanhã

Um ponto importante da conferência do Governo foi a aposta nas competências digitais desde a escola, incluindo IA.

Gonçalo Matias foi direto: não faz sentido que crianças se formem em Portugal sem contacto com IA, porque isso “colocaria numa situação de desvantagem face aos seus concorrentes”. E acrescentou: não se trata de substituir professores, mas de incluir tecnologia e IA na formação.

Porquê que isto interessa hoje a uma empresa?

  • O talento que vai recrutar em 2030 está agora no ensino básico e secundário.
  • O seu cliente de 2030 vai estar habituado a interagir com IA em apps, serviços públicos e plataformas privadas.
  • Modelos de negócio estáticos, assentes em papelada e filas, simplesmente não vão ser tolerados.

Ou seja: a Agenda Nacional de IA não é só sobre tecnologia, é sobre mudar expectativas. E empresas que ignorarem essa mudança vão parecer anacrónicas muito depressa.


6. Próximos passos para empresas portuguesas que querem agir já

Este contexto nacional de IA, competências digitais e atualização da Estratégia Digital Nacional até 2027 cria uma janela rara: há alinhamento político, financiamento europeu e pressão competitiva ao mesmo tempo.

Para quem lidera uma empresa — em particular no setor segurador — o caminho pode ser algo como isto:

  1. Definir uma visão clara para IA no negócio

    • Em que áreas a IA pode criar mais valor nos próximos 12–24 meses?
    • Que métricas quer mexer: custo por sinistro, tempo médio de resposta, taxa de fraude detetada, NPS do cliente?
  2. Começar pequeno, medir rápido, escalar depressa

    • Um piloto bem escolhido e bem medido vale mais do que um “grande programa de transformação” que nunca sai do PowerPoint.
    • Use a Agenda Nacional de IA como enquadramento e como alavanca para justificar investimento interno.
  3. Construir confiança: ética, explicabilidade e segurança

    • Definir desde já políticas internas de uso de IA: dados usados, revisão humana, explicação de decisões.
    • Encarar a ética de IA não como travão, mas como fator de confiança junto de clientes e reguladores.
  4. Ligar estratégia de IA à estratégia de talento

    • Mapear perfis, desenhar planos de formação, aproveitar programas públicos.
    • Criar uma cultura em que IA é vista como ferramenta para amplificar pessoas, não para as substituir.

A realidade é esta: Portugal não vai substituir os EUA ou a China em IA, mas pode liderar em nichos específicos — desde que empresas e Estado puxem para o mesmo lado. A Agenda Nacional de IA, o Pacto de Competências Digitais e a atualização da Estratégia Digital Nacional são o quadro. A forma como a sua empresa atua dentro desse quadro é que vai definir quem cresce mais rápido na próxima década.

Se pertence ao universo das seguradoras portuguesas ou de qualquer outra empresa nacional que queira tratar a IA como eixo estratégico, este é o momento de preparar o plano. Os 2,7 pontos percentuais de PIB não aparecem por magia — aparecem porque milhares de empresas tomam hoje decisões diferentes sobre produtividade, tecnologia e talento.