A nova Agenda Nacional de IA pode acrescentar 2,7 pontos ao PIB. Veja o que isto significa, na prática, para seguradoras portuguesas e onde estão as oportunidades.
IA em Portugal: de atraso estrutural a oportunidade real
Portugal continua abaixo da média europeia na adoção de inteligência artificial, mas o Governo acaba de pôr um número ambicioso em cima da mesa: a Agenda Nacional para a IA pode acrescentar 2,7 pontos percentuais ao PIB entre 2023 e 2030.
Para um setor como o segurador, que vive de dados, previsão de risco e relação contínua com o cliente, isto não é um detalhe macroeconómico. É um sinal claro: quem estiver preparado para esta vaga de investimento público e enquadramento regulatório vai ganhar quota, margem e velocidade. Quem ficar para trás, vai sentir a pressão em cada renovação de apólice.
Neste artigo da série "Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas", vou pegar na nova Agenda Nacional de IA e traduzi-la em impactos concretos para seguradoras portuguesas: onde estão as oportunidades, o que o Governo vai realmente apoiar e como preparar já a sua organização.
O que é, na prática, a Agenda Nacional de IA?
A Agenda Nacional de Inteligência Artificial aprovada em 04/12/2025 é o plano do Governo para acelerar a adoção de IA em Portugal. Tem 32 iniciativas e assenta em quatro eixos:
- Infraestrutura e dados
- Inovação e adoção
- Talento e competências
- Responsabilidade e ética
O ministro Gonçalo Matias foi direto: Portugal parte em desvantagem face à média da UE e aos EUA, mas isso significa margem de crescimento. Para as empresas, sobretudo para quem está em setores regulados como seguros, isto traduz‑se em duas mensagens:
- vai haver mais incentivos, programas e financiamento para projetos de IA;
- vai haver mais escrutínio ético e regulatório sobre como usam IA, em especial na avaliação de risco, pricing e sinistros.
A boa notícia? As seguradoras já vivem com regulação apertada. Se souberem alinhar desde cedo com os princípios desta agenda, podem transformar a IA num fator de confiança adicional junto de clientes, regulador e parceiros.
Os 4 eixos da Agenda… vistos pelos olhos de uma seguradora
1. Infraestrutura e dados: o novo "core" das seguradoras
O primeiro eixo da Agenda foca‑se em capacidade computacional e economia de dados, reduzindo a dependência externa. Para as seguradoras portuguesas isto toca em três pontos críticos:
data lakesseguros para consolidar dados de clientes, sinistros, IOT, fraudes;- capacidade de treino e execução de modelos de IA (incluindo modelos de linguagem);
- governação de dados consistente com a DGS, GDPR e futura regulação de IA.
Porque é que isto interessa ao negócio?
Porque sem uma base de dados bem organizada e infraestruturas capazes, a IA fica limitada a pilotos simpáticos que nunca escalam. Com a agenda nacional, veremos mais:
- parques tecnológicos e clouds soberanas disponíveis para setores regulados;
- linhas de apoio a modernização de sistemas legados, muitas vezes o grande bloqueio nas seguradoras;
- iniciativas de partilha de dados setoriais anonimizados, que podem alimentar modelos de risco mais robustos.
Se eu estivesse na direção de uma seguradora, olhava para este eixo como o gatilho para avançar com três movimentos em 2026:
- Inventário sério de dados (o que temos, onde está, que qualidade tem).
- Roadmap de migração de sistemas core para arquiteturas mais abertas a IA.
- Plano de
data governancealinhado com os princípios nacionais de IA responsável.
2. Inovação e adoção: IA no terreno, não em apresentações
O segundo eixo da Agenda foca‑se na inovação e adoção de IA, com destaque para PMEs, mas o impacto chega claramente às grandes seguradoras e aos seus ecossistemas de agentes e mediadores.
Há quatro casos de uso que, na prática, podem beneficiar diretamente de programas públicos de apoio:
-
Automatização de sinistros
- triagem automática de participações (texto e imagem);
- deteção de fraude em tempo quase real;
- estimativas de indemnização com base em históricos e imagens (por exemplo, automóvel);
-
Subscrição inteligente
- modelos de scoring de risco que combinam dados tradicionais com sinais alternativos;
- apoio aos underwriters com sistemas de recomendação, e não caixas negras incontroláveis;
-
Experiência de cliente omnicanal
- assistentes virtuais em português europeu, integrados com CRM;
- orçamentos e simulações em segundos, com linguagem natural;
- acompanhamento proactivo de renovações e cross‑sell (sem spam).
-
Back‑office e conformidade
- extração automática de informação de apólices antigas;
- apoio jurídico na análise de novos normativos;
- geração de relatórios regulatórios com IA assistiva.
A diferença da próxima fase, com a nova Agenda, é que estes projetos deixam de ser vistos como “luxo de inovação” e passam a encaixar em programas nacionais com metas mensuráveis: produtividade, PIB, exportação de serviços digitais.
Para as seguradoras, isto abre a porta a:
- candidaturas a programas de cofinanciamento para projetos de IA;
- parcerias com universidades e centros de I&D para desenvolver modelos específicos para risco e sinistros;
- plataformas partilhadas dentro do setor (por exemplo, motores de deteção de fraude alimentados por várias companhias, respeitando a privacidade).
3. Talento e competências: não chega contratar um “Head of AI”
O terceiro eixo é talvez o mais subestimado: talento e competências. O Governo quer reforçar a capacidade de atração e retenção de talento de IA em Portugal.
No mundo segurador, a guerra pelo talento já não é apenas pelos atuários. Hoje, uma seguradora competitiva precisa de perfis como:
machine learning engineerscapazes de pôr modelos em produção em ambientes regulados;data scientistscom sensibilidade para risco, pricing e sinistros;- especialistas em responsible AI e conformidade algorítmica;
product ownersque falem negócio e tecnologia.
Mas o erro mais comum que vejo é este:
Contrata‑se uma pequena equipa de IA, isola‑se num “innovation lab” e o resto da organização continua a trabalhar como se nada tivesse mudado.
A Agenda Nacional vai empurrar o país na direção contrária: formação transversal. Para seguradoras, isto traduz‑se em:
- programas internos para que gestores de produto, comerciais e equipas de sinistros compreendam o básico de IA (o suficiente para pedir bem e supervisionar melhor);
- requalificação de colaboradores para funções novas (por exemplo, de tarefas repetitivas de processamento para analistas de exceções com apoio de IA);
- participação ativa em programas nacionais de pós‑graduação, academias digitais e bootcamps.
Quem começar cedo a estruturar uma "Academia de IA para Seguros" interna, alinhada com os esforços nacionais, vai ter muito mais facilidade em atrair talento – porque mostra visão e compromisso.
4. Responsabilidade e ética: o tema que pode travar ou acelerar tudo
O quarto eixo da Agenda é responsabilidade e ética. Para o setor segurador, este não é apenas mais um capítulo teórico: é o ponto sensível.
Áreas como:
- pricing diferenciado por perfil;
- recusa de seguro ou imposição de agravamentos;
- priorização de sinistros;
- scoring de risco de saúde ou vida;
são precisamente onde um uso opaco ou enviesado de IA pode gerar problemas sérios: reputacionais, legais e regulatórios.
A postura do Governo é clara: quer um ecossistema de IA responsável e um enquadramento regulatório eficaz. Isso encaixa diretamente com a agenda europeia (AI Act) e com a sensibilidade da DGS.
Do lado das seguradoras, isto significa que projetos de IA devem nascer com alguns princípios obrigatórios:
- explicabilidade mínima em decisões que afetam diretamente o cliente;
- registos e logs das decisões automáticas para auditoria;
- mecanismos de recurso humano para decisões sensíveis (ex.: recusas);
- equipas multidisciplinares (negócio, jurídico, tecnologia, ética) a definir políticas de IA.
Aqui, a vantagem competitiva não é ser o mais agressivo. É ser o mais confiável. Quem conseguir comunicar ao mercado "usamos IA, mas de forma justa, auditável e supervisionada" vai ganhar em retenção, NPS e relação com o regulador.
IA para seguradoras portuguesas: três prioridades para 2026
A Agenda Nacional de IA é macro, mas o impacto nas seguradoras é muito concreto. Se tiver de escolher três prioridades práticas para 2026, seriam estas:
1. Definir uma estratégia de IA alinhada com a Agenda Nacional
Em vez de ter dezenas de pilotos dispersos, é hora de criar um roadmap de IA para a seguradora, com 3 a 5 casos de uso prioritários, ligados a métricas claras:
- redução do tempo médio de liquidação de sinistros em X%;
- aumento da taxa de autoatendimento digital em Y%;
- diminuição da fraude detetada tardiamente em Z%;
- melhoria da produtividade por colaborador em back‑office.
Esse roadmap deve ser cruzado com os 4 eixos da Agenda (infraestrutura, adoção, talento e ética), para identificar:
- que apoios públicos podem ser acionados;
- que parcerias académicas fazem sentido;
- quais os riscos regulatórios a mitigar logo na fase de desenho.
2. Começar já por um caso de uso "ganha‑ganha"
A pior abordagem é tentar fazer tudo ao mesmo tempo. O que tenho visto funcionar melhor em seguradoras é começar por um caso de uso com impacto claro para o cliente e para o back‑office, por exemplo:
- triagem inteligente de sinistros automóvel ou saúde com IA:
- o cliente sente resposta mais rápida;
- a equipa interna trata apenas os casos que realmente precisam de análise humana profunda.
Ao escolher o primeiro caso de uso, vale a pena usar três critérios:
- Dados já disponíveis e de qualidade aceitável;
- Risco regulatório controlável;
- Impacto mensurável em 6–12 meses.
Com um "quick win" em IA para seguradoras portuguesas, torna‑se muito mais fácil ganhar o apoio do conselho de administração para escalar a iniciativa.
3. Criar uma "governação de IA" antes que seja tarde
Muitas empresas só pensam em governação quando o regulador bate à porta. Hoje isso é curto. Com a Agenda Nacional, AI Act e maior atenção pública ao tema, quem não tiver uma estrutura mínima de governação de IA vai sofrer.
Para uma seguradora portuguesa, uma governação leve mas eficaz pode incluir:
- um comité de IA com representação de risco, jurídico, tecnologia, negócio e compliance;
- um registo central de modelos (que modelos usamos, para quê, com que dados);
- políticas claras sobre dados sensíveis, explicabilidade e supervisão humana.
Não se trata de burocracia. Trata‑se de garantir que a IA aumenta a confiança no setor segurador, em vez de a corroer.
Porque é que esta Agenda é uma oportunidade rara para o setor segurador
A Agenda Nacional de Inteligência Artificial coloca, pela primeira vez, a IA como prioridade explícita de competitividade do país, com metas económicas concretas. Para as seguradoras portuguesas, isto significa:
- acesso mais fácil a talento, infraestruturas e parcerias;
- enquadramento claro para trabalhar IA em segmentos sensíveis como saúde e vida;
- contexto político e regulatório que recompensa quem investe cedo e com responsabilidade.
Se a IA pode acrescentar 2,7 pontos percentuais ao PIB, parte desse crescimento virá seguramente de setores intensivos em dados, como o segurador. A questão é simples: quer que a sua companhia seja protagonista ou apenas espectadora dessa transformação?
Se a sua organização está a desenhar a estratégia de IA para 2026 e quer alinhar com a Agenda Nacional, este é o momento certo para avançar. Quanto mais cedo transformar as linhas desta política pública em projetos concretos – sinistros mais rápidos, pricing mais justo, experiência digital mais fluida – mais difícil será para a concorrência recuperar terreno.