A expansão do 5G em Portugal está a criar a base técnica para a próxima vaga de IA nas seguradoras, da fraude em tempo real à telemática auto e IoT industrial.
5G em Portugal: o motor escondido da IA nas seguradoras
Em 2025, Portugal já conta com 14.890 estações 5G ativas. Só este número já dizia muito sobre a ambição digital do país. Mas a leitura interessante começa quando se cruza este dado com outro: apenas 11,5% das empresas portuguesas utilizam IA de forma efetiva. Há aqui um desfasamento claro entre o potencial da infraestrutura e o uso real que o tecido empresarial — e em particular o setor segurador — está a tirar dela.
Este artigo faz a ponte entre estes dois mundos: o avanço da rede 5G (com destaque para a corrida entre Vodafone, Nos, Digi e Meo) e aquilo que isso pode (e deve) desbloquear na transformação digital das seguradoras portuguesas, desde a deteção de fraude em tempo real até à personalização de produtos e à automação de sinistros.
A realidade? É mais simples do que parece: sem redes rápidas e com baixa latência, a IA nas seguradoras fica sempre a meio gás. Com 5G robusto, a conversa muda completamente.
Onde está o 5G em Portugal e porque é que isso interessa às seguradoras
Portugal fechou o terceiro trimestre com 14.890 estações 5G, um crescimento de 40,6% face ao ano anterior. Não é um detalhe técnico: é a base da próxima vaga de inovação em setores altamente regulados e dependentes de dados, como os seguros.
Quem está a liderar a infraestrutura 5G
Segundo a Anacom, o retrato é este:
- Vodafone: 5.273 estações 5G (líder em volume absoluto)
- Nos: 4.768 estações 5G
- Digi: 2.581 estações 5G (partindo de zero em 2024)
- Meo: 2.268 estações 5G
Em termos de crescimento anual:
- Meo: +47,7% (mais 732 estações)
- Vodafone: +23,3% (mais 997 estações)
- Nos: ligeira descida (-0,3%)
- Digi: entrada agressiva no mercado, partindo de 0 para 2.385 estações no 1.º trimestre de 2025 e chegando às atuais 2.581 (+8,2% entre o 1.º e o 3.º trimestre)
Para uma seguradora, o que é que isto muda?
- Cobertura e estabilidade: mais estações significam melhor sinal, menos falhas e maior previsibilidade na recolha e envio de dados.
- Latitude para soluções em tempo real: da telemática auto à monitorização IoT em empresas, tudo depende de redes que aguentem milhares de dispositivos ligados sem engasgar.
- Maior diversidade de parceiros: a entrada forte da Digi, por exemplo, aumenta a concorrência e abre espaço para acordos mais competitivos em projetos B2B.
700 MHz vs 3,6 GHz: o que estas frequências significam para projetos de IA
A Anacom destaca dois blocos de frequência cruciais para 5G em Portugal:
- 700 MHz (maior cobertura): 11.289 estações
- 3,6 GHz (maior capacidade): 5.387 estações
Não é conversa para engenheiros de redes apenas. Para quem está a desenhar a estratégia de IA em seguradoras, isto tem implicações muito práticas.
Onde a faixa de 700 MHz faz a diferença
A frequência de 700 MHz chega mais longe e atravessa melhor paredes e obstáculos. É a base para:
- Cobertura em freguesias menos densas, onde há clientes mas pouca fibra
- Projetos IoT dispersos: sensores agrícolas, soluções de seguros paramétricos para fenómenos climáticos, monitorização de infraestruturas remotas
- Serviços móveis estáveis para equipas de peritagem em campo, apoio ao cliente em mobilidade e recolha de dados em sinistros complexos
Se a sua seguradora quer chegar para além de Lisboa, Porto e Algarve, a disponibilidade de 700 MHz é o que torna viável recolher dados de forma contínua e alimentar modelos de IA com realidade nacional, não só urbana.
Onde a faixa de 3,6 GHz se torna crítica
Já a faixa de 3,6 GHz é a “autoestrada” da capacidade:
- Mais largura de banda para vídeo em alta definição, processamento intensivo e grandes volumes de dados
- Latência muito baixa, essencial para aplicações em tempo (quase) real
Em contexto segurador, isto permite, por exemplo:
- Video-peritagens em 4K com análise automática de imagem por IA, reduzindo deslocações e acelerando decisões
- Deteção de fraude em tempo real ao cruzar múltiplas fontes de dados durante a abertura de sinistro
- Simulações complexas de risco na cloud, alimentadas por dados em fluxo contínuo (sensores industriais, edifícios inteligentes, telemática automóvel)
As seguradoras que souberem mapear a sua estratégia de IA à geografia do 5G (onde há 700 MHz, onde há 3,6 GHz, que operador oferece o quê) vão ganhar uma vantagem competitiva clara.
Cobertura 5G: o que já existe e onde estão os riscos
Hoje, todos os concelhos de Portugal têm pelo menos uma estação 5G, mas a cobertura ainda não é homogénea:
- 75% das freguesias (2.318) estão cobertas
- 62,4% das estações estão em áreas predominantemente urbanas
- Cerca de 14% em áreas mediamente urbanas
- 23,6% em zonas rurais
Ou seja: o foco ainda está nas áreas densas e nas zonas com forte sazonalidade (Algarve, litoral, grandes centros). Isto cria uma realidade a duas velocidades.
O impacto desta assimetria nas seguradoras
Se está a desenhar um roadmap de IA e automação, há três perguntas que valem a pena:
- Os produtos que quero lançar dependem de dados em tempo real ou posso trabalhar com dados quase em batch?
- A minha base de clientes é maioritariamente urbana ou tenho peso forte em zonas rurais?
- O que acontece ao meu serviço se o cliente estiver em zona sem 5G? Há fallback bem desenhado (4G, offline, etc.)?
Uma seguradora que desenhe um seguro automóvel baseado em telemática “sempre ligada” mas com clientes em zonas onde só 50% do percurso tem 5G vai ter modelos enviesados, dados incompletos e decisões de pricing menos justas.
Por isso, a estratégia sensata passa por:
- Combinar 5G com outras fontes de dados (histórico de comportamento, dados declarativos, contexto geográfico)
- Desenhar arquiteturas tolerantes a falhas: buffer local nos dispositivos, sincronização assim que há 5G ou boa cobertura 4G
- Negociar SLAs claros com operadores quando o negócio depende mesmo de baixa latência e alta disponibilidade
O papel dos operadores na transformação digital das seguradoras
Os quatro operadores não são todos iguais na forma como usam o 5G onde já têm presença:
- Nos: tem 5G em 94% dos locais onde está presente (maior proporção)
- Vodafone: 90,6%
- Digi: 61,5%
- Meo: 40,9%
Isto mostra dois factos importantes:
- A estratégia da Nos é muito orientada para “ativar” 5G praticamente sempre que tem rede. Para uma seguradora com forte presença urbana, isto torna a Nos um parceiro interessante para pilotos intensivos de IA.
- Vodafone combina volume absoluto com alta percentagem de ativação 5G, o que é relevante para projetos que precisem de escala nacional rápida.
Como um CIO ou CDO de seguradora deve olhar para isto
Em vez de escolher o operador apenas pelo preço de dados móveis dos colaboradores, vale a pena pensar assim:
-
Que clusters de negócio quero ativar com IA nos próximos 12–24 meses?
- Auto conectado
- Saúde digital (telemedicina, wearables, monitorização remota)
- Seguros empresariais com IoT industrial
- Seguros agrícolas ou climáticos
-
Em que zonas do país estou mais exposto nesses produtos?
-
Que operador me dá a melhor combinação de:
- Cobertura 5G efetiva nas zonas prioritárias
- Latência e capacidade em áreas urbanas e industriais
- Abertura a parcerias B2B (APIs, edge computing, fatiamento de rede / network slicing)
Quem tratar a escolha do operador como decisão estratégica de dados, e não apenas como contrato de comunicações, vai conseguir acelerar muito a adoção de IA.
Três casos concretos onde 5G e IA mudam o jogo nas seguradoras
Para tirar isto do plano teórico, vamos a exemplos práticos que uma seguradora em Portugal pode implementar hoje, apoiando-se na infraestrutura 5G que o país já tem.
1. Deteção de fraude em tempo real nos sinistros
Com 5G e IA, é possível:
- Captar, no momento da participação de sinistro, vídeo e fotos em alta resolução via app
- Processar essas imagens em cloud com modelos de visão computacional (detetar incoerências, danos pré-existentes, padrões típicos de fraude)
- Cruzar automaticamente com histórico de sinistros, localização, hora do dia e padrões semelhantes
Aqui, a baixa latência do 5G é crítica para:
- Dar uma resposta quase imediata ao cliente (aceitação preliminar, pedido de mais provas, encaminhamento para peritagem física)
- Evitar que o processo “quebra” a experiência do utilizador devido a uploads lentos ou timeouts
2. Seguros automóvel baseados em comportamento (telemática)
Com a densidade atual de estações, sobretudo em áreas urbanas, já é viável ter:
- Dispositivos telemáticos ou apps que enviam dados contínuos de condução (travagens, acelerações, horários, tipos de via)
- Modelos de scoring de risco que se atualizam quase em tempo real
- Tarifas dinâmicas e personalizadas, com feedback direto ao cliente: conduções mais seguras reduzem o preço, quase como um “bónus-malus” inteligente
Sem 5G, parte deste modelo teria de ser assíncrono e menos granular. Com 5G, consegue-se uma visão muito mais fiel da realidade, com impacto direto na sinistralidade e na experiência do cliente.
3. Gestão de risco empresarial com IoT
Indústrias, armazéns, hotéis, centros comerciais: todos estes espaços podem ter centenas de sensores (temperatura, humidade, vibração, intrusão, fuga de água, etc.).
Com 5G e IA, uma seguradora pode:
- Monitorizar estes dados de forma contínua
- Antecipar eventos de risco (sobreaquecimento, humidade anómala, padrões de vibração que indicam falha iminente)
- Enviar alertas ao cliente e prevenir sinistros em vez de apenas os indemnizar
Este tipo de produto só é viável quando a rede aguenta muitos dispositivos ligados, com baixo consumo energético e custo unitário reduzido — exatamente o tipo de cenário que o 5G suporta bem.
Próximo passo para seguradoras portuguesas: alinhar roadmap de IA com o mapa do 5G
A mensagem central é direta: a corrida ao 5G em Portugal não é apenas um tema das telecomunicações, é um pilar da competitividade das seguradoras na próxima década.
Enquanto Digi, Vodafone, Nos e Meo disputam estações e frequências, quem trabalha em seguros tem aqui uma oportunidade clara:
- Mapear a infraestrutura 5G nas suas zonas chave de negócio
- Priorizar casos de uso de IA que beneficiem realmente de baixa latência e alta capacidade
- Negociar parcerias tecnológicas com operadores, em vez de apenas comprar pacotes de dados
No contexto da série “Inteligência Artificial para Empresas Portuguesas”, o recado é simples: quem está em seguros e continua a pensar em IA apenas como “um motor analítico em cima da base de dados” está a olhar para metade do tabuleiro.
IA para seguradoras portuguesas exige três camadas alinhadas:
- Infraestrutura (5G, cloud, IoT)
- Dados (qualidade, governança, cobertura geográfica real)
- Modelos e processos (casos de uso bem definidos, medição de impacto, mudança organizacional)
À medida que o 5G se aproxima de todo o território e novos operadores como a Digi aceleram a expansão, o contexto técnico deixa de ser desculpa. A questão deixa de ser “se” a IA vai transformar o setor segurador em Portugal e passa a ser “quem está a posicionar-se para tirar partido da infraestrutura que já existe”.
Se a sua seguradora ainda não tem um mapa claro de como o 5G pode potenciar a sua estratégia de IA, este é o momento ideal para o desenhar — antes que os concorrentes o façam por si.