Mediadores e seguradoras em Portugal estão presos a softwares “de aço”. Veja como a IA modular, no modelo “lego”, está a libertar tempo comercial e a transformar a mediação.
IA para mediadores: da rotina de aço ao seguro em “lego”
A maioria dos mediadores de seguros em Portugal continua a passar horas por semana em tarefas de backoffice que não geram um único euro adicional de comissão: reconciliações, registos manuais em múltiplos portais, respostas repetitivas a emails, exportar e importar ficheiros. Isso não é “trabalho comercial”, é pura fricção operacional.
A insurtech portuguesa Frank apareceu precisamente para atacar este problema. A metáfora que usam – “lego em vez de aço” – resume bem a mudança de paradigma: deixar para trás softwares rígidos, difíceis de integrar, e passar para módulos de inteligência artificial que se encaixam no que o mediador já tem. Neste artigo da série “IA para Seguradoras Portuguesas: Transformação Digital”, pego no caso da Frank e das suas parcerias com Libax, Lluni e Gemese para mostrar, de forma prática, como a IA pode libertar tempo comercial, reduzir erro humano e preparar a mediação para 2026.
O que significa “lego em vez de aço” no dia a dia do mediador
“Lego em vez de aço” é mais do que um slogan. É uma forma diferente de pensar tecnologia para seguros.
Na prática, significa três coisas muito concretas:
- Modularidade – em vez de um único software gigante que faz tudo “mais ou menos”, o mediador passa a ter blocos especializados: um ERP para faturação, um CRM, um assistente de IA para tarefas repetitivas, um módulo de comunicação com clientes, etc.
- Integração via API – estes blocos “falam” entre si. A integração que a Frank anunciou com o ERP da Libax é um bom exemplo: os dados de carteira fluem em tempo real entre sistemas, sem exportar CSV nem reescrever informação à mão.
- Personalização rápida – cada mediador tem processos diferentes. Com blocos tipo lego, é possível montar fluxos à medida, sem ter de pedir um desenvolvimento caro e demorado sempre que surge uma nova necessidade.
A metáfora do aço descreve o oposto: softwares monolíticos, difíceis de parametrizar, cheios de campos obrigatórios que ninguém usa, ciclos de atualização lentos e integrações quase impossíveis. O resultado é conhecido: a equipa adapta-se ao software, em vez de o software se adaptar ao negócio.
Na mediação portuguesa, onde muitos operadores ainda trabalham com misturas de Excel, portais das seguradoras e ERPs pouco flexíveis, esta diferença pode ser a linha que separa quem cresce de quem estagna.
Onde a IA gera valor imediato na mediação de seguros
A IA não é um conceito abstrato. Quando bem aplicada a um mediador, traduz‑se em minutos poupados em cada processo e em mais tempo para vender e aconselhar. A abordagem da Frank ilustra bem isto.
1. Automatização de tarefas de backoffice
O coração da proposta é simples:
"Os agentes de seguros não precisam de gastar horas preciosas em tarefas de backoffice repetitivas."
Com um assistente de IA integrado no ERP (como no caso da Libax) é possível:
- Preencher dados de apólices automaticamente, a partir de emails, PDFs ou formulários online.
- Atualizar alterações de moradas, IBAN, coberturas em múltiplos sistemas a partir de um único input.
- Gerar e enviar emails padrão (renovações, lembretes de pagamento, pedidos de documentos) com personalização automática.
- Registar contactos (chamadas, visitas, pedidos via WhatsApp) no CRM sem intervenção manual.
Mesmo em estruturas pequenas, não é raro encontrar 6–10 horas por semana gastas neste tipo de microtarefas. Multiplicando por 4 semanas, falamos facilmente de mais de um dia de trabalho por mês recuperado por colaborador.
2. Consulta de carteira em tempo real
Ao integrar o assistente de IA com sistemas como o ERP da Libax ou softwares da Lluni e Gemese, o mediador passa a ter acesso imediato a dados de carteira:
- produção por ramo, companhia e mediador subespecialista;
- apólices a renovar nos próximos 30/60/90 dias;
- clientes com maior potencial de cross-selling;
- sinistralidade por segmento.
Em vez de pedir a alguém para “puxar um relatório para Excel”, o mediador pode falar com o assistente de IA:
- “Mostra‑me clientes PME com mais de 10 mil euros de prémio que não têm ciberseguro.”
- “Quais são as 20 apólices com maior probabilidade de cancelamento este trimestre?”
Esta capacidade, que muitos veem nas grandes seguradoras, passa a estar disponível também para mediadores independentes e pequenas corretoras.
3. Personalização de processos e jornadas
Cada mediador tem o seu “jeito” de trabalhar a carteira. Com uma arquitetura em lego, é possível ajustar a jornada ao negócio:
- criar um fluxo específico para PME industriais, diferente do fluxo para retalho particular;
- automatizar mensagens distintas para clientes com sinistros recentes versus clientes sem sinistros há mais de 3 anos;
- adaptar a cadência de contacto a segmentos de risco (ex.: transporte, construção, saúde, vida risco).
A IA passa a ser o “motor” que dispara ações certas no momento certo, com base em dados reais, e não apenas em rotinas manuais de agenda.
Parcerias Frank–Libax–Lluni–Gemese: porque é que isto interessa às seguradoras
Do ponto de vista das seguradoras portuguesas, o movimento da Frank não é só uma boa notícia para mediadores. É também uma forma prática de acelerar a transformação digital do canal de mediação, sem obrigar cada companhia a reinventar a roda.
Menos fricção, mais produção
Quando um mediador tem processos mais fluídos, ele:
- responde mais depressa a pedidos de cotação;
- acompanha melhor renovações críticas;
- tem tempo para fazer cross‑selling estruturado.
Tudo isto tende a aumentar a produção de prémios para as seguradoras parceiras, com uma melhoria da experiência do cliente final.
Dados mais limpos e estruturados
Outra vantagem direta para as seguradoras é a qualidade dos dados. Ao automatizar registos e sincronizar sistemas via API:
- reduz‑se o erro humano em moradas, NIF, IBAN;
- evita‑se duplicação de registos;
- melhora‑se a visão 360º do cliente.
Para áreas de subscrição automatizada, deteção de fraude e gestão de sinistros com IA (outros pilares desta série), dados limpos são ouro. Não é possível montar bons modelos de machine learning em cima de bases de dados caóticas.
Uma base para inovação colaborativa
Quando Libax, Lluni, Gemese e Frank trabalham em conjunto, abre‑se a porta a projetos-piloto específicos com seguradoras:
- bots de subscrição pré‑cotação suportados nas regras das companhias e nos dados em tempo real dos mediadores;
- alertas de fraude que combinam informação interna da companhia com sinais comportamentais detetados no dia a dia do mediador;
- sinistros semi‑automatizados em ramos de alto volume (automóvel, habitação, saúde), com recolha de informação guiada por IA.
É aqui que o tema desta série ganha corpo: IA para Seguradoras Portuguesas não é só projetos internos; é também equipar o ecossistema de mediação com ferramentas inteligentes e interligadas.
Como um mediador pode começar a usar IA em 90 dias
Muitos mediadores olham para estes temas e pensam: “isto é para grandes corretoras, não para mim”. Discordo. Há um caminho realista para qualquer mediador dar os primeiros passos em menos de 90 dias.
Passo 1 – Mapear as tarefas de aço
Durante uma semana, registe:
- tudo o que é repetitivo (copiar dados, enviar emails padrão, atualizar moradas);
- o tempo gasto nessas tarefas;
- quem as executa.
No final, terá um mapa claro da “rotina de aço”. Aí percebe logo onde a IA pode ter impacto rápido.
Passo 2 – Escolher 1 ou 2 casos de uso simples
Não tente mudar tudo. Boas primeiras escolhas são:
- automatizar emails de renovações e lembretes de pagamento;
- automatizar o registo de contactos no CRM/ERP;
- criar um painel de renovações e oportunidades de cross‑selling com base na carteira.
Se estes três processos estiverem suportados por IA, ganha-se logo visibilidade comercial e tempo.
Passo 3 – Integrar com o sistema que já usa
Aqui entram empresas como a Frank e as suas parcerias:
- se já usa um ERP como o Libax, faz sentido aproveitar a integração via API com o assistente de IA;
- se trabalha com soluções de software da Lluni ou da Gemese, confirme que módulos de automatização e IA já existem prontos a ligar.
O objetivo não é trocar tudo, é acrescentar blocos de lego à estrutura atual.
Passo 4 – Medir antes e depois
Para que a transformação digital não seja apenas um buzzword, defina indicadores muito concretos durante 3 meses:
- tempo médio para preparar uma renovação;
- número de erros de registo detetados pela companhia;
- número de contactos comerciais por semana por produtor;
- taxa de renovação e de cross‑selling em dois ou três segmentos.
Se a IA estiver bem aplicada, deverá ver melhoria em pelo menos dois destes indicadores logo no primeiro trimestre.
E as seguradoras? O que podem fazer já em 2026
Do lado das seguradoras, 2026 pode ser o ano em que a IA salta do power‑point para o terreno, articulando‑se com a mediação.
Algumas ações práticas:
- Mapear mediadores mais recetivos à inovação e envolvê‑los em pilotos com insurtechs como a Frank.
- Definir APIs comerciais claras para subscrição, sinistros e consulta de carteira, que possam ser consumidas por ERPs como o Libax e softwares da Lluni e Gemese.
- Criar incentivos comerciais (bónus, apoio técnico, formação) para mediadores que adotem automação e IA em áreas críticas como renovações e gestão de sinistros.
- Alinhar os projetos internos de IA (subscrição automatizada, score de fraude, triagem de sinistros) com os dados que chegam do canal mediado, garantindo qualidade e consistência.
Tenho visto que os projetos que envolvem seguradora + mediadores + insurtech têm muito mais probabilidade de gerar impacto real: menos resistência à mudança, mais feedback do terreno e resultados que se sentem no P&L.
Porque “lego em vez de aço” é uma boa metáfora para a próxima década
A metáfora usada pela Frank resume a direção que o mercado português de seguros vai seguir, queira ou não:
- Mais blocos modulares de IA e automação, facilmente encaixáveis em sistemas existentes.
- Menos software pesado e fechado, que obriga a processos rígidos e longos ciclos de mudança.
- Mais colaboração entre seguradoras, mediadores e insurtechs, baseada em APIs, dados partilhados e co‑desenvolvimento.
Para quem trabalha em seguros em Portugal – seja numa seguradora, numa corretora ou como agente – a pergunta já não é se a IA vai chegar ao seu negócio, mas como e quando.
Se quiser começar a transformar a sua operação, o ponto de partida é simples:
- identifique onde ainda está preso ao “aço”;
- escolha 1 ou 2 blocos de “lego” digitais para testar;
- envolva parceiros tecnológicos e seguradoras que estejam alinhados com esta visão.
A partir daí, a transformação deixa de ser um projeto abstrato e passa a ser um processo contínuo, feito de pequenas vitórias mensais. É exatamente essa a lógica da série “IA para Seguradoras Portuguesas: Transformação Digital” – mostrar que a mudança não é teórica nem distante. Está a acontecer agora, em Leiria, Guimarães, Lisboa, Porto, Aveiro e em muitos outros pontos do país.
Se a sua equipa ainda está a trabalhar com aço, este é um bom momento para começar a montar os primeiros legos.