IFRS 18, Pillar 2 e e-faturação vão expor dados fiscais em tempo real. Veja como gabinetes de contabilidade em Portugal podem usar IA para transformar risco em oportunidade.
Transparência fiscal 2026: ameaça ou oportunidade para o seu gabinete?
Em 2026, a forma como empresas reportam impostos e contas vai mudar de forma brutal. IFRS 18, e-fatura obrigatória em dezenas de países e o imposto mínimo global (Pillar 2) vão expor dados em tempo quase real às autoridades fiscais. Para muitos grupos, isto vai ser um choque. Para gabinetes de contabilidade em Portugal, pode ser uma janela rara para subir na cadeia de valor — se começarem a preparar-se agora e se usarem bem a inteligência artificial (IA).
Este artigo da série “IA para Gabinetes de Contabilidade em Portugal” pega no alerta internacional sobre 2026 e traduz para a realidade portuguesa: o que muda, onde estão os riscos para os seus clientes e como pode usar IA para transformar caos potencial em serviços premium, mais margens e mais retenção de clientes.
O que está a chegar em 2026 e porque interessa a gabinetes portugueses
O ponto central é simples: a transparência fiscal deixa de ser anual e passa a ser contínua. Três blocos regulatórios empurram nesta direção:
- IFRS 18: novo formato da demonstração de resultados e foco forte em medidas de desempenho definidas pela gestão.
- Pillar 2 (imposto mínimo global de 15%): aplica-se a grupos com volume de negócios ≥ 750M€ e obriga a cálculos complexos por jurisdição.
- E-fatura / e-reporting em tempo real: mais de 80 países com regimes de faturação eletrónica e ficheiros normalizados enviados diretamente à AT local.
À primeira vista, muitos gabinetes em Portugal podem pensar: “Isto é para multinacionais, não me toca”. É um erro estratégico.
- Muitos clientes portugueses têm filiais lá fora ou fazem parte de grupos internacionais.
- A UE está a empurrar todos os Estados-membros para modelos de reporting digital em tempo real.
- Portugal já está muito avançado em SAF-T, ATCUD, comunicação de faturas e ausência de faturação em papel.
A tendência é clara: mais dados, mais cruzamentos automáticos, menos tolerância para erros. Gabinetes que continuarem presos a folhas Excel manuais vão ficar para trás.
IFRS 18: o que muda e como a IA pode ajudar o seu gabinete
IFRS 18 entra em vigor para períodos iniciados a 01/01/2027 (com adoção antecipada). Mas quem esperar até 2027 vai perder 1 a 2 anos de preparação.
O essencial de IFRS 18:
- Substitui a IAS 1.
- Impõe categorias claras na demonstração de resultados: operacional, investimento, financiamento.
- Obriga a divulgar medidas de desempenho definidas pela gestão (MPMs), com reconciliações detalhadas.
Para gabinetes portugueses que trabalham com grupos internacionais ou empresas de grande dimensão, isto significa:
- Reformular planos de contas para alinhar com as novas categorias.
- Rever relatórios de gestão, boards packs e indicadores usados para bónus de administração.
- Garantir coerência entre relato IFRS, dados fiscais e modelos de Pillar 2.
Onde a IA entra aqui na prática
Aqui estão 4 usos muito concretos de IA para apoiar IFRS 18 num gabinete de contabilidade:
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Mapeamento automático de contas para novas categorias IFRS 18
- Um modelo de IA pode analisar o plano de contas atual, históricos de classificações e descrições, e sugerir o mapeamento para "operacional / investimento / financiamento".
- O contabilista revê e valida, em vez de fazer tudo do zero conta a conta.
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Revisão de coerência de MPMs
- A IA pode comparar MPMs usados em anos anteriores, apresentações a investidores e relatórios internos, detetando incoerências ou riscos de interpretação.
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Explicações automáticas para notas
- Com base nos lançamentos e reconciliações, a IA pode gerar rascunhos de notas explicativas, que depois o técnico revê e adapta.
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Testes de impacto simulados
- Criar cenários: "Se reclassificarmos estes itens como investimento, como fica o EBIT operacional?"
- A IA auxilia a montar estes cenários com rapidez, em vez de semanas de trabalho manual.
Resultado: o gabinete deixa de vender apenas “fecho de contas” e passa a vender projetos de transição IFRS 18 com apoio de IA, muito mais valorizados por grupos internacionais.
Pillar 2: o imposto mínimo global como motor de novos serviços de consultoria
O Pillar 2 vai exigir que grandes grupos garantam uma taxa efetiva de imposto de pelo menos 15% em cada jurisdição. Se a taxa efetiva local for inferior, aplica-se um "top-up tax".
Para gabinetes em Portugal, o impacto aparece em vários níveis:
- Clientes portugueses integrados em grupos sujeitos a Pillar 2.
- Grupos estrangeiros com filiais em Portugal que precisam de dados locais fiáveis.
- Tesouraria dos grupos, que passa a olhar para impostos como variável crítica de cash flow, não só de compliance.
Como um gabinete pode transformar Pillar 2 em serviço de alto valor
Com IA, um gabinete pode montar uma oferta estruturada em três camadas:
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Diagnóstico de prontidão Pillar 2
- Verificar se a informação contabilística e fiscal atual permite calcular taxas efetivas por jurisdição com o detalhe exigido.
- A IA ajuda a identificar lacunas de dados, inconsistências entre contabilidade local, fiscal e de gestão.
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Modelização de cash flow fiscal
- Criar modelos que estimem pagamentos adicionais de imposto (top-up), e sua distribuição ao longo do ano.
- A IA apoia no tratamento histórico e na projeção: "Se a margem em Espanha cair 2 pontos, o que acontece ao imposto adicional?".
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Monitorização contínua
- Dashboards que combinem dados contabilísticos, fiscais e de faturação, com alertas quando a taxa efetiva se aproxima de limiares de risco.
- A IA pode detetar padrões anómalos mais cedo do que um humano, sinalizando países/juridições onde a taxa efetiva desce perigosamente.
Gabinetes que dominem este tema — mesmo que numa primeira fase apenas como ponte entre matriz estrangeira e filial portuguesa — posicionam-se como parceiros estratégicos, não como simples executores de compliance.
E-fatura, SAF-T e reporting em tempo real: a nova normalidade
Mais de 80 países caminham para e-faturação e e-reporting em tempo quase real. Portugal não é exceção: comunicação de faturas, SAF-T, ATCUD, validação de ficheiros, cruzamentos automáticos.
O padrão global é claro:
- Menos declarações agregadas tardias.
- Mais dados transacionais, enviados direto à AT.
- Menos espaço para improviso e “ajustes” de última hora.
Para um gabinete de contabilidade típico em Portugal, que ainda recebe documentos em PDF, Excel ou até papel, isto significa rever o modelo operacional de raiz.
Como IA pode salvar (e escalar) o seu gabinete neste cenário
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Captura inteligente de dados
- IA para ler faturas em PDF, emails e extratos bancários, e converter tudo em lançamentos pré-classificados.
- Menos digitação manual, menos erros, mais tempo para análise e planeamento fiscal.
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Validação automática antes de envio à AT
- Algoritmos que verificam: NIFs, códigos fiscais, taxas de IVA, números ATCUD, coerência entre totais e linhas.
- O sistema marca discrepâncias e o técnico decide, em vez de procurar erros linha a linha.
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Reconciliações em segundos
- Cruzamento automático entre: faturação, extratos bancários, SAF-T, declarações periódicas de IVA.
- A IA identifica gaps (faturas não comunicadas, pagamentos sem documento associado, IVA mal tratado).
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Alertas em tempo real para clientes
- Notificações automáticas ao cliente: "Se emitir esta fatura com este enquadramento, o seu IVA deste trimestre sobe X%".
- Isto é serviço de consultoria em tempo real, suportado por IA, e não apenas contabilidade de retaguarda.
Nesta lógica, a transparência que podia parecer uma ameaça passa a ser argumento de valor: "O meu gabinete garante que a AT vê exatamente o que faz sentido ver, sem surpresas nem riscos desnecessários".
5 ações práticas para preparar o seu gabinete para 2026 com IA
Os mesmos cinco eixos sugeridos a nível global podem e devem ser traduzidos para a realidade de um gabinete em Portugal.
1. Fazer um diagnóstico de impacto IFRS 18 e digitalização
- Liste os clientes com IFRS, reporte a grupos internacionais ou presença em vários países.
- Avalie se o plano de contas atual permite, com pequenos ajustes, chegar às categorias de IFRS 18.
- Use IA para analisar históricos de lançamentos e simular reclassificações.
2. Criar um framework global de compliance digital para clientes internacionais
- Mapeie os países onde os seus clientes operam e as obrigações: e-fatura, SAF-T local, SPED, SII, etc.
- Defina um modelo standard de recolha de dados e prazos por país.
- Use IA para manter uma base de conhecimento atualizada com regras por jurisdição, consultável por qualquer membro da equipa.
3. Integrar fiscalidade no planeamento de tesouraria dos clientes
- Apoie os clientes a projetar IVA a recuperar, retenções na fonte, pagamentos por conta, potenciais impactos Pillar 2.
- Utilize modelos de IA para prever fluxos com base em séries históricas e planos de negócio.
- Ofereça este serviço como add-on mensal: "planeamento fiscal e de tesouraria assistido por IA".
4. Localizar e integrar sistemas financeiros com automatismos
- Revise ERP e softwares de faturação dos clientes: estão preparados para ATCUD, SAF-T, e requisitos externos?
- Aposte em integrações por API em vez de uploads manuais de ficheiros.
- Use IA para monitorizar integrações e sinalizar falhas (por exemplo, quando uma API deixa de comunicar e pode comprometer um envio obrigatório).
5. Reforçar governança e controlo interno com dois “olhares”
- Defina claramente quem é responsável por dados para relato de grupo e quem responde por obrigações estatutárias e fiscais locais.
- Crie um comité interno no gabinete (contabilidade, fiscalidade, TI) para temas de digitalização e IA.
- Forme a equipa em dois eixos:
- Normas (IFRS 18, Pillar 2, regimes de e-reporting).
- Competências digitais (uso de ferramentas de IA, leitura crítica de dashboards, interpretação de alertas).
Porque 2026 pode ser o ano em que o seu gabinete sobe de nível
A tendência é irreversível: mais transparência, mais dados, mais automatização por parte das autoridades fiscais. Quem ficar agarrado apenas a tarefas repetitivas e de baixo valor vai ver honorários comprimidos; quem dominar dados e IA vai ser procurado por clientes que precisam de orientação.
Para gabinetes de contabilidade em Portugal, 2026 pode significar duas coisas muito diferentes:
- Um ano de “caixa de Pandora” cheia de problemas, multas, correções e noites mal dormidas.
- Ou o ponto em que o gabinete se posiciona como parceiro estratégico em transparência fiscal, apoiado por inteligência artificial, com serviços mais sofisticados e margens mais interessantes.
A escolha começa agora, em 2025: mapear riscos, desenhar novos serviços, testar ferramentas de IA e formar a equipa.
A pergunta real não é se a transparência fiscal vai aumentar. É: que tipo de gabinete quer ser quando essa transparência se tornar o novo normal?