MTD, multi-negócios e IA: o que interessa ao seu gabinete

IA para Gabinetes de Contabilidade em PortugalBy 3L3C

O MTD britânico mostra para onde caminha a contabilidade digital. Veja o que a funcionalidade multi-negócios e a IA significam para gabinetes em Portugal.

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MTD, multi-negócios e IA: o que isto diz sobre o futuro da contabilidade

A adoção do Making Tax Digital for Income Tax (MTD for IT) no Reino Unido está a acelerar: a partir de 06/04/2026, milhares de empresários em nome individual e senhorios vão ter de reportar rendimentos trimestralmente, em formato digital, usando software reconhecido pela autoridade tributária. E a Xero acabou de dar um passo interessante: lançou a funcionalidade de multi-business na beta pública, permitindo gerir várias atividades (ex.: negócio próprio + arrendamento) na mesma organização.

Porque é que isto interessa a um gabinete de contabilidade em Portugal, em plena época de IVA, IRS e IRC? Porque o que está a acontecer no Reino Unido é, na prática, um “laboratório vivo” daquilo que a digitalização fiscal e a IA para contabilistas vai exigir – e permitir – também por cá.

Neste artigo da série “IA para Gabinetes de Contabilidade em Portugal”, uso o exemplo do MTD for IT e da nova funcionalidade multi-negócios para mostrar:

  • Como a obrigatoriedade de reporte digital muda o modelo de trabalho do gabinete
  • Porque é que “remendos” tipo bridging software são um beco sem saída
  • O que podemos aprender para acelerar a automação e a IA na realidade portuguesa
  • Que tipo de processos faz sentido começar a redesenhar já em 2025

O que é que o MTD for IT está realmente a mudar

O ponto central do MTD for IT não é só “enviar declarações online”. O que muda é o ritmo e a forma como a informação contabilística é gerida:

  • Passa de 1 submissão anual para 4 atualizações trimestrais + declaração final
  • Exige registos digitais contínuos, não só “arrumar a casa” em janeiro
  • Obriga ao uso de software reconhecido, com ligação direta à autoridade tributária

No Reino Unido, o calendário está definido:

  • A partir de 04/2026: obrigatoriedade para empresários em nome individual e senhorios com rendimentos superiores a 50 000 £
  • Primeiro ano com “soft landing” para as coimas ligadas aos relatórios trimestrais
  • Penalizações mantidas para atraso na declaração anual final e atraso de pagamento

O mais interessante é a estratégia da Xero: em vez de forçar os contabilistas a criarem várias subscrições por contribuinte, lançou agora a função multi-business, que permite gerir, na mesma organização, por exemplo:

  • Uma atividade de prestação de serviços (trabalho independente)
  • Um negócio de e‑commerce
  • Uma atividade de arrendamento

Tudo isto separado através de categorias de acompanhamento (tracking), mas com uma única estrutura digital, um único processo e uma única relação com o cliente.

Para nós, em Portugal, a mensagem é clara: a tendência é caminhar para mais frequência, mais granularidade e mais digitalização do lado fiscal. Quem estruturar hoje processos e sistemas com isso em mente vai sofrer menos… e ganhar mais.


Do “remendo digital” ao negócio verdadeiramente digital

Muitos contabilistas britânicos estão a considerar usar bridging software para cumprir o MTD for IT: basicamente, uma ponte entre um ficheiro Excel e o portal da autoridade tributária. Cumpre a lei, mas não muda nada de fundo.

Porque é que o bridging é um mau modelo a copiar

A lógica do bridging é familiar a qualquer gabinete português:

  • O cliente continua a trabalhar em Excel ou papel
  • A equipa do gabinete continua a digitar, importar, corrigir e recategorizar
  • O software serve só para submeter ficheiros, não para gerir o negócio

Resultado:

  • A carga de trabalho é igual ou maior
  • A probabilidade de erro humano mantém-se elevada
  • Não há dados em tempo real para aconselhamento
  • O gabinete fica preso a tarefas pouco rentáveis

Ou seja, é um remendo para cumprir obrigações, não é uma estratégia.

O que é que um software completo faz de diferente

O artigo de origem sublinha o papel de soluções reconhecidas, como a Xero, que integram:

  • Open Banking para criar bank feeds diários automáticos
  • Classificação de transações com base em regras
  • Gestão de várias atividades na mesma organização (multi-business)
  • Preparação automática das submissões periódicas

Num contexto português, pense no paralelo com:

  • Integrações bancárias automáticas
  • Integração com faturas eletrónicas e SAF‑T
  • Sistemas que já trazem IA para reconciliação bancária, sugestão de contas, deteção de anomalias

Quando a base é um software completo:

  • O cliente deixa de lhe enviar extratos em PDF no fim do trimestre
  • A reconciliação deixa de ser uma batalha mensal
  • A análise passa a ser contínua e não episódica

E é aqui que a inteligência artificial para gabinetes de contabilidade começa a valer a pena: com dados estruturados e atualizados, a IA consegue apoiar previsões de caixa, alertas de risco, otimização fiscal e priorização de tarefas de equipa.


Multi-negócios: porque é que isto é uma pista para o futuro em Portugal

A funcionalidade multi-business responde a uma realidade que também é nossa: clientes com várias fontes de rendimento dentro da mesma pessoa.

No dia a dia dos gabinetes portugueses é comum encontrar:

  • Profissionais independentes que têm atividade aberta + Alojamento Local
  • Sócios‑gerentes que acumulam rendimentos de trabalho dependente + independentes + capitais + arrendamento
  • Pequenos empresários que gerem várias empresas familiares em setores diferentes

Na prática, muitas equipas tratam isto como “ilhas”:

  • Pastas e ficheiros separados por negócio
  • Processos e checklists diferentes
  • Comunicação fragmentada com o mesmo cliente

O conceito de multi-business mostra outra abordagem:

  • Uma visão global por contribuinte, com cada atividade separada por “segmentos” ou “centros de resultado”
  • Dados suficientemente separados para cumprir as obrigações
  • Dados suficientemente integrados para fazer análise consolidada e planeamento fiscal

Como transportar esta lógica para o seu gabinete

Mesmo que o software que usa hoje não tenha um botão chamado “multi-business”, pode adaptar o conceito usando:

  • Planos de contas padronizados que permitam comparação transversal
  • Segmentação por centros de custo/proveito ou projetos
  • Etiquetas (tags) consistentes para atividades diferentes do mesmo titular

Com essa base, a IA pode ajudá-lo a:

  • Gerar relatórios consolidados por cliente, agregando várias fontes de rendimento
  • Detetar situações de risco fiscal ou de liquidez entre atividades (ex.: negócio A muito lucrativo, AL a gerar prejuízo crónico)
  • Sugerir reorganizações societárias ou fiscais com impacto quantificado

Quem dominar este tipo de análise vai prestar um serviço que não é comparável com “mais um TOC a fechar IRS”. É consultoria de verdade, suportada em dados e automação.


IA para gabinetes de contabilidade: do MTD às oportunidades em Portugal

O caso MTD for IT mostra que a pressão regulatória tende a puxar pela tecnologia. Em Portugal, mesmo sem um MTD formal, a direção é semelhante: SAF‑T, e-fatura, comunicação de séries, portais cada vez mais exigentes.

A questão deixa de ser “se” vamos ter algo parecido, e passa a ser “o que é que posso começar a automatizar hoje para não ficar para trás amanhã?”

Áreas óbvias para aplicar IA já em 2025

Há quatro frentes onde a maioria dos gabinetes portugueses pode ganhar tração rápida com IA:

  1. Lançamentos e reconciliação

    • Classificação automática de despesas
    • Sugestão de contas contabilísticas
    • Aprendizagem com correções da equipa
  2. Declarações fiscais

    • Validação inteligente de coerência entre mapas (IVA, IRS, IRC)
    • Alertas de incoerências antes da submissão
    • Geração de checklists dinâmicas por tipo de cliente
  3. Auditoria e controlo interno

    • Deteção de padrões anómalos em movimentos
    • Amostragem inteligente para testes de auditoria
    • Sinalização de riscos específicos por setor
  4. Gestão de clientes e comunicação

    • Segmentação de clientes por risco, rentabilidade e complexidade
    • Modelos preditivos de incumprimento de prazos
    • E-mails automáticos contextuais (documentos em falta, avisos de pagamento, explicação de resultados)

Nada disto exige esperar por uma mudança de lei. Exige, sim, que o gabinete:

  • Tenha uma base digital organizada
  • Reduza dependência de Excel isolado
  • Defina processos claros para a equipa

Lição do MTD: começar cedo e usar o “período de adaptação” a seu favor

No Reino Unido, o governo anunciou um ano de soft landing para coimas ligadas aos reportes trimestrais. A mensagem para os contabilistas foi simples: usem esse período para acertar o processo.

Se pensarmos na realidade portuguesa, 2025 e 2026 podem ser o seu “soft landing” interno para IA e automação:

  • 2025: mapear processos, escolher ferramentas, começar com 10–20% da carteira
  • 2026: escalar para a maioria dos clientes com base no que funcionou

Quem o fizer agora vai encarar qualquer nova exigência da AT (mais reporte digital, mais cruzamento automático) com confiança e margem de manobra, não em modo “bombeiro” de prazo em prazo.


Como preparar o seu gabinete hoje para o cenário de amanhã

O exemplo da Xero com MTD for IT e multi-business não é sobre um software específico. É um sinal claro da tendência global: menos papel, mais dados em tempo real, mais automação e mais IA.

Se quer que o seu gabinete esteja do lado certo desta mudança, alguns passos práticos para os próximos meses:

  1. Escolher um “cliente piloto” multi‑negócios
    Pegue num cliente português com várias fontes de rendimento e:

    • Estruture tudo numa visão única, com atividades segmentadas
    • Crie relatórios consolidados e por atividade
    • Veja onde a IA ou regras automáticas podem reduzir trabalho manual
  2. Redesenhar o fluxo de dados bancários

    • Generalize o uso de bank feeds ou importações automáticas
    • Aplique regras de classificação e deixe a IA aprender consigo
    • Meça o tempo ganho em reconciliação por cliente
  3. Estabelecer um “mínimo digital” para novos clientes

    • Defina requisitos base: faturação eletrónica, acesso bancário digital, partilha segura de documentos
    • Evite novos clientes que o obriguem a voltar ao papel e ao Excel desestruturado
  4. Formar a equipa em IA aplicada à contabilidade

    • Sessões curtas internas sobre o que a IA já consegue fazer
    • Pequenos pilotos: reconciliação automática, criação de relatórios explicativos, revisão de mapas

A realidade é esta: a IA não substitui o contabilista que entende o negócio do cliente; substitui o contabilista que só digita dados. A digitalização fiscal, seja via MTD britânico ou através das exigências da AT portuguesa, vai acelerar essa distinção.

Se está a acompanhar esta série sobre IA para Gabinetes de Contabilidade em Portugal, use o exemplo do MTD for IT como um espelho do futuro. Quanto mais cedo alinhar processos, sistemas e modelo de serviço com este novo mundo digital e inteligente, maior será a margem para crescer em honorários, reduzir stress de equipa e prestar um serviço que o mercado não consegue comparar apenas pelo preço.