MTD inglês: o que os gabinetes portugueses devem copiar

IA para Gabinetes de Contabilidade em PortugalBy 3L3C

O modelo inglês Making Tax Digital mostra como a fiscalidade caminha para registos 100% digitais e ciclos trimestrais. Veja como usar IA no seu gabinete em Portugal.

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MTD inglês: o que os gabinetes portugueses devem copiar

Em 2026, no Reino Unido, qualquer empresário em nome individual ou senhorio com rendimentos acima de 50.000£ vai ter de cumprir Making Tax Digital for Income Tax (MTD ITSA): registos 100% digitais, atualizações trimestrais e declarações feitas via software.

Porque é que isto interessa a um gabinete de contabilidade em Portugal em dezembro de 2025? Porque mostra, com um caso real, para onde a fiscalidade digital está a caminhar – e como a IA pode ser usada já hoje pelos gabinetes portugueses para preparar o terreno, ganhar eficiência e captar novos clientes.

A realidade? É mais simples do que parece, desde que o gabinete pense “software + IA + processos” em conjunto, em vez de reagir apenas quando a lei muda.

Neste artigo vou pegar no modelo MTD inglês, explicar como funciona e traduzi-lo em ideias práticas para gabinetes de contabilidade em Portugal que querem usar IA para automatizar lançamentos, declarações e reporting.


O que é o MTD para IRS no Reino Unido – e porque interessa a Portugal

O MTD para IRS (Income Tax) é um regime em que quem ultrapassa certos limiares de rendimento é obrigado a:

  • Manter registos digitais (sem papéis e sem excels soltos).
  • Enviar atualizações trimestrais de rendimentos e gastos através de software certificado.
  • Submeter uma declaração anual digital (tipo o nosso Modelo 3), também via software.

A partir de:

  • 2026: obrigatório acima de 50.000£ de rendimento bruto relevante.
  • 2027: acima de 30.000£.
  • 2028: acima de 20.000£.

Não é só “menos papel”. É um novo modelo mental:

O contribuinte e o contabilista deixam de viver em modo “maratona anual” e passam para um ciclo curto de informação trimestral, com visibilidade quase em tempo real da fatura fiscal.

Para um gabinete português, isto é ouro: este tipo de exigência obriga à digitalização, e sempre que há digitalização, há espaço para automação com inteligência artificial.


Trimestral em vez de anual: o que muda no trabalho do gabinete

No modelo MTD, o contribuinte (ou o contabilista por ele) tem de enviar 4 atualizações por ano, mais a declaração anual. Na prática, isto significa:

  1. Fluxo contínuo de dados, não apenas no fim do ano.
  2. Menos correções massivas em cima do prazo.
  3. Muito mais espaço para automatizar tarefas repetitivas.

Como funciona lá fora (e o que podemos aprender)

No Reino Unido, um empresário em nome individual com mais de 50.000£ de rendimentos, em 2026/27, tem prazos típicos como:

  • 1.ª atualização: até 07/08/2026.
  • 2.ª atualização: até 07/11/2026.
  • 3.ª atualização: até 07/02/2027.
  • 4.ª atualização: até 07/05/2027.
  • Declaração anual digital: até 31/01/2028.

O software contabilístico agrega automaticamente receitas e despesas, o contabilista revê, e em poucos cliques a submissão segue para a Autoridade Tributária britânica.

Não é muito diferente do que já faz com IVA trimestral em Portugal. A diferença é que aqui o foco é o imposto sobre o rendimento e que tudo tem de estar digital desde a origem.

Onde entra a IA neste ciclo trimestral

Para um gabinete português, a estrutura trimestral é perfeita para montar um pipeline de IA:

  • Classificação automática de movimentos: a IA lê extratos bancários, faturas digitalizadas e integrações de POS, sugere contas SNC e tipos de gasto.
  • Reconhecimento de documentos: OCR com IA extrai campos de faturas (NIF, data, base, IVA, etc.) e gera lançamentos prontos.
  • Alertas inteligentes: modelos simples identificam ruturas – faturação a cair, margens em risco, gastos fora de padrão – e avisam o contabilista antes do trimestre fechar.
  • Projeção de imposto: com dados limpos e atualizados, modelos preditivos dão estimativas de coleta de IRS ou IRC trimestralmente, reduzindo surpresas ao cliente.

O MTD inglês mostra que isto não é ficção científica, é o caminho natural da profissão. Quanto mais cedo o gabinete montar esta infraestrutura em Portugal, mais fácil será adaptar-se a qualquer iniciativa futura da AT.


Do Self Assessment à declaração digital: o paralelo com o Modelo 3

No Reino Unido, o MTD para Income Tax substitui o tradicional Self Assessment anual para quem está dentro do regime. A lógica é:

  • O contribuinte envia atualizações trimestrais.
  • No fim, envia uma declaração digital consolidada, com todos os rendimentos (negócios, rendas, etc.) e ajustamentos.

Soa familiar? É basicamente o nosso conjunto de IUCs + retenções + Modelo 3 mais organizado, distribuído ao longo do ano.

Para o gabinete, o ponto chave é este:

Um fluxo digital ao longo do ano torna a automação com IA muito mais fiável do que um despejo massivo de documentos em março.

Como adaptar este mindset à realidade portuguesa

Mesmo sem obrigação legal igual à britânica, o gabinete pode replicar o modelo com os seus clientes:

  • Definir “mini‑fechos” trimestrais para ENIs e pequenos negócios, em vez de apenas fecho anual.
  • Usar software em nuvem para centralizar:
    • Faturação;
    • Integrações bancárias;
    • Arquivo digital de documentos.
  • Criar rotinas de IA:
    • Bot que lê o e‑mail de compras e lança para o Dossier Digital;
    • Motor de regras/IA que sugere lançamentos padrão para cada fornecedor/cliente;
    • Verificações automáticas de coerência (taxas de IVA estranhas, duplicações de documentos, etc.).

Com isto, quando chega a altura de preparar o Modelo 3 ou o Modelo 22, o trabalho duro está praticamente feito. O contabilista foca-se em:

  • Benefícios fiscais;
  • Otimização de enquadramentos;
  • Planeamento de caixa e impostos.

É aqui que o gabinete começa a distanciar‑se dos concorrentes “de teclado” e assume o papel de parceiro estratégico apoiado em IA.


Lições do MTD para o roadmap digital de um gabinete em Portugal

MTD para Income Tax não é só uma obrigação; é também um manual de boas práticas digitais para gabinetes. Traduzindo para a nossa realidade, há quatro decisões estratégicas a tomar já em 2025/2026.

1. Escolher bem o ecossistema digital

No Reino Unido, há certificação de software “MTD‑compatible”. Em Portugal, ainda não temos o mesmo selo para IRS, mas temos sinais claros:

  • Comunicação eletrónica de séries de faturação;
  • SAF‑T obrigatório;
  • Mais cruzamentos automáticos por parte da AT.

O gabinete deve apostar em:

  • Software de contabilidade em nuvem com API aberta.
  • Ferramentas de reconhecimento de faturas com IA.
  • Plataformas de gestão documental digital (dossier fiscal eletrónico bem organizado).

Quanto melhor for o core digital, mais fácil é adicionar camadas de IA por cima.

2. Desenhar processos “IA‑first”

A maior falha que vejo é gabinetes que compram software com IA e mantêm processos totalmente manuais.

O caminho é o oposto: rever processos à luz de perguntas simples:

  • Onde é que andamos sempre a repetir o mesmo lançamento?
  • Em que ponto a informação entra em papel ou PDF e morre ali?
  • Que erros se repetem na passagem de dados para o ERP?

A partir daí, o gabinete pode:

  • Substituir pastas físicas por portais de upload + captura automática;
  • Normalizar a nomeação de documentos para o motor de IA reconhecer padrões;
  • Definir regras de validação automática antes de qualquer submissão à AT.

3. Formar a equipa em dados, não só em fiscalidade

O MTD inglês traz uma mensagem importante: o contabilista passa a ser também gestor de dados.

Num gabinete português que queira usar IA de forma séria, isto implica:

  • Formar a equipa em qualidade de dados (o que é um registo completo, coerente e utilizável por algoritmos);
  • Explicar como a IA “pensa” – porquê que erros sistemáticos nas classificações estragam modelos de previsão;
  • Criar checklists de fecho trimestral específicas para garantir que os dados são sólidos antes de qualquer declaração.

Sem isto, a IA vira um brinquedo caro. Com isto, torna‑se uma extensão natural do trabalho técnico.

4. Mudar o discurso com os clientes

MTD para Income Tax é vendido pelo fisco britânico como forma de:

  • Reduzir erros;
  • Dar visibilidade à fatura fiscal ao longo do ano;
  • Simplificar a vida aos contribuintes.

Um gabinete em Portugal pode usar a mesma lógica, mas puxando pela sua oferta de IA:

  • “Em vez de lhe pedir um dossiê em papel em março, tratamos tudo ao longo do ano com recolha digital e IA.”
  • “Vai saber trimestre a trimestre quanto deve reservar para impostos.”
  • “Menos tempo a juntar papéis, mais tempo para gerir o negócio.”

Isto deixa de ser apenas contabilidade “por obrigação” e passa a ser um serviço de acompanhamento inteligente, muito mais fácil de valorizar (e de faturar).


Passos práticos para implementar um “MTD à portuguesa” com IA em 2026

Para não ficar tudo em teoria, aqui está um plano simples, orientado para gabinetes de contabilidade em Portugal.

1. Mapear a base de clientes

  • Identificar empresários em nome individual, freelancers e senhorios.
  • Marcar quem tem maior volume de documentos e riscos de erros.
  • Escolher um grupo‑piloto (por exemplo, 20–30 clientes) para aplicar o novo modelo trimestral+IA.

2. Definir um calendário trimestral interno

Mesmo que a lei não obrigue, o gabinete pode impor internamente:

  • Q1: fecho até 30/04;
  • Q2: fecho até 31/07;
  • Q3: fecho até 31/10;
  • Q4: fecho até 31/01.

Em cada trimestre:

  • Fecho de bancos;
  • Classificação de documentos com IA;
  • Pequeno relatório ao cliente com resultado, posição de IVA/IRS/IRC e caixa.

3. Integrar ferramentas de IA nos pontos críticos

Concretamente:

  • Inbox de faturas: tudo o que chega em PDF ou foto vai para um sistema de OCR com IA que cria propostas de lançamentos.
  • Bank feed inteligente: extratos bancários integrados com regras aprendidas (o algoritmo sugere a conta e o tipo de gasto com base no histórico).
  • Revisão assistida: o técnico de contabilidade revê apenas as exceções sinalizadas pela IA (valores fora do padrão, fornecedores novos, taxas estranhas).

4. Comunicar a nova abordagem aos clientes

  • Explicar que este modelo “trimestral + IA” reduz o risco de coimas, minimiza surpresas de impostos e permite melhor planeamento.
  • Oferecer pacotes de serviço diferenciados:
    • Pacote base: fecho anual tradicional.
    • Pacote “Digital Trimestral”: fechos trimestrais + previsão de impostos.
    • Pacote “IA Pro”: tudo o anterior + dashboards de gestão, indicadores e apoio à decisão.

Muitos gabinetes subestimam os clientes: há cada vez mais pequenos empresários habituados a apps e que querem dados em tempo real. Quem lhes der isso, ganha.


Porque é que olhar para o MTD inglês agora é uma vantagem competitiva

MTD para Income Tax mostra um futuro em que:

  • A contabilidade é 100% digital de raiz.
  • A relação com o fisco é contínua, não anual.
  • O contabilista que se apoia em software e IA consegue gerir mais clientes com mais qualidade.

Portugal ainda não está no mesmo ponto em termos de obrigações, mas a direção é clara: mais cruzamentos automáticos, mais reporting eletrónico, mais foco na qualidade dos dados.

Os gabinetes que, já em 2025/2026, montarem um “MTD à portuguesa” com processos digitais trimestrais e IA aplicada a lançamentos, reconciliações e previsões fiscais vão estar dois passos à frente quando as próximas mudanças legais chegarem.

Este é o momento de decidir se o seu gabinete quer ser arrastado pela próxima vaga de fiscalidade digital ou liderá‑la.