7 lições do MTD britânico para gabinetes de contabilidade

IA para Gabinetes de Contabilidade em PortugalBy 3L3C

O MTD britânico é um laboratório do futuro fiscal. Veja 7 lições práticas para gabinetes de contabilidade em Portugal e como a IA pode transformar o seu gabinete.

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7 lições do MTD britânico para gabinetes de contabilidade em Portugal

A experiência do Reino Unido com o Making Tax Digital (MTD) para IRS está a mostrar uma coisa muito clara: quem não se prepara com tempo, paga a factura em stress, horas extra e clientes insatisfeitos.

Para gabinetes de contabilidade em Portugal, especialmente agora que a IA para contabilidade começa a ser um diferencial real, ignorar o que está a acontecer lá fora é perder uma oportunidade. O MTD britânico é, na prática, um laboratório vivo do que a Autoridade Tributária portuguesa acabará por exigir: registos totalmente digitais, submissões frequentes e auditoria facilitada por tecnologia.

Neste artigo pego em 7 factos “estranhos, mas verdadeiros” do MTD para IRS no Reino Unido e transformo-os em lições práticas para gabinetes de contabilidade portugueses que querem usar IA para ganhar eficiência, rentabilidade e novos clientes.


1. Nem todos podem aderir logo – e isso muda o modelo de onboarding

No Reino Unido, um dos pontos mais curiosos do MTD é simples: um empresário em nome individual que inicia actividade não pode aderir logo ao MTD. Primeiro entra no regime tradicional (Self Assessment) e só depois é “puxado” para o MTD.

Para nós, o que interessa não é a regra específica, mas a lógica por trás:

Os sistemas digitais fiscais avançam por fases, e os gabinetes têm de gerir clientes em regimes diferentes… durante anos.

O que isto ensina a um gabinete em Portugal

Mesmo sem um “MTD português” formal, já tem hoje clientes em regimes distintos:

  • Uns ainda com dossiê físico cheio de papéis
  • Outros a mandar excels por email
  • Outros já com software de facturação cloud

Se amanhã a AT exigir algo semelhante a MTD (mais automatização do SAF‑T, cruzamentos em tempo real, declarações mais frequentes), o seu gabinete vai viver, durante muito tempo, num mundo híbrido.

Aqui a IA entra como ferramenta de normalização:

  • Captura inteligente de documentos (via OCR e IA) para transformar facturas em papel, PDFs e emails em lançamentos contabilísticos padronizados
  • Classificação automática de despesas e receitas, independentemente da origem (papel, excel, software de facturação)
  • Workflows diferentes por tipo de cliente, mas tudo a cair na mesma estrutura de dados dentro do seu sistema

Quem montar esta base digital já em 2025 vai sofrer muito menos quando chegar a vez de Portugal subir mais um degrau na digitalização fiscal.


2. No MTD o contabilista pode fazer (quase) tudo pelo cliente

No modelo britânico, o contabilista pode:

  • Registar o cliente no MTD
  • Preparar e submeter as actualizações trimestrais
  • Preparar e submeter a declaração digital anual
  • Tratar de quase todo o relacionamento com a Autoridade Tributária

O cliente só tem de validar e assinar digitalmente.

Esta realidade confirma algo que muitos gabinetes portugueses já sentiram:

A complexidade fiscal aumenta, mas os clientes querem cada vez mais “chave na mão”.

Onde a IA ajuda a tornar esse modelo escalável

Se o gabinete assumir o trabalho quase todo, sem tecnologia isto rebenta a estrutura de custos. Com IA, o cenário muda:

  • Reconciliação bancária assistida por IA: o sistema sugere lançamentos com base em histórico e padrões; o técnico apenas valida
  • Geração preliminar de declarações (IVA, Modelo 22, IES, etc.) com validações automáticas de coerência
  • Alertas inteligentes para prazos, anomalias e quebras de consistência entre períodos

Na prática, a IA permite oferecer um serviço muito mais completo, sem contratar o dobro da equipa.


3. No MTD britânico, copiar e colar dados pode ser ilegal

Um dos factos mais “estranhos” do MTD para IRS no Reino Unido: não é permitido copiar/colar manualmente os dados nucleares de rendimento e despesas entre sistemas. Nem escrever à mão e voltar a digitar. A regra é clara:

Os dados têm de fluir por ligações digitais automáticas.

A ideia é reduzir erros humanos e garantir um trilho de auditoria fiável.

Porque isto interessa em Portugal, mesmo sem esta regra

Portugal ainda não chegou a este nível formal, mas já vai no mesmo caminho:

  • SAF‑T cada vez mais exigente
  • Cruzamentos automáticos entre e‑Fatura, declarações, recibos verdes, etc.
  • Auditorias feitas com base em ficheiros estruturados, não em papel

Se o seu gabinete ainda vive de:

  • Reintroduzir dados de um sistema para outro
  • Copiar valores de excels para o software contabilístico
  • Construir mapas à mão em cima de ficheiros exportados

… está a criar um risco operacional desnecessário e a perder horas que nunca são totalmente cobradas ao cliente.

Como a IA substitui o “copy/paste” manual

Ferramentas de IA para gabinetes de contabilidade podem:

  • Ler facturas, extractos bancários, recibos de renda, etc., e criar lançamentos directamente no ERP
  • Integrar com software de facturação, bancos e CRMs, evitando qualquer “trabalho de transporte” de dados
  • Criar conectores entre aplicações (por exemplo, facturação de um lado, contabilidade do outro), garantindo um fluxo digital rastreável

O objectivo é simples: o humano valida exceções, a IA faz o trabalho repetitivo.


4. MTD para IVA e MTD para IRS são mundos diferentes

No Reino Unido, muitos empresários acharam que, por já estarem em MTD para IVA, ficavam automaticamente preparados para MTD para IRS. Errado. São sistemas separados, inscrições separadas, penalizações separadas.

A lição para nós é directa:

Ter a facturação digital não chega. A contabilidade digital é outra conversa.

Exemplo aplicado à realidade portuguesa

  • Um cliente pode usar software de facturação certificado e cumprir tudo em IVA
  • Mas continuar a entregar ao contabilista um “saco de despesas” não digitalizadas
  • E manter contas bancárias mal conciliadas, sem ligação automática

Se amanhã surgirem obrigações mais frequentes de reporte de resultados (por exemplo, em sede de IRC ou IRS de Empresário em Nome Individual), esse cliente não está preparado, e o gabinete também não.

IA como cola entre IVA, IRS/IRC e gestão

Um bom ecossistema de IA para contabilidade em Portugal deve:

  • Agregar toda a informação do cliente (facturação, despesas, bancos, salários)
  • Permitir gerar demonstrações de resultados e balanços em tempo quase real
  • Facilitar simulações de imposto ao longo do ano, sem esperar pelo fecho

Ou seja, transformar o gabinete num centro de informação de gestão, não apenas num cumpridor de obrigações.


5. Nem toda a gente sai do modelo tradicional – e está tudo bem

No MTD britânico, só entram no regime digital certos perfis (empresários em nome individual e senhorios com rendimentos acima de determinados limites). Muitos contribuintes continuam no modelo clássico de declaração.

É o mesmo que vai acontecer em Portugal, com qualquer nova obrigação digital: vai haver sempre clientes que ficam fora, por rendimento, actividade, idade, ou até exclusão digital.

O erro que muitos gabinetes cometem

Trabalhar todos os clientes da mesma forma. Resultado:

  • Quem poderia estar totalmente digital continua em regime “papel” porque “sempre foi assim”
  • A equipa desperdiça horas com clientes que podiam ser semi‑autónomos
  • Os clientes mais avançados sentem que o gabinete não acompanha o nível digital do negócio

Modelo híbrido inteligente apoiado por IA

Uma estratégia que funciona bem é segmentar a carteira em três níveis e usar IA em cada um à sua maneira:

  1. Totalmente digital

    • Integrações completas, uploads automáticos, reconciliação bancária com IA
    • O gabinete actua mais como supervisor e consultor
  2. Semi‑digital

    • Cliente envia docs por email/WhatsApp ou portal
    • IA faz leitura e classificação, técnico faz revisão e ajustamentos
  3. Baixa digitalização / exclusão digital

    • Cliente continua a entregar papel
    • Gabinete usa captura por scanner + OCR/IA e internaliza a digitalização

Assim, mesmo quem não entra no “MTD português” (quando chegar) pode ser trabalhado com processos internos modernos.


6. No MTD muitos aderem voluntariamente – por uma razão simples: previsibilidade

No Reino Unido, mesmo quem está abaixo do limiar de rendimentos pode aderir voluntariamente ao MTD para IRS. Muitos fazem-no por uma vantagem prática:

Recebem estimativas de imposto durante o ano, em vez de descobrirem tudo em Janeiro.

Para um gabinete, isto é ouro: previsibilidade de caixa para o cliente significa menos chamadas de pânico em cima do prazo.

Como criar este “efeito MTD” em Portugal com IA

Nada impede hoje um gabinete de oferecer, por iniciativa própria, algo semelhante a um MTD interno:

  • Actualizações trimestrais ou mensais de resultados e provisão de imposto
  • Dashboards simples para o cliente ver facturação, margem e imposto estimado
  • Alertas quando o cliente foge muito do padrão (mais vendas, mais custos, etc.)

Com IA, preparar estas estimativas deixa de ser um “projecto” e passa a ser rotina:

  • O sistema lê dados de facturação, bancos e despesas
  • Calcula automaticamente margens e taxas efectivas
  • Gera simulações de imposto com base em regras definidas pelo gabinete

Isto é exactamente o tipo de serviço que distingue um gabinete tradicional de um gabinete consultor, apoiado por IA.


7. MTD permite usar software diferente – desde que tudo esteja ligado

Outra curiosidade britânica: o MTD não obriga a usar “um único software para tudo”. Um empresário pode ter:

  • Um app para quilómetros e ajudas de custo
  • Outro para despesas com OCR
  • Outro para facturação
  • E ainda outro para submissão da declaração final

A única condição é haver ligações digitais entre eles, sem copy/paste.

A leitura para gabinetes em Portugal

Isto valida uma abordagem que eu defendo muitas vezes:

O gabinete não precisa de “um ERP que faça tudo”, precisa de um núcleo sólido e bons conectores.

Um ecossistema moderno de IA para gabinetes de contabilidade em Portugal costuma ter:

  • Um ERP/contabilidade estável como “fonte de verdade”
  • Um módulo / solução de captura inteligente de documentos (facturas, recibos, extractos)
  • Conectores com bancos, e‑Fatura, plataformas de vendas online, salários
  • Um motor de IA que orquestra classificação, reconciliação, alertas e relatórios

Desde que o fluxo de dados seja automático e rastreável, usar várias ferramentas especializadas é saudável e, muitas vezes, mais eficiente.


Como transformar estas lições em vantagem competitiva já em 2025

O MTD britânico mostra para onde os sistemas fiscais caminham: mais digital, mais frequente, mais automatizado. Portugal vai continuar na mesma direcção, passo a passo.

Para um gabinete de contabilidade português, isto abre três frentes claras de acção:

  1. Rever processos internos

    • Onde ainda há copy/paste manual?
    • Onde ainda se digita informação que podia ser capturada por IA?
  2. Desenhar uma estratégia de IA

    • Que tarefas repetitivas podem ser automatizadas nos próximos 6–12 meses?
    • Que dados preciso de consolidar para, no futuro, gerar relatórios e declarações quase automáticas?
  3. Reposicionar o gabinete junto dos clientes

    • De “cumpridor de obrigações” para “parceiro digital e fiscal”
    • Comunicação clara: menos papel, mais previsibilidade, menos surpresas fiscais

Quem começar este trabalho agora, em vez de esperar por uma futura “obrigação MTD à portuguesa”, vai estar na posição ideal: com processos afinados, equipa treinada e IA integrada. E, quando a concorrência estiver a apagar fogos, o seu gabinete vai estar a captar clientes.

A realidade é simples: MTD no Reino Unido não é só uma curiosidade estrangeira. É um espelho do futuro. A questão para os gabinetes de contabilidade em Portugal não é se isto chega cá – é se vão estar prontos quando chegar.