Responsabilidade legal da IA generativa nos escritórios

IA para Escritórios de Advogados em PortugalBy 3L3C

Advogados em Portugal continuam responsáveis pelos riscos da IA generativa. Veja como proteger o seu escritório e transformar o risco em oportunidade estratégica.

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Responsabilidade legal da IA generativa nos escritórios

A maior parte das empresas — e muitos escritórios de advogados em Portugal — ainda parte de uma premissa errada: se algo correr mal com a IA, o responsável é o fornecedor de tecnologia. A realidade jurídica não é essa. Quem decide usar a IA generativa no dia a dia do negócio continua no centro da responsabilidade.

No contexto da série “IA para Escritórios de Advogados em Portugal”, este tema é crítico. À medida que 2025 fecha com mais pressão regulatória na União Europeia (incluindo o AI Act) e clientes cada vez mais informados, o advogado que ignora os riscos legais da IA generativa está, na prática, a criar um passivo oculto para o seu escritório e para os seus clientes.

Neste artigo, pego nas conclusões de um relatório académico internacional sobre responsabilidade da IA generativa e traduzo-as para a realidade portuguesa: o que isto significa para um escritório de advogados em Lisboa, Porto, Coimbra ou Faro, e que passos concretos pode tomar já a partir de amanhã.


1. Quem responde pelos erros da IA generativa?

A resposta é direta: na maioria dos casos, responde quem usa a IA, não apenas quem a desenvolve. Isto é válido no contexto norte‑americano analisado no relatório e encaixa bem no enquadramento europeu e português.

Para um escritório de advogados em Portugal isto traduz‑se em três ideias simples:

  • Se usa IA generativa para apoiar decisões (do próprio escritório ou de clientes), mantém responsabilidade profissional e contratual.
  • O facto de uma recomendação vir de um modelo de IA não reduz o dever de cuidado, de verificação e de interpretação jurídica.
  • Em determinadas situações, pode ainda haver responsabilidade extracontratual por danos causados a terceiros (cliente do cliente, candidato, consumidor, etc.).

Exemplos práticos em contexto português

  • Recrutamento interno: o escritório utiliza uma ferramenta de IA para triagem de currículos. Se o sistema introduz uma discriminação indireta (por exemplo, por idade ou origem étnica) e um candidato impugna o processo, o escritório poderá responder com base no Código do Trabalho e legislação anti‑discriminação. O fornecedor de IA não é escudo total.
  • Apoio a crédito ao consumo (cliente bancário): o advogado aconselha um banco que recorre a modelos de IA para scoring de risco. Se o sistema discrimina grupos específicos, o risco jurídico recai também sobre a instituição financeira e, em termos de responsabilidade profissional, sobre quem a aconselhou sem alertar para os riscos.

Aqui entra o papel estratégico do advogado: conhecer a tecnologia o suficiente para identificar onde a responsabilidade jurídica permanece, mesmo quando se terceiriza a parte técnica.


2. Leis existentes já se aplicam à IA generativa

O relatório que serve de base a este artigo tem uma mensagem clara: não é preciso esperar por “leis da IA” para haver responsabilidade. Em Portugal e na UE, o cenário é muito semelhante.

Hoje já se aplicam, entre outras:

  • Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD)
  • Lei de Execução do RGPD portuguesa
  • Lei da não discriminação em razão da origem racial e étnica e normas espalhadas pelo Código do Trabalho
  • Normas de consumo e publicidade enganosa
  • Deveres deontológicos dos advogados (sigilo, diligência, independência)

Ou seja, a IA generativa é apenas mais um meio através do qual estas leis podem ser violadas.

Áreas onde os riscos aparecem com mais frequência

  1. Habitação e crédito: algoritmos que influenciam decisões de arrendamento, crédito hipotecário ou crédito ao consumo.
  2. Emprego: triagem de candidatos, análise de produtividade, recomendações de promoção ou despedimento com base em sistemas de IA.
  3. Proteção de dados: utilização de IA em análise de grandes volumes de dados de clientes, onde é fácil ultrapassar o princípio da minimização ou da finalidade.

Para um escritório que quer posicionar‑se em direito tecnológico, laboral, bancário ou imobiliário, dominar estes cruzamentos entre IA e legislação tradicional é uma oportunidade clara de diferenciação no mercado português.


3. Riscos ocultos: uso não autorizado de IA dentro do escritório

Um dos pontos mais relevantes do relatório é este: os maiores riscos não vêm só dos projetos formais de IA, vêm também do uso “a título pessoal” de ferramentas gratuitas por colaboradores.

Num escritório português, o cenário é familiar:

  • Estagiários a usar um chatbot público para resumir peças processuais.
  • Advogados a colar excertos de contratos de clientes em ferramentas gratuitas para “simplificar a linguagem”.
  • Pessoal administrativo a traduzir correspondência sensível com IA online.

Tudo isto pode violar:

  • Dever de sigilo profissional do advogado.
  • Obrigações de confidencialidade contratual com clientes.
  • RGPD, se forem tratados dados pessoais sem base legal adequada ou sem garantias suficientes.

Como controlar o risco interno

O caminho não é proibir tudo. É substituir o uso caótico por uso controlado:

  • Definir quais ferramentas de IA são aprovadas e em que condições.
  • Especificar que tipo de dados nunca podem ser introduzidos em sistemas externos (por exemplo, nomes de clientes, números de processo, dados de saúde, dados financeiros sensíveis).
  • Configurar soluções de IA privativa ou empresarial, onde os dados não são usados para treinar modelos públicos.

Um ponto que muitos escritórios ignoram: se não criarem regras, os colaboradores vão usar IA de qualquer maneira, apenas de forma invisível. E esse é o pior cenário em termos de risco jurídico.


4. Confidencialidade, bias e ética: onde os advogados não podem falhar

Para os advogados, a linha entre inovação e infração pode ser fina. Há três blocos de risco que exigem atenção imediata.

4.1 Confidencialidade e proteção de dados

A IA generativa funciona tipicamente processando grandes volumes de texto. Sempre que um advogado insere informação de cliente num sistema que não controla, está potencialmente a:

  • Transferir dados pessoais para fora da UE.
  • Permitir que a informação seja usada para treinar modelos futuros.
  • Expor dados protegidos pelo sigilo profissional.

O mínimo exigível num escritório que usa IA generativa é:

  • Acordos de tratamento de dados claros com fornecedores.
  • Verificação de onde os dados são armazenados e por quanto tempo.
  • Segmentação de dados: o que entra na IA, o que fica apenas em sistemas internos.

4.2 Bias, discriminação e responsabilidade ética

Modelos de IA aprendem com dados históricos. Se a história é discriminatória, o modelo repete o padrão.

Em termos práticos, um escritório que aconselha empresas em:

  • Recrutamento e recursos humanos deve alertar para o risco de discriminação indireta (idade, género, deficiência, origem ou religião).
  • Crédito e seguros deve olhar para os modelos de scoring sob a lente da igualdade de tratamento.

Aqui a ética profissional e a estratégia comercial alinham‑se: o escritório que domina estes temas tem um argumento forte para conquistar clientes empresariais preocupados com compliance e reputação.

4.3 Responsabilidade profissional

O uso de IA não reduz o dever de diligência do advogado. Pelo contrário, aumenta a fasquia:

  • Se aceita um resumo de jurisprudência gerado por IA sem o rever e o resultado está errado, há potencial falha profissional.
  • Se apresenta em tribunal um articulado com “alucinações” de IA (citações inexistentes, factos inventados), arrisca sanções e danos de reputação.

A regra de ouro é simples: IA como assistente, nunca como decisor. A decisão — jurídica e estratégica — continua a ser do advogado.


5. Quatro passos concretos para reduzir riscos hoje

O relatório internacional sublinha que o objetivo não é afastar as empresas da IA, mas ajudá‑las a usá‑la de forma responsável. Para um escritório de advogados em Portugal, estes quatro passos são um bom ponto de partida.

5.1 Compreender a tecnologia que já está a ser usada

Primeiro, faça um inventário realista:

  • Que ferramentas de IA está o escritório a usar oficialmente (pesquisa jurídica, análise de contratos, gestão documental, tradução, gestão de e‑mails)?
  • Que ferramentas estão os colaboradores a usar por iniciativa própria?

Não é necessário tornar‑se engenheiro informático, mas é crucial saber:

  • Que dados entram no sistema.
  • Que tipo de output é gerado.
  • Que garantias contratuais o fornecedor oferece.

5.2 Definir uma política interna de IA

Um “AI Policy” para escritórios de advogados em Portugal deveria incluir, pelo menos:

  • Lista de ferramentas aprovadas e casos de uso permitidos.
  • Lista de casos de uso proibidos (por exemplo, inserção de dados de identificação de clientes em ferramentas públicas).
  • Regras de revisão humana obrigatória antes de usar resultados de IA em peças processuais, pareceres ou comunicações com clientes.
  • Indicação clara de quem é responsável por aprovar novos usos de IA.

Esta política não precisa de 50 páginas. Precisa de ser clara, prática e comunicada a todo o escritório.

5.3 Formar advogados e staff em IA e responsabilidade legal

Formação interna sobre IA para advogados deixou de ser “nice to have”. É vantagem competitiva.

Temas que fazem sentido num plano de formação anual:

  • Noções básicas de como funciona a IA generativa.
  • Riscos específicos: sigilo, dados pessoais, bias, responsabilidade profissional.
  • Enquadramento regulatório europeu (RGPD, AI Act) aplicado a casos reais dos clientes do escritório.

Escritórios que se posicionam como parceiros de confiança em projetos de IA de clientes (bancos, seguradoras, retalho, saúde, imobiliário) têm uma oferta mais robusta e diferenciada.

5.4 Auditar regularmente o uso de IA

Por fim, não basta fazer regras; é preciso verificar se são cumpridas.

Uma auditoria interna anual pode incluir:

  • Revisão das ferramentas utilizadas e contratos associados.
  • Verificação de conformidade com a política de IA.
  • Análise de um conjunto de casos em que a IA foi usada em trabalho jurídico, para avaliar riscos de qualidade e deontologia.

Este tipo de auditoria é também um excelente ponto de partida para criar novos serviços de consultoria: se o escritório sabe auditar o seu uso de IA, também consegue auditar o dos clientes empresariais.


6. Oportunidade estratégica para escritórios em Portugal

A grande mensagem para quem acompanha a série “IA para Escritórios de Advogados em Portugal” é esta: quem dominar os riscos legais da IA generativa vai liderar a próxima vaga de serviços jurídicos empresariais.

Este domínio passa por três frentes:

  • Dentro de casa: garantir que o próprio escritório usa IA para pesquisa jurídica, análise de contratos e gestão de processos de forma segura e conforme.
  • Com os clientes: tornar‑se o ponto de referência para bancos, seguradoras, tecnológicas, retalho, indústria, saúde e setor público que querem implementar IA sem criar passivos legais.
  • Na reputação: comunicar de forma clara que o escritório não é apenas “mais um utilizador de IA”, mas um gestor informado de risco tecnológico e jurídico.

Quem começar agora, em dezembro de 2025, ainda vai a tempo de se destacar. Os reguladores europeus estão a apertar, as empresas já não querem projetos de IA “no vazio” e os conselhos gerais estão cada vez mais atentos ao risco reputacional.

O próximo passo é simples: olhar para o que o seu escritório já faz com IA — formal e informalmente — e decidir se o nível de controlo que tem hoje corresponde ao nível de risco que está disposto a aceitar.


Pergunta final para refletir

Se amanhã um cliente lhe perguntar: “Que responsabilidade jurídica assumo ao usar IA generativa no meu negócio em Portugal?”, consegue responder com segurança — tanto para o cliente como para o seu próprio escritório?

Se a resposta ainda não é um “sim” seguro, este é o momento certo para agir.