Treinar IA para pensar como advogado já mudou a forma de trabalhar noutros países. Veja como esta abordagem pode transformar o seu escritório em Portugal.

Como treinar IA para pensar como um advogado
A maior parte dos escritórios de advogados em Portugal ainda olha para a IA como um "motor de pesquisa turbo" ou um atalho para rascunhar documentos. Só que a verdadeira transformação acontece noutro sítio: quando alguém, com formação jurídica, ensina a IA a raciocinar como um advogado.
É exatamente isso que faz Jeannique Swiegers, legal engineer na Sirion. Ela não está a tentar substituir advogados; está a desenhar sistemas que conseguem ler contratos, ligar cláusulas, avaliar riscos e sugerir caminhos, quase como faria um associado experiente – mas à velocidade de máquina.
Para um escritório português, isto não é ficção científica. É um aviso: quem continuar a tratar a IA apenas como brinquedo de laboratório vai perder terreno para quem a encarar como parte estrutural do negócio jurídico. Neste artigo da série “IA para Escritórios de Advogados em Portugal”, pego nas ideias da Jeannique e traduzo-as para uma realidade muito concreta: o que significa, na prática, treinar IA para pensar como um advogado e como isso pode mudar o dia a dia do seu escritório.
O que é, na prática, “treinar IA para pensar como um advogado”?
Treinar IA para pensar como advogado significa transformar raciocínio jurídico em lógica estruturada, que uma máquina consegue aplicar de forma consistente em milhares de documentos.
"Em resumo, eu treino IA para pensar como um advogado" – é assim que a própria Jeannique descreve o seu papel como legal engineer.
Na prática, isto implica:
- Identificar conceitos jurídicos (definições, obrigações, direitos, exceções)
- Mapear dependências entre cláusulas (se A acontece, então B; exceto se C)
- Definir posições de fallback (até onde o cliente está disposto a negociar)
- Estabelecer limiares de risco (o que é aceitável, o que exige aprovação, o que é proibido)
- Ensinar a IA a responder em linguagem natural, mas com base em fontes concretas (cláusulas, anexos, definições)
Para um escritório de advogados em Portugal, isto quer dizer o seguinte: em vez de ter um software que apenas "procura palavras" num contrato, pode ter uma IA que entende o contexto jurídico – por exemplo, que a resposta à pergunta sobre "rescisão antecipada" está espalhada pela cláusula de término, cláusula de penalidades e definições.
A função do legal engineer: a ponte que falta em muitos escritórios
A grande lição da experiência da Jeannique é simples: não basta comprar tecnologia, é preciso traduzi-la para o direito. É aqui que entra o legal engineer.
O que faz um legal engineer?
Um legal engineer é, na prática, um tradutor entre o mundo jurídico e o mundo tecnológico. Normalmente tem formação em Direito (e muitas vezes experiência de prática) e trabalha lado a lado com engenheiros de software e data scientists.
As principais tarefas incluem:
- Decompor o raciocínio jurídico em blocos lógicos
- Desenhar fluxos de decisão: se a contraparte pede X, podemos aceitar Y ou Z? Quem aprova? Em que condições?
- Validar o output da IA: a resposta é juridicamente correta? Está alinhada com o risco do cliente?
- Ajustar o modelo com base em casos reais: negociações difíceis, exceções, litígios anteriores
Nos escritórios portugueses, esta função quase não existe com este nome, mas já é desempenhada, de forma informal, por:
- Advogados com forte apetência por tecnologia
- Responsáveis de inovação ou knowledge management
- Associados que acabam sempre chamados para “ajudar a configurar o sistema”
A diferença é que, quando se assume isto como função estruturada, a qualidade dos projetos de IA dispara. Deixa de ser um piloto simpático e passa a ser parte do core do serviço jurídico.
Como isto se traduz no trabalho diário de um escritório em Portugal
O trabalho da Jeannique na Sirion foca‑se muito em contratos comerciais complexos, com uma plataforma de CLM (Contract Lifecycle Management) e uma interface de linguagem natural. Isto não é muito diferente do que um grande escritório em Lisboa ou Porto enfrenta todos os dias.
Exemplo 1: Perguntas em linguagem natural sobre contratos
Um dos projetos de que ela mais se orgulha é uma interface na qual qualquer pessoa pode "falar" com o contrato:
"Podemos terminar este acordo mais cedo?"
"Qual é o prazo de pagamento padrão?"
"Quem é responsável por incidentes de segurança?"
A IA responde com:
- Uma resposta direta e clara
- Citações precisas das cláusulas relevantes
- Ligações entre cláusulas relacionadas (ex.: rescisão + penalidades + exceções)
Num escritório em Portugal, isto pode significar:
- Gestores de contrato internos a tirar dúvidas sem precisar de enviar emails para o jurídico
- Equipa de M&A a validar rapidamente riscos numa data room
- Sócios a prepararem reuniões com clientes com respostas rápidas sobre posições contratuais
Exemplo 2: Fallback logic para negociação
Outro trabalho que a Jeannique destaca é o da fallback logic – a forma como uma cláusula puxa outra e como se gere o "plano B" de negociação.
Por exemplo:
- Se a contraparte recusa a cláusula de limitação de responsabilidade padrão
- A IA sugere automaticamente alternativas pré-aprovadas (cap por ano, exclusão de danos indiretos, etc.)
- Garante que, ao aceitar uma exceção numa cláusula, se ajustam as restantes para manter o equilíbrio do risco
Num contexto português, isto pode ser aplicado a:
- Contratos de tecnologia, outsourcing, construção, franchising
- Templates bilingues (português/inglês) com fallback alinhado com a prática local
- Políticas internas de risco definidas pela partnership e operacionalizadas via IA
O resultado é direto: mais velocidade, menos erro, mais consistência entre aquilo que o sócio promete ao cliente e o que o júnior anda a negociar às 23h.
O que os escritórios portugueses podem aprender com esta história
Da experiência da Jeannique, há pelo menos quatro lições estratégicas para quem lidera um escritório em Portugal:
1. IA jurídica boa não é só tecnologia, é modelação de raciocínio
Comprar uma ferramenta de IA sem investir na sua "tradução jurídica" é como comprar um Fórmula 1 e nunca contratar um piloto.
Quem vai dizer à IA o que é aceitável, o que é risco vermelho, o que é cinzento negociável? Esses critérios vivem hoje na cabeça dos sócios. É aí que um legal engineer entra.
2. O trabalho não é substituir advogados, é abrir espaço para o juízo crítico
A própria Jeannique insiste: IA jurídica forte não apaga o juízo, cria espaço para ele.
Se a IA faz triagem, sumarização, comparação de cláusulas e deteção de padrões, os advogados passam a dedicar tempo a:
- Estratégia de negociação
- Estruturação de operações complexas
- Relação com o cliente e aconselhamento de valor
Os escritórios que abraçarem isto mais depressa vão conseguir crescer margens sem crescer horas faturáveis na mesma proporção.
3. A colaboração multidisciplinar não é opcional
No dia a dia da Jeannique, a agenda é partilhada com:
- Engenheiros
- Data scientists
- Product managers
Eles perguntam: "Porque é que esta cláusula é importante?"
Ela responde com o raciocínio jurídico e as implicações práticas.
Eles devolvem: "Então podemos modelar isto assim, com estas regras, estes triggers".
Em Portugal, ainda há muita resistência a pôr advogados a trabalhar ombro a ombro com equipas técnicas. Sem isso, porém, a IA jurídica fica sempre aquém do potencial.
4. Governança e confiança não podem ser pós‑pensamento
Outro ponto forte da abordagem da Jeannique: IA tende a exagerar na confiança, por isso alguém tem de a "manter honesta".
Na prática:
- Definir claramente quando a IA decide e quando apenas recomenda
- Marcar zonas em que a IA tem de pedir validação humana (por tipo de cliente, valor, risco, área de prática)
- Auditar regularmente as decisões ou respostas dadas
Para cumprir expectativas dos clientes portugueses – e, a curto prazo, reguladores europeus – esta governança não é detalhe. É o que vai diferenciar escritórios que usam IA com responsabilidade dos que apenas "brincam" com tecnologia.
Como começar a “treinar IA” no seu escritório em Portugal
Se o seu escritório quer sair do nível de experiências pontuais e passar a ter IA integrada na forma como presta serviços jurídicos, há um caminho bastante concreto a seguir.
1. Escolha uma área piloto com impacto real
Algumas áreas típicas para começar:
- Revisão de NDAs e contratos padrão (fornecedores, clientes, confidencialidade)
- Gestão de contratos de arrendamento (prazos, renovações, atualizações de renda)
- Contencioso de massa (classificação de peças, extração de dados chave, prazos)
O importante é escolher algo que:
- Tenha volume suficiente para justificar o esforço
- Seja repetitivo o bastante para a IA aprender padrões
- Toque diretamente num problema de negócio (tempo, risco, margem)
2. Nomeie (formalmente) um responsável jurídico pela IA
Não precisa de chamar "legal engineer" no primeiro dia, mas precisa de alguém que:
- Tenha background jurídico forte
- Goste genuinamente de tecnologia
- Seja respeitado internamente para tomar decisões de modelo e risco
Idealmente, dá‑lhe tempo protegido para esta função. Se for “mais uma tarefa” em cima da pilha, o projeto morre.
3. Documente o raciocínio que hoje está só na cabeça dos sócios
Antes de treinar IA, tem de treinar a própria casa. Perguntas úteis:
- Quais são as cláusulas vermelhas que nunca aceitamos?
- O que é "negociável mas com aprovação" e com quem?
- Quais são as posições de fallback mais usadas em prática comercial?
Transforme isso em:
- Tabelas de risco
- Guias de negociação interna
- Árvores de decisão simples
Depois, sim, trabalha com a equipa técnica (interna ou externa) para transformar isto em regras, prompts estruturados e modelos de decisão.
4. Comece pequeno, mas com feedback sério
Não precisa de ter logo um sistema a responder a tudo. Pode começar com:
- IA a marcar cláusulas problemáticas
- SA a sugerir alternativas padrão
- IA a responder apenas a certos tipos de perguntas sobre contratos
Mas cada utilização deve ser acompanhada de:
- Feedback dos utilizadores
- Ajustes ao modelo
- Revisão periódica por um advogado sénior
A diferença entre um piloto sério e uma experiência para PowerPoint está neste ciclo de aprendizagem.
O futuro da IA jurídica: colaboração, não competição
A visão que a Jeannique partilha é a mesma que eu vejo a ganhar força nos escritórios mais avançados em Portugal: o futuro do Direito não é uma guerra entre humanos e máquinas, é uma parceria exigente.
IA bem desenhada:
- Elimina trabalho mecânico e repetitivo
- Aumenta a visibilidade sobre riscos e oportunidades
- Dá aos advogados dados e contexto para decisões mais fortes
Os escritórios que abraçarem a ideia de “treinar IA para pensar como advogado” – com legal engineers, governança clara e foco no negócio – vão conseguir algo que a concorrência dificilmente replica: uma forma de trabalhar mais rápida, mais consistente e mais próxima daquilo que os clientes empresariais já esperam em 2026.
Se o seu escritório ainda está a discutir se "vale a pena" investir em IA, talvez a pergunta certa seja outra:
Quem, dentro da sua equipa, vai ser a pessoa que ensina a IA a pensar como vocês?