O que VERA, CollBox e Clearbrief ensinam sobre IA aplicada à advocacia – e como escritórios em Portugal podem usar IA para prazos, cobranças e documentos.
3 lições de IA da Clio que os escritórios portugueses podem aplicar já
A maior parte dos escritórios de advogados em Portugal não perde clientes por causa da qualidade jurídica. Perde-os por prazos falhados, faturas por cobrar e equipas atoladas em tarefas repetitivas.
É aqui que a inteligência artificial começa a fazer a diferença. Os vencedores dos Clio Integration Awards 2025 — VERA, CollBox e Clearbrief — mostram como a IA está a ser usada na prática para resolver problemas muito concretos de gestão de escritórios de advogados. E, mesmo que não use Clio, as ideias por trás destas integrações são altamente relevantes para qualquer sociedade portuguesa que esteja a pensar seriamente em IA para escritórios de advogados em Portugal.
Neste artigo vou resumir o que estas três apps fazem, mas sobretudo o que o seu escritório pode copiar: automatizar prazos, profissionalizar cobranças e transformar o trabalho com documentos jurídicos.
1. VERA: IA a proteger prazos e a reduzir risco
A lição principal do VERA é simples: a gestão de prazos é demasiado crítica para depender só de pessoas e folhas de Excel.
VERA é uma aplicação de IA que lê peças processuais, emails, despachos e outros documentos e extrai automaticamente:
- datas relevantes (despachos, prazos, notificações)
- eventos processuais
- referências temporais dispersas no texto
Depois, sincroniza esses prazos com o calendário do sistema de gestão (no caso original, o Clio Manage) e gera uma linha temporal visual do processo.
Como isto se traduz para a realidade portuguesa
Mesmo num contexto diferente do norte‑americano, o problema é o mesmo em Lisboa, Porto ou Faro:
- prazos de recurso e de contestação críticos
- caducidades em direito laboral ou fiscal
- prescrição em responsabilidade civil
Num escritório tradicional, isto vive em:
- notas à mão
- emails sinalizados
- folhas de cálculo partilhadas
- “post-its mentais” de cada advogado
O resultado? Quanto mais o volume de trabalho cresce, maior é o risco de falhas. Não por incompetência, mas porque o sistema é frágil.
Uma solução ao estilo VERA, adaptada a Portugal, poderia:
- ler automaticamente despachos do Citius ou outras plataformas
- identificar prazos legais com base no tipo de ato e na norma aplicável
- lançar o prazo no calendário da equipa com alertas configurados
- manter uma cronologia do processo visível para toda a equipa
Porque isto interessa à gestão do escritório
Este tipo de IA não substitui o advogado. Funciona como um segundo par de olhos, sempre ligado, que reduz:
- risco de responsabilidade civil profissional
- stress da equipa em épocas de maior volume
- tempo perdido a montar cronologias antes de conferências, julgamentos ou reuniões com o cliente
Se estiver a desenhar uma estratégia de IA para o seu escritório de advogados em Portugal, a primeira pergunta não deve ser “qual é o modelo mais avançado?”, mas sim:
“Quais são as tarefas críticas onde um erro é inaceitável e que hoje dependem de trabalho manual?”
Gestão de prazos costuma estar no topo da lista.
2. CollBox: IA a profissionalizar a cobrança de honorários
A segunda aplicação premiada, CollBox, ataca um tabu em muitos escritórios: cobrança de honorários em atraso.
Nos dados da Clio, os escritórios que usam CollBox recuperam em média 66.000 dólares por mês em valores em dívida. O mecanismo é simples:
- integra-se com o software de faturação e contabilidade
- identifica faturas vencidas
- ativa fluxos de comunicação estruturada com os clientes (email, SMS, chamadas)
- conta com especialistas de cobrança que atuam como extensão da equipa do escritório
Tudo isto com um objetivo claro: melhorar o cash-flow sem destruir a relação com o cliente.
O paralelo com escritórios portugueses
Se for honesto consigo próprio, responda: quantas destas situações reconhece?
- faturas que ficam meses “à espera de melhor momento” para cobrar
- sócios sénior a gastar horas a enviar emails constrangidos
- descontos sucessivos “para não chatear o cliente”
A realidade é dura: muitos escritórios trabalham bem, faturam… mas não cobram. E sem liquidez não há investimento em tecnologia, não há reforço de equipa, não há crescimento.
Uma abordagem ao estilo CollBox, com IA e automação, poderia em Portugal:
- segmentar clientes e tipologias de processos (empresas vs. particulares, contencioso vs. consultoria)
- definir estratégias de contacto diferentes consoante o perfil
- automatizar lembretes educados, com linguagem alinhada com a cultura do escritório
- escalar para intervenção humana só nos casos realmente sensíveis
Por que “business of law” não é palavrão
Há uma ideia antiga em muitos advogados:
“O meu foco é o Direito, a parte comercial vê-se depois.”
Mas a experiência mostra o contrário. Escritórios que profissionalizam a gestão — contabilidade, cobrança, relatórios de rentabilidade — conseguem:
- escolher melhor os clientes
- dizer “não” a trabalhos tóxicos
- investir em formação e IA com tranquilidade
CollBox foi distinguida como a melhor app de “business of law” precisamente por isto: quando a casa financeira está arrumada, a qualidade do trabalho jurídico sobe.
Se está a planear investimentos em IA para o seu escritório em 2026, a verdade é que faz mais sentido começar por aqui do que por projetos hiperambiciosos de “previsão de sentenças”. Sem cash-flow, não há transformação digital que resista.
3. Clearbrief: IA que transforma documentos em vantagem competitiva
Clearbrief foca-se num ponto onde quase todos os advogados sentem dor: citações e gestão de prova documental.
A aplicação funciona dentro do Microsoft Word e, ligada ao sistema de gestão de processos, consegue:
- ler depoimentos, documentos, relatórios, emails
- sugerir, em segundos, as páginas mais relevantes para suportar um argumento
- inserir citações formatadas automaticamente
- verificar se cada afirmação no articulado tem suporte documental
Os utilizadores relatam uma poupança média de 7 horas por semana só em tarefas repetitivas de pesquisa e formatação.
Uso prático num escritório de contencioso português
Pense num articulado complexo em direito societário ou num recurso em processo penal volumoso:
- precisa de citar atas de assembleia, contratos, emails, relatórios periciais
- tem dezenas (ou centenas) de ficheiros anexos
Hoje, o processo típico é:
- abrir pastas
- procurar termos específicos
- trocar entre Word, PDF e gestor de ficheiros
- copiar e colar excertos
- formatar citações à mão
Uma ferramenta ao estilo Clearbrief poderia:
- sugerir automaticamente documentos relevantes à medida que escreve
- listar, numa barra lateral, os trechos que suportam cada ponto
- avisar se um parágrafo com afirmações fortes não tem qualquer prova associada
Resultado: menos risco de omissões, mais rapidez a responder a incidentes e oposições, mais tempo para pensar na estratégia processual.
IA generativa é útil quando vive onde o advogado trabalha
Clearbrief mostra um princípio importante para qualquer projeto de IA em escritórios portugueses:
A IA funciona melhor quando aparece dentro das ferramentas que a equipa já usa todos os dias.
Não pede que o advogado aprenda um novo sistema. Surge no Word, no email, no gestor de processos. O mesmo deve acontecer com qualquer iniciativa de IA para escritórios de advogados em Portugal:
- integrar com o software de gestão já existente
- evitar duplicar plataformas
- reduzir ao máximo a fricção na adoção
4. Três tendências que os escritórios portugueses devem copiar
Os prémios da Clio deste ano não são apenas um concurso de apps. São um termómetro da direção do mercado jurídico internacional. Há três tendências claras que fazem todo o sentido em Portugal.
4.1 IA que entra no fluxo de trabalho, não o substitui
VERA e Clearbrief têm algo em comum: não pedem ao advogado que mude radicalmente a forma de trabalhar. Leem documentos, calendários e pastas que já existem e acrescentam inteligência por cima.
Para aumentar as hipóteses de sucesso de um projeto de IA no seu escritório, pergunte:
- esta ferramenta integra com o meu software de gestão?
- vive no Word, no email, no browser que já uso?
- reduz cliques ou cria mais uma etapa?
Se a resposta for “mais uma plataforma para abrir”, a adoção será sempre limitada.
4.2 Melhor gestão = melhor prática jurídica
CollBox foi reconhecida porque prova algo óbvio, mas pouco assumido: sem boa gestão não há boa advocacia sustentável.
Automatizar:
- faturação
- cobranças
- reconciliações com a contabilidade
liberta sócios para tarefas que ninguém mais pode fazer:
- definir estratégia em grandes processos
- desenvolver negócio de forma qualitativa
- orientar equipas juniores
Quando pensa em IA, pense também em:
- dashboards de rentabilidade por cliente
- alertas de horas não faturadas
- previsões de cash-flow
Tudo isto é “business of law” e tem impacto direto na qualidade do serviço jurídico.
4.3 Documentos como fonte de inteligência, não apenas arquivo
Clearbrief mostra o potencial de transformar massas de documentos em inteligência acionável.
No contexto português, isto pode significar:
- encontrar em segundos cláusulas específicas em centenas de contratos
- comparar automaticamente versões de minutas usadas em diferentes clientes
- detectar padrões em decisões administrativas ou arbitrais
Os escritórios que aprenderem a “falar com os seus documentos” através de IA vão ganhar uma vantagem competitiva clara em áreas como M&A, regulatório, energia, direito público e contencioso de grande volume.
5. Como dar os primeiros passos com IA no seu escritório em Portugal
Depois de ver estes exemplos, a questão deixa de ser “se” e passa a ser “como” usar IA.
Uma abordagem pragmática para 2026 poderia seguir estas etapas:
-
Escolher 1–2 dores claras
Prazos? Cobranças? Gestão de documentos? Foque-se no que dói mais hoje. -
Mapear o fluxo atual
Quem faz o quê, em que software, com que riscos e atrasos. -
Identificar oportunidades de automação com IA
- extração automática de datas
- geração de minutas a partir de modelos
- classificação de documentos
- lembretes de pagamento e follow-up
-
Testar em piloto controlado
Comece com uma equipa pequena, um tipo de processo, prazos definidos e métricas simples: horas poupadas, erros evitados, valores cobrados. -
Ajustar, documentar e escalar
Só depois de provar valor num caso concreto faz sentido expandir para outras áreas.
O objetivo não é ter “IA em todo o lado”. É ter IA onde faz mais diferença para os resultados e para a tranquilidade da equipa.
Conclusão: IA como aliado discreto do advogado português
VERA, CollBox e Clearbrief têm algo em comum: são quase invisíveis quando funcionam bem. Não brilham por si; deixam o advogado brilhar.
Para quem acompanha esta série sobre IA para escritórios de advogados em Portugal, estes exemplos internacionais são um aviso e uma oportunidade. Aviso, porque mostram que a concorrência global já está a automatizar o trabalho repetitivo. Oportunidade, porque o mercado português ainda está numa fase em que quem se mexer primeiro ganha vantagem clara nos próximos anos.
Se tiver de guardar só uma ideia deste artigo, que seja esta:
A melhor IA para advogados não substitui o raciocínio jurídico; substitui o trabalho que o impede de pensar.
O próximo passo está do seu lado: identificar onde, no seu escritório, a IA pode começar a trabalhar hoje para reduzir risco, melhorar o cash-flow e libertar tempo para o que realmente importa — aconselhar bem os seus clientes.