Harvey AI mostra o potencial da IA jurídica, mas a maioria dos escritórios em Portugal precisa de alternativas mais acessíveis, integradas e orientadas ao negócio.
Por que tantos escritórios falham na escolha de IA jurídica
Muitos escritórios portugueses estão a testar IA generativa em 2025: ChatGPT num separador, um plugin qualquer no Word, um piloto com uma ferramenta estrangeira. Passados três meses, a sensação é quase sempre a mesma: algum entusiasmo inicial, muito ruído… e pouco impacto real na faturação, nos prazos e na qualidade do trabalho jurídico.
O problema não é a IA em si. O problema é escolher ferramentas que foram pensadas para grandes firmas internacionais, com equipas de IT dedicadas e orçamentos anuais de seis dígitos – como é o caso típico do Harvey AI – e tentar encaixá‑las na realidade de um escritório em Lisboa, Porto, Faro ou Braga, com 5, 10 ou 30 advogados que precisam de resultados concretos já este trimestre.
Neste artigo da série “IA para Escritórios de Advogados em Portugal”, vou pegar no caso do Harvey AI e mostrar o que realmente interessa quando avaliamos alternativas de IA jurídica: precisão, transparência, integração com a gestão do escritório e retorno direto no tempo faturável. E, sobretudo, como aproximar estas tecnologias da realidade regulatória e económica da advocacia em Portugal.
Harvey AI: poderoso, mas pouco alinhado com a realidade portuguesa
Harvey AI tornou‑se famoso por parcerias com firmas globais como a Allen & Overy e por ser construído sobre tecnologia GPT com treino específico em direito. Tecnicamente é impressionante: apoio a redação, análise de contratos, pesquisa jurídica em grande escala.
A realidade? Para a maioria dos escritórios portugueses, Harvey AI é mais uma solução enterprise do que uma ferramenta do dia a dia.
Onde Harvey AI acerta
Harvey mostra bem o que a IA já consegue fazer hoje em contexto jurídico:
- Gerar rascunhos de peças e contratos a partir de prompts bem estruturados.
- Analisar grandes volumes de documentos (contratos, discovery, due diligence).
- Integrar com infraestruturas de grandes organizações (Azure, políticas de segurança complexas).
Serve como prova de conceito de que a IA jurídica é real e já funciona.
Onde se torna pouco utilizável para a maioria dos escritórios
Para um escritório português típico, os obstáculos são claros:
- Preço e modelo de licenciamento orientados para grandes organizações.
- Implementação complexa, muitas vezes dependente de equipas internas de IT.
- Pouca transparência sobre fontes jurídicas específicas e forma de controlo de qualidade.
- Nenhuma ligação natural à gestão de práticas, faturação, prazos de tribunais portugueses ou fluxos de trabalho internos.
Resultado: pode ser excelente em demos, mas difícil de justificar em termos de ROI para um escritório que precisa de sentir o impacto na próxima conta de honorários, não apenas no próximo relatório estratégico.
O que um escritório em Portugal deve exigir de uma IA jurídica
Uma alternativa ao Harvey AI, para ser realmente útil em Portugal, tem de cumprir vários critérios. Não basta “fazer textos”; tem de funcionar no contexto do ordenamento jurídico português e da gestão diária do escritório.
1. Transparência e fundamentação jurídica
Qualquer saída de IA deve trazer:
- Citações verificáveis de legislação, jurisprudência e doutrina.
- Indicação clara das fontes utilizadas.
- Mecanismos que reduzam “alucinações” (referência a acórdãos inexistentes, por exemplo).
Uma IA jurídica que não consegue mostrar de onde vem cada afirmação é, na prática, inutilizável perante tribunais e clientes.
2. Dados oficiais e atualizados
Sobretudo em Portugal, com alterações legislativas frequentes, a IA tem de trabalhar sobre:
- Bases de dados atualizadas de legislação nacional e europeia.
- Jurisprudência recente dos tribunais superiores portugueses.
- Informação regulatória (Banco de Portugal, CMVM, ASF, ERC, etc.) relevante conforme a área.
Ferramentas como o Vincent AI, citado no artigo original, baseiam‑se em biliões de documentos e atualizações diárias. Em Portugal, o paralelo óbvio é integrar IA com bases oficiais nacionais e europeias e com fornecedores que já trabalham o nosso ordenamento.
3. Integração com a gestão do escritório
A IA deixa de ser “brinquedo” e passa a ser infraestrutura quando está ligadas a:
- Gestão de processos e clientes.
- Faturação e controlo de tempos.
- Agenda de prazos judiciais.
- Repositório interno de documentos e modelos.
O conceito de Clio Work no artigo é importante aqui: um ambiente único onde a IA conhece o contexto dos processos, os documentos associados e a informação do cliente. O mesmo raciocínio aplica‑se a qualquer stack tecnológico que o seu escritório use (mesmo que não seja Clio): a IA tem de viver dentro das ferramentas onde trabalha todos os dias.
4. Segurança, sigilo profissional e RGPD
Para escritórios portugueses, há quatro perguntas que deviam ser obrigatórias antes de assinar qualquer contrato de IA:
- Os dados dos meus clientes são usados para treinar modelos públicos?
- Onde é que os dados são armazenados (UE, EEE, terceiros países)?
- Há certificações como SOC 2 ou ISO 27001?
- Consigo cumprir o Estatuto da Ordem dos Advogados e o RGPD com esta solução?
Sem respostas claras, a ferramenta é um risco reputacional e disciplinar, não uma ajuda.
5. Facilidade de adoção na equipa
Advogados não devem precisar de ser “prompt engineers” para tirar valor da IA. A ferramenta ideal:
- Usa linguagem natural em português de forma fluida.
- Funciona dentro do Word/Outlook/gestor de práticas que já utilizam.
- Vem com casos de uso pré‑configurados: resumos de peças, rascunhos de emails a clientes, extrair prazos de despachos, etc.
Se a sua equipa precisa de 20 horas de formação para simplesmente começar, algo está desalinhado.
Do hype à prática: o que os escritórios realmente precisam
O próximo passo da IA para escritórios de advogados em Portugal não é “mais modelos” nem “mais chatbots”. É IA acoplada ao negócio jurídico, com impacto mensurável em três áreas:
- Pesquisa jurídica rápida e verificável.
- Redação e revisão de documentos mais eficiente.
- Gestão operacional do escritório mais leve e previsível.
Ferramentas como Vincent AI e Clio Work (no contexto internacional) mostram uma direção clara: juntar pesquisa, contexto de processo e produtividade num só ambiente. O paralelo português passa por adaptar esta lógica à nossa legislação, às nossas bases de dados e à realidade de honorários e margens que os escritórios têm cá.
O que aprendemos com Vincent AI: IA que pensa como um jurista
O Vincent AI é um bom modelo mental para o tipo de ferramenta que faz sentido replicar/adaptar à realidade nacional.
Pesquisa jurídica com base sólida
Vincent assenta numa biblioteca com mais de mil milhões de documentos jurídicos e utiliza um sistema de citações que garante que a IA apenas devolve “good law”. A mensagem aqui é relevante para Portugal:
A verdadeira IA jurídica não é só um modelo de linguagem; é um modelo ligado a uma biblioteca jurídica curada e constantemente atualizada.
Aplicado a Portugal, isso significa combinar modelos de IA com bases:
- Legislação consolidada atualizada.
- Acórdãos dos tribunais superiores portugueses.
- Doutrina e comentadores de referência, quando licenciado.
Resultados medidos, não apenas promessas
No caso do Vincent, os dados partilhados são claros:
- Até 38% de aumento de produtividade em tarefas de pesquisa e redação.
- 3,7x mais fiável do que LLMs genéricos em contexto jurídico.
- Utilizado por 8 em cada 10 das maiores firmas globais.
Transpondo isto para o seu escritório, a pergunta prática é:
- “Quantas horas por mês a minha equipa gasta hoje em pesquisa repetitiva?”
- “Se eu cortar 30% desse tempo e o converter em trabalho estratégico ou faturável, quanto vale isso por ano?”
Casos de uso que fazem sentido em Portugal
Alguns exemplos de cenários que podem (e devem) ser trazidos para a sua realidade:
- Colocar uma questão jurídica e receber resposta fundamentada com referências à legislação nacional e à jurisprudência relevante.
- Comparar regimes entre jurisdições (p.ex., Portugal vs. outra jurisdição europeia) em operações transfronteiriças.
- Analisar contratos para identificar riscos, cláusulas incomuns ou incoerências com modelos internos do escritório.
IA na gestão do escritório: o “trabalho invisível” que consome margens
Enquanto ferramentas tipo Vincent resolvem o lado da pesquisa, soluções como Manage AI atacam o lado menos glamoroso mas decisivo: a gestão diária do escritório.
Pense na quantidade de tempo que a sua equipa perde hoje com:
- Organizar emails em pastas de processo.
- Introduzir prazos de despachos no calendário.
- Preparar minutas de notas de honorários.
- Lembrar‑se de follow‑ups a clientes.
É aqui que uma IA “interna ao escritório” mostra o seu valor.
Exemplos práticos adaptados à realidade portuguesa
- Chega uma nova citação ou despacho eletrónico: a IA extrai datas relevantes, cria tarefas, regista o prazo máximo e relaciona com o processo correto.
- Semana de faturação: a IA gera minutas de notas de honorários com base em tempos registados, acordos de honorários e histórico do cliente.
- Transcrição longa de audiência: a IA produz um resumo estruturado, identifica pontos críticos e sugere diligências complementares.
Nada disto substitui o juízo do advogado. Mas reduz drasticamente o custo administrativo por processo, o que, em escritórios com margens apertadas, faz toda a diferença.
Como escolher a IA certa para o seu escritório em Portugal
A decisão não deve começar na tecnologia. Deve começar no negócio.
1. Defina objetivos concretos para os próximos 6 meses
Exemplos típicos para escritórios portugueses:
- Reduzir o tempo médio de pesquisa por questão em 30%.
- Diminuir erros ou esquecimentos de prazos em 90%.
- Acelerar o ciclo de faturação em 7–10 dias.
Sem metas quantificáveis, não há forma séria de avaliar o investimento.
2. Liste tarefas repetitivas da sua equipa
Peça a 3–5 advogados e colaboradores que anotem, durante uma semana, tudo o que fazem que não exige juízo jurídico profundo. Vai encontrar coisas como:
- Formatação e revisão de documentos.
- Pesquisas preliminares simples.
- Emails de acompanhamento a clientes.
- Organização de ficheiros.
É aqui que a IA deve atuar primeiro.
3. Avalie fornecedores com perguntas duras
Quando falar com fornecedores de IA (incluindo quem lhe ofereça soluções tipo Harvey ou equivalentes), faça perguntas diretas:
- “Mostre‑me um exemplo em português, com legislação portuguesa.”
- “Onde são guardados os dados dos meus clientes?”
- “Como posso auditar as fontes usadas numa resposta?”
- “Que resultados concretos (números) outros escritórios semelhantes ao meu obtiveram?”
Se as respostas forem vagas, prossiga para o próximo.
4. Comece pequeno, mas com compromisso sério
Em vez de um “piloto eterno”, defina:
- Uma equipa piloto (2–4 pessoas).
- Uma lista fechada de casos de uso (por exemplo: resumos de peças, extração de prazos, rascunhos de emails).
- Um período de teste (90 dias) com métricas claras de sucesso.
No final dos 90 dias, a decisão é binária: ou escala, ou desliga.
IA jurídica em Portugal: 2026 vai premiar quem decidir agora
Ferramentas como Harvey AI tiveram o mérito de pôr a IA jurídica nas manchetes. Mas a realidade dos escritórios portugueses pede outra coisa: soluções acessíveis, integradas com a gestão do escritório e alinhadas com o nosso quadro legal e económico.
A boa notícia é que a tecnologia já permite isso:
- IA de pesquisa jurídica com fundamentação sólida e atualizada.
- IA operacional que cuida de prazos, tarefas, faturação e organização.
- Plataformas que aproximam estes dois mundos num único ambiente de trabalho.
Neste contexto, a pergunta certa já não é “se” o seu escritório deve adotar IA, mas “como” e “com que objetivo de negócio”. Quem começar agora, de forma estruturada, entra em 2026 com processos mais enxutos, equipas menos sobrecarregadas e uma proposta de valor mais competitiva para clientes cada vez mais sensíveis a preço e rapidez.
Se esta série “IA para Escritórios de Advogados em Portugal” tiver um fio condutor, é este:
A IA não substitui advogados, mas vai separar muito depressa quem trabalha com ferramentas inteligentes de quem continua preso a tarefas que já podiam estar automatizadas.
O próximo passo está do seu lado: escolher uma ou duas áreas do seu escritório onde a IA possa gerar impacto nos próximos 90 dias e agir com disciplina. O resto é execução.