O que a Saúde Digital ensina ao Turismo com IA

IA no Turismo Português: Experiências PersonalizadasBy 3L3C

Como três projetos digitais da saúde em Portugal mostram o caminho para experiências de turismo personalizadas com IA, desde apps únicas a gestão inteligente de destinos.

IA no turismosaúde digitalexperiências personalizadaschatbots multilínguesgestão de destinostelecuidadosrevenue management
Share:

Featured image for O que a Saúde Digital ensina ao Turismo com IA

Quando a saúde digital inspira o turismo inteligente

Três projetos da SPMS chegaram à final dos Portugal Digital Awards 2025, escolhidos entre mais de 350 candidaturas. Não é só uma boa notícia para o Serviço Nacional de Saúde (SNS). É um sinal claro de como Portugal está a ganhar maturidade em serviços digitais centrados no cidadão – e isso interessa, e muito, a quem trabalha em turismo e quer usar Inteligência Artificial (IA) para criar experiências personalizadas.

Se a saúde consegue escalar telecuidados, portais de autosserviço e transparência em tempo real, o turismo não tem desculpa para ficar para trás. A lógica é a mesma: muitas pessoas, recursos limitados, expectativas altas de serviço digital imediato, em qualquer dispositivo.

Neste artigo vou pegar nos três projetos finalistas – App e Portal SNS 24, Telecuidados SNS e Portal dos Tempos Médios de Espera – e mostrar como os princípios por detrás destas soluções se aplicam diretamente à IA no Turismo Português. Se gere um hotel, um destino, um operador turístico ou uma startup de travel tech, há aqui ideias muito práticas para aumentar satisfação, receita e eficiência.


O que está em causa nos projetos finalistas da SPMS

A SPMS é finalista em três frentes, todas com o mesmo fio condutor: digitalizar serviços complexos sem perder a proximidade humana.

  • App e Portal SNS 24 – acesso centralizado a serviços de saúde, informação fiável, marcações, resultados e interação digital com o sistema.
  • Telecuidados SNS – plataforma de telessaúde que aproxima profissionais e cidadãos à distância, com monitorização e acompanhamento remoto.
  • Portal dos Tempos Médios de Espera – transparência sobre tempos de resposta, permitindo uma gestão mais inteligente da procura e dos recursos.

Na saúde, estes projetos atacam três problemas muito concretos: acessibilidade, capacidade de resposta e confiança. No turismo, os problemas são surpreendentemente parecidos:

  • turistas querem acesso imediato a informações e serviços;
  • operadores precisam de organizar melhor a capacidade (quartos, visitas, restaurantes, transportes);
  • todos precisam de confiar que a informação é atual, clara e personalizada.

A boa notícia? As mesmas tecnologias – plataformas digitais, dados em tempo real e IA – resolvem dores nos dois setores. A diferença está na aplicação.


App SNS 24 e turismo: um “super app” para o viajante

A App e o Portal SNS 24 reforçam a acessibilidade aos serviços de saúde e são hoje uma peça central da estratégia digital em Portugal. Há aqui três lições diretas para experiências personalizadas no turismo.

1. Um ponto único de contacto em vez de 10 apps diferentes

A App SNS 24 concentra:

  • autoagendamento;
  • histórico e dados pessoais relevantes;
  • comunicação com o sistema;
  • informação fiável e contextual.

No turismo, muita gente ainda empurra o cliente para um labirinto de apps: uma para o check-in, outra para o cartão digital, outra para o guia da cidade, outra para pontos de fidelização. A maioria desinstala tudo depois da viagem.

Há um caminho mais inteligente: uma app (ou PWA) única de destino ou grupo hoteleiro, que use IA para adaptar o conteúdo ao perfil do visitante.

Como seria isto, na prática?

  • O visitante chega a Lisboa. A app do destino reconhece que é a primeira vez em Portugal, fala com ele em francês e sugere um roteiro personalizado de 3 dias, combinando interesses (gastronomia, museus, surf), mobilidade e orçamento.
  • Com IA generativa e dados de comportamento, a app ajusta recomendações em tempo real: se chover, propõe mais museus; se vê que a pessoa reserva muito em cima da hora, oferece push notifications com last minute deals em restaurantes próximos.

A lógica é a mesma do SNS 24: um ponto único de relação com o sistema, apoiado por inteligência, para tornar a vida do utilizador mais simples.

2. Chatbots multilíngues que realmente ajudam

Na saúde, assistentes virtuais ajudam o cidadão a perceber sintomas, marcar serviços ou navegar no portal. No turismo, um chatbot multilíngue com IA pode ser o melhor rececionista 24/7 que um destino tem.

O que funciona melhor, inspirado pela saúde digital:

  • Linguagem clara e contextual: perguntas simples, respostas diretas, tal como nas FAQs de saúde.
  • Integração com sistemas de backoffice: o bot não só responde, como marca visitas, altera reservas e abre tickets de suporte.
  • Personalização progressiva: quanto mais o turista usa o chatbot, melhor este conhece horários, preferências de alimentação, tolerância a filas, etc.

Quem olhar para o SNS 24 apenas como um “site de informação” perde metade do valor. O poder está na conversa orientada por IA, que reduz carga humana e aumenta a rapidez de resposta. Exatamente o que um destino turístico sobrecarregado em agosto precisa.


Telecuidados SNS e o paralelo com acompanhamento digital do turista

Telecuidados SNS mostra como a SPMS está a apostar em soluções de telessaúde para monitorizar e acompanhar cidadãos à distância. A ideia central é simples: manter contacto ativo, estruturado e seguro, mesmo sem presença física.

No turismo, a mesma filosofia pode transformar a experiência do visitante, antes, durante e depois da viagem.

Acompanhamento remoto antes da viagem

Tal como um doente crónico recebe planos e alertas personalizados, um turista pode beneficiar de planeamento assistido por IA:

  • recomendações de preparação (documentos, seguros, requisitos de saúde ou vistos);
  • sugestões de período ideal para viajar em função do perfil (foge a enchentes, eventos específicos, orçamento);
  • previsão personalizada de custos diários, com base em preferências reais de consumo.

À medida que o utilizador interage com o sistema, o motor de IA ajusta previsões e recomendações — tal como um sistema de telemonitorização ajusta alarmes à resposta clínica.

“Telecuidados turísticos” durante a estadia

Na saúde, telecuidados significam monitorizar sinais e intervir cedo. No turismo, o equivalente é antecipar problemas de experiência:

  • alertas proativos sobre atrasos em transportes, alterações de horários ou sobrelotação de pontos turísticos;
  • notificações inteligentes com rotas alternativas ou horários mais calmos;
  • apoio rápido em situações de stress (perda de documentos, problemas de pagamento, dúvidas de segurança), via chatbot + humanos em escalonamento, como num call center clínico.

Aqui, a IA faz a triagem inicial, tal como nos serviços de saúde remota, e encaminha apenas os casos mais complexos para equipas humanas. Resultado: menos pressão sobre equipas locais e turistas mais confiantes.

Pós-viagem: fidelização que vai além do e-mail genérico

Se na saúde o acompanhamento pós-alta evita recaídas, no turismo um follow-up inteligente evita que a relação morra no check-out:

  • feedback estrutural, adaptado à experiência concreta (não o mesmo formulário para todos);
  • recomendações de novas experiências noutros destinos nacionais, alinhadas com o histórico real do viajante;
  • programas de fidelização que recompensam comportamentos sustentáveis (usar transportes públicos, visitar fora das horas de ponta, procurar negócios locais).

A mensagem é clara: os telecuidados inspiram um modelo de acompanhamento contínuo, em que a IA atua como ponte entre o visitante e o ecossistema turístico, tal como faz entre o cidadão e o sistema de saúde.


Portal dos Tempos Médios de Espera e a gestão inteligente de destinos

O Portal dos Tempos Médios de Espera foi pensado para dar transparência a agendamentos e filas na saúde. Isso tem um paralelo quase direto com o turismo: gestão de fluxos e de capacidade em destinos sobrecarregados.

Transparência em tempo real sobre lotação e filas

Na saúde, saber o tempo médio de espera ajuda a gerir expectativas e distribui melhor a procura. No turismo, dados públicos sobre lotação e filas podem:

  • reduzir picos em atrações muito populares;
  • aumentar o fluxo para zonas menos conhecidas;
  • melhorar a relação visitantes–residentes.

Com IA, é possível ir além dos tempos médios:

  • prever lotação em atrações, praias ou trilhos com base em reservas, histórico, meteorologia e eventos;
  • ajustar preços dinamicamente (revenue management) para suavizar picos e incentivar deslocação para horas/dias de menor pressão;
  • alimentar chatbots, apps e painéis físicos com previsões acessíveis a todos.

Quem já viu como a saúde usa dashboards para gerir camas, urgências ou consultas percebe facilmente o valor de um “Centro de Controlo do Destino” alimentado por IA.

IA para revenue management com foco no bem-estar do destino

Muitos hotéis e companhias aéreas já usam algoritmos de revenue management. O que ainda falta, em muitos casos, é integrar dados ao nível do território, como a saúde faz ao nível do sistema.

Inspirando-nos no Portal de Tempos de Espera, um destino pode:

  • cruzar dados de ocupação de alojamento, reservas em restaurantes, eventos e mobilidade;
  • usar modelos preditivos de IA para simular cenários de pressão turística;
  • ajustar campanhas, preços e disponibilidades para manter uma relação sustentável entre receita e qualidade da experiência.

O objetivo não é apenas encher mais, é encher melhor. A mesma lógica que a saúde persegue quando tenta equilibrar capacidade instalada e necessidades reais da população.


O que estas boas práticas significam para o futuro do turismo em Portugal

Os três projetos finalistas da SPMS mostram que Portugal já sabe fazer serviços digitais complexos, escaláveis e centrados na pessoa. A ponte com o turismo é evidente: o viajante é, no fundo, um “cidadão temporário” do destino, com as mesmas expectativas de clareza, rapidez e personalização.

Se trabalha em turismo e quer usar IA com impacto real, há três passos inspirados pela saúde digital que fazem sentido começar já:

  1. Criar um ponto único de contacto digital, com app ou portal que agregue serviços, informação e suporte, alimentado por IA generativa e dados de contexto.
  2. Implementar acompanhamento contínuo antes, durante e depois da viagem, com chatbots multilíngues, alertas proativos e segmentação comportamental.
  3. Construir um “centro de controlo do destino” com dados em tempo real e previsões de lotação, para apoiar decisões de revenue management e sustentabilidade.

A SPMS não está apenas a competir por prémios digitais; está a provar que é possível pensar o serviço primeiro e a tecnologia depois. Se o turismo português seguir a mesma linha – centrado na pessoa, guiado por dados e apoiado por IA – ganha o visitante, ganha o negócio e ganha o país.

A questão para os próximos anos é simples:

Se a saúde pública consegue operar com esta maturidade digital, o que é que falta realmente ao turismo para chegar ao mesmo nível de personalização com IA?

🇵🇹 O que a Saúde Digital ensina ao Turismo com IA - Portugal | 3L3C