Viagens a solo estão a disparar e Portugal é palco ideal. Veja como usar IA para atrair, receber e fidelizar viajantes a solo com experiências realmente personalizadas.
O boom das viagens a solo e a oportunidade para hotéis em Portugal
Em 2026, 59% dos viajantes fizeram pelo menos uma viagem a solo nos últimos cinco anos, face a 46% em 2025. Este salto não é um detalhe estatístico, é um choque de realidade para qualquer hotel que ainda pensa apenas em casais e famílias.
No contexto português, esta tendência já se sente em Lisboa, Porto, Algarve, Açores e Madeira: mais nómadas digitais, escapadinhas de fim‑de‑semana para “desligar” e cada vez mais estrangeiros a escolher Portugal como destino seguro para viajar sozinho. Para um país que vive do turismo, ignorar o segmento solo em 2026 é literalmente deixar dinheiro em cima da mesa.
Neste artigo da série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas”, vou mostrar como juntar duas tendências que estão a mexer com o setor: o crescimento das viagens a solo e o uso de inteligência artificial no turismo. A ideia é simples: usar IA para criar experiências tão personalizadas que um viajante sozinho sinta que o seu hotel foi pensado exatamente para ele.
Quem são os viajantes a solo que já estão a chegar a Portugal?
Os dados globais mostram que as viagens a solo deixaram de ser nicho. Não falamos apenas de mochileiros em hostels. Há pelo menos quatro perfis que os hotéis portugueses já estão a receber:
1. Millennials e Geração Z em modo “explorar”
Segundo o estudo citado, 52% das viagens a solo são feitas por millennials. Em Portugal, isso cruza-se com dois fenómenos:
- Nómadas digitais que escolhem Lisboa, Porto, Ericeira ou Madeira para estadias médias e longas.
- Jovens profissionais que fazem city breaks a solo de 3–4 noites para conhecer gastronomia, cultura e vida noturna.
O que estes viajantes valorizam?
- Wi-Fi robusto e espaços de cowork ou work-friendly.
- Check-in simples, digital, de preferência com chave no telemóvel.
- Recomendações autênticas, não turísticas, dadas de forma rápida (idealmente por chatbot ou app).
2. Profissionais em pausa de bem‑estar
Cada vez mais trabalhadores reservam 3 a 7 dias para retiros de bem‑estar, detox digital ou escapadinhas fora da época alta. Portugal tem uma vantagem brutal aqui: clima ameno, boa gastronomia e sensação de segurança.
Este público procura:
- Quartos silenciosos, boa insonorização e conforto.
- Ofertas ligadas a wellness: spa, yoga, trilhos na natureza, alimentação saudável.
- Comunicação clara sobre segurança e apoio disponível 24h.
3. “Empty nesters” e seniores ativos
Pais cujos filhos já saíram de casa ou reformados que querem redescobrir o prazer de viajar, muitas vezes sozinhos. Para Portugal, isto é ouro no inverno e nas épocas médias, quando estes viajantes têm flexibilidade de datas.
Valorizam:
- Acessibilidade, elevadores, boa iluminação.
- Equipa atenciosa, disponível para dar apoio e conversar.
- Programas culturais, visitas guiadas, experiências locais tranquilas.
4. Exploradores temáticos: comida, cultura, música
Portugal é um prato cheio para viajantes a solo que seguem paixões muito específicas:
- Gastronomia e vinhos (Douro, Alentejo, Minho)
- Surf (Costa Vicentina, Peniche, Ericeira)
- Música e festivais (NOS Alive, Primavera Sound, festivais de verão algarvios)
Aqui, a chave está em experiências hiper locais e em comunicação antecipada: mostrar ao viajante solo que não vai sentir-se perdido ou deslocado.
O que os viajantes a solo mais valorizam — e como a IA ajuda
Viajantes a solo são normalmente mais exigentes na pesquisa e têm gasto médio por pessoa mais elevado, porque não dividem refeições, tours ou upgrades. A boa notícia: a IA ajuda a responder a quase todas as suas principais preocupações.
Segurança e sensação de apoio
Para quem viaja sozinho, segurança não é opcional. É critério de seleção.
Como um hotel em Portugal pode usar IA para reforçar esta perceção:
- Chatbots 24/7 em vários idiomas para tirar dúvidas sobre bairro, transportes, táxis seguros ou serviços de emergência.
- Mensagens automatizadas no dia da chegada com:
- contactos úteis,
- mapa rápido da zona,
- instruções claras de acesso ao hotel.
- Análise de reviews com IA para identificar rapidamente menções a “seguro”, “calmo”, “bem iluminado” e puxar esses pontos para a comunicação.
Navegação fácil e experiência sem fricção
Viajantes a solo querem autonomia: não depender de ninguém para se localizar, escolher o que fazer ou reservar.
Recursos apoiados em IA que fazem a diferença:
- Assistente digital do hóspede (via app, WhatsApp ou web) que responde em linguagem natural:
- “Onde posso comer bem a menos de 10 minutos a pé?”
- “Que miradouro é mais seguro ao pôr do sol?”
- Recomendações personalizadas usando dados de preferências indicadas na reserva (ex.: “gosta de natureza”, “evita multidões”).
- Roteiros automáticos para 1, 3 ou 5 dias a solo, gerados com IA a partir do perfil do hóspede.
O equilíbrio entre socializar e ter espaço
Viajantes a solo não querem ser forçados a socializar, mas gostam de ter a porta aberta para o fazer.
Ideias práticas:
- Promover, com ajuda da IA, micro-eventos no hotel: provas de vinhos, mini walking tours, aulas de culinária — sempre com participação opcional.
- Segmentar convites com base em comportamento: quem viaja a solo recebe convites mais focados em atividades pequenas e descontraídas.
- Analisar dados de participação e feedback para afinar horários, formatos e temas dos eventos.
Experiências autênticas e personalizadas
Aqui a IA brilha. Um motor de recomendação bem treinado pode transformar uma estadia qualquer numa experiência memorável para um viajante sozinho.
Possibilidades concretas:
- Sugestões de restaurantes, cafés, miradouros e museus com base em:
- localização do hóspede,
- faixa etária,
- histórico de escolhas anteriores.
- “Bundles” dinâmicos: a IA identifica padrões de consumo e cria automaticamente pacotes solo atrativos (ex.: jantar + tour + late check-out).
- Personalização da comunicação: emails pré-estadia com roteiros a solo, dicas de segurança e spots menos óbvios, em vez da newsletter genérica igual para todos.
Passos práticos para hotéis portugueses conquistarem o segmento solo
A teoria é interessante, mas o que pode um hotel em Portugal fazer já nos próximos 3 a 6 meses? Vamos por partes.
1. Criar ofertas e mensagens pensadas explicitamente para 1 pessoa
A maioria dos sites ainda fala em “quartos duplos” e “pacotes românticos”. Para um viajante a solo, isto transmite logo a ideia de que não é o público ideal daquele hotel.
Comece por:
- Incluir no site e nas campanhas expressões como “viagem a solo”, “escapadinha só para si”, “retiro individual”.
- Lançar pacotes para 1 pessoa, por exemplo:
- “Me Time em Lisboa”: 3 noites, acesso ao spa, massagem, pequeno-almoço no quarto, late check-out.
- “Explorar o Porto a Solo”: walking tour privado, prova de vinhos, jantar num restaurante de autor.
- Usar IA para testar títulos, descrições e imagens que geram mais cliques e reservas para este tipo de oferta.
2. Personalizar a pré-estadia com IA
A fase pré-estadia é onde o viajante a solo pesquisa mais e decide se confia no hotel.
Sugestões de automação inteligente:
- Enviar, após a reserva, um questionário curto (pode ser alimentado por IA) com perguntas como:
- “Prefere natureza, cidade ou cultura?”
- “Gosta de jantar cedo ou tarde?”
- “Quer receber sugestões para conhecer outros viajantes ou prefere programas tranquilos?”
- Com base nas respostas, a IA gera automaticamente:
- um email com sugestões de planos diários,
- recomendações personalizadas dentro e fora do hotel,
- opções de upgrades relevantes (ex.: quarto mais silencioso, secretária maior para trabalhar).
3. Usar chatbots e assistentes virtuais como “companheiro de viagem”
Um chatbot inteligente, multilíngue e integrado no WhatsApp ou no site pode ser quase um “companheiro silencioso” para quem viaja sozinho. A diferença entre um chatbot banal e um que realmente ajuda está na forma como é treinado.
Boas práticas:
- Treinar o modelo com conteúdos locais: transportes, horários típicos portugueses, feriados, eventos sazonais.
- Incluir respostas preparadas para perguntas de segurança e bem‑estar.
- Personalizar o tom: profissional, mas humano, com expressões naturais em português europeu.
4. Formar equipas com dados, não só com “sensibilidade”
Sim, a sensibilidade da receção é crucial. Mas se quiser escalar, precisa de dados estruturados sobre viajantes a solo.
Use IA para:
- Analisar reviews e inquéritos e extrair temas específicos ligados a viajantes a solo (ex.: “viajei sozinho e senti-me…”, “vim sozinho a trabalho…”).
- Criar “playbooks” internos: orientações concretas sobre como acolher, apoiar e surpreender hóspedes a solo em Portugal.
- Identificar picos sazonais de procura solo: city breaks prolongados, feriados estrangeiros, eventos específicos (ex.: Web Summit).
Marketing digital e conteúdo: como falar diretamente com o viajante a solo
Quem viaja sozinho pesquisa muito antes de reservar. Isso é uma vantagem para hotéis que trabalham bem o seu marketing digital com apoio de IA.
SEO e conteúdos pensados para o público português e internacional
Em vez de só apostar em “hotel em Lisboa” ou “hotel no Porto”, comece a trabalhar palavras‑chave long tail ligadas a viagens a solo, por exemplo:
- “hotel seguro para viajar sozinha em Lisboa”
- “viagem a solo ao Porto roteiro 3 dias”
- “escapadinha a solo bem-estar no Alentejo”
Com IA, pode:
- Gerar rascunhos de guias de cidade para viajantes a solo adaptados ao seu destino.
- Produzir versões em vários idiomas com nuances culturais adequadas.
- Analisar quais conteúdos trazem mais reservas diretas e otimizar em função desses dados.
Campanhas segmentadas e lookalike para viajantes a solo
Se já teve hóspedes a solo satisfeitos, tem ouro nos seus dados.
Use ferramentas de IA e plataformas de anúncios para:
- Criar públicos semelhantes (lookalike) a partir de quem viajou sozinho e reservou diretamente.
- Segmentar anúncios com mensagens específicas, como “Viaja sozinho? Fica num hotel onde nunca te sentes perdido.”
- Testar criativos diferentes automaticamente e deixar a IA otimizar os melhores.
Porque é que este tema é central na série “IA no Turismo Português”
A grande mudança não é só o crescimento das viagens a solo. É a forma como a inteligência artificial permite tratar cada pessoa como um segmento inteiro, sem tornar a operação caótica.
Para hotéis e alojamentos em Portugal, isto significa:
- Aumentar taxa de ocupação nas épocas médias e baixas com ofertas orientadas a solo.
- Subir o gasto médio por hóspede através de experiências e upgrades relevantes.
- Construir lealdade genuína: um viajante a solo que se sente visto e seguro volta, recomenda e escreve reviews muito mais detalhadas.
Se está a acompanhar esta série sobre IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas, este artigo encaixa na mesma lógica: usar dados, tecnologia e bom senso para criar hospitalidade verdadeira, mas em escala.
O próximo passo é seu: escolher pelo menos duas iniciativas deste artigo — por exemplo, criar um pacote para 1 pessoa e ativar um chatbot multilíngue — e implementá‑las nos próximos 90 dias. O segmento solo não está a crescer “um dia destes”. Já está a reservar hoje.