Quase 40% dos viajantes já usam IA generativa para planear viagens. Veja o que isso muda para o turismo em Portugal e como criar experiências personalizadas.
IA generativa e turismo: o novo ponto de partida das viagens
Quase 40% dos viajantes nos EUA já usaram IA generativa para planear viagens no último ano. Em apenas 12 meses, a utilização destes sistemas cresceu 11 pontos percentuais e, ao mesmo tempo, a pesquisa “tradicional” no Google começou a perder terreno.
Isto interessa – e muito – ao turismo português. Quem escolhe Portugal em 2026 já não começa a jornada num motor de busca genérico, mas num assistente de IA que sugere destinos, hotéis e experiências personalizadas. Se o seu hotel, alojamento local ou destino não estiver preparado para falar com estes “concierges digitais”, vai simplesmente deixar de aparecer.
Neste artigo da série "IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas", pego nos dados do estudo da Phocuswright e traduzo-os para a realidade portuguesa: o que está a mudar na forma como as pessoas pesquisam viagens, como isso impacta o turismo em Portugal e o que pode fazer, na prática, para tirar partido da IA generativa.
1. O que está a mudar na pesquisa de viagens
A principal mudança é clara: a pesquisa de viagens está a sair do motor de busca e a entrar na conversa com a IA.
Segundo o relatório, quase quatro em cada dez viajantes norte‑americanos já usaram ferramentas como ChatGPT ou modos de pesquisa com IA para:
- Escolher destinos
- Criar roteiros
- Comparar opções de alojamento
- Pedir sugestões de restaurantes e atividades
Ao mesmo tempo, os motores de busca tradicionais continuam importantes, mas em queda. As pessoas querem menos abas abertas e mais respostas diretas e personalizadas.
O que isto significa para Portugal
Para o turismo português, esta viragem traz três implicações diretas:
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O “topo do funil” está a mudar
A primeira inspiração para uma viagem a Portugal pode surgir numa conversa com IA – não num anúncio, não numa pesquisa orgânica. -
O conteúdo tem de ser compreensível por máquinas, não apenas por humanos
Se a IA não entender bem o seu hotel, a sua região ou a experiência que vende, não a vai recomendar. -
A personalização deixou de ser luxo; é expectativa
O viajante já chega ao seu site com uma ideia clara do que quer, construída com a ajuda de IA generativa.
A boa notícia? A IA também está disponível para si. Os mesmos mecanismos que ajudam o viajante podem ajudar o seu negócio a criar experiências personalizadas, em escala, sem aumentar drasticamente custos.
2. Quem está a usar IA para viagens – e porquê isso interessa ao turismo português
O relatório da Phocuswright mostra que os utilizadores de IA são um segmento de alto valor:
- São mais jovens (sobretudo Millennials, logo a seguir a Gen Z)
- Têm rendimentos médios mais altos
- Fazem mais viagens por ano, incluindo internacionais
- Gastam mais em viagens
Ou seja: quem já usa IA para planear viagens parece-se muito com o turista ideal que Portugal quer atrair – urbano, informado, disposto a pagar por qualidade e experiências autênticas.
Millennials, Gen Z e o papel das redes sociais
Há um detalhe interessante no estudo:
- Millennials lideram na adoção de IA para planear viagens
- Gen Z continua mais focada em redes sociais (TikTok, Instagram) como fonte principal de inspiração
Olhando para Portugal, isto encaixa bem no que vemos em Lisboa, Porto, Algarve, Madeira ou Açores:
- Gen Z descobre o destino num vídeo viral de uma praia secreta, de um rooftop em Lisboa ou de um trilho nos Açores
- Millennials usam IA para transformar essa inspiração em um plano de viagem estruturado, com datas, transportes, alojamento e experiências
Se o seu negócio não está a ser bem representado nem nas redes sociais, nem nas respostas da IA, está a perder precisamente as gerações que vão sustentar o turismo português nos próximos 10 anos.
3. Como a IA está a influenciar decisões de viagem
O estudo mostra um ponto-chave: a maioria das pessoas que usa IA para planear viagens acaba por tomar pelo menos uma decisão com base nesses resultados. Não é só curiosidade; é influência real.
Os viajantes que recorrem à IA:
- Usam-na em várias viagens ao longo do ano
- Combinam IA com outras fontes (reviews, sites oficiais, amigos e família)
- Sentem-se cada vez mais confortáveis com a tecnologia (com exceção dos baby boomers)
Quem já usou IA para planear viagens relata quase o dobro do nível de conforto em relação à média dos viajantes.
Onde a IA entra no planeamento de uma viagem a Portugal
Na prática, um viajante pode usar IA em vários momentos:
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Inspiração inicial
“Quero uma viagem de 7 dias na Europa, com boa gastronomia e clima ameno em fevereiro.”
Resultado provável: Portugal aparece rapidamente na lista. -
Definição de roteiro
“Cria um roteiro de 5 dias em Portugal para um casal, com foco em vinho e cultura, evitando grandes multidões.” -
Escolha de alojamento
“Sugere hotéis boutique no Douro com boa relação qualidade/preço e vistas para o rio.” -
Personalização em tempo real
Já em Lisboa: “Sugere restaurantes de comida tradicional portuguesa abertos agora, perto do Campo Pequeno, com opção vegetariana.”
Se o seu hotel ou experiência não aparece nestes cenários, não é porque a IA está “contra” si. É porque não tem dados suficientes, estruturados e atualizados para o recomendar.
4. Confiança: onde a IA ainda perde e onde já ganhou terreno
Apesar da adoção em alta, o relatório deixa claro: a confiança plena ainda não está na IA.
Os viajantes continuam a valorizar mais:
- Recomendações de amigos e família
- Opiniões de outros viajantes (reviews)
- Conteúdos criados por pessoas reais
Porém, a IA já atingiu um nível de confiança semelhante a publicações de viagem e conteúdo de fornecedores (como sites oficiais de hotéis). Ou seja, está a tornar-se mais um canal relevante na equação da decisão.
Como um negócio de turismo em Portugal pode construir confiança na era da IA
Há três frentes essenciais:
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Reviews autênticas e bem trabalhadas
- Incentivar hóspedes satisfeitos a deixar comentários detalhados
- Responder em várias línguas, de forma humana e consistente
- Monitorizar padrões (o que elogiam, o que criticam) para melhorar o produto
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Conteúdo claro, factual e estruturado
- Descrever serviços e experiências de forma específica (datas, horários, públicos-alvo, acessibilidades)
- Incluir informações que uma IA consiga “entender”: contexto, localização, públicos, diferenciais
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Coerência entre o que a IA promete e o que o hóspede encontra
A pior coisa que pode acontecer é um viajante chegar ao seu hotel e sentir que “não é nada do que me foi sugerido”. A confiança quebra imediatamente.
Quando falamos em turismo personalizado com IA, não se trata apenas de recomendar. Trata-se de alinhar expectativas e experiência real.
5. O que os negócios de turismo em Portugal podem fazer já
A realidade é simples: quem atuar agora ganha vantagem competitiva enquanto muitos concorrentes ainda estão presos ao modelo antigo de SEO e campanhas isoladas.
5.1. Otimizar para IA, não só para motores de busca
Algumas ações práticas:
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Rever descrições de alojamentos e experiências
Explicar claramente:- Para que tipo de viajante é ideal (famílias, casais, nómadas digitais, seniores)
- Em que contexto faz mais sentido (férias de praia, enoturismo, city break, retiro de bem‑estar)
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Estruturar informação
Ter páginas com:- Perguntas frequentes (FAQ) bem pensadas
- Secções claras para localização, acessos, serviços incluídos e extras
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Usar linguagem natural
Escrever como as pessoas perguntam à IA: “hotel no Porto perto do centro histórico, com pequeno‑almoço incluído e quartos familiares”.
5.2. Integrar chatbots e assistentes de IA no contacto com o cliente
No contexto da série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas”, este é um dos pontos mais fortes.
Um chatbot com IA no site de um hotel ou de um destino pode:
- Responder em várias línguas 24/7 (português, inglês, espanhol, francês, alemão)
- Criar propostas personalizadas de estadia com base nas datas, orçamento e preferências
- Sugerir experiências locais em parceria com outros negócios (restaurantes, tours, museus)
- Recolher dados de intenção (o que o cliente está realmente a procurar) e transformá-los em leads qualificadas
Para gerar leads de forma consistente, o truque é simples:
- Oferecer valor imediato (por exemplo, um mini‑roteiro personalizado, uma simulação de orçamento ou recomendações de atividades)
- Em troca, pedir contacto (email ou WhatsApp) para enviar o plano detalhado ou uma oferta exclusiva
5.3. Usar IA para desenhar experiências verdadeiramente personalizadas
A IA não serve apenas para atrair o viajante. Serve também para ajustar o produto turístico:
- Analisar padrões de reserva por país, idade, época do ano
- Perceber quais experiências funcionam melhor para cada segmento (casais, famílias, remote workers)
- Criar pacotes dinâmicos: fim de semana gastronómico em Lisboa, semana de surf na Ericeira, férias em família no Algarve com atividades para crianças
Quem dominar esta lógica vai conseguir oferecer experiências personalizadas em escala, algo que era praticamente impossível com processos totalmente manuais.
6. Próximo passo para o turismo português na era da IA generativa
O estudo da Phocuswright fala dos EUA, mas a direção é universal: a porta de entrada da viagem está a deslocar-se para a IA generativa. Portugal, enquanto destino já consolidado, tem tudo a ganhar se se posicionar cedo.
Os viajantes que mais gastam, que fazem mais viagens e que procuram experiências diferenciadas são também os que mais depressa adotam estas ferramentas. Se o turismo português quer continuar a crescer em valor e não apenas em volume, tem de falar a língua da IA – e isso começa por:
- Produzir conteúdo que as máquinas entendem e os humanos adoram
- Integrar chatbots inteligentes em pontos-chave da jornada do cliente
- Usar dados e IA para criar experiências profundamente personalizadas
Quem ficar à espera de “ver no que isto dá” vai descobrir, tarde demais, que deixou de ser recomendado pelos novos conselheiros de viagem do mundo.
Se gere um hotel, um alojamento local, uma empresa de animação turística ou um destino em Portugal, a pergunta já não é se deve adotar IA, mas como vai começar nas próximas semanas.