O que a inovação digital da SPMS ensina ao turismo português sobre IA, dados e personalização de experiências para visitantes.
IA na saúde e no turismo: a mesma mudança com dois cenários
Em 2025, a SPMS destacou‑se nos Portugal Digital Awards com três projetos finalistas em saúde digital. Isto diz muito sobre o momento que estamos a viver em Portugal: a transformação digital deixou de ser promessa e passou a ser critério de excelência.
Agora, aqui está o ponto interessante para quem trabalha em turismo: as mesmas tecnologias que estão a tornar o SNS mais eficiente e personalizado são exatamente as que estão a redefinir a experiência turística em Portugal. IA, dados, automação, interoperabilidade – tudo isto cruza saúde e turismo, dois pilares do país.
Neste artigo, pego no exemplo da SPMS e da inovação na saúde portuguesa para mostrar, de forma prática, como os mesmos princípios se aplicam ao turismo: experiências personalizadas, gestão inteligente de destinos, melhor serviço ao cliente e decisões apoiadas em dados.
1. O que os prémios digitais da SPMS nos dizem sobre Portugal
A presença de três projetos da SPMS entre os finalistas dos Portugal Digital Awards 2025 mostra uma coisa clara: Portugal já sabe trabalhar dados e IA em setores críticos como a saúde. Não é teoria. Já está em produção.
Quando olhamos para a última década, vemos alguns padrões na estratégia digital da SPMS:
- Consolidação de plataformas centrais (Registo de Saúde Eletrónico, receitas sem papel, MySNS Carteira)
- Foco em experiência do utilizador (menos papel, menos deslocações, informação acessível)
- Forte aposta em interoperabilidade entre sistemas de hospitais, centros de saúde, farmácias
- Uso crescente de análise de dados para planeamento de recursos e melhoria de serviços
O que isto tem a ver com turismo? Mais do que parece à primeira vista.
Sempre que um setor público português consegue criar plataformas digitais seguras, interoperáveis e orientadas ao cidadão, está a abrir caminho para que outros setores – como o turismo – sigam a mesma lógica.
No turismo, o equivalente ao Registo de Saúde Eletrónico é o perfil digital do viajante: preferências, histórico de estadias, canais favoritos, idioma, restrições alimentares, mobilidade, orçamento médio. Quem conseguir consolidar e trabalhar estes dados de forma ética e transparente, vai ganhar.
2. Lições da saúde digital para experiências personalizadas no turismo
A grande força da saúde digital em Portugal está na personalização responsável: adaptar cuidados à pessoa certa, no momento certo, com base em dados reais. No turismo português, a IA pode seguir exatamente a mesma lógica.
2.1. De registos clínicos a perfis de viajante
Na saúde:
- O utente tem um identificador único
- Os dados são consolidados de múltiplas fontes
- Há regras claras de acesso, segurança e consentimento
No turismo, podemos replicar o modelo com adaptações:
- Um ID de cliente (não precisa de ser nacional – pode ser baseado em e-mail + telemóvel ou conta de fidelização)
- Dados agregados de:
- Reservas de hotel e alojamento local
- Voos e transportes
- Visitas a museus, enoturismo, experiências culturais
- Interações com chatbots, apps de destino, Wi-Fi de cidade
- Gestão de consentimento clara: o viajante sabe o que está a ser usado e para quê
Com isto, a IA consegue:
- Recomendar roteiros personalizados em Portugal (praia vs natureza vs urbano)
- Adaptar comunicação por idioma e canal (WhatsApp, e-mail, SMS)
- Sugerir horários menos cheios em atrações, melhorando a experiência e reduzindo pressão sobre o destino
2.2. Triage digital vs. recomendação inteligente
No SNS, sistemas de triagem digital ajudam a encaminhar o utente: urgência, consulta de família, teleconsulta, linha SNS 24.
No turismo, o equivalente é o motor de recomendação inteligente:
- Para quem tem poucos dias em Lisboa, sugerir o essencial, sem overload
- Para famílias, priorizar atividades child‑friendly, horários adequados e restaurantes adaptados
- Para nómadas digitais, combinar co‑working, alojamento de longa duração e eventos locais
A lógica é a mesma: não se trata de mostrar tudo, trata‑se de mostrar o melhor próximo passo para aquela pessoa, naquele contexto.
3. Chatbots e assistentes virtuais: do SNS para o turismo português
Se há área onde saúde e turismo se tocam diretamente, é nos chatbots e assistentes virtuais. Na saúde, estes canais já respondem a dúvidas simples, encaminham para serviços corretos e reduzem pressão sobre linhas telefónicas.
No turismo, o impacto é ainda maior, porque:
- A maioria dos visitantes estrangeiros tem baixa tolerância a espera ou fricção
- As dúvidas surgem fora do horário de expediente (chegadas tardias, diferenças horárias)
- A expectativa de resposta instantânea já é a norma
3.1. O que um bom chatbot turístico precisa de aprender com a saúde
Com base na experiência do setor público, especialmente SPMS, há três requisitos claros:
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Multilingue real
- Não chega traduzir menus. O chatbot precisa de perceber formas naturais de perguntar: “tenho um voo às 6h, consigo chegar a tempo de visitar Sintra?”
- Inglês, francês, espanhol e alemão deviam ser o mínimo em destinos turísticos chave em Portugal.
-
Integração com sistemas críticos
- No SNS, um assistente virtual tem de conhecer horários de centros de saúde, regras de acesso, tempos médios de espera
- No turismo, o chatbot precisa de:
- Ver disponibilidade de quartos
- Saber horários atualizados de monumentos
- Verificar lotação de museus ou parques naturais (quando existirem dados)
-
Contexto e histórico
- Na saúde, o histórico evita repetir perguntas e melhora a precisão das recomendações
- No turismo, o histórico permite:
- Não sugerir carne a quem já indicou ser vegetariano
- Não propor carro a quem disse que não conduz
- Adaptar o nível de detalhe — um visitante recorrente não precisa das mesmas explicações básicas
3.2. Exemplos práticos em turismo português
Alguns cenários concretos em que IA e chatbots podem fazer a diferença:
- Hotel em Lisboa: chatbot no site, WhatsApp e QR code no quarto responde em tempo real a:
- Onde ver fado hoje à noite, perto do hotel
- Melhor forma de ir a Belém evitando filas nas horas de pico
- Sugestões para quem tem 4 horas livres entre reuniões
-
Destino regional (por exemplo, Alentejo):
- Assistente virtual da região que combina eventos locais, enoturismo, trilhos de natureza, restauração tradicional e calendário agrícola
- IA ajusta sugestões consoante a época do ano, meteorologia e perfil do visitante
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Turismo de saúde e bem‑estar:
- Chatbots preparados para responder a dúvidas sobre acessibilidade, farmácias de serviço, proximidade de hospitais ou clínicas
- Informação clara em várias línguas aumenta a confiança de seniores e viajantes com doenças crónicas
4. Dados, previsões e gestão inteligente de destinos
Outra área onde a SPMS tem acumulado experiência é na análise de dados em larga escala: volumes de atendimento, sazonalidade, necessidades regionais, planeamento de recursos.
No turismo, a mesma abordagem com IA permite dar um salto enorme em gestão de destinos e revenue management.
4.1. O que a IA consegue prever no turismo português
Com dados bem estruturados, modelos preditivos podem responder a perguntas como:
- Quando é que um destino vai atingir pico de procura (por nacionalidade, faixa etária, tipo de viagem)
- Qual o preço ótimo para maximizar receita sem afastar segmentos estratégicos
- Que zonas de uma cidade vão ficar mais pressionadas por turismo e precisam de medidas de mitigação
- Em que períodos faz sentido promover eventos alternativos para distribuir fluxos
A semelhança com a saúde é grande: tal como se prevê maior procura de urgências em certos dias e horas, a IA consegue antecipar lotação de praias, centros históricos ou parques naturais.
4.2. Exemplos concretos de uso de IA na gestão de destinos
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Cidades como Porto, Lisboa ou Faro podem:
- Ajustar limpeza urbana, transportes e policiamento com base em previsões diárias de entradas e saídas
- Sugerir aos visitantes, via apps ou painéis digitais, janelas horárias de menor afluência em pontos críticos
-
Regiões de natureza (Serra da Estrela, Açores, Peneda-Gerês) podem:
- Limitar reservas em trilhos mais sensíveis e recomendar alternativas
- Usar IA para cruzar meteorologia, estado dos trilhos e perfil do visitante para sugerir atividades seguras
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Hotéis e grupos de alojamento conseguem:
- Otimizar preços por canal (site próprio, OTA, agência)
- Prever cancelamentos e no‑shows e ajustar overbooking de forma controlada
Aqui, a saúde pública deu um recado claro: sem dados bem governados, IA é só buzzword. No turismo, a prioridade não devia ser “usar IA”, mas sim garantir dados limpos, acessíveis e com governança séria.
5. Segurança, ética e confiança: o ponto onde saúde e turismo não podem falhar
Se há área onde a SPMS é especialmente sensível, é na proteção de dados pessoais. Saúde é dos domínios mais regulados e delicados que existe. Turismo tem menos risco direto, mas não está imune a problemas sérios de confiança.
Para quem quer usar IA no turismo português de forma séria, há algumas regras claras:
- Transparência: dizer claramente quando o cliente está a falar com um chatbot e não com uma pessoa
- Consentimento informado: explicar que dados são usados para personalização e permitir opt‑out simples
- Minimização de dados: guardar o que é necessário para o serviço, não “tudo porque um dia pode dar jeito”
- Explicabilidade: conseguir responder a “porque é que me estão a recomendar isto?” sem respostas vagas
A boa notícia é que a fasquia regulatória e ética da saúde, onde a SPMS opera, é alta. Inspirar‑se neste padrão ajuda o turismo a evitar muitos erros já conhecidos.
6. Como começar: passos práticos para turismo em Portugal
A teoria é bonita, mas o que pode um hotel, um operador ou um destino fazer já em 2025? Resumo em quatro passos inspirados pela experiência da saúde digital portuguesa.
6.1. Organizar dados antes de falar de IA
- Identificar fontes de dados: PMS, CRM, motor de reservas, newsletter, reviews, redes sociais
- Unificar identificadores de cliente tanto quanto possível
- Definir um modelo simples de consentimento (quem aceita personalização, quem não aceita)
6.2. Começar pequeno com personalização
- Enviar sugestões de atividades no check‑in baseadas em:
- Motivo da viagem (lazer, trabalho, família)
- Duração da estadia
- Época do ano
- Testar um motor simples de recomendação em e‑mails pré‑chegada e pós‑estadia
6.3. Implementar um chatbot útil, não só “bonito”
- Mapear as 20 perguntas mais frequentes dos clientes
- Garantir resposta em, pelo menos, português e inglês
- Integrar com:
- Informação real de disponibilidade
- Horários atualizados
- Dados básicos de destino (transportes, pontos de interesse)
6.4. Medir, ajustar, escalar
- Acompanhar métricas claras:
- Taxa de uso do chatbot
- Satisfação do cliente (NPS, reviews)
- Tempo de resposta médio da equipa vs. assistente virtual
- Usar estes dados para refinar modelos e justificar investimento futuro, tal como acontece em projetos públicos de saúde.
Onde saúde e turismo se encontram: o próximo capítulo da IA em Portugal
Os três projetos finalistas da SPMS nos Portugal Digital Awards 2025 são mais do que um reconhecimento setorial. São um sinal de maturidade digital do país. Mostram que Portugal já sabe construir soluções de IA e dados robustas, em áreas críticas e altamente reguladas.
Para o turismo português, isto é uma oportunidade clara: aprender com o que já foi feito em saúde e aplicar os mesmos princípios a experiências personalizadas, chatbots multilíngues, revenue management inteligente e gestão de destinos mais sustentável.
Quem atuar agora, com seriedade e visão de longo prazo, vai estar melhor posicionado quando IA deixar de ser novidade e passar a ser simplesmente o modo normal de operar.
Se está a planear o próximo passo da sua estratégia de IA no turismo, a pergunta não é “se” deve avançar, mas por onde começar e com que parceiros.