IA na saúde está a definir o padrão de confiança que o turismo português também terá de seguir. Veja como prevenir abusos e criar experiências personalizadas éticas.

IA na saúde e no turismo português: inovação só funciona com confiança
Em 2024, a Comissão Europeia estimava que a corrupção custasse centenas de milhares de milhões de euros por ano na UE. No setor da saúde, cada euro desviado é menos um tratamento, menos um profissional contratado, menos inovação. E quando juntamos a inteligência artificial (IA) à equação, o potencial é enorme – para o bem e para o mal.
É aqui que o seminário anunciado pela SPMS sobre prevenção da fraude e corrupção no SNS e desafios regulatórios na IA se torna particularmente relevante. Não é apenas mais um evento institucional: é um sinal claro de que Portugal está a levar a sério a integridade na transformação digital da saúde.
Neste artigo, pego nesse seminário como ponto de partida para algo mais abrangente: como construir ecosistemas de IA confiáveis, tanto na saúde como no turismo português – tema da série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas”. Porque a verdade é simples: sem confiança, não há adesão dos cidadãos, não há dados, e sem dados não há IA que produza valor.
Porque é que falar de fraude, corrupção e IA na saúde interessa também ao turismo
A resposta curta: os riscos são parecidos, os dados são sensíveis e o enquadramento regulatório está a apertar.
Na saúde, a SPMS está a reunir especialistas para discutir uma “visão integradora da prevenção da fraude e da corrupção” e os desafios da inovação regulatória na IA. Quem trabalha em turismo pode achar que isto é “assunto do SNS”, mas não é bem assim.
Há três paralelos diretos entre saúde e turismo em Portugal:
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Dados altamente sensíveis
- Saúde: dados clínicos, históricos de medicação, relatórios de exames.
- Turismo: dados pessoais, preferências, hábitos de consumo, geolocalização, histórico de viagens, perfis familiares.
Em ambos os casos, um incidente de abuso ou fuga de informação destrói a confiança.
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Pressão por resultados rápidos com IA
Na saúde, há pressão para reduzir listas de espera, melhorar diagnósticos e otimizar recursos.
No turismo, a pressão vem de outro lado: experiências personalizadas, aumento de receita (revenue management), campanhas mais inteligentes e melhor gestão de destinos. -
Risco de uso indevido de dados e enviesamentos
Algoritmos que favorecem determinados prestadores de saúde ou fornecedores turísticos, sistemas de recomendação que discriminam pelo local de origem, idade ou poder de compra – tudo isto pode ser tecnicamente “eficiente”, mas eticamente e legalmente desastroso.
Por isso, quando a SPMS prepara um seminário em torno do Dia Internacional Contra a Corrupção (09/12) para discutir prevenção de fraude e inovação regulatória em IA, quem está no turismo devia prestar atenção. O enquadramento que se está a consolidar na saúde vai ser, em grande parte, o padrão de exigência noutros setores.
O que está em causa no seminário da SPMS – e porque é um sinal para o mercado
O seminário “Visão integradora da prevenção da fraude e da corrupção no setor da Saúde e desafios de inovação regulatória na inteligência artificial” realiza‑se a 04/12, com inscrições até 01/12. Destina‑se a profissionais do SNS e do Ministério da Saúde, mas o espírito é mais amplo: criar cultura de integridade e alinhar práticas com o Regime Geral da Prevenção da Corrupção (RGPC).
A agenda, ainda que não esteja totalmente pública, aponta claramente para três eixos que interessam a qualquer organização que queira implementar IA, seja num hospital, num hotel ou num destino turístico:
1. Cultura de integridade antes de tecnologia
A SPMS coloca o foco na disseminação de uma cultura de integridade. Isto é decisivo. Se a organização não tiver:
- regras claras de conflito de interesses,
- processos de contratação transparentes,
- registos de decisão auditáveis,
não há IA que salve. Na prática, significa que governança vem antes do algoritmo.
2. Alinhamento com o RGPC e outras obrigações de compliance
O seminário remete diretamente para o Regime Geral da Prevenção da Corrupção, que obriga entidades públicas e muitas empresas a terem:
- planos de prevenção de riscos de corrupção e infrações conexas,
- canais de denúncia,
- formação regular em ética e integridade.
No turismo, principalmente em grupos hoteleiros, empresas de mobilidade turística e entidades públicas regionais, o mesmo tipo de exigências já é uma realidade ou vai passar a ser, sobretudo com a entrada plena do AI Act europeu.
3. Inovação regulatória em IA: não é só cumprir a lei, é desenhar bem os sistemas
Quando a SPMS fala em “desafios de inovação regulatória na IA”, está a tocar no ponto-chave: não basta pôr uma camada jurídica por cima; é preciso pensar a IA desde o início com critérios de ética, transparência e controlo de risco.
Na prática, isto inclui:
- definir claramente para que é usado cada modelo de IA;
- documentar fontes de dados e critérios de treino;
- medir enviesamentos (por idade, género, origem, rendimento, etc.);
- garantir supervisão humana em decisões sensíveis.
Tudo isto vale tanto para uma solução que prioriza utentes em listas de espera como para uma plataforma que recomenda hotéis ou experiências a turistas estrangeiros.
Lições para IA no turismo português: personalização sem abuso
Se a série é “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas”, convém ser direto: personalização agressiva, sem ética e sem transparência, é uma receita para escândalos de privacidade e perda de confiança.
O que é que o turismo pode aprender, hoje, com o que está a ser discutido na saúde?
1. Tratar a personalização como um “ato clínico” de confiança
Na saúde, a partilha de dados é um pacto delicado: o utente aceita expor informação muito íntima em troca de melhor cuidado. No turismo, não é tão dramático, mas a lógica é parecida: o turista aceita partilhar dados para receber experiências realmente relevantes.
Um sistema de IA que recomenda:
- restaurantes alinhados com restrições alimentares,
- hotéis com acessibilidade adaptada,
- atividades fora da rota turística massificada,
só funciona se o utilizador confiar que:
- os dados não vão ser vendidos ao desbarato;
- não será discriminado por origem, idade ou perfil económico;
- pode controlar e apagar os dados quando quiser.
2. Chatbots e assistentes virtuais: transparência desde o primeiro “olá”
Na saúde, já é comum o uso de triagem digital e linhas como o SNS 24, com centrais e algoritmos a apoiar decisões. No turismo, chatbots multilíngues tornaram‑se quase obrigatórios para responder a turistas 24/7.
Mas há três regras de ouro que vêm diretamente das discussões sobre IA responsável:
- Dizer claramente que é um chatbot (não fingir que é uma pessoa).
- Explicar que dados são usados para personalizar a resposta.
- Registar e auditar conversas em contexto de melhoria de serviço, com anonimização sempre que possível.
Quem ignorar isto hoje arrisca‑se a estar nas notícias amanhã.
3. Revenue management e gestão de preços: onde a IA e a ética chocam
O turismo português usa cada vez mais IA em revenue management: ajustar preços de quartos, experiências e voos em tempo real. Tecnicamente é ótimo para otimizar ocupação e lucro. Mas há três riscos óbvios:
- Discriminação por origem geográfica (preços mais altos para certos países).
- Penalização de perfis de menor rendimento com base em histórico de consumo.
- Opacidade total: o cliente não percebe porque está a pagar aquele preço.
A mesma lógica que na saúde impede que a IA decida quem tem acesso primeiro a um tratamento apenas por critérios económicos, devia ser aplicada aqui: a IA não pode transformar‑se numa caixa negra que institucionaliza práticas abusivas.
Como estruturar programas de IA confiáveis: um modelo inspirado na saúde
Da forma como vejo, o que o setor da saúde está a criar em Portugal é, na prática, um manual de sobrevivência digital que o turismo pode adaptar quase linha a linha.
Aqui vai um modelo simples, inspirado em boas práticas de saúde digital, que pode ser usado por:
- grupos hoteleiros,
- operadores turísticos,
- entidades regionais de turismo,
- startups de experiências personalizadas.
1. Mapa de riscos éticos e de fraude
Começa‑se por identificar, por cada projeto de IA:
- que tipo de dados são usados (pessoais, sensíveis, comportamentais);
- que decisões concretas o sistema influencia (preço, ordem de recomendações, acesso a ofertas);
- que oportunidades de abuso existem (manipulação, discriminação, favorecimento de parceiros).
Na saúde, isto é obrigatório para cumprir o RGPC. No turismo, quem o fizer voluntariamente fica anos à frente em credibilidade.
2. Governança clara: quem responde pelo quê
Não pode haver IA “sem dono”. Cada sistema deve ter:
- um responsável técnico,
- um responsável de negócio,
- um ponto de contacto de compliance/ética.
Na prática, isto evita decisões do tipo: “o algoritmo é da empresa X, não sabemos bem como funciona”. Esse discurso já não passa na saúde e não vai passar no turismo por muito mais tempo.
3. Transparência com o cliente: explicar a personalização
Uma das melhores lições da saúde digital é a literacia: explicar em linguagem simples o que está a ser feito com os dados. O turismo devia seguir o mesmo caminho:
- textos claros na app ou site sobre como funcionam as recomendações;
- opção para desligar personalização (e ver uma versão “neutra” da oferta);
- explicações simples para diferenças de preço baseadas em datas, antecedência, ocupação – não em quem é o cliente.
4. Auditoria e melhoria contínua
Tal como o SNS monitoriza fraudes de faturação ou prescrições anómalas, o turismo pode – e deve – monitorizar:
- padrões de preços por origem, idade ou canal de venda;
- que perfis nunca recebem determinadas ofertas (o que pode indicar enviesamento);
- reclamações associadas a decisões automáticas.
É aqui que a IA bem usada pode ajudar a detetar a IA mal usada. O ponto é simples: não há integridade sem métricas.
Próximo passo: IA na saúde e no turismo a puxar para o mesmo lado
O seminário da SPMS sobre prevenção da fraude e corrupção no SNS e desafios regulatórios na IA, marcado para 04/12, é mais do que um momento de formação interna. É um sinal político e técnico:
Portugal quer IA na saúde, mas quer IA limpa, auditável e alinhada com uma cultura sólida de integridade.
Se trabalhamos em turismo e estamos a apostar em IA para experiências personalizadas, vale a pena seguir esta linha. A mesma confiança que o cidadão deposita no SNS quando partilha os seus dados de saúde é a confiança que precisamos que o turista deposite quando aceita partilhar a sua localização, preferências e histórico de viagens.
Quem conseguir juntar personalização inteligente + transparência + ética consistente vai destacar‑se. Não só porque cumpre a lei, mas porque transmite uma mensagem simples:
“Usamos IA para o servir melhor, não para o explorar.”
Se a sua organização está a preparar projetos de IA, na saúde ou no turismo, este é o momento de criar as bases certas. Formar equipas, mapear riscos, definir governança e testar mecanismos de transparência.
O futuro do turismo português passa por experiências cada vez mais personalizadas. Mas a longo prazo, só as experiências que respeitam a confiança do viajante – tal como o SNS procura respeitar a confiança do utente – vão sobreviver.