O novo White Paper da SPMS sobre IA na saúde traz lições diretas para turismo e experiências personalizadas em Portugal: integração, segurança e ética primeiro.
A maior parte das organizações de saúde em Portugal já testa soluções de inteligência artificial, mas poucas têm respostas claras para três perguntas simples: é seguro? é ético? é mesmo útil para os doentes?
O novo White Paper da SPMS sobre Inteligência Artificial nas Organizações de Saúde: Implementação Integrada, Segura e Ética entra exatamente neste ponto – e muda o nível da conversa.
Este tema interessa diretamente a quem está a trabalhar IA no turismo português. Porque os desafios são praticamente os mesmos: dados sensíveis, confiança do cidadão, prestação de um serviço crítico e pressão para inovar rápido. Se a saúde está a definir uma “bitola” de segurança e ética para IA, o turismo não pode ficar muito atrás.
Neste artigo, pego no White Paper da SPMS como referência e traduzo-o em lições práticas para:
- hospitais e unidades do SNS;
- empresas tecnológicas focadas em saúde digital;
- organizações de turismo que querem usar IA para experiências personalizadas, sem pôr em risco a confiança dos viajantes.
1. O que traz de novo o White Paper de IA da SPMS
O White Paper da SPMS posiciona-se como um guia de implementação responsável de IA na saúde, com foco em integração, segurança e ética – não em tecnologia pela tecnologia.
A mensagem central é direta: a IA só faz sentido na saúde se estiver alinhada com valores públicos, segurança clínica e transparência para o cidadão.
Alguns pontos-chave do documento:
- define princípios para adoção de IA no SNS (e por extensão no setor saúde em Portugal);
- insiste numa visão integrada: IA não é um “projeto paralelo”, é parte da operação clínica e de gestão;
- reforça a necessidade de avaliação de risco, governação de dados e supervisão humana;
- apresenta três casos reais nacionais de IA na saúde.
Esta abordagem interessa também ao turismo. Tal como um hospital, um destino turístico inteligente depende de dados pessoais, confiança e continuidade de serviço. Os mesmos princípios que evitam danos num contexto clínico ajudam a prevenir falhas graves na gestão de destinos, reservas e perfis de viajantes.
2. Três soluções de IA na saúde portuguesa – e o que ensinam a outros setores
O White Paper analisa três soluções nacionais de IA já em produção. Cada uma resolve um problema muito concreto, sem prometer milagres.
2.1 MODE – Modelo de Acompanhamento do Desperdício do SNS
O MODE é um modelo de IA focado em detetar desperdício no SNS. Analisa grandes volumes de dados para identificar padrões anómalos de consumo de recursos, faturação ou utilização de serviços.
O que importa aqui:
- é IA aplicada à gestão e eficiência, não apenas ao ato clínico;
- trabalha com dados sensíveis e financeiros, logo integra controlo, auditoria e explicabilidade;
- o objetivo é claro e mensurável: reduzir desperdício, libertando recursos para o que interessa – cuidar melhor.
Lição para turismo e experiências personalizadas:
Um destino turístico pode usar IA para prever picos de procura, ajustar preços, evitar sobrelotação ou consumo excessivo de recursos (água, energia, limpeza). Mas tem de conseguir explicar decisões, sobretudo em revenue management, para não cair em práticas percecionadas como abusivas.
2.2 Codificação Previsional
A Codificação Previsional usa IA para apoiar a codificação clínica de episódios de cuidados, antecipando códigos e ajudando equipas de faturação e estatística.
Benefícios evidentes:
- ganho de tempo nas tarefas administrativas;
- maior consistência nos registos;
- dados mais fiáveis para planeamento e financiamento.
Ponte para o turismo:
Pense em plataformas de turismo a usar IA para classificar automaticamente pedidos, reviews, tipos de experiências, ou até para sugerir pacotes personalizados com base em perfis e histórico. A mesma lógica:
- automatizar o “trabalho de bastidores”;
- ganhar qualidade nos dados;
- libertar equipas para tarefas de maior valor (atendimento, desenho de experiências únicas).
2.3 Detect SNS 24 – Avaliar Pele
A aplicação Detect SNS 24 – Avaliar Pele é talvez o caso mais visível. Recorre a IA para apoiar a avaliação de lesões de pele a partir de imagens, orientando o utente sobre o passo seguinte.
Pontos críticos:
- não substitui o médico, apoia a triagem e a orientação;
- trabalha com imagens extremamente sensíveis, logo integra requisitos fortes de privacidade e segurança;
- precisa de limites bem definidos: o que a ferramenta pode ou não concluir, como comunica incerteza, como reforça o papel do profissional humano.
Inspirador para experiências turísticas personalizadas:
Chatbots de turismo, assistentes virtuais de hotel ou apps de destinos inteligentes têm o mesmo desafio: ajudar sem prometer mais do que conseguem. Um chatbot que sugere roteiros em Lisboa ou no Douro deve:
- deixar claro que é um apoio, não um “agente de viagens infalível”;
- indicar de onde vêm as recomendações (preferências do utilizador, dados de época, histórico de procura);
- dar sempre uma saída segura: falar com uma pessoa, contactar o posto de turismo, ligar para apoio.
3. Implementação integrada, segura e ética: o que isto significa na prática
“Implementação integrada, segura e ética” é expressão bonita, mas só vale se for operacionalizada. O White Paper aponta o caminho, e vale a pena traduzi-lo em passos concretos.
3.1 Integração: IA tem de encaixar no serviço real
Na saúde, IA que não está integrada com o registo clínico, fluxos de triagem, sistemas de faturação ou plataformas como o SNS 24 acaba esquecida.
Aplicado a turismo e hospitalidade, integração significa:
- ligar a IA ao motor de reservas, ao CRM, ao PMS do hotel, à plataforma de bilhética ou à app do destino;
- garantir que recomendações personalizadas aparecem no momento certo: quando o viajante está a planear, a reservar ou já em viagem;
- usar dados coerentes: perfis, histórico de estadas, preferências declaradas, não uma coleção solta de fichas em Excel.
A realidade? Muitas empresas montam “POCs de IA” que vivem em PowerPoints e nunca chegam ao check-in, ao balcão ou ao front-office clínico. O White Paper chama a atenção precisamente para esta necessidade de alinhamento com processos.
3.2 Segurança: dados sensíveis exigem disciplina
Na saúde, não há margem: falhas de segurança podem significar exposição de dados clínicos, chantagem ou impacto direto na prestação de cuidados. É por isso que a SPMS cruza IA com temas como cibersegurança (veja-se a integração do CSIRT-SPMS em redes internacionais) e governação de dados.
Setores como o turismo não estão tão regulados como a saúde, mas lidam com:
- dados de identificação;
- informação sobre localização em tempo real;
- preferências pessoais (alimentação, saúde, religião, hábitos);
- dados de pagamento.
Quer esteja a operar um hospital, uma cadeia de hotéis no Algarve ou uma plataforma de experiências em Portugal, a disciplina é semelhante:
- minimizar dados: guardar só o que é necessário;
- definir quem acede a quê e porquê;
- auditar algoritmos que fazem segmentação de clientes ou priorização de pedidos;
- simular incidentes (ataques, fuga de dados, falha de modelos) e ter planos de resposta.
3.3 Ética: mais do que cumprir regulamentos
O White Paper insiste na ética da IA: justiça, não discriminação, transparência, supervisão humana, foco no bem-estar do cidadão.
Na prática, algumas perguntas que deviam estar em qualquer projeto de IA na saúde e no turismo:
- O modelo trata utilizadores de forma desigual com base em origem, idade, género ou condição económica?
- É possível perceber, pelo menos em traços gerais, por que razão uma recomendação foi feita?
- Há sempre uma pessoa responsável pelas decisões críticas?
No turismo português, isto aplica-se a recomendações personalizadas de experiências. Por exemplo:
- um algoritmo que sugere atividades mais caras sistematicamente a determinados perfis;
- um motor de pricing dinâmico que sobe preços em zonas com menos oferta, sabendo que muitos residentes dependem desses serviços;
- um sistema de fila virtual que dá prioridade a quem já gastou mais, sem transparência.
Do ponto de vista de experiência do viajante, estas escolhas podem corroer a confiança mais depressa do que qualquer falha técnica.
4. O que o turismo pode aprender da IA na saúde em Portugal
Há uma ideia simples que atravessa o White Paper da SPMS: IA é um instrumento de serviço público, não um truque tecnológico. O turismo português tem muito a ganhar se adotar a mesma visão.
4.1 Experiências personalizadas com responsabilidade
Sim, a IA permite criar experiências quase “sob medida”:
- roteiros personalizados por perfil, época do ano e orçamento;
- recomendações em tempo real, com base no que a pessoa já fez naquele destino;
- otimização de horários de visitas para reduzir filas e dispersar fluxos.
Mas a lógica da saúde lembra-nos três travões saudáveis:
- Consentimento informado – o viajante percebe que dados estão a ser usados e para que fins.
- Supervisão humana – existe sempre alguém que pode intervir, corrigir, apoiar.
- Proporcionalidade – não se recolhe nem processa mais dados do que o necessário para melhorar a experiência.
4.2 Chatbots e assistentes virtuais que geram confiança
Se o SNS 24 já apresenta IA em contextos de triagem (como na avaliação de pele), é razoável que os viajantes esperem o mesmo nível de cuidado dos chatbots de turismo.
Boas práticas copiáveis:
- linguagem clara sobre limites da IA (“sou um assistente automático, posso ajudar com X, Y, Z”);
- recomendações sempre acompanhadas de alternativas humanas (contactos, balcões, linhas de apoio);
- logs de interação que permitam auditar respostas em caso de reclamação.
4.3 Governação e estratégia, não apenas projetos-piloto
Na saúde, o papel da SPMS enquanto entidade central é precisamente dar linha estratégica, normas técnicas e enquadramento ético. Falta algo idêntico no turismo, mas as empresas podem antecipar-se:
- criar políticas internas de IA (o que fazemos, o que não fazemos, como avaliamos riscos);
- definir um comité ou responsável por IA que envolva tecnologia, negócio, jurídico e experiência do cliente;
- aplicar métricas claras: não só aumento de receita, mas também satisfação, confiança e queixas ligadas a sistemas automáticos.
É isto que faz a diferença entre “testar um chatbot em época baixa” e construir uma estratégia sustentável de IA no turismo português.
5. Próximos passos para quem quer usar IA com seriedade
Quem está na saúde ou no turismo em Portugal e quer tratar a IA com seriedade pode usar o White Paper da SPMS como referência prática.
Alguns passos concretos:
- Mapear casos de uso: onde a IA pode realmente melhorar serviço, eficiência ou experiência do utilizador?
- Saúde: triagem, apoio à decisão clínica, gestão de camas, faturação.
- Turismo: atendimento 24/7, personalização de ofertas, gestão de fluxos, previsão de procura.
- Classificar risco: quais os casos que mexem com dados mais sensíveis ou decisões mais críticas? Estes exigem regras mais fortes.
- Definir princípios de ética e segurança: por escrito, aprovados internamente. Sem isto, cada projeto segue o “gosto” de quem o lidera.
- Começar pequeno, mas integrado: pilotos em ambiente real, ligados a sistemas existentes, com indicadores claros.
- Comunicar ao cidadão e ao viajante: transparência é ativo competitivo. Em 2025, quem explica bem como usa IA está um passo à frente.
A série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas” tem mostrado que a tecnologia certa pode transformar a forma como recebemos quem nos visita. O exemplo da saúde, através deste White Paper da SPMS, lembra-nos o resto da equação: confiança, ética e serviço público. É esta combinação que vai distinguir os projetos que duram dos que só fazem barulho durante um verão.