O novo white paper da SPMS sobre IA na saúde traz lições diretas para o turismo português: integração, segurança e ética para experiências verdadeiramente personalizadas.

IA na saúde em Portugal: o que o novo White Paper muda — e o que isso ensina ao turismo
Os hospitais portugueses já estão a usar inteligência artificial para reduzir desperdício, apoiar decisões clínicas e melhorar o atendimento. Nada disto é teoria: está descrito no novo white paper da SPMS, “Inteligência Artificial nas Organizações de Saúde: Implementação Integrada, Segura e Ética”, publicado a 27/11/2025.
Este documento é mais do que um relatório técnico. É um guião prático sobre como integrar IA em organizações altamente reguladas, com dados sensíveis e forte pressão social — exatamente o tipo de contexto que também encontramos no turismo português, quando falamos de experiências personalizadas, dados de clientes e confiança.
Neste artigo da série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas”, pego no exemplo da saúde para tirar lições concretas para hotéis, destinos turísticos e operadores. Se a IA já está a ser aplicada de forma segura e ética no Serviço Nacional de Saúde, então é perfeitamente possível fazer o mesmo em turismo — desde que se siga um caminho estruturado.
O que é o novo White Paper da SPMS e porque interessa fora da saúde
O novo white paper da SPMS responde a uma questão simples: como implementar IA em organizações de saúde de forma integrada, segura e ética. E a resposta é bem pragmática.
O documento:
- define orientações para projetos de IA em hospitais e unidades de saúde
- reforça a importância da segurança, ética e confiança
- analisa três soluções de IA já em produção no SNS
- convida à cooperação entre todos os atores do setor
Porque é que isto interessa a quem está no turismo?
Porque os desafios de base são muito parecidos:
- lidar com dados sensíveis (na saúde, dados clínicos; no turismo, dados de comportamento, hábitos, preferências culturais)
- operar em ambientes complexos, com muitos sistemas e equipas
- manter a confiança do público enquanto se usa tecnologia avançada
- garantir conformidade legal (RGPD, regulamentos europeus de IA, normas setoriais)
Se a IA consegue ser integrada no SNS — com risco clínico, escrutínio público e pressão mediática — também consegue ser integrada num grupo hoteleiro, num destino turístico ou numa OTA. A diferença está no método de implementação, não na tecnologia em si.
As três soluções de IA do SNS e o que ensinam ao turismo
O white paper da SPMS analisa três soluções de IA já em uso no contexto nacional. Vamos passar por cada uma e traduzi-la para o universo do turismo português.
1. MODE – Modelo de Acompanhamento do Desperdício do SNS
O MODE é utilizado para monitorizar desperdício no SNS. Em vez de decisões apenas intuitivas, a IA identifica padrões de consumo de recursos, procedimentos redundantes ou ineficiências.
O que isto significa na prática:
- análise contínua de dados de utilização de serviços
- deteção de áreas onde há desperdício de tempo, dinheiro ou materiais
- apoio à gestão para priorizar ações de melhoria
Paralelo com turismo:
Um grupo hoteleiro poderia ter um “MODE do turismo” para:
- detetar quartos sistematicamente ocupados abaixo da média
- identificar tarifas que nunca convertem, por canal ou mercado
- perceber picos de desperdício em F&B (pequeno-almoço, buffets, eventos)
- analisar padrões de no-show por origem do cliente ou época do ano
Com este tipo de IA, a gestão de revenue management deixaria de ser apenas reação a relatórios mensais e passaria a ser um processo contínuo, preditivo e orientado por dados — tal como o MODE faz no SNS com o desperdício.
2. Codificação previsional – prever antes de acontecer
Na saúde, a codificação previsional usa IA para antecipar códigos clínicos ou administrativos com base na informação disponível, ajudando equipas a ganhar tempo e reduzir erros.
Traduzindo:
- o sistema sugere códigos prováveis
- os profissionais validam, corrigem ou aceitam
- o processo torna-se mais rápido e consistente
Paralelo com turismo:
No turismo, a lógica é semelhante para tudo o que é classificação e segmentação:
- sugestão automática do segmento do cliente (lazer, corporate, MICE, long stay)
- previsão da probabilidade de cancelamento no momento da reserva
- sugestão de “next best offer” (early check-in, vista mar, upgrade, experiências locais)
O padrão é o mesmo: a IA não substitui o profissional, mas ajuda a antecipar e acelerar decisões, desde que haja validação humana. Isto é crucial tanto para médicos como para gestores de front office ou revenue.
3. Detect SNS 24 – Avaliar Pele
A aplicação Detect SNS 24 – Avaliar Pele utiliza IA para avaliar imagens da pele, apoiando o encaminhamento adequado de situações dermatológicas.
Na prática, a IA:
- analisa fotos enviadas pelo utente
- identifica sinais que podem carecer de observação clínica
- recomenda o encaminhamento mais adequado
Paralelo com turismo:
A mesma lógica aplicada ao turismo abre portas a experiências personalizadas com IA:
- chatbots que analisam a forma como o cliente descreve a viagem e inferem o tipo de experiência ideal
- sistemas que “avaliam” o histórico de viagens e sugerem roteiros personalizados por Portugal (enoturismo no Douro, surf na Ericeira, walking tours em Lisboa, birdwatching no Alentejo)
- assistentes virtuais que adaptam recomendações em tempo real com base no comportamento do hóspede durante a estadia
A grande lição desta solução do SNS é simples: a IA pode ser usada para triagem inteligente, tanto de casos clínicos como de preferências de viagem. Em ambos, o objetivo é o mesmo: dar a resposta certa, à pessoa certa, no momento certo.
Implementação integrada, segura e ética: o tripé que o turismo não pode ignorar
O título do white paper da SPMS é muito explícito: implementação integrada, segura e ética. Não é um detalhe, é o core da abordagem. E o turismo português, se quiser usar IA para experiências personalizadas, tem de seguir o mesmo tripé.
Implementação integrada: IA não pode ser um “widget” solto
Na saúde, uma solução de IA que não fala com o registo clínico, com os sistemas administrativos ou com os fluxos da equipa… simplesmente não funciona.
No turismo passa-se o mesmo. Uma IA que recomenda quartos sem conhecer:
- o PMS
- o channel manager
- o CRM
- o motor de reservas
- as regras de revenue management
…vai falhar nas recomendações ou criar frustração interna.
O que é uma implementação integrada no turismo?
- IA ligada ao CRM, para usar histórico real de hóspedes
- integração com motores de reservas, para sugerir ofertas disponíveis e não fictícias
- acesso a dados de destino (eventos, transporte, clima, sazonalidade)
- comunicação constante com equipas de front office, marketing e revenue
Segurança: dados de saúde e dados de turistas têm o mesmo inimigo
Na saúde, o white paper enfatiza proteção de dados, cibersegurança e gestão de risco. Há equipas como a CSIRT-SPMS dedicadas a responder a incidentes de segurança.
No turismo, os dados podem não ser clínicos, mas são altamente pessoais:
- hábitos de consumo
- localização em tempo real
- preferências culturais e alimentares
- histórico de viagens e padrões de despesa
Uma fuga de dados deste tipo destrói confiança num hotel ou num destino. Se queremos IA a personalizar experiências, temos de garantir que:
- os dados são anonimizados ou pseudonimizados sempre que possível
- as integrações são testadas em segurança
- há política clara de retenção e eliminação de dados
- existe um plano de resposta a incidentes (ciberataques, falhas de sistemas, acessos indevidos)
Ética: personalizar sem manipular
O white paper da SPMS reforça a necessidade de ética na IA, especialmente na forma como decisões são tomadas e explicadas.
No turismo, a ética aplica-se a questões como:
- transparência na utilização de IA para definir preços e ofertas
- evitar discriminação por nacionalidade, idade, género ou poder de compra percebido
- garantir que a personalização não se transforma em pressão excessiva para compra
Aqui sou bastante direto: usar IA para “empurrar” o máximo gasto possível, sem critério, é uma má estratégia. Os turistas lembram-se de quem os trata como pessoas e não como carteiras com pernas. A ética, além de obrigação, é também vantagem competitiva.
O que o segundo white paper revela sobre a maturidade da IA na saúde portuguesa
Em março de 2025, a SPMS lançou o 1.º white paper sobre IA na saúde em Portugal, focado em regulamentação, impactos e perspetivas de futuro. O documento agora publicado é o 2.º white paper, mais orientado para implementação prática e análise de casos reais.
Este progresso mostra algo importante: a IA na saúde portuguesa está a sair da fase de teoria e a entrar na fase de execução contínua.
Tradução para o turismo:
- quem está hoje a “descobrir” IA no turismo português está, na prática, onde a saúde estava há alguns anos
- há uma janela de oportunidade clara para aprender com esses erros e acertos
- os operadores turísticos que começarem agora, com método, podem chegar à fase de maturidade muito mais depressa
O que funcionou na saúde tende a funcionar no turismo:
- começar com projetos-piloto bem delimitados (um hotel, um destino, um segmento de clientes)
- focar em casos de uso concretos (reduzir desperdício, acelerar resposta, personalizar serviço)
- envolver desde cedo as equipas que vão usar a solução
- medir impactos com indicadores claros (tempo poupado, satisfação, aumento de receita, redução de queixas)
Como aplicar estas lições de IA na saúde ao turismo português já em 2026
Se está a trabalhar em turismo e quer passar da curiosidade à ação, pode seguir um roteiro muito próximo daquele que se percebe indiretamente nos trabalhos da SPMS.
1. Escolher 1–2 casos de uso com impacto real
Evite projetos “para inglês ver”. Exemplos práticos:
- chatbot multilíngue para apoio antes e durante a viagem
- motor de recomendações para experiências locais (restaurantes, tours, eventos)
- modelo preditivo de cancelamento e overbooking
- sistema de apoio ao revenue management com IA
2. Garantir desde início os três pilares: integração, segurança, ética
Perguntas simples que ajudam:
- Com que sistemas internos esta IA precisa de falar?
- Que dados pessoais vão ser usados e como são protegidos?
- Se um cliente perguntasse “porque me estão a mostrar isto?”, haveria uma explicação compreensível?
3. Envolver as equipas — não “impor” tecnologia
Na saúde, IA que não respeita o dia-a-dia dos profissionais simplesmente não é usada. No turismo é igual.
- envolva receção, reservas, marketing e operações no desenho da solução
- peça feedback real, não só em sessões formais, mas durante o uso diário
- ajuste o sistema de acordo com o que as equipas dizem
4. Comunicar com transparência aos turistas
Se usar IA para personalizar experiências, diga-o de forma clara e simples:
- explique que usa tecnologia para adaptar recomendações ao perfil do hóspede
- ofereça sempre opção de optar por menos personalização
- deixe claro que os dados não serão usados fora desse contexto
A confiança que a saúde é obrigada a construir com os utentes é a mesma que o turismo precisa de criar com quem visita Portugal.
Fechando o círculo: saúde, turismo e o futuro da IA em Portugal
O novo white paper da SPMS mostra que Portugal leva a sério a IA na saúde: há estratégia, há preocupações éticas, há casos reais em produção. E isso tem uma mensagem forte para o turismo português: não é preciso reinventar a roda.
Há um caminho já testado para implementar IA de forma integrada, segura e ética em ambientes críticos. Quem trouxer essa experiência para hotéis, destinos e operadores vai conseguir algo muito valioso: experiências personalizadas para turistas, com confiança e transparência.
Se está a planear a estratégia de 2026, a pergunta não é se deve usar IA no turismo português, mas como o vai fazer. E a resposta, olhando para a saúde, é clara: comece pequeno, pense a sério na integração, segurança e ética, e faça da personalização um serviço melhor — não apenas uma tática de venda.