IA generativa no turismo: do Google ao roteiro perfeito

IA no Turismo Português: Experiências PersonalizadasBy 3L3C

Quase 40% dos viajantes já usam IA generativa para planear viagens. Veja como o turismo português pode transformar esta tendência em experiências personalizadas e mais receita.

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IA generativa no turismo: do Google ao roteiro perfeito

Em 2025, quase 40% dos viajantes nos EUA já usaram IA generativa para planear viagens. Não é um número abstrato: significa que, em cada 10 pessoas que entram no seu hotel, 4 já podem ter desenhado o roteiro com ajuda de uma ferramenta como o ChatGPT ou o modo IA do Google.

Para quem trabalha em turismo em Portugal, isto tem uma implicação direta: o ponto de partida da pesquisa de viagem está a mudar. Menos pesquisas tradicionais, mais pedidos de “Cria-me um roteiro de 5 dias em Lisboa com foco em gastronomia e fado”. Quem não adaptar a sua estratégia a este novo “front door” do turismo fica invisível para o viajante de maior valor.

Este artigo integra a série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas” e foca-se num ponto específico: como a adoção de IA generativa na pesquisa de viagens está a mudar o comportamento do viajante e o que hotéis, operadores e destinos em Portugal podem fazer já para tirar partido desta mudança.


O que está realmente a mudar na pesquisa de viagens

A principal mudança é simples: a pesquisa está a sair do motor de busca clássico e a entrar em conversas com IA.

O relatório da Phocuswright mostra:

  • Quase 4 em cada 10 viajantes nos EUA já usaram IA generativa para pesquisar viagens no último ano.
  • Houve um aumento de 11 pontos percentuais face ao ano anterior.
  • O uso de motores de pesquisa tradicionais continua maioritário, mas está a cair à medida que a IA cresce.

Do “Lisboa hotéis 4 estrelas” ao “quero um hotel tranquilo com vista rio”

O comportamento é diferente porque o formato é diferente:

  • Na pesquisa tradicional, o viajante escreve palavras‑chave.
  • Na IA, o viajante descreve contexto, preferências, limitações de orçamento e estilo de viagem numa única frase.

Essa mudança favorece quem:

  • Tem conteúdos ricos e bem estruturados que a IA consegue “entender”.
  • Consegue traduzir a sua oferta em benefícios concretos e segmentados (ex.: “hotel ideal para nómadas digitais com mesas ergonómicas e Wi‑Fi acima de 500 Mbps”).

Para o turismo português, isto abre uma porta clara: deixar de depender só de OTAs e SEO clássico e entrar nas recomendações da IA como resposta natural às intenções do viajante.


Quem já usa IA para viagens – e porque interessa tanto a Portugal

Os dados do estudo são claros: quem usa IA para planear viagens é um segmento de alto valor.

Perfil do viajante “amigo da IA”

De forma geral, estes viajantes tendem a:

  • Ser mais jovens (sobretudo millennials).
  • Ter rendimento familiar mediano mais alto.
  • Fazer mais viagens por ano, incluindo internacionais.
  • Gastar mais em viagens ao longo do ano.
  • Pesquisar em mais fontes, tanto online como offline.

Se liga isto a Portugal, o retrato é óbvio: estamos a falar do visitante que quer:

  • Um roteiro de vinho no Douro com experiências privadas.
  • Um fim‑de‑semana em Lisboa com restaurante autoral e concerto.
  • Uma semana nos Açores com trilhos, spa e atividades de bem‑estar.

Ou seja, exatamente o tipo de viajante que aumenta o spend médio, procura experiências personalizadas e valoriza qualidade sobre preço puro.

Gerações: millennials, Gen Z e… baby boomers

O relatório sublinha ainda:

  • Millennials lideram o uso de IA para turismo.
  • Geração Z continua a usar mais redes sociais para planear viagens, mas isso tende a mudar à medida que as necessidades ficam mais complexas (viagens maiores, orçamento próprio, viagens de trabalho).
  • Baby boomers são os menos confortáveis com IA e não acompanharam tanto a evolução da confiança.

Para Portugal, onde temos um mix forte de turistas jovens europeus, nómadas digitais e casais de meia‑idade com maior poder de compra, a estratégia inteligente é não escolher uma geração, mas adaptar o uso de IA a cada uma:

  • Experiências “instagramáveis” e recomendações curtas para Gen Z.
  • Roteiros personalizados e packs temáticos para millennials.
  • IA mais discreta, integrada em canais familiares (email, telefone com apoio de backoffice IA) para baby boomers.

IA não substitui pessoas: confiança continua nos amigos e reviews

Apesar da subida da IA, o relatório mostra um ponto que muita gente esquece: a confiança máxima continua a estar nos amigos, família e reviews de outros viajantes.

A IA já está ao nível de confiança de publicações de viagem e conteúdos oficiais de fornecedores, mas ainda não supera o boca‑a‑boca e as avaliações.

O que isto significa na prática para o turismo em Portugal?

O papel da IA no ecossistema de confiança

A IA é cada vez mais:

  • Ponto de partida para descobrir destinos e opções.
  • Assistente para organizar informação dispersa.
  • Tradutor de reviews, sites e conteúdos locais.

Mas a decisão final continua muito influenciada por:

  • Recomendações pessoais.
  • Avaliações em plataformas de reserva.
  • Conteúdos autênticos (fotos reais, reviews detalhadas, vídeos curtos).

A abordagem mais inteligente não é escolher “IA ou pessoas”, mas usar a IA para amplificar a prova social que já tem:

  • Pedir à IA para resumir reviews do seu hotel ou tour em 3 pontos fortes.
  • Usar IA generativa para transformar comentários positivos em descrições claras de benefícios.
  • Usar chatbots de IA no site para responder: “O que dizem outros hóspedes sobre o nosso pequeno‑almoço?” com base nas reviews reais.

Como aplicar isto ao turismo português: 5 passos práticos

Se gere um hotel, alojamento local, DMC ou operador turístico em Portugal, o objetivo agora é simples: tornar a sua oferta fácil de recomendar por uma IA generativa e usar IA para criar experiências personalizadas.

1. Falar a língua da IA: conteúdo estruturado e específico

IA generativa funciona melhor quando tem:

  • Conteúdos claros, segmentados e bem organizados.
  • Informação concreta sobre público‑alvo, localização, serviços e diferenciais.

Reveja o seu site e materiais e responda com precisão a perguntas típicas da IA, por exemplo:

  • Para quem é este alojamento? Casais, famílias, nómadas digitais?
  • Que tipo de experiências oferece por perto? Enoturismo, surf, caminhadas, gastronomia?
  • Que restrições resolve? Acesso fácil, estacionamento, política pet friendly, coworking?

Quanto mais explícito for, maior a probabilidade de a IA o sugerir quando alguém escreve: “Sugere‑me um hotel boutique em Lisboa, ideal para trabalhar remotamente, com bom Wi‑Fi e cafés por perto”.

2. Criar o seu próprio “assistente de viagens Portugal”

Não faz sentido esperar apenas que grandes modelos de IA o recomendem. Pode (e deve) implementar IA dentro do seu próprio ecossistema digital:

  • Chatbot de IA no site em português, inglês, francês e espanhol a responder:
    • Roteiros personalizados por número de dias.
    • Sugestões de restaurantes, miradouros, eventos próximos.
    • Dúvidas práticas (transportes, check‑in, horários).
  • Assistente para equipas internas: um bot que responde a perguntas dos colaboradores sobre tarifas, upsell, atividades locais, ajudando a personalizar a recomendação em segundos.

Exemplo concreto: um hotel em Évora com foco em enoturismo pode ter um chatbot que cria automaticamente um “Dia perfeito no Alentejo” adaptado ao perfil do hóspede (família, casal, sénior, grupo corporate).

3. Usar IA para desenhar experiências hiper‑personalizadas

A grande vantagem da IA generativa não é só responder rápido, é conectar variáveis:

  • Orçamento + datas + interesses + mobilidade + preferências alimentares.

Para empresas portuguesas, isto traduz‑se em:

  • Ofertas com curadoria automática: “3 pacotes sugeridos para si”, com base nas respostas do cliente.
  • Roteiros dinâmicos que se ajustam ao clima, à época (Natal em 12/2025, por exemplo), a eventos em Lisboa, Porto ou Algarve.
  • Propostas MICE adaptadas ao perfil da empresa: sustentabilidade, experiências culturais, bem‑estar.

Quanto mais dados tiver (respeitando RGPD, claro), mais personalizada será a experiência. E o cliente sente isso logo na fase de pesquisa.

4. Integrar IA generativa na estratégia de marketing e vendas

A IA não é só para atendimento. Pode ser o motor da sua estratégia de aquisição de leads:

  • Produzir conteúdos segmentados: artigos, newsletters, guias “3 dias no Porto para foodies”, “Portugal para famílias com adolescentes”.
  • Criar anúncios com mensagens adaptadas a nichos diferentes (surf no Oeste, golf no Algarve, turismo de natureza na Serra da Estrela).
  • Testar rapidamente várias versões de landing pages focadas em diferentes perfis de viajante.

Na série “IA no Turismo Português: Experiências Personalizadas”, o ponto em comum é este: usar IA para aproximar a mensagem certa do viajante certo, no timing certo.

5. Medir conforto e adoção da IA nos seus próprios clientes

O relatório mostra que quem já usou IA para planear viagens tem quase o dobro do conforto em continuar a usá‑la, em comparação com o viajante médio. A exceção são os baby boomers, que evoluíram menos nesse aspeto.

Em vez de adivinhar, pergunte ao seu público:

  • Incluir 1–2 perguntas curtas no formulário de pré‑check‑in:
    • “Usou IA (ex.: ChatGPT) para planear esta viagem?”
    • “Quão confortável se sente em receber recomendações feitas por IA?”
  • Ajustar a experiência:
    • Quem diz que sim pode receber roteiros dinâmicos gerados por IA.
    • Quem diz que não recebe um email clássico, escrito “humano a humano”, apoiado em IA mas revisto pela equipa.

O que isto significa para o futuro do turismo em Portugal

A mensagem do estudo é clara: a porta de entrada da viagem está a mudar da pesquisa tradicional para a IA generativa. E quem se adaptar mais depressa vai ganhar não apenas visibilidade, mas sobretudo o viajante de maior valor.

Para o turismo português, há uma oportunidade rara:

  • Usar IA para reforçar a autenticidade das nossas experiências, não para as padronizar.
  • Oferecer ao viajante um Portugal que parece “feito à medida”, seja ele um millennial que chega pela primeira vez a Lisboa ou um repetente do Douro à procura de algo novo.

Se integra IA nos seus canais, conteúdos e processos em 2025, está a preparar‑se para um cenário em que o pedido típico será: “Cria o melhor roteiro personalizado possível em Portugal” – e a IA vai precisar de negócios como o seu para responder.

O próximo passo é simples: escolher uma área (conteúdos, chatbot no site, personalização de ofertas) e lançar um primeiro piloto em IA. Ajustar, medir, melhorar. O viajante já mudou a forma como pesquisa. Agora é a vez do turismo português mudar a forma como se apresenta.