Portugal está a organizar melhor os dados de saúde. As lições são diretas para o turismo: dados estruturados, IA útil e experiências personalizadas com confiança.
Porque é que os dados de saúde interessam a quem trabalha turismo e IA
Portugal está a dar um passo estratégico: dezenas de peritos estão reunidos em Lisboa, na iniciativa “Mais Dados, Melhor Saúde”, para definir um modelo de acesso secundário a dados de saúde. O objetivo é simples de dizer e difícil de fazer: usar melhor os dados para avaliar políticas públicas, reduzir custos e melhorar resultados em saúde.
Isto interessa diretamente a quem trabalha turismo em Portugal e já percebeu que o futuro passa por experiências personalizadas com inteligência artificial. A lógica é a mesma:
Sem dados bem organizados, seguros e acessíveis, não há IA que salve um sistema — seja o SNS ou o turismo nacional.
Neste artigo vou pegar no que está a acontecer na saúde e mostrar o que hotéis, operadores turísticos, destinos e empresas de tecnologia podem aprender para criar soluções de IA mais maduras, éticas e eficazes.
O que está a mudar na saúde: acesso secundário a dados
O núcleo da iniciativa em Lisboa é criar um modelo claro e robusto de acesso secundário a dados de saúde. Isto significa usar dados que já existem (registos clínicos, prescrições, episódios de urgência, etc.) para:
- Investigação
- Estatística
- Planeamento de políticas públicas
Na prática, os peritos querem:
- Um ponto único de acesso aos dados, em vez de 39 Unidades Locais de Saúde a responder isoladamente.
- Mais transparência para os cidadãos sobre que dados são usados, por quem e para quê.
- Um enquadramento jurídico coerente, com um organismo nacional responsável pelo acesso a dados.
- Um catálogo nacional de metadados, ou seja, saber que dados existem, onde estão e em que formato.
O coordenador da iniciativa, Eduardo Costa, resume bem a oportunidade: já que Portugal está a montar a infraestrutura de dados que a Europa exige, faz sentido montar logo uma estrutura que retire todo o potencial desses dados.
Se trocar “doentes” por “turistas” e “SNS” por “destinos turísticos”, a conversa é surpreendentemente parecida com o que falta no turismo português.
Paralegos óbvios: dados de saúde vs. dados de turismo
A forma como Portugal está a estruturar os dados de saúde é um espelho do que o turismo português precisa de fazer se quer usar IA para experiências personalizadas, em vez de andar apenas em campanhas avulsas.
1. Identificador único vs. turista fragmentado
Na saúde, Portugal tem uma vantagem clara: um número de utente único, que permite seguir o percurso de um doente em sistemas diferentes.
No turismo, o que vemos é o oposto:
- Dados espalhados entre OTAs, canais diretos, operadores, plataformas de experiências, companhias aéreas.
- Dificuldade em perceber que aquele turista que reservou um hotel em Lisboa é o mesmo que marcou surf na Ericeira e enoturismo no Alentejo.
Para que a IA crie experiências realmente personalizadas, os destinos portugueses precisam de caminhar para algo equivalente a um "identificador de visitante" (anonimizado e em conformidade com RGPD), que permita:
- Conhecer o percurso completo do turista no destino.
- Ajustar recomendações em tempo real (restaurantes, eventos, mobilidade).
- Otimizar revenue management com base em comportamentos reais, não só na ocupação do hotel.
2. Porta única de acesso: da burocracia à eficiência
Na saúde, o problema é claro: quem quer dados tem de os pedir a dezenas de entidades. O objetivo agora é criar um portal único para gerir esses pedidos.
No turismo, acontece algo parecido com quem quer:
- Dados de fluxos turísticos.
- Informação sobre gasto médio, origens, perfis de viagem.
- Dados em tempo quase real para alimentar modelos de IA de gestão inteligente de destinos.
Hoje, as empresas andam entre INE, Turismo de Portugal, dados das câmaras, plataformas privadas, tudo em formatos diferentes.
Se houvesse uma plataforma nacional unificada de dados de turismo, com APIs bem definidas, as empresas poderiam:
- Desenvolver chatbots multilíngues que conhecem o destino ao detalhe.
- Criar modelos de previsão de procura e de gestão de capacidade (praias, centros históricos, parques naturais).
- Oferecer recomendações personalizadas baseadas em histórico e contexto real (meteorologia, eventos, lotação).
Transparência e confiança: lições diretas para IA no turismo
Eduardo Costa chama a atenção para algo essencial: os dados são dos doentes. Logo, é obrigatório garantir segurança, transparência e escolha.
No turismo, os dados são dos clientes. O problema é que muitas empresas ainda tratam a privacidade como um rodapé do site e não como parte da experiência.
O que a saúde está a fazer que o turismo devia copiar
Na discussão sobre dados de saúde, aparecem três ideias que fazem todo o sentido em turismo:
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Mecanismos claros de transparência
Os doentes devem saber que dados são usados, em que projetos e com que finalidade. No turismo, isto devia traduzir-se em:- Explicar, em linguagem simples, porque é que o hotel ou a OTA está a recolher dados.
- Mostrar que dados alimentam os sistemas de IA (por exemplo, motores de recomendação).
- Permitir ao cliente ver e gerir preferências com facilidade.
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Direito a optar
No Reino Unido, há modelos em que o doente pode optar por não ver os seus dados usados em determinados contextos. No turismo português, as empresas deviam:- Oferecer opções claras de opt-out para personalização avançada.
- Deixar claro o que o cliente ganha se aceitar (melhores recomendações, ofertas relevantes, menos ruído).
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Responsabilidade institucional
Na saúde, fala-se em criar um Organismo Nacional de Acesso a Dados. No turismo, faria sentido uma entidade (pública ou público-privada) a coordenar:- Normas de qualidade de dados.
- Padrões de anonimização.
- Boas práticas de IA explicável.
A verdade é simples: sem confiança, não há dados; sem dados, não há IA que funcione. E isso vale tanto para um hospital como para um hotel boutique em Óbidos.
Como estas boas práticas se traduzem em IA no turismo português
Se Portugal organizar os dados de turismo com o mesmo rigor que está a tentar aplicar aos dados de saúde, o impacto na forma como usamos IA no setor é enorme.
Experiências personalizadas mais inteligentes
Com dados bem organizados, anonimizados e integrados, a IA consegue:
- Recomendar roteiros personalizados com base em histórico, perfil e contexto (por exemplo, famílias com crianças, casais de city break, nómadas digitais).
- Ajustar ofertas em função de padrões de mobilidade reais (como o turista circula entre bairros, que transportes usa, quanto tempo fica em cada ponto).
- Criar chatbots que não só respondem em várias línguas, mas aprendem com o comportamento coletivo para melhorar sugestões.
É a mesma lógica apontada na saúde quando se fala em estudar a "circulação" dos doentes no sistema para desenhar programas de prevenção ou reorganizar serviços.
Revenue management e custos: a analogia com medicamentos
Na saúde, um dos ganhos esperados é perceber medicamento a medicamento que valor está a ser gerado, especialmente com custos a subir todos os anos.
No turismo, o paralelo é óbvio:
- Saber, canal a canal, qual o real custo de aquisição de cada reserva.
- Medir experiência a experiência (tour, atração, evento) o impacto no gasto total e na satisfação.
- Otimizar preços dinâmicos com base em dados reais de procura e elasticidade, não apenas na ocupação do hotel.
Com IA bem alimentada por dados, um destino consegue investir onde gera mais valor e cortar onde apenas queima margem — exatamente o que se quer fazer na saúde com programas e terapias.
Gestão inteligente de destinos
Quando os peritos de saúde falam em usar dados para planear políticas públicas mais inteligentes, é fácil traduzir isso para turismo:
- Regular melhor o número de cruzeiros num porto em determinados dias.
- Definir limites e horários em zonas de alta pressão turística.
- Investir em infraestruturas e serviços com base em dados de uso e impacto, não apenas em perceções.
Um destino que trata os dados como um ativo estratégico pode criar modelos de IA que antecipam problemas (sobrelotação, conflitos de uso do espaço, impacto ambiental) e sugerem medidas antes de ser tarde.
O que as empresas de turismo podem fazer já em 2026
Enquanto o setor da saúde discute modelos nacionais e legislação, as empresas de turismo não precisam de esperar por grandes reformas para agir.
1. Fazer o "diagnóstico" interno de dados
Tal como a iniciativa em Lisboa começou por analisar o estado dos dados de saúde, cada empresa de turismo devia começar por um diagnóstico honesto:
- Que dados recolhem hoje (reservas, CRM, Wi-Fi, app, website)?
- Em que sistemas estão? Falam entre si?
- Quem tem acesso? Há políticas claras de retenção e anonimização?
Com este mapa, fica muito mais fácil desenhar projetos de IA que não são apenas pilotos bonitos em apresentações, mas que tocam no negócio real.
2. Criar uma "porta única" de dados na empresa
Mesmo antes de haver uma plataforma nacional, cada grupo hoteleiro, operador ou DMO pode criar internamente o seu hub de dados:
- Integrar PMS, CRM, motor de reservas, plataformas de experiências.
- Definir um modelo de dados comum e standards mínimos de qualidade.
- Criar APIs internas para que equipas de produto e parceiros tecnológicos possam aceder aos dados de forma segura e controlada.
3. Construir confiança à séria
Algumas ações muito concretas que alinham turismo com as melhores práticas que estão a ser discutidas na saúde:
- Rever políticas de privacidade para as tornar claras e orientadas para benefício do cliente.
- Implementar centros de preferências onde o turista escolhe o nível de personalização que quer.
- Formar equipas de marketing e operações em ética de IA e proteção de dados.
4. Pensar projetos de IA com impacto mensurável
Na saúde, fala-se em programas contra a obesidade, avaliação de terapêuticas, redução de custos. Em turismo, os projetos de IA que valem o investimento são os que respondem a problemas claros, por exemplo:
- Diminuir o tempo de resposta a pedidos de clientes com chatbots inteligentes.
- Aumentar o gasto médio por estadia com recomendações contextuais.
- Reduzir custos operacionais com previsão de picos de procura por serviço.
Porque isto é estratégico para Portugal como destino turístico
Portugal está a ser obrigado pela Europa a organizar os seus dados de saúde. Se fizer bem o trabalho, ganha um sistema mais eficiente, políticas públicas mais inteligentes e custos mais controlados.
O turismo pode acompanhar esse movimento e usar a mesma lógica para dar o salto na IA aplicada a experiências personalizadas:
- Dados organizados e confiáveis.
- Transparência e respeito pelo visitante.
- Estruturas claras de governação de dados a nível local e nacional.
Quem trabalhar estes fundamentos em 2026 vai estar muito à frente quando a IA deixar de ser "novidade" e passar a ser infraestrutura básica de qualquer destino competitivo.
Para muitas empresas portuguesas, a pergunta não é se vão usar IA no turismo, mas se vão ter dados e confiança suficientes para que essa IA funcione. A forma como o país está a tratar os dados de saúde é um bom guião do que fazer — e do que evitar.
Quer dar o próximo passo? Comece por mapear os dados que já tem, identificar um caso de uso concreto de IA no seu negócio de turismo e definir desde início como vai garantir transparência e valor real para o cliente. É aqui que nascem as experiências personalizadas que fazem a diferença.