Teleconsultas LIVE: crescimento, IA e futuro do SNS

IA na Saúde em Portugal: Inovação ClínicaBy 3L3C

Teleconsultas pela LIVE cresceram mais de 33% em 2025. Veja como IA e telemedicina estão a transformar o SNS e o que a sua unidade pode fazer já em 2026.

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Teleconsultas LIVE: o que está por trás do aumento de 33%

Mais de 33% de crescimento nas teleconsultas pela LIVE em 2025 não é apenas um número bonito num relatório da SPMS. É um sinal claro de que os portugueses estão a mudar a forma como usam o Serviço Nacional de Saúde – e que a tecnologia, em particular a IA na saúde, já faz parte do dia a dia clínico.

Quem trabalha em hospitais, ACES ou unidades privadas sente isto na pele: agendas cheias, pressão assistencial constante e cada vez mais pedidos de consultas não presenciais. As teleconsultas deixaram de ser “plano B da pandemia” e passaram a ser uma ferramenta estrutural de acesso aos cuidados.

Neste artigo da série “IA na Saúde em Portugal: Inovação Clínica”, vamos olhar para o que significa este aumento nas teleconsultas pela LIVE, como a inteligência artificial pode tornar este modelo sustentável e seguro, e o que as instituições de saúde em Portugal já podem fazer hoje para tirar partido desta tendência.


Porque é que as teleconsultas pela LIVE dispararam em 2025?

O aumento superior a 33% nas teleconsultas pela LIVE em 2025 tem várias causas que se reforçam mutuamente.

A principal razão é simples: o modelo funciona para muitos tipos de cuidados e resolve problemas concretos de acesso.

1. Menos barreiras geográficas e de tempo

Para quem vive fora dos grandes centros urbanos, chegar a um hospital ou consulta de especialidade pode significar:

  • perder meio dia de trabalho
  • gastar dinheiro em deslocações
  • depender de familiares para transporte

Com teleconsultas:

  • o utente entra na LIVE à hora marcada
  • reduz faltas por questões logísticas
  • consegue manter seguimento regular, sobretudo em doenças crónicas

2. Mudança cultural de profissionais e utentes

Durante a pandemia houve uma adoção forçada da telemedicina. Em 2025, a realidade é outra:

  • muitos médicos já têm rotinas claras para alternar entre presencial e remoto
  • os utentes ganharam confiança na consulta por vídeo, sobretudo em áreas como psiquiatria, psicologia, medicina geral e familiar e seguimento de doentes oncológicos estáveis

A frase que oiço muitas vezes de clínicos em Portugal é: “não substitui tudo, mas para o que é adequado, funciona mesmo bem”.

3. Melhoria das plataformas LIVE e integração com o SNS

A integração das teleconsultas LIVE com:

  • Registo de Saúde Eletrónico
  • prescrição eletrónica
  • partilha de exames e relatórios

transformou a teleconsulta de uma videochamada isolada numa consulta clínica completa, com documentação, registos e rastreabilidade.

Quando a tecnologia deixa de atrapalhar e começa a ajudar, a adoção acelera.


Onde entra a IA nas teleconsultas em Portugal

A realidade hoje é esta: o volume de teleconsultas está a crescer mais depressa do que a capacidade humana para as gerir de forma eficiente. É aqui que a IA na saúde deixa de ser teoria e passa a resolver problemas muito concretos.

IA como “assistente invisível” do médico

A IA não substitui o médico na LIVE, mas pode estar em pano de fundo a fazer o trabalho pesado, por exemplo:

  • Triagem inteligente: priorizar pedidos de teleconsulta com base em sintomas, idade, comorbilidades e histórico clínico.
  • Pré-preenchimento de notas clínicas: transformar automaticamente a conversa clínica em rascunho de registo, que o médico apenas revê e valida.
  • Alertas de segurança: se o utente reporta sinais de alarme (dor torácica súbita, dificuldade respiratória marcada, etc.), a IA pode sinalizar que a consulta deve ser presencial ou que é necessário encaminhamento urgente.

A melhor IA clínica é quase invisível para o utente, mas poupa minutos preciosos ao profissional em cada teleconsulta.

Apoio à decisão clínica em tempo real

Durante a teleconsulta LIVE, modelos de IA podem cruzar:

  • sintomas descritos
  • antecedentes registados
  • medicação habitual

E sugerir ao médico:

  • diagnósticos diferenciais a considerar
  • exames que fazem sentido pedir (ou evitar)
  • interações medicamentosas relevantes

Não se trata de “deixar a IA decidir”, mas de dar ao clínico uma segunda opinião algorítmica rápida, sobretudo útil em contextos de grande pressão assistencial.

Otimização de agenda e recursos

Com mais 33% de teleconsultas, a gestão de agendas torna-se crítica. A IA pode:

  • prever picos de procura por teleconsultas em certas especialidades e horários
  • sugerir melhoria da distribuição entre teleconsulta e consulta presencial
  • identificar padrões de faltas e desmarcações para ajustar lembretes, horários e modos de contacto

O resultado prático? Mais consultas efetivamente realizadas, menos tempo desperdiçado e equipas menos sobrecarregadas.


Benefícios concretos para utentes, clínicos e gestão

O crescimento da LIVE e a integração de IA na saúde só fazem sentido se trouxerem ganhos reais. E trazem.

Para o utente: acesso, conveniência e continuidade

Quem usa teleconsultas LIVE com regularidade relata três vantagens claras:

  1. Acesso mais rápido a médicos de família e algumas especialidades
  2. Menos interrupções na vida profissional e familiar
  3. Maior continuidade de cuidados, porque é mais fácil cumprir seguimentos de rotina

Em doenças crónicas como diabetes, DPOC, insuficiência cardíaca ou perturbações de saúde mental, essa continuidade é muitas vezes o que faz a diferença entre estabilidade e descompensações sucessivas.

Quando juntamos IA ao processo, ainda acrescentamos:

  • lembretes inteligentes de teleconsultas e exames
  • monitorização remota de sinais vitais com alertas precoces

Para os profissionais de saúde: tempo e foco clínico

A maior queixa dos clínicos relativamente à teleconsulta não é clínica; é administrativa.

É aqui que soluções de IA ajudam, por exemplo:

  • documentação automática da consulta, com sumário estruturado
  • extração de dados relevantes para indicadores de qualidade
  • apoio na gestão da lista de utentes, mostrando quem está mais em risco de descompensação

Menos tempo a escrever, mais tempo a pensar clinicamente. Parece simples, mas muda muito a experiência diária de quem está no SNS.

Para a gestão de unidades de saúde: dados e planeamento

Com teleconsultas LIVE em larga escala, as organizações ganham dados reais de utilização:

  • quantas teleconsultas por especialidade
  • tempos médios de espera
  • taxas de não comparência
  • perfis de utentes que aderem melhor ao modelo remoto

Modelos de IA podem usar estes dados para:

  • apoiar decisões de dimensionamento de equipas
  • definir quando faz sentido abrir mais janelas de teleconsulta
  • identificar gargalos específicos (por exemplo, certos serviços que convertem demasiadas teleconsultas em presenciais por falta de critérios claros)

O que as unidades de saúde em Portugal podem fazer já em 2026

Não é preciso esperar por grandes projetos nacionais para dar o próximo passo. Há medidas concretas que qualquer hospital, ACES ou clínica pode começar a implementar.

1. Definir critérios clínicos claros para teleconsulta

O erro mais comum é usar teleconsulta “para tudo”. Funciona melhor quando há regras simples e partilhadas:

  • Que motivos de consulta são adequados a LIVE?
  • Em que situações a IA de triagem deve propor logo consulta presencial?
  • Quando é que a teleconsulta deve ser convertida em presencial no próprio ato?

Documentar isto melhora a segurança clínica e a satisfação do utente.

2. Integrar IA em tarefas administrativas primeiro

Em vez de começar logo por projetos de IA de diagnóstico complexo, faz mais sentido:

  • automatizar marcações, lembretes e reorganização de agendas
  • implementar assistentes de escrita clínica nas teleconsultas
  • usar IA para classificar mensagens de utentes por urgência

São áreas de menor risco clínico, com impacto rápido na carga de trabalho.

3. Formar equipas para trabalhar com IA, não contra a IA

A maior barreira não é técnica, é cultural.

Formações curtas, muito práticas, ajudam bastante se cobrirem:

  • o que a IA faz bem e o que não faz
  • exemplos reais de erros para manter espírito crítico
  • como rever e validar sugestões da IA de forma rápida

O objetivo é simples: que médicos, enfermeiros e administrativos vejam a IA como ferramenta, não como ameaça.

4. Medir resultados desde o primeiro dia

Qualquer iniciativa que envolva teleconsultas e IA na saúde deve ser avaliada com indicadores objetivos, como:

  • tempo médio por teleconsulta antes/depois da IA
  • taxa de não comparência
  • número de contactos adicionais evitáveis (telefonemas, emails)
  • satisfação do utente e do profissional

Sem medir, é impossível saber se a solução está a ajudar ou só a acrescentar complexidade.


Desafios: privacidade, equidade e confiança

Nem tudo é crescimento e entusiasmo. Se queremos que a LIVE e a IA sejam parte estrutural do SNS, temos de encarar alguns desafios de frente.

Proteção de dados e confidencialidade

Teleconsultas, registos eletrónicos e modelos de IA geram e processam grandes volumes de dados de saúde sensíveis.

É obrigatório garantir:

  • encriptação forte nas comunicações em vídeo
  • modelos de IA auditáveis, com registos de como chegaram a certas recomendações
  • políticas claras de consentimento para uso de dados em treino de modelos

Sem isto, a confiança cai – e sem confiança, a adoção estagna.

Inclusão digital

O crescimento de 33% nas teleconsultas não pode deixar de fora:

  • idosos com baixa literacia digital
  • pessoas sem acesso estável à internet
  • utentes com deficiência sensorial ou cognitiva

Soluções simples ajudam bastante:

  • interfaces acessíveis e intuitivas
  • possibilidade de apoio por cuidador ou familiar
  • pontos de apoio em unidades de saúde onde o utente faz teleconsulta com ajuda de um profissional

Transparência da IA

Quanto mais a IA influenciar triagem e apoio à decisão, mais necessário é responder à pergunta: “porquê esta sugestão?”.

Modelos explicáveis, com justificações legíveis por humanos, são essenciais para manter a autonomia clínica e a responsabilidade profissional.


LIVE, IA e o futuro da inovação clínica em Portugal

O aumento de mais de 33% nas teleconsultas pela LIVE em 2025 mostra que o país já deu o salto: a saúde digital deixou de ser piloto e passou a ser infraestrutura.

Na série “IA na Saúde em Portugal: Inovação Clínica”, este tema é uma peça central. Teleconsultas, quando bem integradas com inteligência artificial, tornam-se um laboratório perfeito para testar novas formas de:

  • organizar o trabalho clínico
  • melhorar o acesso ao SNS
  • usar dados de forma responsável para decisões mais inteligentes

Se gere uma unidade de saúde, trabalha no SNS ou está a desenvolver soluções tecnológicas para o setor, 2026 é o ano certo para agir: estruturar o modelo de teleconsultas, escolher onde a IA pode ajudar mais e medir resultados com rigor.

A pergunta já não é se as teleconsultas e a IA vão fazer parte do futuro da saúde em Portugal. A pergunta é como quer que a sua instituição chegue lá: a correr atrás, ou a liderar a mudança?