Líderes preveem múltiplas perturbações na supply chain até 2030. Veja como a IA pode tornar a logística portuguesa mais resiliente e eficiente já hoje.

IA e resiliência na supply chain até 2030: o que os líderes já perceberam
99% dos executivos já assumem que a cadeia de abastecimento é crítica para o sucesso do negócio. Ao mesmo tempo, 70% acreditam que as ameaças de cibersegurança vão perturbar operações até 2030 e 73% esperam cadeias de abastecimento mais dependentes de inteligência artificial. Não é um detalhe: é o plano de sobrevivência.
Este artigo insere‑se na série “IA na Logística Portuguesa: Eficiência na Cadeia de Valor” e pega no estudo internacional da DHL para responder a uma pergunta directa: como é que as empresas em Portugal podem usar IA para transformar perturbações em vantagem competitiva na supply chain?
Vou partir dos dados do estudo, mas vou mais longe: foco em impactos práticos para o contexto português, exemplos de aplicação e um roteiro realista para 2025‑2030.
O que o estudo revela: perturbações são a regra, não a excepção
O estudo “Insight 2030: Opportunities and Challenges for the Supply Chain of the Future” mostra que os líderes já não discutem se haverá perturbações, mas quantas e com que intensidade.
As principais preocupações destacadas pelos inquiridos foram:
- Cibersegurança nas operações – 56%
- Impacto de variações de procura nos níveis de serviço – 50%
- Soluções tecnológicas inadequadas – 49%
- Sistemas e software desactualizados – 47%
- Incapacidade de reagir rápido a novas necessidades de produto – 47%
- Baixa adaptabilidade às perturbações da cadeia de abastecimento – 46%
- Falta de padronização global – 46%
- Gestão do crescimento do e‑commerce – 46%
- Gestão ineficiente do transporte – 45%
- Escassez de mão‑de‑obra – 45%
- Cumprimento de requisitos regulamentares – 45%
Ao mesmo tempo:
- 73% esperam cadeias mais dependentes de IA nos próximos cinco anos;
- 68% antecipam maior dependência de robótica para tarefas rotineiras;
- 44% já têm robótica implementada em armazéns;
- Só 34% dos VP’s e C‑level estão totalmente satisfeitos com a utilização da tecnologia que têm.
A mensagem é clara:
A tecnologia já entrou na logística, mas ainda não está a entregar todo o seu potencial – sobretudo em IA e automação inteligente.
Porque é que isto interessa (e muito) à logística portuguesa
Portugal não está imune – está exposto
Quem trabalha em logística em Portugal sente o impacto de quase tudo o que o estudo descreve:
- Falta de motoristas e operadores de armazém
- Pressão crescente do e‑commerce com SLA’s cada vez mais agressivos
- Custos de mão‑de‑obra a subir e margens a apertar
- Clientes industriais a exigirem mais visibilidade, mais previsibilidade e maior customização
Junte‑se a isto a nossa posição geográfica: ponte entre Europa, África e Américas, com grande dependência de portos, transporte marítimo e rodoviário internacional. Qualquer tensão internacional, alteração regulatória ou disrupção climática bate à porta rapidamente.
A boa notícia? Portugal é uma escala perfeita para testar e consolidar soluções de IA em logística: dimensão controlável, infra‑estruturas razoáveis e um ecossistema crescente de operadores, retalhistas e fabricantes dispostos a inovar.
IA como resposta às três grandes dores até 2030
Do ponto de vista prático, a IA pode atacar directamente três grupos de problemas apontados no estudo:
-
Volatilidade da procura e níveis de serviço
– Previsão de procura, planeamento de inventário e planeamento de capacidade com modelos preditivos.
– Menos rupturas, menos excesso de stock, melhor OTIF. -
Escassez e custo da mão‑de‑obra
– Automatização de tarefas repetitivas em armazém e transporte: rotas, alocação de picking, planeamento de cargas.
– Robótica inteligente a complementar equipas humanas, não a substituí‑las totalmente. -
Cibersegurança e sistemas desactualizados
– IA aplicada à detecção de anomalias (ataques, acessos indevidos, comportamentos estranhos de sistemas).
– Modernização progressiva: ir acoplando camadas de IA sobre WMS/TMS/ERP existentes, em vez de tentar substituições “big bang”.
Onde a IA já faz a diferença na cadeia de valor logística
1. Previsão de procura e planeamento de stock
A maior parte das empresas portuguesas ainda faz previsão de vendas com Excel, médias históricas e alguma intuição comercial. Funciona… até ao momento em que:
- um concorrente lança uma promoção agressiva;
- uma campanha digital corre melhor que o previsto;
- há uma quebra súbita na procura por contexto económico.
Modelos de IA para previsão de procura conseguem integrar dezenas de variáveis que um humano não consegue acompanhar em tempo real:
- históricos de vendas por canal e região;
- calendário promocional do retalho;
- dados meteorológicos (impacto em FMCG, bebidas, bricolage, etc.);
- padrões específicos por loja (muito relevantes em Portugal, onde lojas de proximidade pesam cada vez mais).
O impacto directo na logística portuguesa é concreto:
- Menos urgências e transportes “à última hora” com custo premium;
- Melhores decisões sobre onde posicionar stock – armazém central, plataformas regionais, cross‑dock ou até stock em loja;
- Redução de desperdício, principalmente em bens de consumo com validade.
2. Optimização de rotas e gestão de transporte
Num país pequeno mas com malha urbana densa e horários restritos (zonas históricas, janelas de entrega, limitações ambientais), optimizar rotas com IA deixa de ser luxo e passa a ser necessidade.
Alguns ganhos práticos:
- Algoritmos de route optimization que consideram trânsito em tempo real, restrições de veículo, prioridades de entrega, horários de cliente e tempos de carga/descarga;
- Planeamento dinâmico: voltar a optimizar rotas quando há falhas, devoluções, novas encomendas de última hora;
- Cálculo automático do melhor equilíbrio entre custo, tempo e emissões de CO₂ – cada vez mais relevante para contratos com KPI’s ambientais.
Para operadores de transporte em Portugal, isto traduz‑se em:
- Mais paragens por viatura/dia sem aumentar horas de trabalho;
- Menos quilómetros em vazio entre cargas;
- Base de dados histórica para negociar melhor com clientes e subcontratados.
3. IA dentro do armazém: do layout ao picking
Não é preciso ter um mega centro logístico em Azambuja para usar IA. Há três áreas em que já se vê impacto em armazéns de dimensão média:
-
Slotting inteligente
A IA analisa histórico de picking, unidades por encomenda, sazonalidade e relacionamentos entre produtos e sugere:- onde posicionar artigos para reduzir caminhadas;
- quando alterar layout por picos (Natal, verão, campanhas específicas).
-
Orquestração de recursos
Em vez de um chefe de armazém “a apagar fogos” ao longo do dia, sistemas de IA distribuem tarefas em tempo real:- prioridade a pedidos urgentes ou canais estratégicos;
- balanceamento entre zonas de picking para evitar gargalos;
- suporte à decisão sobre turnos extra e horas extraordinárias.
-
Robótica colaborativa
O estudo indica que 44% das empresas já implementaram robótica em armazém. O salto seguinte é usar IA para tornar esses robots realmente úteis:- robots móveis que escolhem o percurso em função do fluxo de pessoas e outras máquinas;
- integração com WMS para “chamar” automaticamente robots para as zonas mais críticas.
4. Cibersegurança logística: do medo ao controlo
Quando 56% dos líderes apontam cibersegurança nas operações como principal preocupação, não é só TI – é supply chain puro:
- um ataque ransomware pode parar WMS, TMS, facturação e comunicações com clientes;
- acessos indevidos a sistemas de tracking podem criar problemas de segurança e de confidencialidade.
IA aqui não é só buzzword. Alguns usos concretos:
- Modelos que aprendem o comportamento normal dos utilizadores e disparam alertas quando detectam padrões estranhos (acessos fora de horas, países inesperados, downloads massivos);
- Monitorização de integrações EDI/API com clientes e fornecedores, detectando anomalias antes de haver impacto operacional;
- Apoio aos SOC (Security Operations Center) internos ou externos, filtrando falsos positivos e focando a atenção no que realmente pode parar a operação.
Porque é que tanta empresa ainda está insatisfeita com a tecnologia
O dado mais revelador do estudo, para mim, é este: apenas 34% dos executivos estão totalmente satisfeitos com a utilização da tecnologia.
Isto acontece por três motivos que vejo repetidamente em empresas portuguesas:
-
Tecnologia sem caso de uso claro
Compra‑se software ou robôs “para não ficar atrás” e só depois se tenta perceber que problemas resolvem. Resultado: frustração. -
Falta de dados minimamente limpos
Se a base de dados de artigos, clientes, localizações e tempos de operação está cheia de buracos, a IA não faz milagres.
Antes de IA avançada, é preciso um mínimo de disciplina de dados. -
Mudança organizacional ignorada
Operadores, planeadores e gestores precisam de formação e envolvimento.
Um algoritmo que ninguém confia ou percebe não é adoptado, por melhor que seja.
A realidade? As empresas que planearem a adopção de IA como projecto de negócio (e não como projecto de TI) vão estar claramente à frente até 2030.
Roteiro prático 2025‑2030 para operadores em Portugal
Não vale a pena tentar fazer tudo ao mesmo tempo. Um roteiro realista para o contexto português pode seguir quatro passos:
1. Diagnóstico: onde dói mais na sua cadeia de valor
Em vez de começar pela tecnologia, comece pelas perguntas:
- Onde perco mais margem: transporte, armazém, inventário, devoluções, penalizações de SLA?
- Em que processos tenho mais decisões repetitivas, baseadas em regras, que poderiam ser automatizadas?
- Que dados já tenho (mesmo que espalhados) e em que formato estão?
A partir daqui, escolha 1 a 2 casos de uso de IA com impacto directo em P&L: previsão de procura, rotas, slotting, alocação de recursos.
2. Projectos‑piloto bem desenhados
Um bom piloto em logística portuguesa deve:
- ter duração de 3‑6 meses, com escopo bem definido;
- envolver quem opera no terreno (chefes de armazém, planeadores de transporte, TI);
- ter métricas claras: redução de km, melhoria de OTIF, redução de stock médio, horas poupadas em planeamento.
O objectivo não é provar que a IA é “bonita”, é provar se gera retorno.
3. Escalar o que funciona, matar o que não resulta
Após o piloto:
- se o caso de uso entregou resultados, planear roll‑out faseado por armazéns, regiões, linhas de produto;
- se não entregou, perceber porquê: dados insuficientes? resistência interna? má escolha de tecnologia? E seguir em frente, sem insistir por teimosia.
A maturidade em IA constrói‑se assim, com ciclos rápidos de aprendizagem.
4. Integrar IA na estratégia de supply chain
À medida que a empresa ganha confiança, a conversa deixa de ser “um projecto de IA” e passa a ser:
- Como é que a previsão de procura alimenta o plano de capacidade industrial?
- Como é que a optimização de rotas influencia a nossa política de serviço ao cliente?
- Que indicadores de risco (ciber, clima, geopolítica) queremos acompanhar em tempo quase real?
É aqui que IA na logística portuguesa deixa de ser iniciativa isolada e passa a fazer parte da eficiência global da cadeia de valor.
O que vem a seguir para quem quer estar preparado para 2030
Os números do estudo deixam pouca margem para dúvidas: até 2030, quem não usar IA na cadeia de abastecimento vai competir com quem usa – e essa assimetria pesa.
Para empresas portuguesas, o próximo passo é pragmático:
- identificar 1–2 áreas críticas onde a IA pode trazer ganhos claros;
- preparar dados e processos para suportar essa mudança;
- envolver equipas operacionais desde o primeiro dia.
Na série “IA na Logística Portuguesa: Eficiência na Cadeia de Valor”, este texto é um alerta mas também um convite: há risco, claro, mas há sobretudo oportunidade de redesenhar a forma como planeamos, armazenamos e transportamos em Portugal.
A questão não é se vai usar IA na sua supply chain, mas quanto tempo mais vai esperar até começar a ganhar vantagem com isso.