IA portuguesa na NATO: lições para a logística

IA na Logística Portuguesa: Eficiência na Cadeia de ValorBy 3L3C

Duas startups portuguesas mostram como IA, drones e espaço estão a redesenhar a logística e a gestão de risco. Eis o que a sua empresa pode copiar já hoje.

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IA portuguesa na NATO: o que isto diz sobre o futuro da logística

Dois números resumem bem o momento: 150 startups escolhidas entre milhares, 2 delas portuguesas, cada uma com 100 mil euros de investimento inicial da NATO e acesso a mais de 180 centros de teste. Neuraspace e Connect Robotics não estão apenas a brilhar lá fora; estão a mostrar, na prática, como IA e automação logística podem mudar a forma como movimentamos bens – em órbita e no terreno.

Para quem trabalha em logística, transportes, saúde ou indústria em Portugal, estas histórias não são só boas notícias no jornal. São um roadmap muito concreto de como usar inteligência artificial, drones e dados para ganhar eficiência, resiliência e autonomia na cadeia de valor.

Este artigo integra a série “IA na Logística Portuguesa: Eficiência na Cadeia de Valor” e usa os casos Neuraspace e Connect Robotics para responder a uma questão simples: o que é que as seguradoras, operadores logísticos e empresas portuguesas podem aprender com o que está a ser feito no acelerador DIANA da NATO?


1. O que é o DIANA e porque interessa à logística portuguesa

O programa DIANA (Acelerador de Inovação em Defesa do Atlântico Norte) é, na prática, o “campo de testes” da NATO para tecnologias de uso dual: servem a defesa, mas também o setor civil.

Para as empresas selecionadas, o pacote é claro:

  • 100 mil euros de investimento inicial;
  • acesso a mais de 180 centros de teste em contexto operacional real;
  • possibilidade de financiamento adicional até 300 mil euros para testing, evaluation, validation & verification;
  • contacto direto com utilizadores finais militares e com investidores especializados em deep tech e defesa.

Porque é que isto interessa a quem está focado em logística, supply chain ou seguros em Portugal?

  1. Validação em contextos extremos – Se uma solução logística funciona em guerra, catástrofes e missões críticas, vai ser robusta o suficiente para operar em picos de Natal, greves, tempestades ou falhas de sistemas.
  2. Interoperabilidade elevada – As exigências de interoperabilidade da NATO obrigam a arquiteturas abertas, escaláveis e auditáveis, perfeitas para cadeias de abastecimento complexas, multi-transportador e multi-país.
  3. Transição rápida para o civil – O foco em tecnologias de uso dual acelera a migração de soluções militares para hospitais, seguradoras, retalho, indústria e operadores logísticos.

Nesta lógica, Neuraspace e Connect Robotics são quase dois “laboratórios vivos” de como a IA portuguesa pode redesenhar a logística – uma no espaço, outra no terreno.


2. Neuraspace: IA para proteger satélites e fortalecer cadeias de valor

A Neuraspace trabalha num problema que, à primeira vista, parece distante da logística: defesa do domínio espacial. Na prática, está a resolver um dos pontos mais frágeis das cadeias de valor modernas: a dependência de infraestruturas espaciais (satélites de comunicações, navegação, observação da Terra).

A empresa está a evoluir a plataforma NeuraspaceDEF, de Consciência Situacional do Domínio Espacial / Gestão de Tráfego Espacial, com três pilares tecnológicos:

  • IA explicável – modelos que detetam riscos (colisões, ataques cibernéticos, anomalias) e conseguem justificar porquê;
  • fusão de sensores – combinação de dados de múltiplas fontes (telescópios, radares, sensores a bordo) num quadro operacional único;
  • autonomia de comunicação a bordo – satélites capazes de reagir de forma autónoma a ameaças e adaptar trajetórias ou protocolos.

Porque é que isto impacta a logística em terra

A maior parte das operações logísticas modernas depende de:

  • GPS para planeamento de rotas;
  • comunicações por satélite em zonas remotas ou marítimas;
  • imagens de observação da Terra para monitorizar infraestruturas, portos e linhas de abastecimento.

Se os satélites forem comprometidos, toda a cadeia de valor fica vulnerável. O trabalho da Neuraspace reduz precisamente esse risco, ao:

  • diminuir a probabilidade de colisões e perda de satélites;
  • detetar e mitigar ataques de cibersegurança espaciais;
  • permitir que operadores reajam rapidamente a incidentes.

Para seguradoras e operadores logísticos, isto traduz-se em três oportunidades claras:

  1. Melhor modelação de risco operacional – Com dados de consciência situacional espacial, é possível ajustar apólices, prémios e limites, ligando o risco de interrupção logística a incidentes em órbita.
  2. Planos de contingência baseados em dados – Saber, com antecedência, que há maior probabilidade de perda ou degradação de serviço de determinados satélites ajuda a diversificar provedores de conectividade e a planear redundâncias.
  3. Uso dual de tecnologia de IA – A lógica usada pela Neuraspace (fusão de sensores + IA explicável + autonomia) pode ser replicada na logística terrestre:
    • juntar dados de frota, armazém, clima, portos, tráfego;
    • aplicar IA explicável para previsão de atrasos e riscos;
    • automatizar respostas (replaneamento de rotas, reforço de stock, ativação de transportadores alternativos).

A empresa já mobilizou 27,5 milhões de euros de investimento para o seu projeto de defesa no espaço, combinando capital privado e fundos do PRR. Isto mostra algo relevante para quem quer trazer IA para a logística: financiamento existe; o que conta é a clareza do problema e o impacto mensurável na resiliência.


3. Connect Robotics: drones, IA e logística autónoma em cenários críticos

A Connect Robotics atua num território mais familiar para quem está “no terreno”: logística de última milha e reabastecimento crítico com drones. A empresa começou no setor civil, focada em:

  • entregas médicas urgentes (amostras, sangue, fármacos);
  • logística sensível ao tempo em saúde e indústria;
  • mais recentemente, inspeção de infraestruturas em longa distância.

O salto com o DIANA é levar este know-how para o setor da Defesa, demonstrando que a mesma plataforma serve:

  • Ressuprimento Tático Autónomo – munições, baterias, kits médicos;
  • Logística Marítima Resiliente – navio-a-navio e navio-terra;
  • operações em zonas de conflito ou catástrofe, reduzindo risco humano nas linhas de abastecimento.

A chave técnica: uma solução “drone agnostic”

O grande trunfo tecnológico da Connect Robotics é ser drone agnostic: qualquer drone industrial pode ser transformado em plataforma logística ao integrar:

  • o computador de bordo da empresa;
  • os seus sistemas de gestão de frota e missão;
  • os fluxos de dados e comandos automatizados.

Isto significa:

  • sem dependência de um único fabricante ou sistema proprietário;
  • migrações de frota fáceis, sem necessidade de voltar a formar operadores do zero;
  • capacidade de integrar “a melhor tecnologia disponível” em cada momento.

Para a NATO, isto é uma questão de soberania e resiliência. Para o ecossistema logístico português, a mensagem é direta: arquiteturas abertas ganham. Quem ficar preso a software fechado e integrações frágeis vai ter dificuldade em acompanhar o ritmo de inovação na IA.

O que isto ensina a operadores logísticos e seguradoras

O modelo da Connect Robotics pode ser traduzido em vários aprendizados práticos:

  1. Automatizar o que é crítico, não o que é apenas bonito
    A empresa começou por casos em que o tempo é literalmente vida: sangue, amostras, emergência médica. Para um operador logístico ou seguradora, isto significa priorizar:

    • medicamentos e dispositivos médicos;
    • peças críticas de manutenção (MRO);
    • componentes de alto valor com impacto direto em paragens de produção.
  2. Construir soluções modulares e certificáveis
    A Connect Robotics já está em TRL 9 no uso civil, com certificação EASA SORA, e está a fazer o caminho para certificação militar. Esta “dupla certificação” dá-lhes um poder imenso para operar em múltiplos setores.
    Quem trabalha em IA na logística portuguesa deve pensar em:

    • soluções modulares que possam ser certificadas por camadas (hardware, software, algoritmos);
    • compliance by design para responder a reguladores de aviação, dados, segurança e seguros.
  3. Usar exercícios operacionais como laboratório de produto
    A startup participa em exercícios com Exército e Marinha, como ARTEX e REPMUS, onde testa e valida tecnologia em ambiente real.
    No mundo civil, o equivalente é:

    • pilotos em corredores logísticos críticos;
    • provas de conceito com hospitais, portos, parques industriais;
    • simulações de cenários de catástrofe (incêndios, cheias, falhas de comunicações) em conjunto com seguradoras.
  4. Pensar internacional desde cedo
    Com apenas sete colaboradores, a empresa já está a expandir para Irlanda e prepara entrada na Alemanha, com foco claro em mercados NATO. Isto é coerente com a natureza escalável das soluções de IA em logística: o limite raramente é técnico; é comercial e regulatório.


4. O que as empresas portuguesas podem copiar hoje

Neuraspace e Connect Robotics operam em contextos exigentes, mas as decisões estratégicas que tomaram são copiáveis por qualquer empresa que queira usar IA para ganhar eficiência logística e reduzir risco.

4.1. Três princípios técnicos

  1. IA explicável em vez de “caixa negra”
    Em setores regulados (seguros, saúde, aviação, defesa), decisões algorítmicas têm de ser justificáveis. Modelos explicáveis:

    • reduzem resistência de reguladores e auditores;
    • facilitam adoção interna por equipas operacionais;
    • ajudam a melhorar o modelo com feedback humano.
  2. Fusão de dados operacionais
    O que Neuraspace faz com sensores espaciais pode ser espelhado em:

    • TMS, WMS, telemática de frota, ERP, dados de portos e aeroportos;
    • modelos de IA que unem estes dados para prever atrasos, rotas ótimas, capacidade de armazém e risco operacional.
  3. Autonomia graduada
    Nem tudo tem de ser 100% autónomo desde o primeiro dia. O caminho pode ser:

    • recomendações automatizadas (IA sugere, humano decide);
    • automatização parcial de rotas, janelas horárias, priorização de cargas;
    • autonomia total apenas em casos maduros e bem testados (ex.: drones em corredores pré-definidos).

4.2. Três passos estratégicos para os próximos 12 meses

Para seguradoras, operadores logísticos e empresas industriais portuguesas, um plano realista poderia ser:

  1. Escolher 1–2 use cases de alto impacto
    Exemplos:

    • previsão de procura para reduzir ruturas e excesso de stock;
    • otimização de rotas multimodais em Portugal e Espanha;
    • automatização de triagem de sinistros relacionados com transportes e carga.
  2. Criar um “sandbox” regulatório e operacional
    Em vez de tentar mudar tudo, criar um ambiente controlado onde:

    • dados podem ser partilhados com segurança;
    • modelos são testados com equipas reais;
    • reguladores e seguradoras são envolvidos desde o início.
  3. Procurar parcerias com startups de IA e logística
    A mensagem do DIANA é clara: ninguém inova sozinho.
    Em Portugal há um ecossistema crescente de empresas focadas em IA, drones, otimização de rotas, visão computacional para armazéns, digital twins de cadeias logísticas. Juntar know-how interno com este talento externo costuma ser mais rápido e mais barato do que tentar construir tudo “em casa”.


5. IA, logística e seguro: convergência que já não dá para ignorar

Tanto a Neuraspace como a Connect Robotics mostram o mesmo padrão: IA aplicada a logística não é só eficiência – é gestão de risco em tempo real. Isso interessa tanto a quem move mercadorias como a quem as segura.

Para seguradoras portuguesas, há aqui uma oportunidade dupla:

  • melhorar a análise de risco com dados em tempo real de plataformas de IA logística (frotas, drones, satélites, armazéns);
  • criar produtos novos ligados a desempenho operacional (por exemplo, coberturas moduladas por nível de automação, cumprimento de SLAs, histórico de incidentes e quase-incidentes detetados por IA).

Para operadores logísticos e empresas industriais, o recado é ainda mais direto: quem atrasar a adoção de IA na logística vai competir com players cuja operação é mais rápida, mais previsível e mais segurável.

A participação de duas startups portuguesas no acelerador da NATO, numa altura em que a Europa reforça o investimento em defesa e resiliência, mostra que Portugal já está sentado à mesa onde se decide o futuro da logística e da segurança de infraestruturas críticas.

A questão agora é simples: vai esperar que estas soluções cheguem “embrulhadas” em plataformas globais, ou vai usar 2026 para testar, em piloto, IA na sua cadeia logística – em colaboração com quem já está a aprender nos contextos mais exigentes do mundo?