Vedação virtual, IA e monitorização animal já permitem gerir pastoreios ao metro e ao dia em Portugal, com mais pasto, menos trabalho e solo mais regenerativo.

A maioria das explorações pecuárias portuguesas ainda gere o pastoreio “a olho” e à força de fio, estacas e muitas horas de campo. Entretanto, já há produtores a programar no telemóvel o movimento diário de centenas de vacas, com ajuda de IA, GPS e vedação virtual. A diferença entre uns e outros está a traduzir‑se em menos trabalho, mais pasto e maior rentabilidade por hectare.
Este artigo insere‑se na série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” e pega no exemplo da Digitanimal e da Gallagher para mostrar como a agricultura de precisão e a pecuária regenerativa podem ser aplicadas hoje, em Portugal, sem ficarem apenas em discursos sobre inovação.
Porque é que o pastoreio tradicional já não chega
A gestão extensiva “clássica” – animais soltos em grandes áreas durante semanas – tem três problemas recorrentes:
- Subaproveitamento do pasto em algumas zonas e sobrepastoreio noutras.
- Pisoteio excessivo do solo, sobretudo em encostas e zonas húmidas.
- Trabalho manual pesado, com deslocações constantes para vigiar, recolher e mudar animais e cercas.
No contexto atual de seca recorrente, custos elevados de mão de obra e maior pressão para reduzir emissões e proteger o solo, esta forma de gerir o efetivo torna‑se cara e arriscada. Quem não afinar a gestão acaba a comprar mais alimentos, a gastar mais gasóleo e a degradar o solo – precisamente o contrário do que a política agrícola e o mercado exigem.
A boa notícia? IA, sensores e geolocalização permitem transformar a pecuária extensiva num sistema altamente controlado, mantendo o animal ao ar livre, mas com métricas ao nível de uma exploração intensiva bem gerida.
O que é a vedação virtual e como funciona na prática
A vedação virtual é uma tecnologia que substitui a vedação física (arame, rede, estacas) por limites digitais definidos num mapa, que os animais “sentem” através de um dispositivo que trazem ao pescoço.
Em termos simples, o sistema funciona assim:
- Cada animal usa um dispositivo com GPS, sensores e comunicação móvel.
- O produtor desenha os “piquetes” num mapa digital (app ou plataforma web).
- Quando o animal se aproxima da linha virtual, o dispositivo emite estímulos sonoros ou leves vibrações para o dissuadir de passar.
- Se insistir, pode haver um estímulo adicional (sempre regulado para não comprometer o bem‑estar animal).
A Digitanimal, em parceria com a Gallagher, está a trazer esta lógica para o terreno português, integrando:
- Geolocalização em tempo real do efetivo;
- Monitorização de temperatura e atividade para detetar problemas de saúde ou comportamento;
- Alertas automáticos no telemóvel do produtor sempre que há anomalias (animal imóvel, febre, fuga, parto iminente, etc.).
Como explicou Gonçalo Matos, representante comercial da Digitanimal, em vez de 200 vacas andarem a divagar por 100 hectares, é possível programar a sua utilização de 1 hectare por dia, com muito menos trabalho manual.
A tecnologia permite ainda criar e alterar piquetes literalmente com o dedo no ecrã, sem deslocar uma única estaca. Isto muda completamente a forma como pensamos o pastoreio rotacional.
IA, dados e pecuária regenerativa: onde tudo se junta
O pastoreio regenerativo assenta num princípio simples: alta pressão de pastoreio durante pouco tempo, seguido de descanso suficiente para o pasto recuperar. A dificuldade, na prática, tem sido sempre operacional:
- Definir o tamanho ideal dos piquetes;
- Calcular a duração do pastoreio em cada área;
- Garantir que o descanso é mesmo respeitado;
- Ajustar tudo isto a um ano agrícola cada vez mais imprevisível.
Como a IA ajuda a decidir
Com dispositivos de monitorização como os da Digitanimal, passamos a ter milhares de pontos de dados por dia sobre:
- Movimento e tempo de pastoreio em cada zona;
- Taxas de ingestão (inferidas pela atividade dos animais);
- Resposta do pasto (crescimento após cada ciclo de utilização);
- Impacto do clima em cada talhão.
A partir daqui, algoritmos de IA e modelos de agricultura de precisão conseguem:
- Sugerir o número ótimo de animais por hectare em cada período;
- Estimar dias de ocupação por piquete com base na biomassa disponível;
- Ajustar automaticamente o plano quando há quebras de crescimento por falta de chuva;
- Calcular impactos em carbono, matéria orgânica do solo e produtividade anual.
Em vez de “feeling” ou tradição, o produtor passa a ter recomendações baseadas em dados. E isso, em pecuária regenerativa, faz toda a diferença.
Benefícios diretos no solo e no pasto
Quando se consegue concentrar, por exemplo, 200 vacas em 1 hectare por dia de forma precisa, como descreve Gonçalo Matos, começam a notar‑se efeitos muito claros:
- Fertilização mais homogénea: mais dejetos distribuídos de forma uniforme, menos zonas pobres.
- Menos pisoteio desnecessário: evita‑se que os animais regressem constantemente às mesmas áreas frágeis.
- Melhor cobertura do solo: descanso adequado entre passagens permite mais enraizamento, menos erosão.
Ou seja, IA, vedação virtual e pecuária regenerativa alinham‑se para o mesmo objetivo: mais produção por hectare, com solo mais vivo e resiliente.
Vantagens concretas para explorações em Portugal
A tecnologia só faz sentido quando resolve problemas reais. No contexto português, vejo quatro vantagens muito claras.
1. Menos trabalho manual e mais tempo para decisões
- Redução drástica de montagens e desmontagens de cercas.
- Menos deslocações diárias só para “ver onde andam os animais”.
- Alertas automáticos quando algo corre mal (queda, fuga, doença).
Na prática, o produtor passa de “pastor permanente” a gestor de dados e de estratégia, mesmo em explorações familiares com pouca mão de obra.
2. Melhor aproveitamento de cada hectare
Com agricultura de precisão aplicada à pecuária:
- Cada talhão passa a ter histórico de uso (dias de ocupação, descanso, produção estimada).
- É possível identificar talhões subaproveitados e ajustar o plano de pastoreio.
- Reduz‑se o gasto em alimentos comprados, porque o pasto próprio passa a ser usado com outra eficiência.
Em anos de seca, esta diferença decide quem aguenta mais tempo com base forrageira própria e quem é forçado a recorrer ao mercado a qualquer preço.
3. Mais bem‑estar animal e menos riscos
Monitorizar temperatura e atividade em tempo real permite:
- Detetar precocemente febres, inflamações, problemas metabólicos;
- Identificar animais que ficaram para trás ou caídos;
- Acompanhar lotes específicos (novilhas, vacas em peri‑parto, animais em recria).
Pecuária extensiva não tem de ser sinónimo de falta de controlo. IA e sensores colocam olhos e ouvidos junto do animal 24h por dia, mesmo quando não há ninguém no terreno.
4. Apoio ao cumprimento de políticas e certificações
Cada vez mais programas – desde o PEPAC até certificações de bem‑estar e ambiente – pedem provas documentadas de práticas responsáveis:
- Horas de pastoreio por área;
- Densidades animais;
- Registos de bem‑estar e saúde.
Sistemas como os descritos por Gonçalo Matos transformam isto em relatórios automáticos, muito úteis para:
- Auditorias;
- Candidaturas a apoios;
- Valorização do produto (carne, leite) em esquemas de qualidade.
Como começar: passos práticos para o produtor
Adotar IA e vedação virtual não significa mudar tudo num ano. O que tenho visto funcionar melhor é uma abordagem por fases.
Fase 1 – Monitorização básica do efetivo
- Equipar uma parte do efetivo (por exemplo, vacas líderes do grupo) com colares de geolocalização e sensores.
- Habituar‑se a usar a app diariamente: ver mapas, movimentos, alertas.
- Testar as funcionalidades de bem‑estar (alertas de inatividade, temperatura anómala).
Nesta fase, o objetivo é ganhar confiança no sistema e perceber o valor dos dados.
Fase 2 – Pastoreio rotacional guiado por dados
- Definir 3 a 4 piquetes físicos (ainda com cerca tradicional) mas usar os dados para:
- Ajustar dias de ocupação;
- Medir respostas do pasto;
- Entender melhor o impacto de diferentes cargas animais.
- Começar a registar datas e observações simples (altura do pasto, condição corporal, etc.).
Aqui, o foco é aprender o “timing” do seu próprio terreno com apoio digital.
Fase 3 – Introdução da vedação virtual
- Instalar dispositivos de vedação virtual em parte do efetivo.
- Usar linhas virtuais para complementar as cercas físicas existentes.
- Ir ganhando confiança e ajustando os parâmetros de estímulo e segurança.
O objetivo é reduzir gradualmente a dependência de cercas físicas móveis, sem comprometer o controlo.
Fase 4 – Integração plena com pecuária regenerativa
- Desenhar um plano de pastoreio regenerativo para toda a exploração, apoiado na app.
- Definir rotações, tempos de descanso e prioridades (recuperar áreas degradadas, proteger encostas, etc.).
- Monitorizar anualmente indicadores de solo, produção de pasto e desempenho do efetivo.
Nesta fase, a IA e os dados deixam de ser “extra tecnológico” para se tornarem núcleo da estratégia produtiva.
Próximo passo no Campo Digital: ligar o animal ao solo e ao mercado
A série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” mostra exatamente isto: não se trata de encher o campo de gadgets, mas de ligar dados, decisões e rentabilidade. No caso da pecuária, a integração de monitorização animal, vedação virtual, cartografia digital do solo e modelos de IA está a criar um novo tipo de exploração extensiva: mais inteligente, mais previsível e mais rentável.
Quem começar hoje, mesmo com pequenos passos, vai chegar a 2027 com:
- Históricos completos de pastoreio e bem‑estar;
- Solos mais vivos e produtivos;
- Melhor capacidade de negociação com indústrias e retalho, porque tem dados para provar o valor do seu sistema.
A questão deixará de ser “se” a IA entra na sua exploração, mas que lugar quer que ela ocupe: apenas como obrigação futura, ou como ferramenta para ganhar vantagem agora.