Solos, carbono e IA: a nova fronteira da agricultura

IA na Agricultura Portuguesa: Campo DigitalBy 3L3C

Solos guardam 45% mais carbono do que se pensava. Veja como IA e agricultura regenerativa podem transformar este potencial em valor real para explorações portuguesas.

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Solos, carbono e IA: a nova fronteira da agricultura portuguesa

Quarenta por cento das terras do planeta já estão degradadas e, se nada mudar, a FAO admite que este valor pode chegar aos 90% até 2050. Em paralelo, um novo relatório apresentado na COP30 conclui que os solos armazenam 45% mais carbono do que se pensava. Isto muda o jogo para a agricultura — e, em particular, para quem produz em Portugal.

Para quem anda no campo todos os dias, isto não é teoria. Solos pobres significam menos produtividade, mais custos em adubos e água, maior exposição a secas e cheias. O relatório do Aroura Soil Security Think Tank e da IUCN vem acrescentar uma camada crítica: se tratarmos mal o solo, não perdemos só fertilidade; libertamos para a atmosfera um dos maiores depósitos de carbono do planeta.

Neste artigo da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, vou juntar três peças que normalmente aparecem separadas:

  • o novo conhecimento sobre solos e carbono,
  • o Quadro de Segurança do Solo e a questão da proteção jurídica,
  • as ferramentas de inteligência artificial que hoje já ajudam agricultores e cooperativas a cuidar do solo e a criar negócio com essa transição.

O que diz o estudo: solos são o “pulmão escondido” do clima

O relatório apresentado na COP30 traz um dado-chave: a camada superior dos solos armazena 45% mais carbono do que o estimado. Isto transforma o solo num dos maiores sumidouros de carbono do planeta, ao nível dos oceanos e das florestas.

Alguns números que interessam a quem produz:

  • Solos em bom estado podem garantir até 27% das reduções de CO₂ necessárias para manter o aquecimento abaixo dos 2 ºC.
  • A degradação actual pode levar à libertação de 4,81 mil milhões de toneladas de CO₂ por ano, valor semelhante às emissões anuais dos EUA.
  • A libertação de apenas 1% do carbono armazenado nos solos da Europa corresponde às emissões anuais de cerca de mil milhões de automóveis.

A mensagem é direta: o modo como gerimos o solo agrícola é um fator climático tão relevante como a energia ou os transportes. E, ainda assim, o relatório mostra que 70% dos países não incluem o restauro dos solos nos seus planos climáticos oficiais.

"Durante demasiado tempo, o solo foi tratado apenas como terra… no entanto, ele é a pele viva do planeta." – Praveena Sridhar, Save Soil

Na prática, isto significa duas coisas para a agricultura portuguesa:

  1. Quem destrói solo fértil está a criar um passivo climático e económico, mesmo que a legislação ainda não o reflicta totalmente.
  2. Quem regenera solos passa a ter um ativo estratégico, que pode ser monetizado através de produtividade, resiliência, certificações e, cada vez mais, mercados de carbono.

O que é “Segurança do Solo” e porque interessa ao agricultor

O estudo propõe o Quadro de Segurança do Solo, um modelo com cinco dimensões que ajuda a pensar o solo não apenas como suporte da agricultura, mas como infraestrutura ecológica, económica e legal.

As 5 dimensões da Segurança do Solo

  1. Capacidade
    É o potencial natural do solo para sustentar vida, produzir alimentos, armazenar carbono e água. Em linguagem de campo: textura, teor de matéria orgânica, profundidade útil, biodiversidade do solo.

  2. Condição
    É o estado atual do solo: erosão, compactação, salinização, perda de matéria orgânica. É aqui que entram os efeitos da agricultura intensiva, mobilização excessiva, monocultura, uso desregrado de químicos.

  3. Conetividade
    É a forma como sociedade e decisores olham para o solo. Quando o solo é visto só como “terra barata”, o resultado são decisões curtas: nivelamento agressivo, drenagens sem critério, plástico por todo o lado.

  4. Capital
    O relatório estima que os serviços do solo valem mais de 11 biliões de dólares por ano a nível global. Cada euro investido em regeneração pode gerar até 30 euros de retorno em produtividade, água, redução de riscos e biodiversidade.

  5. Codificação
    Aqui entra a parte jurídica: leis, regulamentos e direitos associados ao solo. Atualmente, não existe um tratado internacional específico e vinculativo para a segurança do solo. A UE e a IUCN começam a mexer-se, mas falta muito.

Para Portugal, isto não é abstrato. No Alentejo, por exemplo, a produção intensiva de frutos silvestres e outras culturas em larga escala tem provocado erosão severa, destruição de perfis de solo, drenagem excessiva e ocupação com plásticos. A médio prazo, isto traduz-se em solos cansados, mais dependentes de inputs externos e menos resilientes à seca.

A questão é: como é que um agricultor ou uma cooperativa pode usar estes conceitos no dia a dia, sem perder a rentabilidade? É aqui que entra a combinação entre agricultura regenerativa e IA aplicada ao campo.


Agricultura regenerativa + IA: da teoria à prática na exploração

O relatório é claro: práticas de agricultura regenerativa e gestão focada no solo conseguem reverter décadas de degradação, aumentar a fertilidade, melhorar a retenção de água e sequestrar milhares de milhões de toneladas de carbono.

Mas regenar o solo às cegas é arriscado. É aqui que a inteligência artificial na agricultura começa a fazer diferença, porque transforma dados dispersos em decisão prática no talhão.

1. Monitorização da saúde do solo com IA

Hoje já é possível combinar:

  • Imagens de satélite e drones para mapear erosão, compactação e humidade do solo;
  • Sensores de humidade, temperatura e condutividade no terreno;
  • Análises periódicas de solo (matéria orgânica, pH, nutrientes),

…e juntar tudo num sistema de IA agrícola que:

  • identifica zonas de maior risco de erosão ou compactação;
  • estima a evolução da matéria orgânica ao longo dos anos;
  • projeta o potencial de sequestro de carbono por parcela;
  • recomenda ações específicas (reduzir mobilização, introduzir cobertura permanente, alterar rotações).

Na prática, um produtor de olival, vinha ou frutos secos no Alentejo pode:

  • ver num mapa, no telemóvel, onde o solo está a perder carbono;
  • simular cenários: “se introduzir coberturas vegetais e reduzir mobilização, quanto carbono posso fixar em 5 anos?”;
  • usar estes dados tanto para negociar melhor com a banca/seguros, como para se preparar para futuros mercados de créditos de carbono do solo.

2. Rega inteligente centrada no solo, não só na planta

Grande parte dos sistemas de rega inteligente em Portugal já usa sondas e programadores. A diferença quando entra IA para rega agrícola é que:

  • A decisão deixa de ser apenas “rega quando a humidade desce abaixo de X”.
  • Passa a considerar também capacidade de retenção de água do solo, previsão meteorológica, estádio de desenvolvimento da cultura e objetivos de produção.

Resultado:

  • Menos encharcamento = menos lixiviação de nutrientes e menos emissão de óxido nitroso (um gás com efeito de estufa muito potente).
  • Melhor gestão de secas: o sistema aprende com os anos anteriores e ajusta a estratégia.

3. Planeamento de rotações e coberturas com apoio de algoritmos

Definir a melhor rotação ou mistura de coberturas para regenerar o solo não é trivial. Depende de:

  • tipo de solo;
  • historial de culturas;
  • clima local;
  • objetivos económicos;
  • disponibilidade de máquinas.

Modelos de IA conseguem testar milhares de combinações em segundos e propor cenários como:

  • rotações que maximizam matéria orgânica sem quebrar o rendimento médio;
  • misturas de coberturas que melhoram a infiltração de água e controlam infestantes;
  • impacto esperado em sequestro de carbono do solo em 5, 10 ou 20 anos.

Quem olhar para o solo apenas como custo vai achar isto “complicado”. Quem o vê como ativo estratégico percebe o valor:

“A realidade? É mais simples do que parece: quem tem dados toma melhores decisões e protege melhor o seu solo.”


Proteção jurídica do solo: o que vem aí para Portugal

O relatório defende o reconhecimento jurídico global do solo, à semelhança do que já acontece com a atmosfera e os oceanos. No plano prático, isso significa:

  • metas específicas de proteção e recuperação de solo em políticas climáticas;
  • cadastros e monitorização obrigatória da qualidade do solo;
  • instrumentos legais que penalizem a destruição irreversível de solos férteis;
  • incentivos para quem melhora o estado do solo, não apenas para quem produz.

Para Portugal, este movimento europeu e internacional tem três implicações diretas:

  1. Regulação mais exigente sobre erosão, drenagem e uso de plástico na agricultura.
    Explorações que ignorem a saúde do solo vão ter mais dificuldades em aceder a apoios, crédito e certificações.

  2. Valorização económica de práticas regenerativas.
    Agricultores que conseguem demonstrar, com dados, que estão a aumentar a matéria orgânica e a armazenar carbono no solo estarão melhor posicionados para:

    • candidaturas à PAC;
    • acordos com retalhistas que exigem critérios ESG;
    • mercados voluntários de créditos de carbono.
  3. Maior pressão por transparência e rastreabilidade.
    Aqui, a IA volta a ser aliada: sistemas de rastreabilidade digital, alimentados por dados de campo, podem provar que uma exploração:

    • evita práticas destrutivas;
    • segue planos de melhoria do solo;
    • cumpre indicadores ambientais exigidos por compradores ou reguladores.

Quem se antecipar a esta mudança — agricultores, cooperativas, organizações de produtores — ganha vantagem competitiva. Quem esperar que seja obrigatório poderá ter de fazer a transição em modo “corrida contra o tempo”.


Como começar: passos práticos para produtores e cooperativas

Não é preciso transformar toda a exploração de um ano para o outro. O que funciona melhor é uma estratégia em fases, combinando boas práticas agronómicas com tecnologia acessível.

Para explorações individuais

  1. Diagnosticar o estado do solo

    • Recolher análises de solo recentes (matéria orgânica, estrutura, compactação).
    • Usar, se possível, imagens de satélite ou drone para identificar zonas críticas.
  2. Definir uma área-piloto de regeneração

    • 5–10% da área total é um bom arranque.
    • Introduzir coberturas vegetais, reduzir mobilização, ajustar rotações.
  3. Instalar sensores simples e usar ferramentas digitais

    • Sondas de humidade e temperatura do solo.
    • Aplicações de IA agrícola que integrem dados de clima, solo e rega.
  4. Medir evolução da matéria orgânica

    • Repetir análises a cada 2–3 anos.
    • Guardar todos os dados de forma organizada — estes registos serão um ativo.

Para cooperativas e associações de produtores

  1. Criar um programa coletivo de saúde do solo

    • Definir indicadores comuns (matéria orgânica, erosão, cobertura do solo).
    • Negociar em grupo soluções de sensores, drones e plataformas de IA.
  2. Construir uma base de dados regional de solos

    • Agregar dados anónimos dos associados.
    • Usar IA para identificar padrões de risco e zonas prioritárias de intervenção.
  3. Ligar estes dados a oportunidades de mercado

    • Certificações de sustentabilidade.
    • Programas de carbono, apoios públicos, contratos com indústria e retalho.

Neste contexto, a série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” não é apenas sobre tecnologia por si mesma. É sobre como usar a IA para transformar o solo no maior ativo da exploração, em vez de continuar a tratá-lo como um recurso descartável.


Porque é que isto interessa agora — e o que fazer a seguir

O novo estudo sobre solos e carbono coloca Portugal perante uma escolha clara: ou continua a “gastar” solo como se fosse infinito, ou assume o solo como infraestrutura crítica para a produção, o clima e a economia rural.

A boa notícia é que as ferramentas já existem:

  • práticas de agricultura regenerativa testadas em várias culturas portuguesas;
  • soluções de IA na agricultura para monitorizar o solo, otimizar rega, planear rotações e documentar resultados;
  • um contexto político europeu cada vez mais atento à segurança do solo e disposto a financiar quem o protege.

Se gere uma exploração ou uma cooperativa, o passo seguinte é simples:

  • escolher uma área-piloto;
  • definir 2 ou 3 indicadores de solo que quer melhorar;
  • testar uma solução digital que o ajude a medir e decidir melhor.

Na prática, quem começar agora vai estar, daqui a 5 anos, com solos mais férteis, custos mais controlados e um portefólio de dados pronto para qualquer exigência legal ou de mercado. Quem ficar à espera arrisca-se a pagar a fatura dupla: menos solo, mais regras.

A pergunta já não é se a IA vai entrar na agricultura portuguesa. A questão é quem vai usá-la para proteger e valorizar o seu solo — e quem vai ficar para trás.