Regadio sustentável e IA já estão a redefinir a agricultura portuguesa. Veja como usar dados e inteligência artificial para regar melhor, produzir mais e gastar menos água.
Regadio sustentável e IA: o próximo salto da agricultura
Nas últimas duas décadas, o regadio transformou por completo a agricultura portuguesa. Basta olhar para o Alqueva, para os perímetros de rega do Ribatejo ou para o Caia: produtividades a subir, culturas de maior valor e explorações mais tecnificadas. E, mesmo assim, o Presidente da República veio lembrar, nas XVI Jornadas da FENAREG, que não chega. Ou investimos em mais e melhor regadio sustentável, ou ficamos para trás.
Este alerta cruza‑se diretamente com o tema desta série, “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”: não existe regadio realmente sustentável sem tecnologia, dados e inteligência artificial. A boa notícia? Já há soluções muito concretas que agricultores, gestores de perímetros de rega e cooperativas podem pôr a trabalhar hoje.
Neste artigo, pego nas principais mensagens do Encontro do Regadio 2025 e levo-as para o terreno: como é que o regadio sustentável, apoiado por IA, pode tornar a agricultura portuguesa mais resiliente, rentável e preparada para 2030?
Porque é que o regadio sustentável é agora uma questão estratégica
O recado do Presidente foi direto: a água é um ativo estratégico para o futuro da agricultura e da própria economia portuguesa. E o regadio é a alavanca que decide se essa água gera valor… ou se se perde.
Do lado da política, o Encontro do Regadio 2025 deixou quatro ideias centrais:
- O regadio é ativo económico e estratégico essencial para Portugal.
- O custo da inação no investimento público e privado é demasiado alto.
- É preciso um modelo de governação centralizado e articulado para a resiliência hídrica.
- A proposta atual para a PAC 2028‑2034 ameaça o 2.º Pilar e, com isso, o investimento em regadio e a soberania alimentar.
Tudo isto acontece num contexto de:
- Verões mais longos e secos;
- Maior variabilidade de precipitação;
- Concorrência internacional agressiva em frutas, hortícolas, frutos secos e olivicoltura;
- Pressão social e regulatória para reduzir consumos de água e emissões.
Regar como há 20 anos é receita certa para perder competitividade. É aqui que o regadio sustentável, suportado por dados e IA, deixa de ser “nice to have” e passa a ser condição de sobrevivência para muitas explorações.
O que distingue um regadio verdadeiramente sustentável
Regadio sustentável não é apenas trocar aspersores antigos por gota-a-gota. É um sistema que equilibra três dimensões, de forma mensurável:
- Económica – mais rendimento por hectare, estabilidade de produção, menos desperdício.
- Ambiental – menor consumo de água por kg produzido, menos lixiviação de nutrientes, menor pegada de carbono.
- Social – empregos qualificados no meio rural, segurança alimentar, uso responsável de um bem público: a água.
Na prática, um sistema de regadio sustentável tem algumas características claras:
- Monitorização contínua de humidade do solo, clima e estado das culturas.
- Modelos de rega baseados em dados, não em “sensação” ou calendário fixo.
- Integração com a fertilização (fertirrega), reduzindo perdas de nutrientes.
- Automatização das rotinas de rega e alarmes de anomalias.
- Gestão por objetivos: metas de consumo (m³/ha), produtividade da água (kg/m³) e indicadores de saúde do solo.
A diferença entre uma exploração que rega “por hábito” e outra que rega com este tipo de sistema é brutal: em vários casos reais em Portugal, vejo reduções de 20–40% no consumo de água mantendo ou até aumentando a produção, apenas com melhor gestão.
Onde entra a inteligência artificial no regadio português
A IA não substitui o agricultor nem o técnico de regadio; multiplica a capacidade de decisão. Num país com recursos hídricos limitados, esta multiplicação faz toda a diferença.
1. Rega inteligente com base em dados reais
Hoje já é possível montar sistemas em que a IA responde, de forma contínua, à pergunta: “Quanto devo regar, onde e quando?”
Um sistema típico de rega inteligente com IA combina:
- Sensores de humidade do solo por talhão;
- Estações meteorológicas locais ou dados satélite/meteo regionais;
- Características do solo (textura, profundidade eficaz, capacidade de campo);
- Tipo de cultura, estádio fenológico e objetivos de produção.
A IA cruza estes dados e gera recomendações de rega diárias ou horárias, ajustando‑se automaticamente a:
- Ondas de calor ou dias mais frescos;
- Previsão de chuva nos dias seguintes;
- Restrições de água impostas pelos perímetros de rega;
- Diferenças entre talhões mais arenosos e mais argilosos.
Resultado típico em explorações que já usam este tipo de solução:
- Redução de 25–35% no consumo de água;
- Menos problemas de asfixia radicular e doenças associadas ao excesso de água;
- Ganhos de produção por estabilidade hídrica em momentos críticos (floração, enchimento do fruto).
2. Previsão de colheitas e planeamento de água
Outra aplicação muito prática da IA é a previsão de colheitas. Com dados históricos da exploração (produções, clima, datas de sementeira/plantação, variedades, práticas de rega e fertilização), modelos de IA conseguem prever com boa precisão:
- Produção esperada por talhão;
- Janelas temporais de colheita;
- Necessidades hídricas estimadas ao longo da campanha.
Para regadio, isto é ouro. Permite:
- Planear a dotação de água com antecedência junto das associações de regantes;
- Ajustar escalões de rega nos momentos de maior consumo;
- Negociar contratos de fornecimento ou de escoamento de produção com mais informação.
3. Deteção de fugas, entupimentos e anomalias
Perder água em fugas, linhas entupidas ou emissoras danificadas é mais comum do que se admite. Em perímetros grandes, localizar problemas é demorado.
Com IA aplicada a dados de pressão, caudal e consumo em tempo real, é possível:
- Identificar padrões de consumo anormais;
- Gerar alertas automáticos de possíveis fugas ou entupimentos;
- Priorizar inspeções de campo onde há maior probabilidade de problema.
Isto reduz custos, poupa água e aumenta a fiabilidade dos sistemas de regadio coletivo.
4. Gestão integrada de água, solo e pragas
Na lógica do Campo Digital, o regadio não está isolado: a mesma infraestrutura de dados suporta também:
- Modelos de risco de pragas e doenças (que dependem muito da humidade e do microclima);
- Alertas para condições em que um tratamento fitossanitário terá maior eficácia;
- Monitorização da evolução da matéria orgânica e estrutura do solo em função das práticas de rega.
Ou seja, o agricultor deixa de tomar decisões parcelares (hoje rego, amanhã trato) e passa a orquestrar o sistema produtivo com base em informação integrada.
“Água que Une”: IA como cimento da governação do regadio
No Encontro do Regadio 2025, a Estratégia “Água que Une” foi apresentada como uma das reformas mais ambiciosas das últimas décadas para a gestão da água em Portugal. A questão-chave é: como transformar esta ambição em decisões concretas no terreno?
A resposta passa por três camadas onde a IA pode e deve ser o “cimento” que liga tudo:
1. Observatórios de dados do regadio
A FENAREG lançou um Observatório do Regadio para centralizar dados do setor. Se este tipo de plataforma integrar IA, consegue gerar:
- Mapas em tempo real de disponibilidade hídrica por região;
- Indicadores de eficiência de rega por cultura e perímetro;
- Cenários de impacto de diferentes políticas de água ou alterações à PAC.
Para o decisor político, isto significa deixar de navegar às cegas e passar a ter métricas objetivas antes de cortar ou reforçar investimento.
2. Ferramentas de apoio à decisão para associações de regantes
Associações e entidades gestoras de aproveitamentos hidroagrícolas precisam de equilibrar:
- Segurança do abastecimento;
- Custos energéticos;
- Manutenção de infraestruturas;
- Regras e restrições impostas a montante (barragens, planos de bacia).
Com modelos de IA a trabalhar em cima de dados históricos de consumo, níveis de albufeiras e previsões meteorológicas, é possível:
- Simular diferentes regras de distribuição de água em anos secos;
- Otimizar horários de bombagem para reduzir custos de energia;
- Comunicar com os associados com base em cenários concretos, e não apenas em estimativas genéricas.
3. Transparência e confiança entre agricultores, Estado e sociedade
A discussão pública sobre regadio é muitas vezes binária: ou é visto como “salvação da agricultura” ou como “inimigo do ambiente”. Dados sólidos, apresentados de forma simples e transparente, ajudam a sair desta polarização.
Se o setor mostrar, com números, que:
- A produtividade da água está a aumentar;
- O consumo unitário por kg produzido está a baixar;
- As práticas de regadio sustentável reduzem riscos de incêndio, erosão e degradação do solo;
então é mais fácil defender investimento público bem orientado e uma PAC que não ignore a realidade do Sul da Europa.
Como começar hoje: três passos práticos para agricultores e cooperativas
Nem todos os produtores vão implementar IA em larga escala em 2026. Mas é possível começar já, com passos concretos e proporcionais à dimensão de cada exploração.
1. Medir antes de investir
Antes de pensar em IA, é preciso ter dados minimamente fiáveis:
- Instalar contadores de água por bloco ou talhão;
- Registar datas e durações das regas;
- Guardar registos básicos de produção por parcela.
Com isto, já é possível fazer uma análise simples de produtividade da água e identificar onde há mais potencial de melhoria.
2. Começar com uma solução de rega inteligente piloto
Escolher um talhão ou cultura estratégica (por exemplo, um pomar de amendoal, olival intensivo ou vinha de maior valor) e testar:
- Sensores de humidade do solo;
- Dados meteorológicos locais;
- Uma aplicação de recomendação de rega baseada em IA ou modelos avançados.
O objetivo não é automatizar tudo à primeira; é ganhar confiança e perceber o retorno concreto em água, energia e produção.
3. Envolver técnicos, associações e vizinhos
Regadio sustentável com IA não se faz isoladamente. Funciona melhor quando:
- Técnicos de campo da cooperativa acompanham a leitura e interpretação dos dados;
- Associações de regantes alinham regras de distribuição com a informação das explorações;
- Vizinhos partilham experiências, erros e boas práticas.
Na prática, quanto mais inteligência coletiva existir em torno dos dados do regadio, maior o retorno do investimento individual.
O que está em jogo para a agricultura portuguesa
O alerta de Marcelo Rebelo de Sousa nas Jornadas da FENAREG não foi apenas simbólico. Portugal está, de facto, num ponto de decisão: ou assume o regadio sustentável, apoiado por tecnologia e IA, como pilar da sua estratégia agrícola, ou aceita perder terreno para países que já estão a fazê‑lo.
Do lado do produtor, a pergunta deixa de ser “se” vai adotar rega inteligente, e passa a ser “quando e como”. Quem começar agora, mesmo com passos pequenos, chega a 2030 com sistemas afinados, equipas treinadas e dados históricos valiosos. Quem adiar, terá de correr atrás do prejuízo em anos potencialmente mais secos e com regras mais exigentes.
Este artigo integra a série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, porque o futuro do regadio em Portugal não é apenas hidráulico. É digital, é colaborativo e é cada vez mais orientado por dados. O desafio está lançado: transformar o apelo político em decisões concretas no campo, talhão a talhão, gota a gota.