Quercus denuncia alterações ao regulamento de pesticidas. Veja o que está em jogo e como a IA pode ajudar a agricultura portuguesa a reduzir químicos e ganhar valor.
Pesticidas, saúde pública e IA: o que está em jogo em 2026
Mais de 350 mil mortes prematuras por ano na Europa estão associadas à poluição química, onde os pesticidas têm um peso relevante, segundo estimativas recentes de saúde ambiental. Ao mesmo tempo, agricultores portugueses vivem pressionados por custos, pragas mais imprevisíveis e exigências cada vez maiores de consumidores e retalho.
É neste contexto que surge a denúncia da Quercus de um “ataque sem precedentes” ao regulamento europeu que protege cidadãos dos pesticidas. E é também neste cenário de tensão que a Inteligência Artificial na agricultura portuguesa deixa de ser um luxo tecnológico e passa a ser uma ferramenta estratégica: para produzir, proteger rendimentos e reduzir o recurso a químicos perigosos.
Neste artigo da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, vou juntar as duas peças do puzzle:
- O que está em causa na proposta de revisão do Regulamento Omnibus sobre pesticidas
- Porque é que isto interessa diretamente a agricultores, cooperativas e decisores em Portugal
- Como é que soluções de IA na agricultura podem ajudar a reduzir pesticidas, proteger a saúde e, ao mesmo tempo, manter a rentabilidade das explorações
O que está a mudar no regulamento dos pesticidas na UE?
O alerta da Quercus não é detalhe técnico de Bruxelas. São três alterações com impacto direto em quem produz, em quem vive junto aos campos e na qualidade da água que bebemos.
1. Aprovações de pesticidas sem prazo-limite
Hoje, as substâncias ativas dos pesticidas são reavaliadas, em regra, a cada 10 a 15 anos. A ciência avança, surgem novos estudos sobre toxicidade, efeitos crónicos, impacto em polinizadores ou no solo, e o regulamento obriga a reabrir o dossier.
A proposta em cima da mesa quer eliminar estas revisões periódicas obrigatórias e permitir aprovações por prazo ilimitado.
O problema é simples:
- Se não há prazo, não há pressão para reavaliar
- Substâncias que hoje seriam chumbadas podem ficar décadas no mercado
- Agricultores continuam a usar produtos que a ciência mais recente poderia considerar cancerígenos, neurotóxicos ou disruptores endócrinos
Para um país como Portugal, com muitas explorações familiares e trabalhadores frequentemente expostos sem proteção adequada, isto não é detalhe jurídico, é risco real de saúde pública.
2. Menos peso para a ciência independente nas autorizações nacionais
Outro ponto crítico da proposta é retirar força à obrigação dos Estados-Membros considerarem evidência científica independente e recente na autorização de produtos fitofarmacêuticos.
Na prática, isto abre espaço para:
- Decisões mais dependentes de dossiês apresentados pela própria indústria
- Menos atenção a estudos académicos ou de organizações independentes
- Processos de autorização menos exigentes em termos de segurança
A Quercus alerta que isto “desarma a capacidade nacional de tomar decisões informadas e protetoras”. E tem razão: se a ciência independente perde peso, quem perde são os consumidores, os ecossistemas e também os agricultores, que podem ficar associados ao uso de produtos contestados ou proibidos a curto prazo.
3. Prazos de carência estendidos para pesticidas já proibidos
O terceiro ponto é, do ponto de vista de saúde, talvez o mais chocante: duplicar os prazos de carência para substâncias já proibidas.
Hoje, quando uma substância é considerada demasiado perigosa e proibida, há um período de transição para escoar stocks e adaptar práticas. A proposta quer prolongar esse período até três anos adicionais, o que significa:
- Mais tempo de exposição da população a substâncias que a própria UE já classificou como perigosas
- Mais resíduos no solo e na água
- Mais incerteza para produtores que querem antecipar-se e investir em alternativas
Numa altura em que a FAO, a Comissão Europeia e a própria opinião pública pedem redução do uso de pesticidas, esta alteração vai na direção oposta.
Porque é que isto interessa tanto à agricultura portuguesa?
Este debate não é apenas ambiental, é económico e estratégico para o setor agrícola nacional.
Pressão crescente de consumidores e retalho
O mercado está a mudar rapidamente:
- Grandes cadeias de retalho em Portugal já exigem planos de redução de fitofármacos e auditorias de resíduos
- Consumidores valorizam cada vez mais rótulos como “resíduo reduzido”, “produção integrada” ou “biológico”
- Exportações para mercados exigentes (Alemanha, países nórdicos, França) dependem de cumprir limites de resíduos cada vez mais apertados
Se a legislação europeia abranda, isso não significa que o mercado relaxe. Normalmente acontece o contrário: surgem selos privados e exigências adicionais. Quem não se adapta fica para trás.
Risco regulatório para os produtores
Apostar em substâncias que só existem no mercado porque a sua revisão foi empurrada para debaixo do tapete é, do ponto de vista de gestão de risco, uma má ideia.
Um produtor que dependa fortemente de um herbicida ou inseticida controverso fica exposto a:
- Proibições súbitas
- Quebra de produção por falta de alternativa preparada
- Perda de contratos com retalhistas que adotem políticas mais restritivas que a própria lei
É aqui que entra a oportunidade: reduzir a dependência química não é só questão de ética ambiental, é também proteção do negócio.
IA na agricultura: aliada para reduzir pesticidas sem perder produtividade
Aqui está o ponto que muitas vezes é ignorado no debate: existe tecnologia, acessível e madura, para reduzir o uso de pesticidas e aumentar a precisão das aplicações. E a IA é o motor dessa mudança.
Vou focar em quatro áreas concretas, já com aplicações reais em explorações portuguesas e europeias.
1. Deteção precoce de pragas e doenças com IA
A forma mais eficaz de reduzir químicos é acertar no momento e no alvo certo. A IA ajuda em ambos.
Exemplos de uso prático:
- Modelos de previsão de pragas que combinam dados meteorológicos, histórico da parcela e sensores de campo para indicar o risco de ataque (por exemplo, traça-da-uva, míldio, mosca-do-olival)
- Aplicações móveis onde o agricultor tira uma fotografia à folha ou fruto e um modelo de visão computacional identifica a doença provável, estágio e recomenda ação
- Sistemas de alerta em cooperativas que cruzam dados de várias explorações e enviam avisos georreferenciados quando o risco aumenta numa região
Resultados típicos em projetos-piloto europeus:
- Reduções de 20% a 40% no número de tratamentos
- Menos aplicações preventivas “por calendário” e mais aplicações baseadas em risco real
2. Pulverização de precisão com sensores e IA
Outro eixo crucial é a pulverização inteligente, onde a IA decide onde e quanto aplicar.
Tecnologias que já estão no mercado:
- Pulverizadores com câmaras e algoritmos que detetam apenas as infestantes entre linhas, ativando bicos só onde existe planta-alvo
- Sistemas de dose variável que ajustam a quantidade de produto conforme densidade da vegetação, velocidade do trator, declive e deriva potencial
- Robots ou drones de aplicação localizada em culturas de alto valor (hortícolas, vinha, estufas)
Benefícios práticos:
- Poupanças de produto que podem chegar a 30–60% em alguns cenários
- Menos deriva para parcelas vizinhas, linhas de água ou zonas sensíveis
- Dados registados automaticamente, úteis para cadernos de campo digitais e auditorias
3. Rega inteligente e saúde do solo
Pode parecer indireto, mas boa gestão de água e solo reduz a pressão de doenças. Plantas mais equilibradas são menos vulneráveis e precisam de menos química.
A IA entra aqui em três frentes:
- Sistemas de rega inteligente que calculam a dose ótima diária com base em sensores de humidade, previsão meteorológica e estádio da cultura
- Modelos que estimam risco de doenças fúngicas em função de molhamento foliar, humidade e temperatura, evitando condições ideais para fungos
- Monitorização contínua do solo (condutividade elétrica, matéria orgânica estimada, compactação) para orientar práticas de agricultura regenerativa que melhoram a resiliência das culturas
Resultados típicos:
- Menos stress hídrico
- Menos condições propícias a fungos
- Menos tratamentos “de seguro” contra doenças
4. Rastreabilidade digital para provar que se usa menos pesticida
Outra vantagem pouco falada da IA e da digitalização é a prova documental:
- Plataformas de gestão agrícola registam automaticamente datas, doses e produtos aplicados
- Algoritmos geram relatórios de resíduos estimados à colheita, cruzando carências legais e condições ambientais
- Cooperativas e agrupamentos podem demonstrar, com dados, reduções efetivas de uso de pesticidas ao longo de várias campanhas
Isto é ouro em negociações com retalho, candidaturas a apoios e certificações de sustentabilidade.
Como produtores e cooperativas podem responder agora
Num momento em que o regulamento pode ficar mais frágil, a resposta inteligente do setor é ir além do mínimo legal e assumir o controlo da redução de pesticidas com ajuda da tecnologia.
Passos práticos para 2026
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Fazer um diagnóstico de dependência de pesticidas
- Quais são as substâncias mais usadas na exploração?
- Existem já sinais de contestação ou risco de proibição?
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Identificar 2 ou 3 “casos de uso” de IA com retorno rápido
- Previsão de míldio na vinha
- Aplicação localizada de herbicidas em olival ou amendoal
- App de diagnóstico de pragas em hortícolas
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Começar em modo piloto, não em toda a exploração
- Uma parcela, uma cultura, um problema-bandeira
- Medir: número de tratamentos, consumo de produto, produtividade, custos
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Trabalhar com cooperativas e associações
- Partilha de dados reduz custos e aumenta a qualidade dos modelos de IA
- Projetos coletivos têm mais facilidade em captar financiamento e apoio técnico
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Formação contínua
- A tecnologia só funciona se os utilizadores souberem tirar partido dela
- Investir em formação em agricultura de precisão, interpretação de modelos e uso de plataformas digitais
Agricultura portuguesa entre dois caminhos
O que está em discussão em Bruxelas pode resultar num regulamento de pesticidas mais fraco e num retrocesso no princípio da precaução, como denuncia a Quercus. Mas depender apenas da lei para proteger a saúde pública e a biodiversidade seria um erro estratégico.
Há outro caminho, mais exigente mas muito mais sólido: usar a IA e a agricultura de precisão para reduzir de forma voluntária e mensurável o uso de pesticidas, ganhar eficiência e reforçar a confiança de consumidores e parceiros comerciais.
A questão para 2026 não é se a IA vai chegar aos campos portugueses. Já chegou. A questão é quem vai usá-la para ganhar vantagem competitiva e quem vai ficar preso a um modelo de produção dependente de químicos cada vez mais contestados.
Se trabalha numa exploração, cooperativa ou organização agrícola e quer reduzir o peso dos pesticidas sem perder rendimento, este é o momento certo para começar a testar soluções digitais. O regulamento pode mudar, a tecnologia também, mas a direção é clara: menos risco químico, mais inteligência no campo.