Lisboa recebe o OOWC 2026 e abre uma janela rara para o azeite português acelerar na inovação, IA no olival, rega inteligente e rastreabilidade. Veja como aproveitar.

OOWC 2026 em Lisboa: oportunidade única para o azeite português entrar no “campo digital”
Enquanto muitos setores agrícolas ainda discutem se a transformação digital é mesmo necessária, o setor do azeite está a organizar um dos congressos mais influentes do mundo… em Lisboa. Nos dias 02 e 03/07/2026, o Olive Oil World Congress (OOWC) traz ao Centro Cultural de Belém não só produtores e decisores, mas também inovação, dados e, cada vez mais, inteligência artificial aplicada ao olival.
Isto interessa diretamente a agricultores, cooperativas e técnicos portugueses que querem sair da gestão “a olho” e passar para modelos de olivicultura de precisão, com previsão de colheitas, deteção precoce de pragas, rega inteligente e estratégias comerciais suportadas por dados. O OOWC 2026 vai ser um dos palcos onde estas ferramentas são discutidas, apresentadas e, sobretudo, onde se criam contactos para as pôr a funcionar no terreno.
Neste artigo da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, vou mostrar porque é que este congresso não é “só mais um evento de azeite”, que tipo de oportunidades concretas pode gerar para o setor em Portugal e como se pode começar, desde já, a preparar uma presença focada em tecnologia e IA no olival.
O que é o OOWC 2026 e porque conta tanto para Portugal
O Olive Oil World Congress – OOWC é um congresso internacional que quer ser o ponto de encontro global do setor do azeite. A segunda edição vai realizar-se em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, a 02 e 03/07/2026, e o período de inscrições já está aberto.
Mais do que um evento técnico, o OOWC junta:
- Produtores e cooperativas
- Investigadores e universitários
- Indústria e distribuidores
- Instituições públicas, governos e organismos internacionais
A realização em Lisboa tem três implicações fortes para o setor português:
- Visibilidade internacional do azeite português – Portugal deixa de ser apenas “mais um produtor” e passa a ser anfitrião do centro mundial de decisão sobre o olival durante dois dias.
- Acesso direto a conhecimento – quem estiver no congresso vai ouvir em primeira mão dados, soluções e tendências vindas de Espanha, Itália, Grécia, países do Magrebe e novos produtores.
- Atracão de investimento e tecnologia – empresas de tecnologia agrícola, bancos, indústrias e organismos internacionais vão estar presentes à procura de projetos sólidos para apoiar.
Em paralelo, Lisboa vai acolher, nas mesmas datas, a reunião anual do Comité Consultivo e a reunião de Membros do Conselho Oleícola Internacional (COI). Ou seja, durante esses dias, muitas das decisões estratégicas sobre o futuro do setor vão ser discutidas… aqui.
O Governo português, através do Ministro da Agricultura e do Mar, José Manuel Fernandes, já convidou todos os membros do COI a participarem no OOWC 2026, reforçando a mensagem: Portugal quer ser visto como ator central do setor olivícola, com foco em inovação, sustentabilidade e desenvolvimento rural.
Onde entra a IA num congresso de azeite?
A resposta curta: entra em quase tudo o que interessa para o lucro e resiliência dos olivais.
O OOWC tem vindo a posicionar-se como um projeto participativo e aberto, nas palavras do coordenador geral Ricardo Migueláñez. A visão é clara: patrocinar e participar no congresso não é apenas uma questão de visibilidade, mas de compromisso com o futuro do setor, incluindo inovação tecnológica e transformação digital.
No contexto da IA na agricultura portuguesa, o OOWC 2026 é o sítio ideal para acelerar quatro frentes práticas:
1. IA para previsão de colheitas no olival
Ferramentas de IA conseguem, hoje, combinar:
- Dados históricos de produção
- Imagens de satélite e drones
- Informações meteorológicas
- Dados de solo e rega
…para estimar produção por talhão, por variedade e por campanha com muito mais precisão do que a observação humana isolada.
Para agricultores e cooperativas, isto traduz‑se em:
- Negociação mais forte com lagares e compradores
- Planeamento logístico da vindima (mão de obra, transporte, capacidade de extração)
- Gestão financeira mais previsível
No OOWC 2026, é muito provável que surjam casos de estudo de Espanha e Itália com números concretos sobre como previsões baseadas em IA reduziram desperdícios ou melhoraram margens. Quem estiver atento pode adaptar essas soluções ao contexto português.
2. Deteção precoce de pragas e doenças
A Xylella fastidiosa, o cancro da oliveira, a mosca-da-azeitona e outras pragas não esperam. Projetos de visão computacional já conseguem detetar sintomas visuais em folhas e copas através de:
- Imagem de drone
- Câmaras fixas em parcelas
- Apps móveis usadas pelos próprios agricultores
Treinados com IA, estes modelos assinalam:
- Árvores suspeitas
- Padrões de evolução de pragas
- Áreas de maior risco
No campo, isto significa tratamentos mais certeiros, menos químicos, menos produção perdida e uma resposta muito mais rápida. Para Portugal, com olivais intensivos e superintensivos em crescimento, esta abordagem é fundamental.
3. Rega inteligente e poupança de água
Num cenário de seca recorrente, a pergunta não é “se” se deve usar IA na rega, mas “quando” e “como”. Sistemas modernos combinam:
- Sensores de humidade no solo
- Estações meteorológicas locais
- Dados de satélite (NDVI, stress hídrico, etc.)
- Modelos de evapotranspiração
Com isto, algoritmos sugerem – ou executam automaticamente – planos de rega otimizados por talhão. O resultado típico em olivais que adotam este tipo de solução é:
- Reduções de consumo de água entre 20% e 40%
- Manutenção ou aumento da produtividade
- Melhor saúde do olival a médio prazo
O OOWC é o palco perfeito para fornecedores de rega de precisão, sensores e software de gestão agrícola com IA mostrarem soluções e para produtores portugueses negociarem pilotos e projetos adaptados ao território nacional.
4. Rastreabilidade, qualidade e mercado
Azeite de qualidade precisa de história rastreável: de que parcela veio, como foi produzido, que práticas de sustentabilidade foram usadas. Sistemas digitais com IA ajudam a:
- Organizar dados da exploração (cadernos de campo digitais)
- Ligar dados de campo ao lagar e ao lote final
- Gerar relatórios para certificações, exportações e retalhistas exigentes
Para marcas portuguesas que querem vender mais caro e em mercados premium, esta combinação de qualidade + dados + narrativa transparente é o que faz a diferença na hora de fechar contratos.
Quem já está por detrás do congresso (e o que isso revela)
A lista de patrocinadores institucionais e privados do OOWC mostra que o congresso não é um evento teórico, mas um espaço em que dinheiro, decisão política e tecnologia se cruzam.
Entre as instituições envolvidas estão:
- Conselho Oleícola Internacional (COI)
- CIHEAM
- Fundação Dieta Mediterrânica
- Ministério da Agricultura e do Mar de Portugal
- Entidades regionais espanholas ligadas ao agroalimentar
No lado privado, destacam-se bancos, empresas de engenharia, interprofissionais e marcas de referência de azeite.
O que isto significa na prática para o produtor português?
- Há financiamento disponível – bancos com áreas agrícolas, programas europeus e nacionais, projetos de inovação. Quem chega com um projeto articulado (ex.: olival de precisão com IA e metas de sustentabilidade) tem mais hipóteses de sair com parceiros.
- Há quem precise de casos portugueses – muitas empresas tecnológicas querem mostrar que as suas soluções funcionam também em olivais portugueses. Isso abre a porta a projetos piloto com custos partilhados.
- Há pressão para resultados concretos – ninguém quer ficar apenas pelo discurso. Os próximos anos vão aumentar a exigência de indicadores: consumo de água, pegada de carbono, produtividade, qualidade do azeite. Quem tiver dados estará sempre em vantagem.
Como agricultores e cooperativas se podem preparar para o OOWC 2026
Esperar até julho de 2026 para “ver o que há” é perder metade da oportunidade. Há várias coisas que agricultores, técnicos e cooperativas portuguesas podem começar a fazer já em 2025.
1. Clarificar objetivos digitais do olival
Antes de falar em IA, a pergunta é: que problema quero resolver? Alguns exemplos de objetivos claros:
- Reduzir consumo de água em 30% mantendo a produção
- Aumentar a produtividade média em 15% em 3 anos
- Diminuir perdas por pragas em 50%
- Conseguir rastreabilidade completa da parcela ao lote vendido
Com objetivos definidos, fica muito mais fácil, no OOWC, perceber que soluções fazem sentido e que conversas vale a pena ter.
2. Começar a recolher dados – nem que seja em Excel
A IA precisa de dados. Mas não é obrigatório ter um software complexo logo no primeiro dia. Em 2024/2025, já vale a pena organizar:
- Registos de produção por talhão e por ano
- Datas de tratamentos e produtos usados
- Históricos de rega (quando e quanto)
- Custos principais (fertilizantes, água, mão de obra, energia)
Mesmo num ficheiro simples, isto começa a construir a base para, mais tarde, integrar com uma plataforma de gestão agrícola com IA.
3. Identificar pessoas-chave para irem a Lisboa
Para tirar o máximo do congresso, não faz sentido enviar apenas “quem gosta de eventos”. Idealmente, devem estar presentes:
- Um decisor (produtor principal, direção da cooperativa)
- Um técnico (engenheiro agrónomo, responsável de campo)
- Alguém com abertura para o digital (pode ser a mesma pessoa, numa exploração pequena)
O objetivo é voltar do congresso não só com folhetos, mas com três ou quatro ideias concretas de projeto, já discutidas com potenciais parceiros.
4. Preparar um “pitch” simples da exploração
No OOWC, metade do valor está nas conversas de corredor. Vale a pena preparar um resumo em 1–2 minutos da exploração ou cooperativa:
- Área de olival e localização
- Principais variedades e tipo de sistema (tradicional, intensivo, superintensivo)
- Volume de produção médio
- Principais desafios atuais
- O que se procura: “queremos testar rega inteligente”, “procuramos solução de previsão de colheitas”, etc.
Quem chega com esta clareza aproveita muito melhor cada contacto.
OOWC 2026 e a série “Campo Digital”: próximos passos
Na série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, temos vindo a mostrar que a transição digital do campo português não é um luxo: é condição para competitividade, resiliência e acesso a mercados exigentes. O OOWC 2026 em Lisboa encaixa perfeitamente nesta narrativa: é o momento em que o setor do azeite português pode dar um salto conjunto.
Este congresso vai juntar olivicultura tradicional e agricultura de precisão, política e tecnologia, azeite e dados. Quem chegar preparado, com objetivos claros e abertura para experimentar novas soluções, sai de lá com um plano muito mais sólido para os próximos anos.
Se trabalha no setor do azeite, a decisão real não é se vale a pena ir ao OOWC 2026. A decisão é: que projeto de olival digital quer levar na cabeça quando atravessar as portas do Centro Cultural de Belém?
Porque quem souber responder a isto em 02/07/2026 estará um passo à frente na construção do olival português do futuro: mais rentável, mais sustentável e apoiado em IA.