A gestão sustentável da água, apoiada por IA, está a tornar‑se decisiva para a rentabilidade das explorações em Portugal. Veja como aplicar rega inteligente no campo.
Gestão sustentável da água com IA no campo português
A cada verão, os números repetem-se: mais de 70% da água doce em Portugal é usada na agricultura. Quando juntamos secas recorrentes, barragens em níveis críticos e custos de energia a subir, percebemos rápido onde está o problema – e também onde está a oportunidade.
A realidade? Quem não dominar a gestão sustentável da água nos próximos anos vai ficar para trás. E não é só uma questão ambiental; é rentabilidade pura: menos água, menos energia, menos riscos, produções mais estáveis. A boa notícia é que a agricultura portuguesa já começou a mexer-se. Um exemplo é o colóquio “Gestão e Uso Sustentável da Água na Agricultura”, promovido pela Associação de Agricultores da Graciosa com a Secretaria Regional da Agricultura e Alimentação, integrado no PRR.
Neste artigo da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, vamos juntar os dois mundos: o debate sobre água que está a acontecer no terreno e as soluções digitais e de inteligência artificial (IA) que estão a transformar a forma como regamos em Portugal.
Porque é que a água é o eixo central da agricultura do futuro
A gestão sustentável da água é um dos pilares da agricultura do futuro por uma razão simples: sem água não há produção, mas com água mal gerida não há viabilidade económica.
Quatro pressões que estão a apertar os agricultores
Hoje, quem produz em Portugal está a lidar ao mesmo tempo com:
- Secas mais frequentes e longas – sobretudo no Alentejo, Algarve e ilhas, mas já se sente em quase todo o país;
- Custos energéticos elevados para bombagem – regar mal é literalmente deitar dinheiro fora;
- Exigências ambientais e de certificação – PAC, eco‑regimes, condicionalidades ligadas à água;
- Concorrência internacional – quem produz com menos água e energia consegue pôr produto mais competitivo no mercado.
Isto explica porque é que eventos como o colóquio na Graciosa estão a ganhar peso político e técnico. Quando o secretário regional António Ventura sublinha que "a gestão sustentável da água é um dos pilares da agricultura do futuro", não está a falar de teoria; está a apontar para a única forma de manter agricultores no ativo nos próximos 10–20 anos.
O que significa “gestão sustentável” na prática
Quando descemos à exploração, gestão sustentável da água traduz‑se em decisões muito concretas:
- Quanto regar hoje naquele talhão específico;
- Em que horário regar para gastar menos energia e perder menos água por evaporação;
- Se o investimento num novo sistema de rega gota‑a‑gota ou em sondas de humidade se paga em 3, 5 ou 7 anos;
- Como cumprir metas de redução de consumo de água sem perder produção.
É aqui que a IA na agricultura começa a fazer diferença. Porque estas decisões, quando feitas a olho, saem caras. Feitas com dados, tornam‑se uma vantagem competitiva.
Da regra do “olhómetro” à rega inteligente com dados e IA
A rega tradicional baseia‑se muitas vezes na experiência: “sempre fiz assim e resultou”. O problema é que o clima mudou, os custos mudaram e a pressão sobre a água é outra.
Como funciona um sistema de rega inteligente
Um sistema de rega inteligente com IA junta quatro componentes principais:
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Sensores no solo e na planta
- Sondas de humidade do solo por profundidade;
- Sensores de tensão da água no solo (potenciómetros, tensiómetros);
- Medição de estado hídrico da planta (em culturas de maior valor).
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Dados meteorológicos e satélite
- Previsões de temperatura, vento, humidade e precipitação;
- Imagens de satélite ou drones para avaliar o vigor da cultura (NDVI e outros índices);
- Dados históricos para perceber padrões em cada parcela.
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Modelos de IA e algoritmos de recomendação
- Cálculo da evapotranspiração diária ou horária;
- Estimativa de necessidades hídricas por cultura, fase fenológica e tipo de solo;
- Geração de recomendações automáticas: quanto e quando regar.
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Automação da rega
- Válvulas e programadores ligados a uma plataforma;
- Possibilidade de controlar a rega pelo telemóvel;
- Alertas quando há fugas, consumos anómalos ou falhas.
Quando tudo isto está bem montado, a IA deixa de ser “uma coisa abstrata” e passa a ser apenas o cérebro que transforma dados em decisões de rega, todos os dias, 24 horas por dia.
Resultados típicos em explorações que adotam rega inteligente
Em explorações portuguesas que já usam rega inteligente (sobretudo em vinha, olival, amendoal e hortícolas), não é raro ver:
- Reduções de 20 a 40% no consumo de água;
- Reduções de 15 a 30% nos custos energéticos de bombagem;
- Produções mais estáveis em anos de seca;
- Menos problemas fitossanitários ligados a excesso de humidade.
Ou seja, a mesma água (ou menos) passa a ser usada de forma muito mais eficiente. É precisamente esta lógica que o PRR está a tentar acelerar, apoiando projetos de digitalização e uso eficiente de recursos.
Oportunidades específicas para a agricultura portuguesa
Portugal tem características que jogam a favor da transformação digital no campo, principalmente quando falamos de água.
Clima mediterrânico: risco e oportunidade
O clima mediterrânico, com invernos suaves e verões quentes e secos, torna a gestão da água mais difícil, mas também mais previsível do ponto de vista de modelos de IA. Há padrões claros de:
- Épocas críticas de stress hídrico por cultura;
- Riscos de ondas de calor que exigem ajustes rápidos na rega;
- Zonas de maior vulnerabilidade (planícies interiores, ilhas, bacias hidrográficas mais pressionadas).
Modelos bem treinados com dados locais conseguem prever necessidades de água com vários dias de antecedência, permitindo ao agricultor:
- Planear turnos de rega sem entrar em rotinas de “apagar fogos”;
- Negociar melhor contratos de energia (por exemplo, apostando em horários de vazio);
- Decidir com calma onde vale a pena investir primeiro em modernização.
Açores, Graciosa e o papel do conhecimento local
No caso específico dos Açores e da ilha Graciosa, a gestão da água ganha nuances próprias:
- Dependência de aquíferos e captações locais, mais sensíveis à sobreexploração;
- Propriedades muitas vezes mais pequenas e fragmentadas;
- Clima húmido, mas com períodos de menor precipitação que afetam pastagens e culturas permanentes.
Quando uma Associação de Agricultores organiza um colóquio sobre uso sustentável da água, está a fazer algo essencial: juntar conhecimento técnico com realidade local. A IA funciona muito melhor quando os modelos são adaptados à ilha, à bacia hidrográfica, ao tipo de solo. Ou seja, quando não copiamos receitas do exterior sem as adaptar.
Como começar: passos práticos para uma rega mais inteligente
Muitos agricultores sentem que IA e digitalização da água são “coisas para grandes explorações”. Não concordo. O que muda é o caminho e a escala do investimento.
1. Medir antes de comprar tecnologia cara
O primeiro erro é investir em equipamentos sem saber o que se quer resolver. O caminho mais inteligente é:
- Conhecer o consumo atual de água e energia por cultura e por sistema de rega;
- Identificar onde há maiores desperdícios: fugas, regas em horas de maior evaporação, talhões com solos muito diferentes tratados da mesma forma;
- Perceber se o problema principal é excesso de água, falta em momentos críticos ou simplesmente falta de controlo.
Sem este diagnóstico, a IA vai ser apenas uma app bonita no telemóvel.
2. Começar pequeno: piloto em 1–2 talhões
Uma abordagem prática é escolher 1 ou 2 parcelas para fazer um projeto piloto durante 1 ano agrícola:
- Instalar 2–3 sondas de humidade;
- Ligar o contador de água a um sistema de monitorização (mesmo que simples);
- Usar uma aplicação de recomendação de rega baseada em dados meteorológicos e de solo.
Com isto, já se consegue comparar consumo de água e resultados agronómicos entre:
- Talhões com rega “tradicional”;
- Talhões com rega apoiada por dados e recomendações.
É esta comparação que cria confiança para escalar.
3. Aproveitar apoios do PRR e da PAC
Entre PRR e PAC, existem medidas que podem apoiar:
- Modernização de sistemas de rega (passar de gravidade para pressão controlada, gota‑a‑gota, etc.);
- Compra de sensores, contadores inteligentes e automatização;
- Projetos-piloto de IA na agricultura, muitas vezes através de cooperativas ou associações.
Muitos agricultores não têm tempo para decifrar candidaturas. É aqui que entram as cooperativas, associações de agricultores e empresas tecnológicas focadas em campo digital. Quem se posicionar agora como parceiro de confiança vai ser chamado para vários projetos nos próximos anos.
IA na água: do risco regulatório à vantagem competitiva
A rega não é só uma questão técnica. É também uma questão política e regulatória. Bacias hidrográficas com défices estruturais, como o Sado ou o Mira, já estão sob forte escrutínio.
Como a IA ajuda a responder a exigências ambientais
Soluções de IA e monitorização permitem:
- Documentar consumos de água ao longo do ano, por cultura e parcela;
- Mostrar reduções de consumo conseguidas com investimento em tecnologia;
- Ajustar a rega para cumprir limites impostos sem sacrificar totalmente a produção.
Na prática, quem consegue provar com dados que usa a água de forma racional tem mais margem para negociar autorizações, certificações e apoios.
Diferenciação no mercado
Cada vez mais cadeias de distribuição e marcas procuram produtos com histórico de uso eficiente de recursos. A IA na gestão da água pode ajudar a:
- Criar relatórios simples para clientes e certificadoras;
- Garantir rastreabilidade hídrica por lote;
- Posicionar‑se como produtor de baixa pegada hídrica, o que pode abrir portas a melhores contratos.
Numa agricultura cada vez mais competitiva, isto não é detalhe. É estratégia.
Próximo passo no Campo Digital: da água aos dados da exploração inteira
Ao falar de água, acabamos sempre a falar de algo maior: gestão integrada da exploração agrícola. Quem começa por medir água e energia percebe rapidamente o valor de ter dados também sobre:
- Fertilização (fertirrega inteligente);
- Deteção precoce de pragas e doenças com imagens e IA;
- Previsão de colheitas para planear vendas, mão de obra e logística.
É exatamente essa a lógica da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”: mostrar que a digitalização não é um fim em si mesmo. É um caminho para tornar as explorações portuguesas mais resilientes, rentáveis e atrativas para a próxima geração.
A gestão sustentável da água, sublinhada por António Ventura como pilar da agricultura do futuro, é provavelmente o melhor ponto de partida. Começa com um contador bem lido e uma sonda no solo. Cresce com dados, IA e boas decisões. E acaba onde todos queremos: num campo português que produz bem, ganha dinheiro e respeita os recursos que não se podem desperdiçar.
Se está a pensar dar o primeiro passo na rega inteligente ou num projeto de IA na sua exploração, este é o momento certo: secas mais frequentes, apoios do PRR ainda ativos e um ecossistema tecnológico agrícola a amadurecer. A escolha agora é simples: continuar a regar como sempre se fez, ou transformar a água no ativo estratégico que realmente é.