A IA no campo só funciona com dados georreferenciados. Veja como organizar a sua exploração, preparar mapas de solo e tirar decisões mais precisas em 2026.

Georreferenciar dados: o primeiro passo para IA no campo
Em muitas explorações agrícolas portuguesas já existem tratores com GPS, sondas de solo, estações meteorológicas e drones. O que quase nunca existe é uma coisa simples: coerência nos dados. Cada máquina regista à sua maneira, cada técnico tira amostras onde calha e, no fim, comparar anos, talhões ou ensaios torna‑se um exercício de fé.
José Maria Falcão, presidente da APAP, resumiu isto de forma brutalmente honesta:
“Temos um volume enorme de dados, que têm que ser trabalhados. (…) Temos que georreferenciar, para conseguir comparar dados.”
Esta frase toca no ponto central de toda a série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”: sem dados bem organizados no espaço e no tempo, não há agricultura de precisão, não há previsão de colheitas fiável, não há rega inteligente, não há IA que nos valha.
Neste artigo, vou mostrar porque é que a georreferenciação é o “alfabeto” da agricultura digital, como a IA entra em jogo e que passos práticos qualquer exploração em Portugal pode dar já esta campanha.
Porque é que georreferenciar é decisivo para a agricultura de precisão
A georreferenciação torna cada dado agrícola utilizável: liga a informação a um ponto exato do campo. Sem isso, estamos só a acumular números soltos.
O que muda quando tudo tem coordenadas
Quando amostras de solo, registos de produção, aplicações de fertilizantes e imagens de drones estão todos georreferenciados, o gestor agrícola passa a conseguir:
- Comparar anos e campanhas no mesmo ponto (não “mais ou menos naquele sítio”);
- Identificar zonas consistentes de maior ou menor produtividade;
- Relacionar produção com textura do solo, matéria orgânica, declive, rega, adubação;
- Ajustar doses e operações por zona de gestão, em vez de tratar o talhão como se fosse homogéneo.
No olival que José Maria Falcão refere, a questão é simples:
se uma amostra de solo é tirada em 2023 “perto da árvore” e em 2025 “ali ao lado”, comparar resultados é quase inútil.
Quando as amostras estão georreferenciadas ao mesmo ponto, a conversa muda:
- Vemos a evolução real da fertilidade naquele local;
- Sabemos se o plano de fertilização está a resultar;
- Conseguimos cruzar com dados de produção desse mesmo ponto do olival.
A realidade é esta: quem não georreferencia, não compara; quem não compara, não melhora com segurança.
Da georreferenciação à IA: como os dados ganham “inteligência”
A IA na agricultura portuguesa só começa a fazer sentido quando há dados bem estruturados e localizados. A partir daí, o potencial é enorme.
Exemplos práticos em explorações portuguesas
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Previsão de colheitas por talhão e por zona de gestão
- Dados de produção de anos anteriores, georreferenciados e ligados ao mapa de vigor das plantas;
- Modelos de IA analisam padrões e conseguem prever produtividade provável por zona;
- O produtor planeia melhor mão‑de‑obra, armazenamento, contratos e logística.
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Rega inteligente com suporte de IA
- Sondas de humidade do solo com localização exata em cada bloco de rega;
- Dados de meteorologia local, tipo de solo e cultura;
- Algoritmos recomendam turnos de rega por bloco, ajustados a cada zona;
- Resultado típico em projetos bem implementados: reduções de 20–30% no consumo de água mantendo ou aumentando produção.
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Deteção precoce de pragas e doenças
- Drones ou satélite produzem mapas de NDVI (vigor) georreferenciados;
- A IA identifica áreas com anomalias de crescimento;
- O técnico vai direto ao ponto certo no campo, com coordenadas, para confirmar e intervir;
- Menos produto aplicado, mais rapidez na resposta.
Em todos estes exemplos, o padrão repete‑se: sem ponto GPS, a IA fica cega.
É por isso que a frase “Temos que georreferenciar para conseguir comparar dados” não é detalhe técnico; é estratégia de negócio.
Como começar a georreferenciar na exploração (sem complicar)
Muitos agricultores e gestores olham para georreferenciação como algo caro ou demasiado técnico. Não tem de ser assim. O importante é começar simples, mas consistente.
1. Definir o que vale a pena georreferenciar
O ideal é pensar: “Que decisões quero melhorar no próximo ano?” e começar por aí.
Alguns candidatos óbvios em explorações portuguesas:
- Amostras de solo (ponto obrigatório);
- Pontos de monitorização de pragas (armadilhas, placas adesivas, etc.);
- Sondas de humidade do solo e sensores de rega;
- Parcelas de ensaio (variedades, fertilização, reguladores de crescimento);
- Pontos de falhas recorrentes (encharcamentos, queimaduras, deficiências).
Começar por 10–20 pontos bem escolhidos já cria uma base valiosa para IA no futuro.
2. Ferramentas simples que qualquer exploração pode usar
Não é obrigatório ter um sistema complexo para dar o primeiro passo:
- Telemóvel com GPS: registo de coordenadas enquanto se tiram amostras ou observações;
- Aplicações de mapeamento agrícola ou geral: permitem guardar pontos, notas e fotos;
- Ficheiro único da exploração (por exemplo, em formato tabela), onde cada linha é um ponto com:
- Código interno (ex.: OLIV-01-PT01),
- Coordenadas,
- Tipo de dado (solo, praga, produção, etc.),
- Data e hora,
- Observações.
Este “mini‑sistema” já permite comparar pontos no tempo com muito mais rigor do que o habitual “era mais ou menos aqui…”.
3. Normalizar procedimentos com a equipa
O maior risco não é a tecnologia; é a inconsistência. Por isso, vale a pena:
- Definir regras internas: como se tiram amostras, a que profundidade, em que raio do ponto GPS;
- Formar trabalhadores e técnicos para registar sempre da mesma forma;
- Escolher um responsável de “dados da exploração” que valida se tudo está a ser feito de forma coerente.
Quem fizer isto bem em 2025–2026 vai ter uma vantagem brutal quando começar a usar ferramentas de IA mais avançadas.
IA, cartografia de solos e mapas de gestão no contexto português
A intervenção de José Maria Falcão na Conferência InovEnsino focou um tema crítico: cartografia digital do solo. Aqui, a IA já está a ajudar a transformar dados de campo em decisões práticas para culturas como vinha, olival, amendoal, milho ou hortícolas.
De mapas de solo a decisões de investimento
Quando a exploração tem:
- Levantamento de condutividade elétrica do solo,
- Análises laboratoriais georreferenciadas,
- Modelos digitais de terreno (declive, exposição, linhas de água),
a IA consegue gerar zonas de gestão diferenciadas dentro do mesmo talhão. Em termos práticos, isto permite:
- Decidir onde vale a pena investir em rega gota‑a‑gota e onde o risco é maior;
- Ajustar densidade de plantação em função do potencial produtivo do solo;
- Definir estratégias de fertilização variável com retorno económico calculado.
Num contexto de custos elevados de fatores de produção e de incerteza climática, este nível de precisão deixa de ser luxo e passa a ser seguro de rentabilidade.
O papel das cooperativas e associações
Nem todos os agricultores têm escala ou tempo para montar tudo sozinhos.
Aqui, cooperativas, associações e empresas de serviços agrícolas podem assumir um papel chave:
- Criar protocolos comuns de georreferenciação para os seus associados;
- Disponibilizar equipas técnicas e plataformas digitais partilhadas;
- Explorar projetos conjuntos de IA na previsão de colheitas, otimização de rega e rastreabilidade, usando dados de várias explorações.
Quem conseguir articular bem este trabalho colaborativo vai colocar a agricultura portuguesa num patamar muito mais competitivo, sem depender apenas da dimensão individual de cada exploração.
Três passos para preparar a exploração para IA em 2026
A frase de Falcão sobre “volume enorme de dados que têm que ser trabalhados” traduz o grande desafio: ainda falta criar algo que transforme dados em soluções rápidas para o gestor agrícola.
A boa notícia é que dá para começar agora, com objetivos claros para 2026.
1. Organizar o que já existe
Antes de comprar mais sensores ou serviços, faz sentido:
- Reunir todos os dados disponíveis (análises antigas de solo, registos de produção, mapas de máquinas, notas técnicas);
- Identificar o que tem localização exata e o que não tem;
- Começar a converter pontos recorrentes (ex.: parcelas permanentes de monitorização) em pontos georreferenciados.
2. Definir prioridades de decisão
Pergunta prática: que decisão quer melhorar 10–20% no próximo ano?
- Melhorar a eficiência da água?
- Aumentar a produtividade de um bloco específico?
- Reduzir custos de fertilização mantendo produção?
Escolher 1–2 objetivos principais orienta todo o esforço de dados e mostra rapidamente o retorno da georreferenciação e da IA.
3. Procurar parceiros tecnológicos com foco no agricultor
A tecnologia por si só não resolve nada.
Faz diferença trabalhar com quem:
- Fale a linguagem do campo e entenda a realidade portuguesa;
- Ajude a desenhar o plano de dados, não apenas vender software;
- Consiga integrar georreferenciação, sensores, mapas e IA num painel simples para o gestor.
Esta série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” existe precisamente para encurtar essa distância entre teoria e prática, mostrando caminhos concretos e possíveis.
Porque é que o futuro digital do campo começa com um ponto no mapa
A agricultura portuguesa está a meio de uma transição: muitas explorações já acumulam tecnologia e dados, mas poucas conseguem tirar decisões consistentes a partir deles. A chave está na frase que deu origem a este artigo:
“Temos que georreferenciar para conseguir comparar dados.”
Sem georreferenciação não há agricultura de precisão séria, nem uso consistente de IA para previsão de colheitas, deteção de pragas, rega inteligente ou rastreabilidade.
A boa notícia é que o primeiro passo é acessível a qualquer exploração: organizar dados, escolher pontos críticos a georreferenciar e criar rotinas simples de registo. A partir daí, ferramentas de IA começam a deixar de ser conceito abstrato e passam a ser apoio diário à decisão.
Se quer que a sua exploração faça parte deste novo “campo digital”, o desafio para esta campanha é claro:
escolha o que vai começar a georreferenciar e não dê mais um passo no escuro.