Georreferenciação automática: do mapa ao lucro na exploração

IA na Agricultura Portuguesa: Campo DigitalBy 3L3C

Georreferenciação automática e IA agrícola já estão a cortar custos de adubo e água nas explorações portuguesas. Veja como passar dos mapas ao lucro real.

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A maioria das explorações portuguesas já tem máquinas modernas no parque. O problema é que muitas continuam a usá‑las como se fossem tratores dos anos 90: sem dados, sem mapas, sem tirar partido da georreferenciação automática.

A realidade? A grande diferença de rentabilidade entre agricultores que sobrevivem e agricultores que crescem está, cada vez mais, na forma como usam dados georreferenciados e IA agrícola para decidir onde semear, adubar, regar e colher. Não é teoria: em culturas como o milho ou o olival intensivo, o uso de mapas de produtividade e de prescrição já está a cortar custos de adubo em 15–30% e a estabilizar produções ano após ano.

Neste artigo da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, pego na ideia chave da intervenção de Arnaldo Caeiro (ACAP) — a importância da georreferenciação automática — e levo‑a um passo à frente: como é que estes dados, combinados com inteligência artificial, se transformam em decisões concretas, menos custos e mais margem para agricultores e cooperativas em Portugal.


Porque é que a georreferenciação automática mudou o jogo

Georreferenciar automaticamente significa que cada ação no campo fica ligada a um ponto concreto do mapa, sem o agricultor ter de registar nada à mão: a máquina sabe onde está, o sensor sabe o que está a medir, o sistema grava tudo.

Isso é decisivo por três razões:

  1. Transforma máquinas em “sensores sobre rodas” – uma ceifeira deixa de só colher; passa a medir produtividade, humidade, perdas, tudo com coordenadas GPS.
  2. Cria histórico do solo e da cultura – deixa de ser memória “de cabeça” do agricultor e passa a ser informação objetiva, ano após ano.
  3. Abre a porta à IA na agricultura – com dados georreferenciados, modelos de previsão conseguem antecipar quebras de produção, zonas de stress hídrico ou desequilíbrios nutricionais.

Ou seja, não é apenas tecnologia bonita para feiras. É a base para agricultura de precisão real, com impacto direto na tesouraria da exploração.


Do campo de milho ao mapa de produtividade: o que acontece na prática

Durante a intervenção na 1.ª Conferência InovEnsino, foi dado o exemplo simples mas poderoso de um campo de milho:

  1. Colheita com sensores na ceifeira

    • Sensor de fluxo de massa + sensor de humidade
    • GPS em tempo real (GNSS)
    • A ceifeira regista, segundo a segundo, a produtividade em cada ponto do talhão.
  2. Geração do mapa de produtividade
    O software transforma esses registos em zonas de maior e menor produção, por cores. Ficam logo visíveis:

    • “Covas” de baixa produtividade
    • Zonas muito fortes
    • Zonas irregulares que levantam dúvidas (solo? praga? água?).
  3. Interpretação técnica dos dados
    A partir daqui há duas vias:

    • O próprio agricultor analisa os mapas, se tiver tempo e formação.
    • Ou recorre a empresas especializadas (como as referidas na conferência) que cruzam estes dados com amostras de solo, rega e histórico climático.
  4. Mapas de prescrição para a campanha seguinte
    Resultado: nasce um mapa de prescrição de adubo, sementeira ou rega, adaptado a cada zona do campo. Este mapa é carregado para o terminal do trator/espalhador e passa a comandar automaticamente as doses.

O salto é enorme:

De "o adubo é o mesmo para todo o talhão" para "cada zona recebe exatamente o que precisa".


Mapas de prescrição: o elo que transforma dados em euros

Os mapas de prescrição são o ponto onde os dados de georreferenciação automática se tornam decisões no terreno. Sem eles, os mapas de produtividade são só imagens bonitas.

Como funcionam na prática

Um mapa de prescrição é um ficheiro digital que diz à máquina:

  • onde está (coordenadas)
  • o quê deve aplicar (produto)
  • quanto aplicar (dose variável)

Exemplos concretos em explorações portuguesas:

  • Espalhadores de adubo com corte por secções

    • Fecham secções automaticamente para evitar sobreposição em zonas já fertilizadas.
    • Ajustam a dose (por exemplo, 150 kg/ha em zonas fracas, 90 kg/ha em zonas fortes), com base no mapa carregado.
  • Sementeiras de taxa variável

    • Aumentam a densidade onde o potencial produtivo é maior (melhor solo, melhor disponibilidade de água).
    • Reduzem sementes onde o solo não suporta produções altas, poupando custo logo à partida.
  • Rega inteligente com apoio de IA

    • Cruzando mapas de solo, produtividade e dados de sensores de humidade, sistemas de IA recomendam lâminas de rega diferentes por zona.
    • Isso é especialmente relevante em perímetros de rega como o Alqueva, onde cada m³ de água poupado conta.

Ganhos típicos que vejo no terreno

Dependendo da cultura e do nível de intensidade tecnológica, é realista falar em:

  • 10–30% de redução em fertilizantes em 2–3 campanhas.
  • 3–8% de aumento de produtividade média ao estabilizar as zonas mais fracas.
  • Menos passagens desnecessárias, logo menos gasóleo e horas de trator.
  • Melhor cumprimento de requisitos PEPAC ligados a ambiente e clima, o que conta para apoios.

Não é magia: é simplesmente parar de tratar zonas completamente diferentes como se fossem iguais.


Onde entra a inteligência artificial em tudo isto

Os dados georreferenciados são a “matéria‑prima”. A IA agrícola é a “fábrica” onde essa matéria‑prima se transforma em previsões e recomendações.

Hoje, em Portugal, já há explorações e cooperativas a usar IA nas seguintes frentes:

1. Previsão de colheitas por talhão

Com base em:

  • mapas de produtividade históricos
  • dados climáticos recentes
  • estado nutricional (imagens de satélite ou drone)
  • datas de sementeira/poda

Modelos de IA conseguem estimar produção por talhão semanas antes da colheita. Isso ajuda a:

  • negociar contratos de venda com mais segurança;
  • planear logística (ceifeiras, transporte, armazenagem);
  • ajustar fertilização de correção em caso de défice.

2. Deteção precoce de pragas e doenças

A georreferenciação liga sintomas a locais concretos:

  • Drones ou satélites detetam alterações de cor ou vigor na cultura.
  • O sistema regista o ponto exato, cruza com histórico e dados meteorológicos.
  • Modelos de IA identificam padrões de stress hídrico, fungos ou pragas e indicam zonas prioritárias para inspeção no campo.

Em vez de tratar “à área inteira”, o agricultor trata só onde faz sentido, com menos produtos fitofarmacêuticos e intervenções mais certeiras.

3. Otimização da rega gota‑a‑gota

Em culturas como vinha ou olival, sensores de humidade no solo, combinados com georreferenciação, alimentam algoritmos que:

  • recomendam turnos de rega diferentes por sub‑parcela;
  • antecipam situações de stress hídrico em vagas de calor;
  • ajudam a cumprir planos de uso eficiente da água.

No contexto atual de seca recorrente, esta integração entre IA, rega inteligente e mapas de solo é talvez o uso mais urgente de tecnologia no campo português.


Como começar: passos práticos para agricultores e cooperativas

A grande objeção que oiço é sempre a mesma: “Isso é para os grandes. A minha exploração é pequena/média.” Não concordo. O que muda é o grau de sofisticação, não o princípio.

1. Garantir o básico: máquinas prontas para georreferenciar

  • Verificar se o trator ou ceifeira já tem GPS/GNSS. Muitos modelos recentes vêm preparados e falta só ativar serviços.
  • Instalar terminais compatíveis com mapas de prescrição (ISOBUS, por exemplo) em espalhadores e semeadoras.
  • Confirmar com o concessionário que o equipamento suporta taxa variável e corte por secções.

2. Começar com uma cultura e um objetivo bem definidos

Evita dispersão. Por exemplo:

  • Milho: reduzir custo de adubação azotada.
  • Olival: ajustar rega por zonas para enfrentar anos secos.
  • Vinha: equilibrar vigor para melhorar qualidade da uva.

Com um objetivo claro, é mais fácil medir se a tecnologia está a dar retorno.

3. Recolher dados já nesta campanha

Mesmo que ainda não use mapas de prescrição, comece por registar produtividade georreferenciada na colheita. Esses dados vão ser ouro na próxima campanha.

  • Se tiver ceifeira com sensor de rendimento, ative a gravação.
  • Se não tiver, avalie a possibilidade de acoplar sensores ou contratar serviços de colheita com equipamento equipado.

4. Trabalhar com parceiros especializados

Nem todos os agricultores têm tempo ou apetência para estar no computador a gerar mapas. Aqui, cooperativas, associações e empresas de serviços entram com valor:

  • interpretação dos mapas de produtividade e do solo;
  • criação de mapas de prescrição otimizados;
  • apoio na calibração de máquinas e formação da equipa.

5. Medir resultados e ajustar

Ao fim de 1–2 campanhas, vale a pena comparar:

  • custos de fertilização por hectare;
  • produtividade média e por zona;
  • estabilidade das produções em anos mais secos;
  • tempo de trabalho poupado.

Se os dados forem bem trabalhados, o retorno do investimento em georreferenciação e IA surge mais depressa do que a maioria espera.


De dados a decisões: o próximo passo do “Campo Digital”

A georreferenciação automática é o alicerce de tudo o que estamos a tratar nesta série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”. Sem dados precisos, a IA agrícola não passa de promessa. Com dados de solo, produtividade, rega e pragas corretamente georreferenciados, passa a ser uma ferramenta concreta de gestão.

A mensagem é simples: quem começar agora, mesmo em pequeno, vai estar dois passos à frente quando a próxima vaga de exigências ambientais e de mercado chegar. Quem ficar à espera corre o risco de ter máquinas modernas a trabalhar como se fossem analógicas.

Se quer reduzir custos de adubo, usar melhor a água e ganhar previsibilidade nas colheitas em 2026, o momento certo para preparar mapas, sensores e dados é este inverno. O campo digital começa no mapa da sua exploração — o resto é construir, passo a passo.