Galucho e IA: do ferro ao campo digital português

IA na Agricultura Portuguesa: Campo DigitalBy 3L3C

A Galucho mostra como a mecanização agrícola portuguesa está a entrar no campo digital: máquinas robustas, dados em tempo real e IA para produzir mais com menos.

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A maioria das explorações em Portugal ainda decide a lavoura “a olho”, enquanto os custos de gasóleo, mão-de-obra e peças disparam. Ao mesmo tempo, há fabricantes com mais de 100 anos, como a Galucho, a dar o salto para máquinas mais inteligentes e conectadas.

Este contraste resume bem o momento da agricultura portuguesa em dezembro de 2025: quem souber combinar máquinas robustas com dados e IA vai conseguir produzir mais, gastar menos e resistir melhor à pressão dos mercados e do clima.

Neste artigo da série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital”, pegamos no caso da Galucho – um dos nomes históricos das máquinas agrícolas em Portugal – para mostrar, de forma prática, como é que a mecanização “clássica” está a encontrar o campo digital: sensores, monitorização em tempo real, dados por hectare, eficiência e menor impacto ambiental.


1. Galucho: 100 anos de ferro, agora com dados por cima

A Galucho é hoje um bom exemplo de como a tradição da metalomecânica agrícola portuguesa está a ser atravessada por tecnologia digital e, cada vez mais, por inteligência artificial.

Segundo o CEO, Nuno Gama Lobo, a empresa mantém o ADN de qualidade, robustez e fiabilidade, mas mudou em três frentes claras:

  • Tecnologia: das primeiras máquinas simples para alfaias com componentes de alta tecnologia
  • Design orientado ao operador: mais conforto, segurança e manutenção facilitada
  • Sustentabilidade e eficiência: máquinas com menos tara, menor consumo e foco em reduzir o impacto ambiental

Isto liga diretamente ao tema desta série: IA na Agricultura Portuguesa não é só drones e algoritmos; começa na forma como o ferro é pensado para trabalhar com dados. Uma grade de discos ou um escarificador que “fala” com o trator e com o software de gestão da exploração abre a porta a:

  • Controlo de profundidade e velocidade mais rigoroso
  • Monitorização de consumo por hectare
  • Ajustes automáticos com base em mapas de solo ou de produtividade

A Galucho está a preparar precisamente este passo: máquinas com parâmetros funcionais monitorizados em tempo real, prontos para alimentar sistemas de apoio à decisão baseados em IA.


2. Do arado ao algoritmo: como nascem as máquinas no campo digital

O processo de desenvolvimento da Galucho já é, na prática, um ciclo de dados, mesmo antes de entrar IA “a sério”.

Da necessidade do agricultor ao protótipo

O caminho típico é este:

  1. Necessidade identificada no terreno
    Surge através da equipa comercial ou da rede de concessionários espalhados pelo país. Pode ser algo tão simples como: “preciso de uma grade mais leve para o meu trator de 90 cv em solos pesados do Ribatejo”.

  2. Análise pela engenharia
    A equipa avalia viabilidade técnica e económica. Aqui já se usam simulações, dimensionamento assistido por computador e, em muitos casos, dados de utilização de modelos anteriores.

  3. Protótipo e testes em condições reais
    O equipamento vai ao campo, trabalha em hectares reais, com agricultores reais, em terrenos e culturas diferentes.

  4. Ajustes finos com base no feedback
    Em alguns casos, há ensaios adicionais junto de clientes selecionados, antes da entrada em produção.

Este ciclo é perfeito para introduzir ferramentas de IA:

  • Análise de falhas e avarias por modelo e condições de uso
  • Otimização de pesos, materiais e configuração de discos ou dentes
  • Ajuste de largura de trabalho e necessidades de potência com base em históricos reais

A realidade é simples: quanto mais dados recolhidos no campo, melhor o desenho da próxima geração de máquinas. E quem tiver a máquina e os dados tem uma vantagem competitiva clara.


3. Onde as máquinas da Galucho fazem mais diferença em Portugal

A Galucho está especialmente presente em cereais, culturas arvenses e transporte agrícola, setores onde a IA e a digitalização começam a ganhar tração.

Preparação de solo em cereais

Na produção de trigo, cevada, aveia ou milho, os pontos críticos são:

  • Preparar o solo com a profundidade certa
  • Gerir o número de passagens para reduzir custos e compactação
  • Sincronizar lavoura com janelas cada vez mais curtas de clima favorável

As grades de discos (GLHR, GVR, NGVR, GDR) e os escarificadores da Galucho são dos equipamentos mais procurados exatamente porque conseguem:

  • Trabalhar rápido em áreas grandes
  • Resistir a pedras e condições difíceis
  • Manter alinhamento e profundidade estável

Agora junte a isto um cenário digital muito concreto:

  • O trator recebe um mapa de zonas de compactação (feito com sensores ou análise remota)
  • A alfaia ajusta a profundidade e velocidade alvo por parcela
  • O sistema regista consumo de combustível por talhão, horas de trabalho e desgaste

Com estes dados, uma ferramenta de IA agrícola pode, por exemplo:

  • Sugerir a melhor sequência de operações por campo
  • Estimar o custo por hectare em tempo quase real
  • Comparar anos e perceber se compensa reduzir uma passagem de lavoura em certas zonas

Culturas arvenses e mobilização entre linhas

Na cultura do milho, beterraba, tomate industrial, ou até em vinhas em compasso largo, a mobilização entre linhas ajuda a:

  • Controlar infestantes mecanicamente
  • Melhorar a infiltração de água
  • Evitar compactação direta na linha de cultura

Se estes equipamentos tiverem monitorização em tempo real, entra outra camada digital:

  • Informação de área trabalhada em cada rego
  • Ajuste de largura e configuração com base em dados históricos
  • Integração com sensores de humidade de solo e dados de rega inteligente

Transporte: dados também contam nas reboques e cisternas

Reboques (do PB1500 ao MG24) e cisternas para água e chorume parecem, à primeira vista, “só ferro”. Mas são peças críticas numa agricultura eficiente. Integrados num ecossistema digital, podem:

  • Registar toneladas transportadas por campanha
  • Associar viagens a talhões específicos
  • Ajudar a calcular custos logísticos por cultura

Numa cooperativa ou num grupo de produtores, estes dados podem alimentar modelos de IA que otimizam rotas, cargas e janelas de colheita, reduzindo viagens vazias e tempos de espera.


4. Eficiência, consumo e ambiente: o papel da IA por trás da máquina

A Galucho já está a trabalhar em duas alavancas chave para uma agricultura mais sustentável:

  • Redução da tara das máquinas, mantendo robustez
  • Monitorização em tempo real dos parâmetros funcionais

É aqui que a inteligência artificial deixa de ser teoria e passa a gerar euros e minutos poupados.

Menos tara, menos consumo, mais dados

Máquinas mais leves significam:

  • Menor consumo de combustível
  • Menos compactação do solo
  • Capacidade de trabalhar em condições ligeiramente mais húmidas

Se a máquina estiver equipada com sensores e conectividade, é possível medir:

  • Consumo por hectare
  • Esforço de tração em diferentes tipos de solo
  • Desgaste de discos, lâminas e pneus

Com estes dados, uma solução de IA na gestão da exploração pode:

  • Recomendar a combinação ideal de trator + alfaia para cada parcela
  • Alertar quando o consumo aumenta anormalmente (possível problema mecânico ou afinação incorreta)
  • Estimar a vida útil restante de componentes críticos

Monitorização em tempo real na prática

Quando o CEO da Galucho fala em monitorizar “parâmetros funcionais em tempo real”, está a abrir a porta a funcionalidades como:

  • Velocidade de avanço e profundidade de trabalho registadas ao metro
  • Alinhamento e nível de esforço de cada secção da alfaia
  • Sincronização com mapas de produtividade e de solo

A partir daí, é relativamente direto usar algoritmos para:

  • Ajustar a profundidade de trabalho consoante a textura do solo
  • Definir zonas onde vale a pena reduzir uma passagem
  • Gerar relatórios automáticos de impacto ambiental por hectare

Quem gere explorações médias ou grandes sabe: este tipo de detalhe transforma decisões “a olho” em decisões suportadas por números.


5. Pós-venda, dados e IA: porque o apoio técnico também vai ser digital

A Galucho tem uma rede de concessionários oficiais e um departamento de pós-venda dedicado, com assistência:

  • No exterior, através de técnicos no campo
  • Na oficina oficial, com equipa especializada

Este modelo clássico de apoio é essencial, mas pode ficar ainda mais forte com ferramentas digitais e IA.

Da avaria inesperada à manutenção preditiva

Com máquinas conectadas, os dados de utilização podem ser partilhados (com consentimento do agricultor) com o fabricante e o concessionário. Isto permite:

  • Alertas de manutenção antes da paragem
  • Stocks de peças ajustados à realidade local (por tipo de máquina, idade e horas de trabalho)
  • Diagnóstico remoto mais rápido

Na prática, isto traduz-se em menos tempo parado na época alta e menos “surpresas” de custos.

O que um agricultor pode fazer hoje para se preparar

Mesmo que as suas máquinas ainda não estejam todas conectadas, há passos simples para entrar neste campo digital:

  • Registar, mesmo em Excel ou app simples, hectares trabalhados, consumo e horas de máquina
  • Pedir ao concessionário informação sobre opções de monitorização e telemetria em modelos novos ou que já possui
  • Avaliar, quando trocar de máquina, se a capacidade de gerar dados pesa tanto como a largura de trabalho ou a potência necessária

Quem começar agora a estruturar dados, mesmo com pouco automatismo, vai estar muito mais preparado para integrar soluções de IA na agricultura nos próximos 2‑3 anos.


6. Galucho e o “Campo Digital”: o próximo passo para a agricultura portuguesa

A história da Galucho mostra que a mecanização agrícola portuguesa não está parada no tempo. Está a caminhar para máquinas que, além de puxar ferro, também puxam dados. E dados, quando bem organizados, alimentam IA que ajuda a decidir melhor.

Para agricultores e cooperativas, isto significa:

  • Menos desperdício de combustível e tempo
  • Operações de lavoura e transporte mais planeadas
  • Capacidade de provar, com números, o impacto das suas práticas

A série “IA na Agricultura Portuguesa: Campo Digital” quer precisamente ligar estes pontos: do chassi da máquina ao algoritmo que recomenda a melhor operação para amanhã de manhã.

Se está a pensar investir em novas alfaias, reboques ou cisternas, vale a pena perguntar diretamente:

  • Que dados esta máquina pode gerar?
  • Como posso integrar esses dados na gestão da minha exploração?
  • Que parceiros (fabricante, concessionário, consultor) me podem ajudar a transformá-los em decisões concretas?

Quem colocar estas perguntas agora vai estar à frente quando a IA deixar de ser novidade e passar a ser simplesmente “o modo normal de trabalhar” no campo português.